Alcoviteirices

Todos fomos mais ou menos educados no sentido de que espreitar pelos buracos da fechadura ou encostar os ouvidos à parede, para nos inteirarmos das conversas ou dos factos na casa do lado, são coisas feias e reprováveis. No entanto, parece que esse é um dos princípios que nunca alcançaram grande popularidade.

É tendência quase irresistível, mas nem por isso menos lamentável, a de querer saber da vida alheia - ainda quando, muitas vezes, sabemos tão pouco da nossa própria… - sem que para tal tenha existido algum convite e sem que nenhuma verdadeira utilidade daí advenha, excepto a de fazer passar o tempo. Ainda aqui, é duvidoso que se possa legitimamente falar de utilidade, pois esse entretenimento de modo algum nos acrescenta qualquer coisa de bom, nos enobrece ou nos edifica.

Regra geral, porém, o facto é que quase todas as pessoas gostam. Seja por uma curiosidade mesquinha, pelo prazer mórbido de ver as desgraças e anormalidades alheias (que, de outro modo, permaneceriam ignotas), ou, em alguns casos, pela necessidade de compensar a inveja que se sente dos que são olhados como famosos, poderosos e felizes, sorvendo vingativamente todos os pormenores, se entretanto caíram dos seus pedestais; seja com a desculpa de se ser solidário e caridoso (realmente, tratando-se antes de se exibir caridade e solidariedade, visto que o verdadeiro móbil é a excitação masoquista perante a fragilidade dos outros), de julgar (de forma fácil e leviana) comportamentos e (a)moralidades ou de, como sustentam órgãos de comunicação, satisfazer o “direito do público a ser informado”, verifica-se uma cedência constante a esse vício.

Pelo caminho, há sempre os que são injustamente atingidos, criticados, ridicularizados e atirados para a lama, sem possibilidade de se defenderem e, durante algum tempo, sem conhecerem sequer até que ponto andam na boca de algum mundo, expostos à crueldade bem-pensante e bem-falante. E é sempre tão fácil julgar, condenar e, sobretudo, amesquinhar e ridicularizar - ser “mauzinho”, em resumo!…

Quaisquer que sejam os erros procedimentais, e os jogos de pressões ou de influências envolvidos no chamado “escândalo Casa Pia”, muito do que se passa, quando se atiram nomes para a especulação e o julgamento popular, tem a ver com isto. Será necessário alterar legislação sobre o nosso modelo judiciário; será necessário reprimir as violações do “segredo de justiça” (não excluindo as praticadas por jornalistas); será necessário pôr limites à liberdade de informar, sem medo do papão de tal ser conotado com “censura”, que é uma coisa totalmente diferente; mas não podemos também deixar de pensar em alterar as generalizadas tendências alcoviteiras. Há tantas coisas dignas em que nos ocuparmos, por que cedemos tanto tempo às considerações mesquinhas?

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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