Enfrentar os nossos medos

Temos medo de perder o emprego, de sermos assaltados, de ficarmos doentes, de sermos criticados, de enlouquecermos, de ninguém gostar de nós… de morrermos sozinhos. A lista de medos parece infindável, tal é a força e a rapidez com que os assimilamos, criamos, gravamos e transmitimos ao longo do tempo, quase sem nos apercebermos disso! Receamos até enfrentar o medo e raramente nos predispomos a observar e a «limpar» os nossos medos mais internos, a assumir, em primeiro lugar para nós mesmos, aquilo que realmente mais nos preocupa e entristece. Como podemos transformar o medo em coragem?

De onde vêm os medos?
Biologicamente fomos programados para sentir medo face a certas situações (como a sensação de cair ou a audição de ruídos fortes), que accionam em nós mecanismos de alerta e de defesa. Perante uma ameaça, o nosso alarme interno dispara e desencadeia-se de imediato uma resposta: tal como os animais, tendemos a fugir ou a atacar quando algo nos assusta e nos sentimos ameaçados. Contudo, enquanto que os animais reagem ao perigo imediato e real, o ser humano tem medo também da simples recordação, da antecipação ou da imaginação de uma situação “perigosa”.
Ou seja, temos medos instintivos que trazemos de nascença e medos racionais que vamos adquirindo com o decorrer do tempo, que nos afastam e protegem de perigos graves e reais, e que são essenciais à nossa sobrevivência. Ensinámos e bem uma criança a temer o fogo, para não se queimar, ou a mexer com cuidado numa faca afiada. Mas a nossa imaginação é fértil em produzir medos irracionais, sem sentido - autênticas teias que nos podem aprisionar e asfixiar. Desses resultam as fobias.
Na verdade, a maioria dos medos, receios e sensações de ansiedade com que lidamos no dia-a-dia (como o medo da opinião dos outros, o medo de adoecermos…) são aprendidos e espoletados na interacção com os outros, são socialmente “fabricados”, podendo ser altamente “contagiosos” e nocivos para a plena expressão das nossas vidas. Estão “impressos, ‘gravados’ no mais fundo do nosso eu, porque desde há milhares de anos que todas as culturas de todos os lugares e de todas as épocas, os governos, as famílias e a maior parte das religiões descobriram que o medo era uma verdadeira ‘mina’ por se tratar do mecanismo psicológico mais rápido, mais eficaz, mais seguro e duradouro de controlar o ser humano”, afirma o psicopedagogo Bernabé Tierno (no livro Aprenda a Viver). Ainda hoje as Igrejas se referem aos “crentes e tementes a Deus”, e os pais ao “papão” ou ao “lobo mau” que leva os meninos mal comportados…
A educação, tal como a noção de cidadania, não deve basear-se no medo de represálias, mas sim na noção de dever e de respeito por nós próprios e pelo outro. Vítor Rodrigues, psicólogo e professor universitário, 1 adverte que “o medo é uma técnica absolutamente anti-educativa que, em lugar de guiar as pessoas à expansão para dentro, rumo às suas melhores capacidades, e para fora, ao encontro do seu semelhante, as condena a inibir e ‘encolher’ partes de si mesmas e a temerem os outros, retraindo-se face a eles. O medo cria seres humanos restringidos, coxos… E talvez não seja por acaso que algumas das principais manifestações físicas do medo sejam sensações de aperto no coração, garganta, estômago…”.

Quando ter medo é sinal de doença
Por vezes, os nossos medos ultrapassam os limites do razoável e podem tornar-se doentios, irracionais e incontroláveis. Quando é que podemos estar perante um medo patológico? O que distingue um medo intenso mas “normal”, de uma fobia? Vítor Rodrigues explica que “os critérios normalmente empregues dizem respeito, por um lado, ao impacto do medo na vida da pessoa e, por outro, ao grau em que é ou não racionalmente compreensível para a mesma e/ou para outros. Exemplificando, normalmente não consideramos que se esteja perante uma fobia quando alguém, após ter sido mordido por uma abelha, vê com apreensão a proximidade de um desses insectos; se, em contrapartida, ficar quase em pânico, sem saber porquê, ao vê-la aproximar-se, poderemos falar em fobia”.
As fobias “são um caso particular de medo patológico, em que esse medo parece estranho, até irracional, mesmo para quem sofre dele. Há medos que se tornam extremamente intensos e perturbadores mas não são fóbicos pois conhecemos a origem deles. Imagine-se o medo de uma pessoa que, após ter sobrevivido a um terramoto, sente a terra tremer e fica em pânico - mesmo que esse tremor seja somente o correspondente à passagem do metropolitano sob os seus pés… Neste caso, não se trata de uma fobia mas de um medo exagerado, com um impacto tão forte quanto negativo na vida da pessoa, impacto esse que pode até ser incapacitante. Donde, um medo ‘patológico’”, acrescenta o mesmo psicólogo.

