Hierarquia, Singularidade e Integralidade

Hierarquia
A noção de hierarquia é essencial não apenas para a ordem e a coesão social mas também para o crescimento e aprendizagem individual. Diz-se, frequentemente, que pior que existir uma lei má é não haver lei nenhuma. De algum modo, o mesmo se pode afirmar quanto à hierarquia: pior ainda do que uma má hierarquia (sem dúvida, algo indesejável), é não haver nenhuma hierarquia.

Sejamos realistas quanto a isto - porque o facto é que os homens não são iguais nas suas qualidades manifestadas, embora tenham as mesmas potencialidades por despertar. Também uma criança com a idade de um ano não aprendeu ainda o que uma outra, de sete, já alcançou; tal como esta não progrediu o mesmo que um adulto. A aprendizagem espontânea da criança é bem reveladora: é olhando para os mais velhos (pais, irmãos, etc.) que ela vai avançando e crescendo. Até nisto se demonstra uma hierarquia, ainda que meramente confinada à idade física.
Por bonitas e sedutoras que possam ser ideias anárquicas e igualitárias, o facto é que em qualquer organismo social ou colectivo é necessário haver quem coordene e quem se coadune com o planeamento geral, como é necessário haver quem saiba e possa, legitimamente, ensinar a (e) quem precise de ser ensinado (o que todos nós, seres humano, precisamos em algum domínio).
No entanto, essa hierarquia será tanto mais sólida e real quanto não for baseada em convenções superficiais ou em anti-valores, como os do oportunismo, do despudor ou do inescrúpulo (como tantas vezes sucede); e deve ser continuadamente, sempre renovadamente, aferida e justificada com o mérito (o sólido e verdadeiro fundamento da hierarquia natural), com as qualidades autênticas, com o bom desempenho efectivo. Hierarquia não significa - não deve significar - tirania ou condicionamento da vontade e da natureza própria e singular de cada um. A educação bem sucedida permite o livre desabrochar do melhor que existe em cada um de nós, e que vai enriquecer o todo; falhamos quando queremos impor o que não é próprio e não encontra ressonância interior na natureza de cada um.
A verdadeira autoridade pode, em muitos aspectos, exercer-se com a suavidade semelhante às da água ou da brisa gentil, porque se impõe por si mesma. É como a vida que está no âmago de todas as coisas, que faz pulsar e de que dependem todas as coisas, e que, todavia, não se vê, não se pode tocar, nem jamais clamou a sua importância íntima e suprema. Os que se encontram no topo da hierarquia natural são simples como o ponto que é o vértice de uma pirâmide; despidos de artifícios, de ostentações vaidosas ou de manifestações de arrogância e prepotência, confiam na Sabedoria e na Justiça verdadeiras, e exercem uma contínua influência benéfica. Quando, num futuro ainda distante, a hierarquia natural, assente no mérito, puder enfim ser reconhecida, sem sofismas nem convenientes relativismos, teremos uma forma superior de democracia: o governo dos mais aptos reconhecidos unanimemente.
A frase “Assim ouvi do Mestre” é profundamente verdadeira, sábia e prenhe de significados. Mas importa esclarecer que ela está acrescentada de. “e assim, trilhando o caminho que Ele indicou (com a sua experiência), o comprovei em mim mesmo, assim procurei ver de todos os ângulos possíveis, assim pude abrir novos horizontes, com prudência e, no entanto, com inesgotável entusiasmo”.
Singularidade
Como já dissemos, a singularidade enriquece o todo, que é feito de muitas vidas individuais. Nós partilhamos a concepção hilozoísta: toda a substância-ser do universo (ou seja, o seu substrato ontológico) é vivente; há um só Vida una - a vida universal - que é constituída de miríades de vidas individuais. Na grande existência cósmica, há dois momentos de síntese total: o inicial e o derradeiro; no entanto, eles diferem notoriamente. No momento inicial, está toda a potência do Universo e, digamos assim, toda a informação evolutiva, o código genético do Universo 1; se, porém, se dá toda a imensa expansão ou manifestação universal, é para que o Um (o Uno) se demonstre, se desdobre, e se multiplique nos muitos, ou seja, em todas as unidades de vida que o integram (e que, no devir temporal, podem ser um átomo, um homem, um planeta, um sistema solar, uma galáxia…). No momento final, a síntese está enriquecida por toda essa viagem do plano ideal ou conceptivo para o plano objectivo e consumptivo, que conduz a que cada-uma-das-unidades-de-vida que-integram-a-Vida-Una se tenham realizado nela e a tenham realizado em si.
