A Mente Dual Da Escravidão à Liberdade

Se soltarmos as rédeas da mente, ainda que seja por pouco tempo, ela se estatelará do céu contra a terra Kabir.

No 1o Volume de A Doutrina Secreta 1, refere-se Helena Blavatsky aos três esquemas de evolução humana: a evolução monádica, a evolução intelectual e a evolução física.
Relacionando essa tripla evolução com a constituição septenária do Homem, verifica-se que a evolução física abarca os três Princípios inferiores: o Corpo Físico (Sthula-Sharira), o Corpo Astral ou Corpo Modelo (mais tarde nomeado Duplo Etérico e correspondendo, pois, ao Linga-Sharira) e Prana (no sentido específico da Vitalidade manifestada nestes níveis, inferiores e diferenciados, do ser humano). Tem sido questionado se Helena Blavatsky, ao referir-se ao Linga-Sharira ou Duplo Astral também queria significar uma forma constituída por substância física, ainda que mais subtil que o Corpo Físico Denso ou Sthula-Sharira, ou se aquele Corpo é composto por substância de um outro Plano. A resposta pode ser encontrada numa sua afirmação expressa 2: “O Corpo Físico não é um Princípio, esotericamente falando, porque pertence ao mesmo Plano que o Linga” (sublinhado nosso).
Por seu turno, a evolução monádica concerne à díade Atma-Buddhi (o Espírito, Atman, e o seu Veículo, ou Alma Espiritual, Buddhi), à qual se virá a assimilar a essência, a natureza mais elevada da Mente (Manas). Por vezes, identifica-se Atman com a Mónada - o que é admissível, visto que Atman, quando não condicionado, é o Espírito Uno, e que também a própria raiz etimológica de Mónada 3 é “uno” ou “unidade”; mas considera-se, regra geral, na literatura esotérica de qualidade, que Atman, por si só, é demasiado puro para operar nos Planos inferiores (e, estando, aliás, em si mesmo, além de involução ou evolução) e que até a díade Atma-Buddhi só o pode fazer através do Manas Superior (visto que é o Manas que lida com a diversidade e que activa Buddhi, que de outro modo permaneceria em latência). Assim, guarda-se para Atman ou Espírito puro a designação de essência monádica 4 ou, ainda, de Anupapadaka 5, e define-se a Mónada em manifestação como Atma-Buddhi ou, em certo nível evolutivo, humano, com Atma-Buddhi-Manas.

A Importância do Mental

A evolução intelectual, que se prende com a aquisição da individualidade e da auto-consciência características da etapa humana - mas, finalmente, conducentes à unificação em Buddhi (i.e., sabedoria intuitiva) e, mais tarde, à plena reassunção na unidade em Atma - diz naturalmente respeito ao Princípio Mental. No entanto, por várias razões que, para serem satisfatoriamente esclarecidas, tornariam demasiado longo e complexo este artigo 6, envolve os dois chamados Princípios intermédios: Manas e Kâma. A eles se refere muito claramente HPB na “Doutrina Secreta”: “. para que o homem septenário se complete, para acrescentar aos seus três Princípios mais baixos e cimentá-los com a Mónada Espiritual - que não poderia nunca habitar numa tal forma a não ser num estado absolutamente latente -, fazem-se necessários dois Princípios conectados: Manas e Kâma”.
É aqui que se centra a grande questão, os níveis charneira da etapa humana. Simbolicamente, podemos dizer que são portas com dois sentidos: um, enganoso e ilusório, conduz-nos vida após vida para os infernos que criamos; o outro, abre-se para o Céu, para o Mundo do Espírito.
A evolução mental é incontornavelmente necessária para que a Mónada que, em si mesma, é “una, universal, infinita e indivisível” 7, Consciência Absoluta, seja capaz de actuar nos mundos inferiores e, através dessa manifestação, venha a activar os seus poderes latentes (que, num Plano de pura espiritualidade e subjectividade, sem o contraste e o atrito com uma natureza oposta, objectiva, material, permaneceriam adormecidos), venha a adquirir auto-consciência e venha a desdobrar-se como Individualidade (para, mais tarde, usando uma imagem consagrada, “a gota voltar a ser o oceano” mas conservando a noção individual de “gota”, de modo que cada uma seja o oceano por inteiro).
Pode estranhar-se que a Mónada, como Eu Divino, necessite de se manifestar ou espelhar nos mundos inferiores para tomar conhecimento de si mesma e activar todos os seus poderes latentes; contudo, talvez possamos, justamente, usar a analogia com a imagem do nosso rosto reflectido num espelho. A imagem não tem realidade por si mesma, não passa de ilusão, Maya; e, no entanto, é através dela - e apenas através dela - que tomamos conhecimento de como é, de facto, o nosso rosto (este exemplo também permite ilustrar que o conhecimento do mundo externo objectivo, por ilusório que seja esse mundo, é útil e necessário nos muitos degraus que ainda nos separam de uma Consciência Absoluta. No espelho ou pólo objectivo, material, oposto ao Eu, encontramos as referências que nos conduzem à reassunção da Unidade).

