“A linha recta é do homem, a curva pertence a Deus… Gaudí

Corria o ano de 1926. Numa praça como outra qualquer, em Barcelona, às seis da madrugada de um dia como outro qualquer, o 7 de Junho, o tempo deu um qualquer sinal de que desejava parar. Pelo menos assim foi, na vida de Antoni Gaudí i Cornet.

O dia começava para todos os ainda parcos transeuntes da Praça Tatuan. Um moderno tranvia assomava, fazia o seu percurso habitual. Um homem, um homem ancião e de aspecto andrajoso, apoiado num bastão, cortou-lhe o caminho - não o vira, nem ouvira, absorto no seu mar profundo de pensamentos. Foi colhido, e o eléctrico não parou. Juntou-se alguma gente: “Mais um vagabundo, com idade para se ir…”, “Talvez estivesse bêbado?!” - cogitações de alguns, que assistiram. Vasculharam e, “nada, apenas algumas passas e nozes nas algibeiras”. O homem - o velho, inconsciente e sangrando de um dos lados da cabeça - não tinha nome… A instâncias de um guardia-civil foi então levado, com relutância e enfado, por um taxista, ao hospital.
Só ao final do outro dia, o mundo conheceu a realidade do sucedido. Antoni Gaudí, (para muitos) o maior génio da Arquitectura da modernidade, encontrava-se entre a vida e a morte.

A despedida
Naquela solitária manhã, saíra, como era seu hábito, às 5,30 h da “Sagrada Família” - o seu lugar, donde fizera perene dormitório. Diariamente percorria cerca de três quilómetros a pé rumo à Capela de São Filipe Neri, cruzando as ruas, desprevenido e desatento. Há muito que deixara de lado as preocupações de indumentária, e outras agrilhoantemente “mundanas”. O cabelo, tinha-o agora meio-rapado; a roupa, coçada, indiferente ao desalinho; as sandálias, rompidas de lado, atadas com elásticos. Era este o retrato do génio, a sua demasiado velha, esfolada e atormentada carapaça; porque o interior dela, esse, de há muito lhe fugia para aquele lugar íntimo, recôndito e magnânimo - lustrado, pejado de cor e de contraste, ondeado, povoado de palácios…, de ornatos, rendarias em sal da terra, cornijas, cornucópias - dos seus sonhos! Levou três dias para se despedir. Morreu no dia 10 de Junho, com 74 anos de idade.
O criador de obras tais como a assombrosa “Sagrada Familia”, a “La Pedrera”, a “Casa Batló” ou o “Parque GÃL;ell” - mais próprias dos mundos oníricos do que da terrealidade deste mundo -, teve um funeral com honras de herói, com a participação de centenas de milhar de pessoas. Logo no momento da sua morte, e até aos dias de hoje, a sua altíssima dignidade em termos de reputação tem sido usada, disputada (e literalmente esgaçada), ora para um lado, ora para o outro, por entidades que se digladiam, como a Igreja Católica e a Maçonaria - ambas reivindicando os louros da sua pretensa filiação. Nas cerimónias fúnebres, e no que concerne à Igreja, foi vestido com um hábito de monge, tendo um rosário na mão esquerda. Medidas têm sido tomadas visando a beatificação, para o que tem contribuído a publicação de um boletim regular, intitulado “O Arquitecto de Deus”; nele vão sendo enumerados os supostos testemunhos de milagres atribuídos a Gaudí. Por seu turno, a Maçonaria defende tenazmente que ele era um seu digníssimo prosélito, elevado e operante; que é disso evidência o número vultuoso de símbolos maçónicos ostentados em todos os edifícios de Gaudí, incluindo-se a “Sagrada Familia”.
Gaudí nunca, em etapa alguma da sua vida, desejou a notoriedade. Por fora, austero, crespo, por vezes quase intratável, inadaptado aos “cânones” (aos seus olhos, “mesquinhos”, “medíocres”) deste mundo - (aos olhos de alguns) parecia, até, “não ter maneiras!…”; um enorme e desconcertante contraste com a fluidez subtil da sua arte e, decerto, até, com a prodigalidade da sua vida interior. A sua vida e a sua obra, com efeito, apresentaram diametrais contradições: foi um conservador, na vida pessoal; um subversivo, na dimensão artística. Deveras, a sua linguagem (a da sua estética) era sem submissões, sem trocadilhos ou “pedidos de desculpa”, sem make-ups…