Se fizemos esta breve digressão pelas grandes coordenadas da maravilhosa epopeia cósmica, foi para ilustrar, a uma luz maior, que nenhuma vida é desnecessária ou prescindível. Todas são preciosas… porque todas constituem o Todo; e se é verdade que, em cada momento da existência universal, ocupam distintos lugares no caminho do crescimento ou activação da Consciência, essa integração no Todo fá-las idênticas em potencialidades. Entretanto, nenhuma se repete exactamente, porque cada passagem da potencialidade ao acto é um caminho próprio e único - que traça e consolida o rastro da individualidade 2.
Se o Todo universal consente e “respeita” as partes, quanto mais não o deveremos fazer cada um de nós, que somos partes, com respeito a outra(s) parte(s)? Se alguém nos repetisse em tudo, se alguém fosse exactamente igual a nós - mais ainda, se não houvesse contraste, se não houvesse expressão multicolor, se não houvesse uma síntese que tivesse contido tese e antítese -, que grande desperdício, que triste monotonia! Como dizia o Prof. Agostinho da Silva, “todos nascemos estrelas de brilho ímpar”.
Assim, o princípio da Hierarquia deve conciliar-se naturalmente com a da Singularidade, e ambos se pressupõem, afinal.
Nem sempre é fácil resistir a tentar impor os nossos modelos comportamentais, ideológicos e afectivos. No que toca aos educadores, essa tendência a condicionar indevidamente é mais habitual quando se trata de familiares. Pais e avós, por exemplo, com frequência tendem a projectar-se nos filhos ou netos e a ansiarem que estes se lhes venham a assemelhar em muitos aspectos. Estamos perante o reverso negativo da medalha do afecto. Importa estar atento, para não confundir amor com possessividade, princípios éticos com preconceitos tiranizantes.
É uma grave responsabilidade tentar vergar ou inverter a manifestação espontânea da idiossincrasia de cada criança ou jovem. Isto, bem entendido, não significa que se devam eliminar regras que balizam o respeito pelos outros, que se devam ignorar princípios éticos, que se negligencie a indispensável chamada de atenção para equilibrados hábitos de ordem, de disciplina e… de convivência social. De modo nenhum pretendemos juntar a nossa voz às tantas - demasiadas! - que clamam pela liberdade ilimitada das crianças se tornarem elas próprias uns tiranos, uns pequenos monstrinhos que passam por cima de tudo e de todos, que podem insultar, desarrumar, destruir, guinchar e incomodar quem, o quê e como lhes der na “real gana”; tão pouco é a apologia da teoria, a nosso ver tão infundamentada quanto bem intencionada, do bom selvagem de Rosseau e outros.
O que, sim, devemos evitar cuidadosamente, é a tentação (por deliberada intenção ou por distraído trilhar da linha de menor resistência) de anular ou desviar as melhores expressões, a manifestação espontânea dos melhores signos do carácter de cada um. Nós não deveríamos violentar as naturais timidez e pudor psicológico e físico de algumas crianças, sujeitando-as a expressões externas que ferem a sua sensibilidade, por lhes parecerem ridículas e mais próprias de um jardim zoológico do que de meios humanos; antes deveríamos fazê-las confiar nos valores que se abrigam no seu íntimo, secretamente guardados num cofre secreto, cuja chave é bem difícil de encontrar. Quantas vezes uma criança de sentimentos refinados e apurada sensibilidade estética - que considera inadequada qualquer expressão sua, por estar inevitavelmente aquém dos seus ideais de perfeição, e que por isso se inibe e se cala - é catalogada de forma imediatista e desumana como “mal-criada”, “um bicho-de-mato”, “insociável” - quando, na verdade, ela é portadora de superiores, de mais subtis modos de verdadeira partilha.
