Ser famoso

Nem todos os que por via de uma actividade profissional se tornam pessoas públicas, perseguem a fama. Não falo apenas por mim mas por tantos outros que se movem por ideais, sonhos, paixões, uma necessidade de comunicar, imposições da alma, consciência cívica, apelos humanitários e ene nobres motivos que não vou enumerar mas que passariam pelo dinheiro, também ele nobre motivo para muitos nos tempos que correm.

A fama, para quem não a teve como meta, veio por acréscimo como os copos que nos dão quando compramos certas marcas de champagne ou os relógios que acompanham alguns perfumes. A fama é um brinde especial, uma faca sem cabo, um carro sem travões, um bule sem asa, uma arma sem travão e deve ser usada com inteligência e precaução. A fama é leviana, instável, volátil, uma visita passageira que é raro vir para ficar. Ai de quem confie nela: mais tarde ou mais cedo desilude-nos, atraiçoa-nos, amolga-nos o coração como um amigo que comete uma deslealdade. Mas é também uma mulher com glamour, pétillante, divertida, multifacetada e atraente.

Há os que a têm e se identificam com ela. Os que mantêm as devidas distâncias e a usam com parcimónia. Os que a utilizam de forma inteligente e oportuna para fins humanitários.

Nesta era das comunicações, a televisão tem feito a fama andar num social intenso, instalando-se temporariamente, sem qualquer critério, nuns e noutros. Qualquer corpinho lhe serve para encarnar. Alguns não estão preparados para o embate e não percebem os perigos da pele que se lhes colou.

Então, que fazer se certos “famosos” vomitantes de lugares comuns, ideias feitas, pensamentos retrógrados, inimigos da liberdade individual e das liberdades de espírito, se mascaram de práticos, modernos e activos e oferecem, através de declarações públicas, novos soporíferos para as mentes menos esclarecidas que precisam é de ser despertadas?

Que dizer aos gatos que se mascaram de lebres e que têm as portas dos média escancaradas? Pedir-lhes que pensem mais e melhor? Que tenham mais consciência? As nossas afirmações públicas, incluo-me porque não estou livre de dizer barbaridades embora tente honestamente evitá-las, podem contribuir para perpetuar a ignorância de muitos; por isso temos de pensar 30 vezes antes de dar entrevistas, e deitar mão ao que pudermos, ler, abrir as cabeças, pedir ajuda aos amigos, aos psicoterapeutas, às enciclopédias, à internet e, acima de tudo esforçarmo-nos, para que nos baixe uma luz que possamos irradiar para os menos esclarecidos.

.Isto porque levei com um carro em cima ao travar bruscamente de indignação quando ouvi um político conceituado afirmar na rádio que em Portugal não tinha expressão o número de mulheres vítimas de violência e maus tratos.

Ainda não recomposta do pescoço, esperando os benefícios dumas horas na praia, vi o meu telemóvel e parte da roupa serem tragados por uma onda, quando mergulhava incrédula na entrevista duma figura da televisão que afirmava mais ou menos assim numa revista: “Identifico-me pouco com a maioria das mulheres, a minha forma de pensar parece-se muito mais com a dos homens. Sou incapaz de passar horas a falar de criadas e outras futilidades.”

Começava eu a melhorar da gripe e da azia que tais afirmações me provocam, eis que se me pára a digestão ao ler uma entrevista, na semana seguinte, do namorado da mesma figura, que terminava com esta frase bombástica: “É muito difícil viver ao lado duma mulher inteligente”!

Ora digam-me se tudo isto não é caso para dizer que uma desgraça nunca vem só?

Ana Zanatti
anazanatti [at] hotmail.com

Nota: Sempre que num destes artigos eu citar frases proferidas por pessoas públicas, não gostaria que isso fosse visto como um ataque pessoal. Conheço e dou-me com algumas de quem gosto muito, assim assim, ou mesmo nada. Não utilizarei o pequeno poder que me dá esta revista para pretender julgar, denegrir ou envergonhar publicamente seja quem for. Os meus ajustes de contas, quando os tenho, são feitos cara a cara sempre que entendo que vale a pena. O que aqui escrevo, não passa de reflexões sobre o sentimento que me deixam as coisas da vida. Muitas dúvidas, algumas convicções e outros tantos desabafos, pois claro. É que há coisas que vejo, oiço e leio que me deixam triste e apreensiva com o rumo que levam os corações e sensibilidades de muitos de nós.

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