Uma arquitectura escultórica
É difícil descrever, por palavras, o assombro que nos causa o imaginário arquitectónico de Gaudí; as suas assimetrias concertadas, em torno a um eixo visionário, hipostático 1, num prodígio que nos lança a um outro universo dimensional, de arrebatadoras proporcionalidades. Templos com fulgor de catedrais, castelos, torres, edifícios palacianos, jardins miríficos, nada foi demais, tudo coube no universo prodigioso de Gaudí. Belos edifícios balconados, com moldações tácteis, como fora a Obra de mãos de Gigante…2. Jóias, preciosidades pacientemente (mimosamente) incrustadas com rútilas de pedra fina e miúda. E, sempre, sempre, estruturas ondeantes - algumas, quase etéreas, de contornos fugidios - que, teimosamente, não se prendem à forma fixa e linear, porque (dizia Gaudí) “A linha recta é do homem, a curva pertence a Deus…”. Obra mágica, espaços lavrados, acariciados pela visão do Mestre, tornados prolíferos de cor, forma, textura - e de mensagem! As suas obras mais importantes ficaram inacabadas, o que, porém, não impediu que fossem validadas como Património da Humanidade.
Não admira que a sua estética tenha servido de ponte inspirativa para muitos dos grandes vultos das artes e até das matemáticas 3: admiradores, devedores confessos do seu génio, como Walt Disney (e o mundo encantado que criou…), V. Fleming e K. Vidor (cujos cenários inesquecíveis de “O Feiticeiro de Oz” foram declaradamente inspirados na concepção arquitectónica de Gaudí), Salvador Dalí, Le Corbusier, Oscar Niemeyer, Hermann Finsterlin, Hans Scharoum, Eero Saarinen, Hans Poelzig, Ricardo Bofill, Eduardo Torroja, Carlos Raúl Villanueva, Rudolf Steiner, Eric Mendelsohn, Oriol Bohigas, David BÃL;hm, o actualíssimo Frank Gehry, e muitos, muitos outros. Por sua vez, como não podia deixar de ser, Gaudí nutriu e manteve liames de simpatia com muitas das ideias e com muitos dos membros da Bauhaus 4. Nesta esteira, era, igualmente, admirador fervoroso de Richard Wagner. Com efeito, Gaudí não hesitou em dedicar uma intenção de amistosa cumplicidade e identificação a Wagner, ao incluir, no Parque GÃL;ell, uma torre recoberta de cerâmica azul e branca - alusivas ao padrão e às cores da bandeira da Baviera.
Se Wagner nasceu em Leipzig e morreu em Veneza, perguntar-se-á: porquê a Baviera?
A explicação encontra-se na cidade de Bayreuth. Bayreuth é uma pequena cidade da Baviera, à beira do rio Main, e ao norte de Nuremberga. Foi ela que Wagner escolheu para local de residência, e onde veio a instalar o famoso Festspielhaus (o Teatro dos Festivais). E é aí que, na inauguração, em 1876, será representada a sua tetralogia completa: “O Anel dos Nibelungos”. Durante um tempo, os Festivais (totalmente dedicados à obra wagneriana), se bem que imensamente dispendiosos, eram celebrados com alguma regularidade, pelo que muitos músicos, simples amantes da música, ou de outras artes, afins com o movimento modernista catalão, se deslocavam expressamente a Bayreuth para a eles assistir - e para confraternizar…