A Dualidade da Mente
Não obstante, devemos distinguir claramente individualidade e separatismo egoísta. Se a noção de auto-consciência e individualidade é uma importante e positiva conquista do estágio humano, o separatismo egoísta, escravo dos fenómenos externos e dos caprichos emocionais característicos da natureza negativa de Kâma 8, constitui o grande problema da Humanidade. A Mente é dual 9: atraída e conduzida por Buddhi (Intuição) é um maravilhoso instrumento de compreensão; dominada por Kâma (a emoção e o desejo egoístas) enreda-se na ilusão, passa a dar-lhe força e aparente consistência e sujeita-nos a todos os enganos, a uma insatisfação permanente, a um turbilhão de erros, sofrimentos e misérias. O eu inferior (cujo nível determinante é Kâma-Manas 10), procurando incessantemente saciar o seu desejo e as suas fantasias, envolve-se cada vez mais na infelicidade e na dor, até que seja extirpada essa raiz maligna (lembremos as Quatro Nobres Verdades do Senhor Buda).
A referida dualidade da Mente conduz-nos à distinção entre a Alma Animal (Kâma-Manas) e a Alma Humana (Buddhi-Manas, de cuja intercessão se forma o Corpo Causal 11). A primeira, é a nossa personalidade, a natureza inferior, mortal, ilusória; a segunda, é a individualidade perene, ou seja, a Mente Superior dirigida e assimilada por Buddhi (que, por sua vez, é o veículo de Atman). A evolução mental consuma-se na referida assimilação. Considerando esse aspecto superior da Mente, estreitamente unida a Buddhi, chega-se à noção de Mónada Humana (a essência Monádica manifestada na etapa humana) que, neste sentido, é a tríade superior Atma-Buddhi-Manas (sendo o quaternário inferior integrado por Kâma-Manas, Prana, Linga-Sharira ou Duplo Astral, e Corpo Físico)
Tão importante é a distinção entre Kâma-Manas e Buddhi-Manas, que a encontramos nas classificações dos Princípios humanos da Vedanta e da Raja Yoga - como, a este propósito, é ressaltado por Geoffrey Barboka na sua obra The Story of Human Evolution 12 -, apesar de nenhuma dessas duas classificações ser explicitamente septenária.
Assim, na classificação quaternária da Taraka Raja Yoga (compreendendo Atman e três veículos), encontramos a diferenciação entre o Sukshmopadhi, que engloba Kâma e Manas Inferior, e o Karanopadhi (Corpo Causal), composto de Buddhi e do Manas Superior.
No sistema vedantino, quintenário (por não considerar Atman como um Princípio e por unificar Prana e o seu veículo, o Linga-Sharira), vemos distinguido o Manomaya-Kosha (a Mente inferior ou Kâma-Manas), o Anandamaya-Kosha (correspondendo a Buddhi-Manas) e, no “meio” desses dois, o Vijnanamaya-Kosha (a Mente intermédia entre os dois pólos, Buddhi e Kâma).
Leibniz, o grande filósofo alemão muitas vezes citado por HPB (que, aliás, chegou a referir que na síntese dos sistemas de Spinoza e Leibniz se encontrava muito da “alma” da Eterna Sabedoria) escreveu algures que “Nada há que contribua mais para o bem geral de todos os homens do que aquilo que aperfeiçoa a razão” 13. É uma sugestiva afirmação.
Com efeito, a dualidade da Mente, radicando na sua polarização alternativa (conduzida por Buddhi ou toldada por Kâma), traduz-se no seu funcionamento que, por sua vez, se interliga com a qualidade da substância mental que atraímos por afinidade vibratória. Nós evoluímos na substância (mental, kâmica, astral, física-química.) e como substância. É a evolução da substância que permite que a Consciência se possa expressar em patamares cada vez mais elevados.