Fobias mais comuns
Entende-se por fobia o medo persistente, irracional e exagerado diante de algo inofensivo e que provoca um desejo incontrolável de se evitar aquilo que se teme. Os objectos e as situações temidas podem ser as mais variadas, dando azo a designações pomposas: animais (zoofobia), trovoada (geraunofobia), altura (acrofobia), espaços fechados (claustrofobia) ou abertos (agorafobia), o sangue (hematofobia), a doença, a sujidade, o escuro, viajar de avião, andar de elevador, etc.. Temos uma imaginação muito fértil, capaz de transformar uma formiga inofensiva num gigante ameaçador…
As fobias mais preocupantes são, contudo, a agorafobia e a fobia social (que, por vezes, aparecem associadas), por limitarem fortemente a vida das pessoas afectadas. Diz-se que alguém padece de agorafobia quando revela um medo acentuado de se afastar de um lugar seguro (geralmente a sua casa) e de enfrentar lugares públicos, onde pode ser problemático, em algum momento, o rápido acesso a uma saída. Exemplo disso são as pessoas que não querem sair de casa, que se mostram incapazes de fazer compras em hipermercados e centros comerciais, que não conseguem entrar numa sala de cinema ou andar de transportes públicos… receando quer os locais fechados, quer os espaços abertos ou os que são muito frequentados. Praticamente só se sentem seguros em casa, e alguns só se aventuram a sair se uma pessoa de sua confiança os acompanhar.
A agorafobia “representa 60% de todos os estados fóbicos que reclamam tratamento específico. Dois terços dos casos identificados pertencem ao sexo feminino. É a fobia mais incapacitante e a que oferece mais resistência ao tratamento”, refere o manual Dez Palavras Chave em Psiquiatria. Raramente aparece durante a infância, ao contrário das fobias específicas e da fobia social. Na maioria dos casos, a agorafobia desenvolve-se depois da pessoa ter vivido uma experiência angustiante de descontrolo em público (uma crise de pânico); com o receio de que o episódio se repita, evita progressivamente mais situações que possam desencadear um novo achaque. A ansiedade dispara só de pensar na possibilidade de isso voltar a acontecer: a pessoa tem medo até de pensar no medo.
Apesar da agorafobia ser a mais frequente entre as fobias que recebem acompanhamento médico, pensa-se que a fobia social é a que afecta mais pessoas actualmente. Estudos europeus e americanos apontam uma prevalência de 13 a 14% mas uma grande parte das pessoas afectadas não procura ajuda médica precisamente por terem medo de serem observadas pelos outros. O contacto social, o relacionamento com pessoas fora da família e as mais variadas situações que os expõem aos olhares dos outros, são evitadas e entendidas como uma fonte de embaraço e humilhação. Tal conduz ao medo de falar em público, de comer em público, de usar uma casa de banho pública, de trabalhar em grupo, etc., pela suposição de que se vai fracassar na tarefa, cair no ridículo, perder o controlo, ficar envergonhado, corado, desajeitado… ou até “paralisado”.

Por que não desaparecem os medos?

Se grande parte dos nossos medos não faz qualquer sentido, se sabemos que não existem razões plausíveis para continuarmos a recear determinadas coisas, então, por que é que nos deixamos “apanhar” pelo medo? E por que não conseguimos fazê-lo desaparecer num estalar de dedos?
Na verdade, o medo intenso (característico das fobias) persiste porque a pessoa nunca enfrenta a situação. Quando se vê perante o objecto ou a situação temida, sente de imediato uma reacção fisiológica poderosa (a pulsação acelera, aumenta a transpiração, tem dificuldade em respirar, surgem tremuras, náuseas…) que a alerta para a “desgraça iminente” e todo o seu empenho se resume em fugir, em escapar da situação.
“Muitos adultos ‘tratam’ com naturalidade algumas fobias nascentes em crianças, com métodos que, na verdade, são dos mais eficazes em adultos: leva-se a criança, ao colo, a confrontar-se ‘ao vivo’ com o seu medo e a verificar que não tem razão de ser, o que parece dar ao cérebro informações cruciais; com o adulto, pode-se fazer o equivalente, acompanhando-o numa exposição progressiva e ‘protegida’ às situações amedrontantes”, sugere Vítor Rodrigues.
Para nos libertarmos dos medos é necessário vencer um mar de resistências. “Eu sei que tenho estes problemas, mas não posso, não quero tratar-me… Não consigo andar de transportes, muito menos de taxi, e de carro fico logo mal-disposta, agoniada. E ir para o centro da cidade, nem pensar, com aquela confusão de trânsito e de gente. E depois o que é que os médicos podem fazer por mim? Não tenho dinheiro para pagar consultas privadas e, mesmo que tivesse, não consinto que ninguém tente dar-me a volta, endrominar-me as ideias, só eu é que sei o que sinto… Não quero cá ninguém a olhar para mim como se fosse maluca”. São palavras de uma mulher de meia idade, doméstica, que não consegue enfrentar os seus medos nem permite que alguém a ajude, perante o silêncio do marido e os insistentes apelos dos filhos para que se trate. “Olhe que um bom médico podia ajudá-la…”, tentei dizer-lhe. “Deixe-me estar, estou bem assim”, respondeu. A casa e o gato são o seu refúgio.