Percurso de Gaudí
Antoni Gaudí i Cornet nasceu em Reus, perto de Tarragona, em 1852, e estudou em Barcelona onde veio a iniciar a sua vida como arquitecto. Verdadeiramente, porém, o seu primeiro trabalho foi uma participação, com os ex-colegas de bacharelato Eduardo Toda GÃL;el (depois diplomata) e José Ribera Sans (depois médico), num projecto de restauração do Monasterio de Poblat, que estava em ruínas. Então, após os estudos de bacharelato, Gaudí instala-se definitivamente em Barcelona, ainda que, pontualmente, venha a construir alguma obra fora da Catalunha. Ingressa na “Escuela Provincial de Arquitectura”, aí concluindo o curso em Março de 1878. Quando o terminou, o reitor terá vaticinado: “Estamos perante um génio, ou um louco”.
As grandes encomendas deram-se em supetão, e a execução de muitas delas foi acontecendo, em concomitância: a “Casa Vicens”, de influência estilística mudéjar (mourisca), em Barcelona, que o ocupou de 1883 a 1888; o projecto do “Pavilhão de Caça” para a comarca de Garraf (Barcelona), em 1882; o “Capricho”, em Comillas (Santander), entre os anos de 1883 a 1885; os muros (com ataurique 5), a casa do porteiro e as cavalariças da Granja GÃL;ell, de 1884 a 1887, cuja inspiração assenta sobre arquitecturas orientalistas 6; o Palácio GÃL;ell, em Barcelona, de 1886 a 1888; o “Palácio Episcopal”, em Astorga, de 1887 a 1893, em forma de castelo, e num misto revolucionário do gótico e da art nouveau; a “Escola da Ordem de Santa Teresa”, em 1888/89, que não chegou a terminar; a “Casa Botines”, uma revivescência dos palácios-fortalezas com torres esquinadas, numa simbiose surpreendente com o estruturalismo gótico, em Léon, em 1892; a belíssima Cripta da “Colonia GÃL;el”, em Santa Coloma de Cervelló (Barcelona), de 1898 a 1908; a “Casa Calvet”, de estilo barroco, em Barcelona, de 1897 a 1900 (de que, na altura, recebeu o “Premio del Ayuntamiento”); a “casa Bellesguard”, em Sant Gervasi, de 1900 a 1909; o maravilhoso Parque GÃL;el, em Barcelona, de 1901 a 1914; a restauração da Catedral de Mallorca, de 1903 a 1904; a reforma/renovação da “Casa Batló”, em Barcelona, de 1904 a 1906; a “Casa Milà” (La Pedrera), em Barcelona, de 1906 a 1910. A partir de 1914 não aceitou mais nenhuma encomenda, que o afastasse da sua “Sagrada Familia”.
No antigo picadeiro, a “Rotunda”, situa-se hoje o salão nobre, o arquivo, a biblioteca e o museu da Cátedra Gaudí. A biblioteca dispõe de cerca de 14.000 volumes, entre os quais figuram livros sobre arquitectura, urbanismo, jardinagem e paisagística, recuperação e restauro de monumentos e, principalmente, sobre o Modernismo e o seu pioneiro e mais insigne arquitecto, Antoni Gaudí.
Contudo, os feitos mais expressivos da sua genialidade foram, sem dúvida, a Sagrada Família, a Casa Batló e a La Pedrera, a Cripta da Colónia GÃL;ell e o Parque GÃL;ell.
Um mímico da Natureza
Com efeito, em 1886 inicia, Gaudí, uma nova etapa na sua carreira. Viria a assumir-se como um naturalista convicto e livre; um integrador exímio 7 e promotor de insuspeitadas harmonias. E tudo isso pela sua autenticidade, porque foi um amante da Natureza, um seu intérprete devotado.
A pedido do que viria a ser o seu mecenas e protector, Eusebi GÃL;ell, lança-se na audaciosa construção do Palácio que teria o seu nome - Palácio GÃL;ell. Apoiando-se em estilos clássicos e consagrados, sobretudo a arquitectura tardogótica, introduz-lhes o seu já então nascente fôlego pessoal marcadamente inovador, dotando a obra de características tais como os seus arcos parabólicos, a amplitude fluida dos espaços, a interpenetração dos mesmos no sentido da vertical e no da horizontal (como o que viria a consagrar na Casa Milà) e a primeira mostra de uma inesperada açoteia, polícroma e abstracta, coroada por um escultórico pára-raios-rosa-dos-ventos (um prelúdio do surrealismo das azougadas açoteias naturalistas da Casa Milà). O lugar mais excelso desta mansão palaciana é, então, o vestíbulo principal, onde os espaços afluentes acorrem, para se evadir, ou espraiar, por uma dupla cúpula porosa: a interior, de secção parabólica, que transmuda a sua base circular em quadrada, é revestida de placas hexagonais que vão reduzindo o seu tamanho, não apenas por motivos estéticos mas para uma adaptação ideal à curvatura (recurso e efeito óptico de influência barroca); a exterior, é cónica e resulta na acima referida açoteia.
De 1900 a 1914, dedica-se à titânica tarefa do Parque GÃL;ell. Nela dá livre expressão à sua fantasia e criatividade, aplicando as suas técnicas peculiares - secção hiperboloidal; o trencadís8, de esplêndida adaptação às suas características curvaturas e ondulações; suportes inclinados revestidos a pedra. Neste parque, Gaudí utiliza inusitadas formas, como, por exemplo, animais fantásticos - serpentes e lânguidos dragões rastejantes 9, sentinelas e marcos de uma oculta e prolífica simbologia - que integra magistralmente num habitat vivo e natural.
Durante este mesmo período, a “Casa Batló”, primeiro, e a “La Pedrera”, seguindo-se-lhe, ocuparam-no de 1904 a 1910. No que se refere à Casa Batló, no centro de Barcelona, trata-se, verdadeiramente, da reforma profunda de um edifício anterior. Nela, Gaudí alcança a plenitude da sua originalidade. Ela exorbita a sua arte: é uma estrutura viva - com poros pelos quais respira e pelos quais circula abundantemente a luz. É encimada por uma rica e luxuriante textura escamada, de configuração irregular, curvilínea e enfolada, e é ladeada por uma singular torre cujo pináculo é rematado por esfuziante cruz estrelada. Evocará, esta espectacular açoteia, o episódio místico-simbólico de São Jorge vencendo o Dragão?…
A “La Pedrera” (ou “Casa Milà”), igualmente na Barcelona central, afigura-se-nos a uma montanha de lava. Foi inicialmente concebida como um enorme pedestal para o grupo iconográfico do escultor terraconense Carles Mani (Virgem do Rosário e os Arcanjos S. Gabriel e S. Miguel) que, para grande desapontamento de Gaudí, nunca chegaria a ser colocado. O edifício é, para todos os efeitos, uma peça magistral e revolucionária (mesmo tratando-se de arquitectura vanguardista). De novo se nos insinua o efeito de porosidade, de grutas… Aqui, são proeminentes as impressões de volumetria ondeante, que se exprimem tanto no sentido da horizontal quanto da vertical, numa trama amplamente sugestiva e generosa, em balcões-varandas que se abrem e expõem alegremente. Mais ainda do que em “La Batló”, sobressai a açoteia, de onde regurgitam, de onde se agigantam - e nos olham -, uma legião de seres fantásticos, antropomórficos…

