(O)Culto do Som

Genesis – Wind and Wuthering
Virgin, 1977, 1994

Com a saída de Peter Gabriel, muitos apostaram na morte dos Genesis, uma das mais notáveis bandas do chanado rock progressivo. Puro engano! Com os restantes membros, talvez na mais equilibrada formação da história do grupo (Tony Banks, Phil Collins, Mike Rutherford e Steve Hackett), no espaço de dois anos, saíram três magníficos trabalhos: “A Trick Of The Tail” e este “Wind and Wuthering”, em estúdio, mais o live “Second’s Out”. Ficaram demonstradas toda a qualidade de composição e virtuosismo de interpretação daqueles quatro músicos, até então obscurecidos por P.Gabriel e injustamente considerados figuras menores.

“Wind and Wuthering” abre misteriosa e epicamente com “Eleventh Earl of Mar”, continua pelo maravilhosamente belo “One For The Vine” (uma autêntica obra prima de composição de T.Banks) e acaba dramática e apaixonadamente com “Afterglow”. Pelo meio, fica o som cósmico de “Wot Gorilla”, a suavidade e os motivos eólicos de “Blood on the Rooftops” (com uma soberba guitarra acústica de Hackett), “Unquiet Slumbers…” e “Your Own Special Way”), a impetuosidade de “In That Quiet Earth”, o empolgamento de “All in a Mouse´s Night (imponente abertura de órgão e um magnífico solo de guitarra com sintetizador no final).

Tony Banks (teclas) e Steve Hackett (guitarras) produziam juntos um som único e incomparável, oscilando entre o épico e o romântico, entre os rendilhados e a envolvência, entre a sumptuosidade e o lirismo. O suporte rítmico de Mike Rutherford (com um riquíssimo jogo de baixo) e de Phil Collins (percussão brilhante, enquanto começava a ganhar segurança como vocalista) era de grande virtuosismo e totalmente e fora dos esquemas repetitivos que triunfaram a partir da década de 80. A nosso ver, trata-se de uma verdadeira obra-prima.

Dead Can Dance - In The Realm of a Dying Sun
CAD, 1987

O nome deste grupo pode assustar e sugerir uma natureza soturna mas a música que produziram é brilhante e de rara beleza. Lisa Gerrard e Brendan Perry assinaram com este “In The Realm of a Dying Sun” um dos seus discos mais fascinantes. Como sempre, a voz de Lisa Gerrard atinge alturas arrepiantes e inolvidáveis (embora em três temas, a voz seja de B.Perry). Como sempre, encontramos uma instrumentação diversificada e riquíssima, trazendo-nos um som misterioso, um mundo encantado de tempos antigos, de locais exóticos, de horizontes imensos, de atmosferas ora intensas, ora delicadas.

Encontramos neste trabalho autênticas e rutilantes jóias como “Anywhere Out Of The World”, “Xavier” (sobretudo o seu final), “Dawn Of the Iconoclast” (abertura sumptuosa e voz impressionantes de Lisa Gerrard), “Cantara” (com a sua extraordinárias mudanças de ritmo e intensidade e outra fantástica interpretação vocal de Lisa Gerrard, numa cavalgada épica e empolgante), o maravilhoso e sublime “Summoning of The Music” (um tema mágico e envolvente, decerto um dos melhores de sempre desta banda. Além do mais, uma referência em grandes organizações do CLUC…) e a segunda metade de Persephone, que encerra esta obra.

Em resumo: um grande disco de um grande grupo. A não perder…

Madredeus - Antologia
Emi – Valentim de Carvalho, 2000

Numa homenagem a Amália, ainda em vida desta, um antigo Presidente da República definiu-a em duas palavras: “É Portugal!”. O mesmo, de algum modo, se poderá dizer, dos Madredeus. A sua música está cheia de lusitanidade e, contudo, simultaneamente, tem uma dimensão e encanto universal, como se prova pelo sucesso obtido um pouco por todo o mundo, ou pela especificidade dos seus recentes discos “Madredeus Electrónico” e com a “Flemish Rádio Orchestra”.

Falar da excelência da voz de Teresa Salgueiro – com a sua sensibilidade tão humana, tocante e dignamente singela – é referir-nos ao óbvio e incontestável. Entretanto, seria injusto não mencionar a grande qualidade dos compositores e dos instrumentistas (das diversas reencarnações do agrupamento) e particularmente o outro grande pilar do grupo: Pedro Ayres de Magalhães.

Nesta “Antologia”, encontram-se 16 dos mais significativos temas do grupo – canções tão belas e tocantes como “Haja O Que Houver”, “O Pastor”, “Oxalá”, “Céu da Mouraria”, “O Sonho”, “A Vaca de Fogo” e “O Tejo”.

Madredeus: “Haja O Que Houver”!

Luís Pimenta

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