A origem das fobias
Por que é que algumas pessoas desenvolvem fobias a determinada altura da sua vida? “Aí temos um assunto demasiado complexo para ser tratado rapidamente”, adverte Vítor Rodrigues. É um fenómeno iminentemente psicológico mas factores ambientais, biológicos, emocionais e cognitivos podem estar na sua origem. Diversas explicações têm sido apontadas como “a teoria psicanalítica e a teoria cognitivo-comportamental, para além de outras que vêem nas fobias o resultado de experiências dolorosas ultra-precoces, nascidas das vicissitudes da vida intra-uterina e do parto ou, ainda, um produto frequente de vivências traumáticas em vidas passadas”.
“Na minha opinião”, acrescenta o psicólogo, “é possível que cada uma das teorias mais importantes tenha razão de ser e seja especialmente relevante para uma pessoa mais do que para outra. Uma coisa é certa: existem factores comuns, como a ideia de que algures num passado mais ou menos remoto vivências geradoras de grande ansiedade ficaram gravadas na memória sendo, posteriormente, generalizadas, mascaradas, intensificadas ou metaforizadas por processos psicológicos”.
“Um outro factor comum, nada negligenciável, tem a ver com o modo como a maioria das pessoas vivem descentradas do presente e desatentas em relação ao que realmente está a passar-se no ‘aqui-e-agora’, para dispersarem a sua energia mental em culpas, remorsos e ressentimentos face ao passado, ou ansiedades, desejos e imaginações face ao futuro. A ansiedade não é possível, aliás, sem que haja uma projecção para o futuro, levando-nos a recear algo que poderá vir a acontecer (e que tememos não conseguir enfrentar), o prolongamento de uma coisa que está de facto a passar-se ou a repetição de eventos dolorosos já passados”, refere Vítor Rodrigues. Viver no presente é um bom antídoto para a ansiedade e para as fobias!

Curar é possível
O que podemos fazer para evitar que uma fobia nos bata à porta? E quando ela já é nosso hóspede, como podemos convidá-la a sair ou expulsá-la da nossa cabeça?
Nos casos mais graves, a intervenção de um especialista é imprescindível. Geralmente o tratamento visa conseguir que a pessoa permaneça o tempo suficiente diante do objecto temido para poder verificar que não há motivo para qualquer receio. É também habitual o recurso a técnicas que promovem o relaxamento e a autoconfiança.
“O terreno para o desenvolvimento das fobias parece ser fornecido pelo stress prolongado, por níveis de ansiedade elevados e que se conservam durante algum tempo, a par de alguma fragilidade psicológica: se eu já ando enervado e me sinto pouco capaz de me controlar, torna-se fácil entrar no pânico ou desencadear uma fobia… que talvez já estivesse pronta a entrar em funções devido a susceptibilidades desenvolvidas no meu passado. Por isso mesmo, as técnicas ou as intervenções que, no geral, reduzem a ansiedade e aumentam o autocontrolo e a autoconfiança, como os exercícios de relaxamento, respiração consciente, concentração, expressão corporal, etc., ou mesmo a medicação, tendem a ser úteis”, diz Vítor Rodrigues. “A ideia é simples: reduzir a ansiedade geral através do relaxamento induzido por estas técnicas e reforçar, ao mesmo tempo, a capacidade do indivíduo para se auto-observar e auto-gerir emocionalmente, ou seja, desenvolver a sua inteligência emocional”.
Por outro lado, “uma intervenção apenas baseada no uso da palavra tende a ser ineficaz pois somente lida com a memória declarativa (consciente, racional, referente a factos, conteúdos definidos) e não tanto com a memória procedimental (tendencialmente inconsciente, referente a padrões de acção e de reacção)”. Os medicamentos só por si também não resolvem o problema, porque “não reformulam informação nem memórias, e reformulá-las parece ser crucial para o êxito terapêutico”.

Libertar a vida
“Não há nada a recear a não ser o medo”, escreveu Ralph Emerson. De facto, haverá algo mais assustador do que ficarmos paralisados com o nosso próprio medo? Muitas vezes damos por nós a reagir exageradamente a uma situação que, afinal, era inofensiva (como no caso das fobias). No entanto, o inverso também acontece (e vezes de mais!) quando nos sentimos incapazes de nos defendermos, de fugirmos ou, no mínimo, de evitarmos situações que são verdadeiramente uma ameaça para a nossa integridade física ou psicológica. Quando encolhemos os ombros e nos sujeitamos a tudo e qualquer coisa.
É urgente transformarmos o medo em coragem, e caminharmos de cabeça erguida - sentindo medo, sim, mas apenas daquilo que nos impede de sermos mais conscientes, atentos e interventivos.

Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social

1 Autor de vários livros, entre eles “Teoria Geral da Estupidez Humana” e “O Consumista Heróico”.

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