Igreja e Cripta da Colónia GÃL;ell
Entre os anos de 1898/1908-1914, Gaudí trabalhou, em paralelo, no “modelo polifunicular de cálculo para a Igreja da Colónia GÃL;ell”, de que só foi realizada a Cripta, semi-enterrada. Nesta, no seu pórtico, introduz, inovadoramente, o chamado planóide ou abóbada gerada por parabolóides hiperbólicos.
A cripta foi concebida como um ovóide irregular cujo centro, essencial, é definido por quatro suportes inclinados de grande espessura, terminando em parede absidal e circundado por deambulatório; com esta configuração, transparece a ênfase de Gaudí de que o espaço fosse lido desde um centro. Veiculadora de uma pujante carga místico-simbólica (ao ser semi-enterrada), pode ela ser lida como representação da caverna cristã primitiva, e também como figuração da interioridade que, unicamente ela, pode servir de ponte, de acesso ao Transcendente…
Surpreendentemente, a articulação, aparentemente desordenada dos elementos - a sua tipificada concertação das assimetrias 10 (dada pela irregularidade geométrica do espaço) -, nada tem de aleatória; é como um grande organismo vital onde cada parte não apenas preenche um espaço, como desempenha uma função importante. Tudo é prenhe. Tudo tem o seu porquê, insubestimável e insubstituível.
Em resultado do que é possível depreender pelos expressivos desenhos que ainda se conservam, se fora inteiramente concluída, a Igreja seria um dos mais representativos marcos do seu génio; reveladora, substancialmente, da síntese do seu pensamento e da sua arte.