A Substância Mental
Deste modo, é imprescindível a sublimação da substância dos níveis inferiores, incluindo Kâma e Manas. Os Mandamentos e Regras prescritos, para o efeito, por todos os grandes Instrutores, não têm nada de aleatório ou desnecessário. Não são moralismos beatos ou de fachada. Diferentemente do que, por vezes, se julga, o seu desígnio não é o de “castrar” a (assim chamada) liberdade de fazermos, dizermos, sentirmos e pensarmos o que nos apetecer mas, sim, o de permitir a reestruturação dos veículos substanciais onde a Consciência se expressa, refinando a qualidade dos átomos-vida que os constituem, quebrando os grilhões que nos acorrentam ao carrocel da ilusão, do desejo e da dor, e abrindo-nos a porta para a verdadeira liberdade.
Se utilizarmos a Mente como mero agente reactivo a estímulos externos 14, se a colocarmos ao serviço das ambições materiais, dos desejos egoístas e dos caprichos emocionais, ela fica turvada no entendimento e volve-se, efectivamente, a “assassina do Real” (usando a expressão da Voz do Silêncio, I, 4). Cria-se um círculo vicioso: quanto mais erróneos são o funcionamento e a utilização da Mente, mais pesada se torna a respectiva substância, agravando a situação. Tal como um incêndio não se extingue deitando-lhe combustível, também o desejo egoísta, e a emoção ilusória e geradora de dependências escravizantes - factores de que, segundo o testemunho reiterado dos Mestres de Sabedoria e Compaixão, deriva toda a desgraça humana -, não podem ser superados e corrigidos investindo cada vez mais energia mental na sua alimentação (”É nutrindo o vício que ele cresce e se robustece, tal como a lagarta engorda no coração da flor” A Voz do Silêncio, I, 76).

A Ilusão Kâma-Manásica
A ilusão Kâma-Manásica é terrível. Uma das mais assustadoras vertentes que assume, é a de gerar a confusão entre sensualidade e amor, entre emoção e intuição 15, entre beatices e espiritualidade, entre comodismo medroso e paz, entre caridadezinha e compaixão. “Mais dano tem sido feito pela caridade emocional do que os sentimentalistas se inclinam a encarar” - eis uma significativa afirmação de Helena Blavatsky. Parece-nos que é digna de ser bem considerada. Da pena da sua autora saíram as mais tocantes palavras sobre a Compaixão, no trabalho que deu origem ao livro A Voz do Silêncio 16: “Que o sol escaldante não seque uma única lágrima de dor, antes que tu mesmo a tenhas limpo no olho de quem sofre. Que cada ardente lágrima humana goteje no teu coração e aí permaneça; nem tampouco a enxugues enquanto não for retirada a dor que a causou. Estas lágrimas, ó tu de coração tão compassivo, são as correntes que irrigam os campos da caridade imortal” (I - 60-62); ” Inclina agora a tua fronte, ó Bodhisattva - a compaixão fala e diz: ‘Pode haver felicidade quando tudo quanto vive tem de sofrer? Quererás salvar-te ouvindo todo o mundo a chorar?’ Agora ouviste o que foi dito: chegarás ao sétimo degrau e atravessarás a porta do conhecimento final, mas só para tomares a dor por esposa - se queres ser Tathâgata, seguir os passos do teu predecessor, conservar-te altruísta até ao fim sem final” (III, 307-309). Assim, Helena Blavatsky deixou bem clara a diferença entre dois tipos de compaixão ou caridade. Uma, é emocional, precária, ilusória, inconsequente ou até contraproducente e oscila nos pares de opostos afecto/ódio, instinto de rebanho/separatismo 17: é o modo de funcionar Kâma-Manásico. A outra é intuitiva, estável, verdadeiramente amorosa, lúcida e discernida 18, capaz, consequentemente, de curar ao nível causal: é Buddhi iluminando e dirigindo Manas.