Tão pouco deveríamos cercear - pelo menos, até onde o excesso, o abuso ou a jactância se não façam sentir -, o temperamento extrovertido e jovial de outras crianças, submetendo-as a uma disciplina implacável e castradora, que lhes poderá trazer recalques, sentimentos de revolta, insatisfações latentes.
E, em todos os casos (dentro de limites razoáveis, claro), jamais deveríamos impedir as crianças de serem crianças, e os jovens de serem jovens, no tempo devido e natural, impondo-lhes uma seriedade precoce, deveres escusados e restrições insensatas - o que poderá criar desequilíbrios para a vida inteira. Pode vir a ser muito difícil, penosa e inadaptada a existência de um adulto que não viveu a sua meninice e a sua adolescência na devida altura.

Integralidade
Ao falarmos em singularidade, contudo, nem por sombras estamos a preconizar a especialização de conhecimentos e habilidades que alguns tão enfaticamente advogam. Voltemos a uma imagem do processo cósmico: se o Todo-Uno se manifesta para que as muitas vidas cresçam, estas crescem para que o Todo-Uno se manifeste nelas. Da mesma forma, o ser humano engrandece-se sendo ele próprio uma compreensão e expressão singular da integralidade do mundo.
No que toca à passagem pelo sistema escolar, repetimos aqui o que escrevemos em outro número desta revista 3: “A experiência escolar não pode ser unicamente um meio de aceder a uma profissão específica, em que se concentrará toda a ênfase da existência de um indivíduo, tantas vezes (por isso mesmo) completamente desatento para outras áreas de interesse, para outros modos de ser, de pensar e de sentir, para as outras inúmeras formas possíveis de compreender a Vida e o mundo, de nele se posicionar, de nele intervir conscientemente. Se o trabalho pode realmente enobrecer o homem, também o pode alienar, estreitar mentalmente e até desumanizar, tornando-o somente numa ‘das centenas de milhões de máquinas no incessante frenesim da produção material, que a todos submete, instrumentaliza e controla’” 3.
Toda o processo educativo, na verdade, seja em casa ou nas escolas, deveria representar uma gradual identificação de e com diversas formas de expressão e de modos possíveis de viver, uma progressiva aprendizagem de diferentes culturas e áreas de conhecimento, uma crescente aquisição de universalidade e de interesses e capacidades plurais e multifacetadas. Ainda há poucos dias, foi divulgado o resultado de um estudo que conclui que a audição de música desde uma tenra juventude representa um poderoso auxiliar do desenvolvimento da inteligência cognitiva. Pensamos que este é apenas um exemplo de que o desenvolvimento de uma capacidade, quando equilibrado, é potenciador do florescimento de outras capacidades distintas… mas complementares.
Devem ser incentivadas, e jamais reprimidas, a sã curiosidade, a pluralidade de interesses e actividades e, sobretudo, todas as formas de criatividade dos jovens. Cada um de nós “é um universo a sós” (conforme a expressão de Fernando Pessoa) mas em cujo universo se podem e devem reflectir todos os outros universos.
Decerto, nem todas as crianças, ou sequer uma parte substancial, virão a ser génios que se destaquem e cujo registo permaneça na história; de resto, nem tal é verdadeiramente importante. O que, sim, cabe a cada um, é a realização plena da sua potencialidade e do seu dever-ser adaptados à sua natureza intrínseca em cada fase de crescimento evolutivo (conforme o conceito hinduísta de Dharma). Não obstante, no ponto global de civilização e cultura em que nos encontramos, tudo aponta para a universalidade.