A “Sagrada Familia”
É um Templo: podia ser chamado Catedral.
Passaram 121 anos desde o início desta magistral construção. ÃL; semelhança das suas congéneres medievais, não é, contudo, obra para uma única geração. Gaudí enfatizava a importância do trabalho manual, preferindo-o decididamente ao trabalho feito pelas máquinas. Não tinha pressa: (dizia) “o meu Cliente pode esperar…”. É sumamente notória a impressão de escultura que nos provoca qualquer dos seus feitos arquitectónicos; talvez daí, também, a impressão de matéria viva, e orgânica, que a suposta materialidade dessas mesmas obras nos transmite. Gaudí entrega-se de corpo e alma, e como que funde a sua própria corporidade na obra, e não apenas o intelecto. Respirando inspiração e maestria, é contudo mais um artífice do que mero projectista-arquitecto - é, na verdadeira acepção da palavra, um pedreiro-livre 11 que, com o seu mágico buril, arranca da pedra bruta o fôlego, o respiro; que faz emergir alma da materialidade chã.
Em 1883, este “Arquitecto de Deus” assume a responsabilidade do projecto do templo, iniciado um ano antes por um dos seus antigos professores, Francisco Villar. Alterou as plantas iniciais e desenhou uma basílica com cinco naves, transepto e abside. Tendo dedicado ao projecto 43 anos da sua vida, Gaudí apenas conseguiu ver terminadas a obra da monumental fachada “do Nascimento” e somente uma das 18 imponentes torres sineiras alegóricas à Virgem e a Jesus, aos 12 Apóstolos e aos 4 Evangelistas, bem como a pequena cripta neogótica concebida, em 1882, pelo pioneiro professor.
No que respeita à fachada do Nascimento (ou da Natividade), foi ela projectada e construída entre os anos de 1893 e 1904. Um portento! Nela, Gaudí rompe, drasticamente, tanto com a cripta neogótica, quanto com a própria direcção, adoptada, na execução da cabeceira do Templo. As duas faces da fachada apresentam aspectos distintos: a projectada para o exterior, tem os pórticos de acesso em disposição genericamente gótica e está parcialmente povoada de figuras esculpidas, em tamanho natural; de símbolos ocultistas e de cunho orientalista 12, como a tartaruga e o camaleão (a “Natureza original” e a “Natureza em permanente evolução”…), e de impressivos motivos florais e abstractos. A outra face, no interior, é de igual modo arrojada, entretecendo uma profusão de formas belamente geométricas, geradas em planos tridimensionais.
As quatro torres sineiras que dela se elevam - as duas centrais mais altas do que as duas laterais - são um prodígio de harmonia conceptual e reencarnam a velha, a tradicional simbologia do gótico. Estão belamente rematadas por ornatos multicoloridos, de superfícies multiplanas.
Nos primeiros tempos, quando o Mestre tomou a seu cargo a obra e ampliou o projecto de Villar, choveram entusiásticas doações, até ao momento da crise de 1905, seguida da I Grande Guerra, que paralisaram quase por completo as obras. Nesse interregno até ao momento da sua morte, alentaram-se de novo, para decaírem particularmente durante a Guerra Civil. Com efeito, após a morte de Gaudí até mesmo aos nossos dias, os trabalhos prosseguiram a um ritmo muito irregular e moroso.
Em 1936, os republicanos anticlericais atacaram a Sagrada Família, incendiando a cripta, a escola e os arquivos. Nesse atentado foram perdidos os planos e os cálculos originais, apenas sobrevivendo, afortunadamente, as maquetas de gesso, que possibilitaram a prossecução das obras de acordo com a concepção original. Ainda depois da Guerra Civil, o Templo viria a ser assolado, agora pelos franquistas que, entre outros prejuízos e aviltações, profanaram o túmulo de Gaudí - encarado por eles como um símbolo, a abater, do nacionalismo catalão. As obras seriam de novo interrompidas praticamente até ao Congresso Eucarístico de 1952, quando o nacional-catolicismo franquista decidiu, desta vez, explorar a imagem do Gaudí religioso, vítima do Republicanismo (dito) ateu.