O Amor Crístico
Algo de semelhante podemos observar a propósito da conhecida frase atribuída ao Senhor Cristo: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amo” (João, 14:12). Constitui uma afirmação maravilhosa, se bem entendida. De facto, importa distinguir: uma coisa é chegar a amar como o Senhor Cristo (nos) ama. Se ou quando formos capazes de o fazer, tudo estará bem. Como afirmou S. Paulo (1a Epístola aos Coríntios, 13), até a ciência será desnecessária quando chegarmos à plenitude do Amor, como conseguiu o Senhor Cristo. Mas ainda estamos longe. O que o homem comum chama amor é, na melhor das hipóteses, emoção pessoal (sublinhemos: da personalidade, do quaternário inferior); regra geral, traduz-se num calculismo ou interesseirismo afectivo, numa sensualidade descontrolada, numas esmolas para acomodar a “voz da consciência”. Tristemente, o obscurantismo religioso (em que houve tanto ódio e sanha destruidora) apropriou-se dessa frase para mistificar: “fiquem ignorantes, porque basta amar-vos uns aos outros”. O resultado está patente nestes dois milénios repletos de desamor, crueldade e inescrúpulo. Amar basta e resume tudo, justamente se antes o ser humano tiver deixado de ser ignorante, tiver conhecido as Leis Universais e tiver agido em conformidade com elas. Caso contrário, em vez de amarmos como o Senhor Cristo é capaz de amar, continuamos emaranhados na ilusão, no erro, na conflitualidade e no separatismo, como tem acontecido. Não banalizemos o sublime mandamento do Senhor Cristo, esquecendo a diferença entre o Amor de um Bodhisattva (Bodhi: Sabedoria; Sattva: Ritmo, Harmonia, Equilíbrio) que Ele era, e o esboço de amor do homem comum centrado na Alma Animal. O caminho da espiritualidade implica uma constante vigilância e luta contra a ilusão Kâma-Manásica: “Debaixo de cada flor está uma serpente enrolada” (I, 26) e por isso “Os sábios não se detêm nas regiões deleitosas dos sentidos. Os sábios não dão ouvidos às melífluas vozes da ilusão” (Voz do Silêncio, I, 30 e 31).