Lembremos, entre outros, e cingindo-nos apenas à chamada civilização ocidental, os exemplos de Pitágoras 4, que era filósofo, místico, cientista, matemático, músico, terapeuta e legislador; de Platão, que era filósofo, geómetra, poeta (formalmente na sua juventude; mais substancialmente, na extraordinária beleza literária dos seus diálogos), político e reformador social (como se vê, por exemplo, em “A República” e nas tentativas de aplicação prática que realizou em Siracusa); Hipátia, filósofa, matemática, astrónoma, artista e modelo de cidadania na política e em tudo quanto era cultura; Proclo 5, filósofo, matemático, estudioso das ciências naturais e jurista; Leonardo da Vinci, pintor, escultor, arquitecto, filósofo, cientista, inventor, fino psicólogo; Francis Bacon, filósofo, propulsor da metodologia da ciência moderna, ensaísta sobre os mais diversos temas, político, jurista e escritor brilhante 6; Coménio, pedagogo, filósofo, reformador social, homem de paz política e religiosa, pioneiro nas ideias de criar instituições de cooperação internacional 7; Leibniz, filósofo e cientista, tão notável num campo como no outro, e, também ele, espírito ecuménico; Einstein, cientista mas também filósofo, místico (sim, de um misticismo ou religiosidade, de pendor panteísta, que se extasia ante a magnificência da ordem universal) e humanista; Teilhard du Chardin, religioso, cientista, filósofo, escritor de fulgurante poesia; Albert Schweitzer, missionário, estudioso de diversas religiões, filósofo, médico, organista e musicólogo; Rudolf Steiner, filósofo-ocultista e formulador de princípios de grande interesse no campo da Medicina, da Física, da Agricultura, da Economia, da Arquitectura, da representação dramática dos Mistérios (no seu Goetheanum) e ainda em outros domínios 7; Helena Blavatsky 8, a extraordinária sábia do Século XIX, que iluminou os campos da Ciência, da Religião, da Filosofia e de todas as áreas do pensamento humano com a Luz fulgurante de uma sabedoria intemporal e universal, emitindo algumas das notas fundamentais - da Ecologia, ao Ecumenismo e ao encontro de Culturas - dos melhores progressos (progressos verdadeiros) desde então verificados.
Como dissemos, não se trata de atingir a notoriedade que estas figuras granjearam mas, sim, de lhes tomar o exemplo de universalidade e de multiplicidade de polarizações e talentos.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 Na filosofia sânscrita, fala-se de Daiviprakriti, o poder evolutivo original da natureza, que contém toda a informação (toda a Ideação ou desenho) para o vir-a-ser do Cosmos.
2 Em termos de Ciência Espiritual, notemos que a Individualidade não se aniquila no estado de Nirvana, nem sequer de Para-Nirvana (”o que está ainda além de Nirvana”). Após um período de Noite ou Pralaya Cósmico, ou seja, de dissolução universal, durante o qual todas as Individualidades permanecem no estado Nirvânico ou Para-Nirvânico, de inefável bem-aventurança (variando apenas, de Mónada para Mónada, a consciência dessa beatitude), elas ressurgem num novo Manvantara ou Dia Cósmico, assumindo o lugar que lhes compete na hierarquia universal, de acordo com o ponto alcançado no Manvantara anterior.
3 V. Biosofia o 2 (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1999).
4 Bertrand Russell, que não tinha nenhuma especial simpatia pelas ideias pitagóricas, afirmou, não obstante, que não conhecia nenhuma outra personagem que tivesse exercido tanta influência na história do pensamento humano.
5 Sobre Hipátia e Proclo, ver o artigo “Glória e Ruína de Alexandria”, no o 19 da “Biosofia”.
6 Lembremos que, durante séculos, se tem discutido se Francis Bacon não teria sido o verdadeiro autor das obras atribuídas a Shakespeare.
7 Sobre Coménio, ver o o 17 da “Biosofia” e a sua obra principal, “Didáctica Magna” (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 3a ed., 1985).
8 Em termos de filosofia religiosa, discordamos de Rudolf Steiner em vários pontos; mas nem por isso deixamos de admirar o seu talento multifacetado. Sobre Rudolf Steiner, e também sobre a Pedagogia Waldorf por ele iniciada, ver os os 1 e 2 da “Biosofia”.
8 Sobre Helena Blavatsky, ver os os 1 e 9 da “Biosofia”; o nosso livro “Duas Grandes Pioneiras” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1999) e a excelente obras de Sylvia Cranston “Helena Blavatsky - A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno” (Editora Teosófica, Brasília, 1997).

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