O Presente
Só nessa fase as obras viriam a adquirir, progressivamente, novo fôlego e, no momento actual, atingem (talvez) a metade da execução face ao projecto.
O empreendimento presente é o da ultimação da cobertura. A nave principal, com uma área de 1500 metros quadrados, será coberta por um conjunto de abóbadas hiperbolóides, abertas nas extremidades a fim de favorecer a passagem da luz do dia. Todo o conjunto assentará sobre colunas oblíquas, como se foram os ramos de uma árvore.
Tem-se, ainda, pela frente a edificação da nave transversa, que suportará as abóbadas das torres. Depois, a ábside que fechará a nave principal. As colunas do cruzeiro estão agora a 30 metros de altura, devendo chegar aos 60. Das 18 torres sineiras do complexo, oito (que estão entre as mais pequenas) estão concluídas, faltando as restantes 10, que serão as mais laboriosas. Estas rendadas torres-agulheiras, com seus sinos, mais parecem uma singular e subtil instrumentação para músicos celestes - sugerindo, oferecendo uma poética sinfonia, um louvor, uma exaltação criativa -, na sua disposição e elevação aos céus… Tecnicamente, a sua concepção é uma reminiscência das torres-campanários, com pináculos, do alto gótico; mas diferencia-se por nelas não existir divisão entre as bases das torres e a sua cobertura, assim como por os contornos dos pináculos apresentarem uma ligeira e harmoniosa curvatura.
Com denodada aversão à rectilinearidade, a cantos e arestas, do mesmo modo, no seu interior, as ogivas góticas (por cima das rosáceas) são encurvadas, as arestas esmaecidas. A impressão é indescritivelmente suave, acariciadora… e de integração, de comunhão e de fusão.
Faltarão, ainda, as fachadas da “Paixão” e da “Glória”. Acrescidas à primeira, já concluída, a do “Nascimento”, consumarão, simbolicamente, os passos da trilogia teológica: as entradas da Fé, da Esperança e da Caridade. Em cada uma delas figurarão 4 torres, dedicadas aos 12 apóstolos. Em louvor à Virgem, situar-se-á uma outra, de 140 metros, sobre a ábside 13, e, sobre o zimbório, ainda outra, de 170 metros, rodeada de quatro menores com o Tetramorfos, erigidas a Jesus. E mais um sem fim de elementos orgânicos da Natureza, brotarão, treparão e emergirão da Matéria.
Neste extraordinário Templo - a obra da sua vida - Gaudí fez questão que cada elemento fosse portador de uma tocante comunicabilidade simbólica. Deixou-nos uma Obra que fala, que vibra - uma “policromia dos sentidos” que nos exalta e nos eleva, pela mão, até à quase intangibilidade da Procura… ou do Ser.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano

1Notas:
1 Consubstancial a dois mundos…
2 … como a “La Pedrera” e a “La Batló”.
3 No caso - tais como ele -, cultores devotos da ordem e da harmonia.
4 A Bauhaus foi uma inovadora escola de artes e ofícios, nascida na Alemanha do pós-guerra, que congregou numerosos adeptos de uma peculiar e vanguardista filosofia da arte. Numa fase posterior e mais consolidada, integrou, num mesmo corporativismo ideológico, uma plêiade de outras escolas disseminadas pela Alemanha, e estendendo-se à Europa. Deteve, na intimidade dos seus bastidores, um impulso e uma actividade de foro ocultista.
5 Típicos ornatos de gesso nos edifícios de traça mourisca.
6 É neste encargo que concebe o espaventoso dragão da gelosia do acesso às cavalariças - numa fantástica alegoria ao encontro de Hércules com o Dragão, na sua viagem ao Jardim das Hespérides.
7 … um mestre das sínteses.
8 Palavra catalã para expressar o ladrilhado miúdo e polimórfico, tão característico das obras de Gaudí
9 Trata-se, verdadeiramente, de duas enormes esculturas de uma serpente e um dragão (ou lagarto) que ladeiam as escadarias que dão acesso ao Parque. Ao cimo, a primeira aparição é a do “templo grego”, com as suas colunas dóricas (cujos desenhos originais o destinavam a ser o “mercado”), concebido em homenagem ao seu amigo e mecenas Eusebi GÃL;ell, dada a sua paixão pelos clássicos.
10 … pela noção e importância que dava à função geracionista das assimetrias, dos ciclos (dos ritmos), das continuidades (que não dos círculos fechados)… - tão cara aos verdadeiros e legítimos ocultistas.
11 O que não tem nada a ver com a filiação em certas corporações. Pessoalmente, acreditamos que estas, de há muito, secaram, não exibindo hoje senão letra-morta, na sua essência, esquecida.
12 Diz Joan Bassegoda, o actual responsável da Cátedra Gaudí (criada em 1956 e instalada, desde 1977, no Parque GÃL;ell), que “talvez mais do que um templo católico, a âSagrada Familiaâ™ respira filosofia oriental. Ela é a ilustração do Grande Livro da Natureza criada por Deus, e que só cabe ao homem copiar…”.
13 Na direcção do altar-mor.

Bibliografia consultada:
“Gaudí - Su Vida, su Teoría, su Obra”, de CÃL;sar Martinell, C.O.A.C.B., Barcelona, 1967; “El Modernismo en EspaÃL;a”, de Mireia Freixa, Editorial Cátedra, Madrid, 1986; “Gaudí e a Síntese Naturalista do Sagrado”, de Fábio MÃL;ller; “Cuadernos de Arte EspaÃL;ol, o4″, de Angel Urrutia NúÃL;ez, Historia Viva, S.L., Madrid, 1991.

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