Utilização Correcta da Mente.
Importância das Leis e do Método

Se aperfeiçoarmos o uso da Razão (para usar a supracitada frase de Leibniz), utilizando-a correctamente, então, ela conduzir-nos-á à Verdade Libertadora. Funcionando com método - uma das grandes dádivas do impulso científico dos últimos séculos, reforçada com as energias do Novo Ciclo do 7o Raio -, a Mente deixa de navegar completamente ao sabor dos caprichos emocionais. Começa a libertar-se da negatividade kâmica. É um passo em frente, embora não seja tudo: a inteligência fria, materialista, sem escrúpulo nem princípios, pode, ainda assim, ser “uma máquina infernal”. Quando, entretanto, o indivíduo deixa de pensar nas pequenas coisas do seu pequeno eu (a personalidade) e dirige a sua polarização para o Bem Geral e as Leis Universais, então, ele está a caminho de colocar a Mente sob o comando de Buddhi.
Nas Leis que regem o Universo, encontramos exactamente o oposto da ilusão personalística: a ordem e não o capricho ou as opiniões subjectivistas; as causas e não os efeitos superficiais; o amor inalterável que tudo abarca e não a oscilação afecto/ódio; a Vida Una e omnipresente e não o separatismo egoísta; a perene realidade e não a ilusão fugaz e passageira.
Há leis, métodos ou passos que regulam o correcto funcionamento da Mente e, quando tal é observado, ela chega a compreender as Leis Universais. Através da identificação com essas Leis, o indivíduo unifica-se com o pulsar do Universo e acede ao nível onde a unidade da consciência e da vida não é uma vaga suposição mas um facto constatável - o Plano de Buddhi, da Alma Universal (no Macrocosmos) ou Alma Espiritual (no Homem). Quando Manas se (re)une a Buddhi e por ele é dirigido, o ser humano age inteligentemente de acordo com a Ordem ou as Leis Divinas, e está livre da tirania dos fenómenos ilusórios e do egoísmo emocional. Deixa de ser conduzido, cegamente, de fora para dentro. Termina a dependência dos cinco sentidos e da Alma temporal, e começa o consciente e alegre cumprimento do Dever. Conforme se expressou Kant, a quem HPB, na Doutrina Secreta, chegou a considerar como o maior filósofo europeu e que o Mahatma K.H. elogiou como “grande pensador”, embora apontando a insuficiência de algumas das suas ideias (Cartas dos Mahatmas, o 28): “Porque o mundo inteligível contém o fundamento do mundo sensível e, portanto, também das suas leis, sendo assim, com respeito à minha vontade (que pertence totalmente ao mundo inteligível), imediatamente legislador e devendo também ser pensado como tal, resulta daqui que, posto que (.) terei, como inteligência, de reconhecer-me submetido à lei do mundo inteligível, isto é, à razão, que na ideia de liberdade contém a lei desse mundo, e, portanto, à autonomia da vontade; por conseguinte, terei de considerar as leis do mundo inteligível como imperativos para mim, e as acções conformes a este princípio como deveres” 19.

Dos interesses pessoais ao Bem Geral.
O Caminho do Discípulo

Uma parte dos leitores lembrar-se-á daqueles comentários sobre A Luz no Caminho 20 onde se indica que é necessário abdicar dos direitos pessoais 21. Com efeito, o discípulo segue o caminho dos Deveres, do cumprimento das Leis e do Serviço - e é fundamentalmente nisso que reside a sua alegria, profunda e autêntica. ÃL;€ medida em que ascende à consciência Búddhica (Intuitiva), através da Mente Superior, as suas ocupações e a sua polarização deixam de ser de natureza pessoal - as minhas coisas, o meu sucesso, a minha imagem, a minha comodidade, a minha tranquilidade, a minha evolução - para serem de ordem geral.
Não se estranhará, pois, que um discípulo dos Mestres de Compaixão e Sabedoria fale em Leis, já que estas concernem a todos e ao Todo (”A Compaixão é a Lei das leis - a harmonia eterna, o Eu de Alaya 22; uma essência universal sem limites, a luz da justiça perene e a justeza de todas as coisas, a lei do amor eterno” A Voz do Silêncio, II, 300). Não se estranhará tampouco que, em nome do Bem Geral, do verdadeiro progresso da Humanidade, da solução dos problemas de raiz que a mantêm à deriva num oceano de dor e infelicidade, ele enfrente corajosa e determinadamente os erros da cultura desumana no poder. Tal não é um direito mas, sim, um Dever, um Dever de Honra como Discípulo.
O exemplo dos Mestres é elucidativo: Cristo, o Senhor do Amor e da Compaixão, expulsou os vendilhões do Templo 23; Krishna, considerou uma grande falta “desistir do legítimo combate pela verdade e pela justiça” 24; o Senhor Buda denunciou os privilégios anacrónicos, a prepotência e a ignorância dos (alguns) brâmanes; as Cartas dos Mahatmas 25 põem a descoberto a insensatez, incorrecção e crendice supersticiosa do pensamento vigente, e usam toda a clareza a reprovar violações das Regras, bem como traições e falsas devoções à Causa. Seguindo esse exemplo, a quem pretende seguir o Caminho da Espiritualidade cabe fazer ou dizer o que é justo, verdadeiro, útil e correcto - e não o que é agradável e conveniente às personalidades, seja de quem for. Ao mesmo tempo, cumpre-lhe respeitar o Princípio da Inofensividade, que impede de provocar qualquer dor desnecessária, de atacar ou caluniar, de alimentar inveja (expressa ou não), de fomentar guerrilhas pessoais, de enveredar pela rispidez gratuita, pela objecção despropositada ou pela hipocrisia surdamente hostilizadora.

Buddhi - Liberdade e Compaixão
As vidas de todos os Salvadores do Mundo obedecem a um tipicismo arquetípico. São extraordinárias as semelhanças das vidas de Krishna, de Gautama e de Jesus (neste caso, tal como aparece referida nos Evangelhos) - ainda que, até nos estudos de Religião Comparada, se salte frequentemente por cima dessa identidade, como, aliás, da unidade essencial dos respectivos ensinamentos. A vida de Jesus apresentada nos Evangelhos é predominantemente simbólica - ainda que possa ter havido correspondência objectiva em alguns factos (das vidas de Jesus Ben Pandira e, possivelmente, de Apolónio de Tiana 26). O Poder Crístico manifestado em Jesus é a representação de Buddhi ou, ainda, de Buddhi associado a Atman e servindo-lhe de veículo (”Eu e o Pai somos Um”; “O Pai que Me enviou”; “Manifestei o Pai”, etc.). Aí vemos, pois, a floração plena da Compreensão e da Sabedoria, do Amor e da Compaixão, da Alegria e da Liberdade inerentes à consciência Búddhica. Serve-nos de exemplo e de referência. Libertemos a Mente da ilusão, do desejo egoísta e da emoção kâmicos, reorientando-a para Buddhi - e eis que transporemos a ponte 27, alcançando a margem segura, onde brilha a luz solar. Nela, por ela, e com ela, podemos aliviar a Dor do Mundo e manter aceso o farol da esperança para toda a Humanidade.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973.
2 Cfr. “A Doutrina Secreta, Vol. VI”, p.183; Collected Writings, Vol. XII, p. 694 (Theosophical Publishing House, Vol. XII, Wheaton, Illinois, 1980).
3 Relembre-se que o termo “mónada” tem origem pitagórica e foi retomado mais tarde, entre outros, por Giordano Bruno e Leibniz. A partir de 1875, Helena Blavatsky e os que na sua obra encontram uma referência fundamental, igualmente têm recorrido a essa palavra, para designar (um)a unidade de Ser-Vida-Substância imortal.
4 V., entre todos, Geoffrey A. Barborka, The Divine Plan, TPH, Adyar, 1980 (4a reimpressão)
5 Etimologicamente, Anupapadaka (termo adoptado por Annie Besant para designar a Mónada) significa “sem progenitores”. É questionável que seja correcta tal associação mas o mencionado sentido etimológico do termo adequa-se bem à Mónada como pura unidade, porquanto Atman superior ou incondicionado emana ou brota de Paramatman (o Espírito Universal) mas não é criado. Só os princípios ou as formas através dos quais Atman se expressa é que têm progenitores: seres divinos, Hierarquias Criadoras.
6 Pelo mesmo motivo, não abordaremos várias outras questões relacionadas com o mencionado tríplice esquema evolutivo, designadamente no que respeita a Astrologia Esotérica, Hierarquias Criadoras, Antropogénese, etc.
7 Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky (Ed. Ground, S. Paulo).
8 Dizemos “a natureza negativa de Kâma”, porque este princípio (o 4o no Septenário Humano), se sublimado, representa vontade activa que, em si mesma, é necessária e desprovida de nocividade. Em qualquer caso, o Princípio Kâmico tem a sua razão de ser na economia universal. É ele que atrai os princípios superiores para a experiência encarnativa. É também Kâma-Marte-Escorpião o motor da acção externa. Kâma, palavra sânscrita, encontra a sua correspondência no termo tibetano Nga-Zhi, que justamente significa “essência da acção” (Cfr. The Letters of H. P. Blavatsky to A. P. Sinnett; Theosophical University Press, Pasadena, 1973 - fac simile da 1a edição, de 1925).
9 Em outro trecho de A Doutrina Secreta, assim se expressa HPB: “A Lua é a divindade da mente (Manas) mas apenas no Plano inferior. ‘Manas é dual - lunar na (natureza) mais baixa, solar na sua contraparte superior’, diz um Comentário. Quer dizer, é atraída, no seu aspecto superior, para Buddhi, e, no aspecto inferior, ouve a voz e desce em direcção à Alma Animal, cheia de egoísmo e desejos sensuais”.
10 O Eu Inferior ou Temporal, a Personalidade, é constituída de 4 princípios: os já referidos Sthula-Sharira - o Corpo Físico Denso -, Prana - a Vitalidade adstrita à forma objectiva individual -, Linga-Sharira - o Corpo Astral ou Formativo - e, ainda, o Kâma-Manas - o psiquismo inferior; o desejo egotista mais a porção de energia mental por este atraída para a encarnação. Em cada encarnação um raio (um simples fragmento) de Manas é atraído por Kâma (desejo de acção e de coisas externas), e esse conglomerado psíquico egotista dá a nota chave, constitui o núcleo ou a raiz de cada nova Personalidade.
11 Sobre a distinção entre a Alma Animal, a Alma Humana e, ainda a Alma Espiritual, cfr. o nosso artigo publicado na secção Esoterismo de A a Z no o 13 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2002).
12 Theosophical Publishing House, Adyar, 1980.
13 Prefácio à Ciência Geral (trad. Portuguesa incluída em Obras Escolhidas, Livros Horizonte).
14 O funcionamento mais frequente do mental, na maioria dos homens, é uma resposta a estímulos kâmicos (i.e., emoções e desejos), os quais, por sua vez, estão dependentes dos acontecimentos externos que se vão sucedendo. Assim, não só o mental está, geralmente, escravizado, dependente, ao serviço do desejo egotista, como é comandado de fora para dentro. É, pois, um funcionamento reactivo, logo condicionado pela externalidade e, assim, basicamente destituído de liberdade. Caso a sucessão de acontecimentos seja uma, as reacções psicológicas têm determinada sequência responsiva; se for outra, uma outra correspondente sequência de reacções ocorreria. Apenas é livre o mental que se auto-determina, que se sobrepõe às circunstâncias e aos encadeados de fenómenos, que não se deixa cegar pelas reacções kâmicas. Esse é o mental superior, iluminado por Buddhi, ou seja, a díade Buddhi-Manas, a inteligência intuitiva.
15 A emoção é, no Quaternário Inferior, a correspondência analógica de Buddhi ou Intuição, o que constitui fonte de equívocos e de errónea identificação dos pólos opostos entre os quais oscila Manas.
16 A Voz do Silêncio, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1921 (tradução de Fernando Pessoa); Ed. Pensamento, S. Paulo, 1989.
17 “Se através da Sala da Sabedoria, ó Discípulo, queres alcançar o Vale da Bem-Aventurança, fecha os sentidos à tremenda e grande heresia da separatividade que te separa dos demais (A Voz do Silêncio, I, 50).
18 Buddhi: Discernimento, Sabedoria, Intuição.
19 Fundamentação da Metafísica dos Costumes (ed. portuguesa: Atlântida, Coimbra, 1960).
20 Luz no Caminho, por Mabel Collins (Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1916; Ed. Pensamento, S. Paulo, 1979).
21 Cfr. também I Coríntios, 9:12-17.
22 Alaya - termo usado no budismo tibetano para designar a Alma Universal, a Anima Mundi.
23 Mateus, 21:12; Marcos, 11:15; Lucas, 19:45; João, 2:14-15.
24 Bhagavad Gita, 2:33.
25 Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett (Ed. Teosófica, Brasília, 2001; note-se, porém, que estas cartas foram escritas entre 1880 e 1885).
26 Cfr. o artigo “Cristo”, publicado em várias partes nos os 15, 16 e 17 da Biosofia.
27 Alude-se aqui ao Antahkarana, a ponte, construída na / com substância mental, que liga a consciência do Eu Inferior ao Eu Superior.

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