A importância de decidir

“Tu, que tanto falas em escolher, escolhe! Mas atenção: quando no caminho se apresentam duas opções de vida, não podes escolher as duas ao mesmo tempo. Quando há uma escolha, tens mesmo que escolher!” 1“Tudo é Caminho”, escreveu um dia Fernando Pessoa, com a singeleza e profundidade somente ao alcance de uma mente genial. Por onde poderemos nós começar? Antes de mais, devemos admitir que mesmo o ficar parado pode ser uma opção que, conforme a situação, momento ou circunstâncias, revelará sensatez, lucidez e bom senso ou, pelo contrário, incapacidade para decidir e escolher o rumo mais adequado - o que, neste último caso, acabará por se traduzir em letargia, insensibilidade ou estagnação. É demasiado comum ouvir-se dizer que “somos vítimas das circunstâncias”. Mas não é difícil observarmos que, tão frequentemente, agimos apenas por atracção, repulsão (ainda que em qualquer caso exista alguma obrigação) ou mesmo com acentuada indiferença, face a uma situação, trabalho, dificuldade ou pessoa(s).

Na verdade, tendemos a confundir bastante certos termos e, tantas vezes, julgando-nos livres, pensamos ou agimos de modo submisso ou forçado. Então, de facto, vencem as circunstâncias e, nesse sentido, não passamos mesmo de agregados de sucessivas causas e efeitos (kármicos), de capas ou cascas, que a filosofia ocultista designa por skandhas. Estes espelham-nos o que nos habituámos a pensar que vemos. Se os desvelássemos, o que restaria? Nada? Nunca é demais recordar um dos mais sábios ensinamentos: “Homem, conhece-te a ti mesmo!”

Vítimas ou (co)responsáveis pelas circunstâncias?
Não podemos limitar-nos a olhar-nos, passivamente, como meras vítimas das circunstâncias. Aquilo que vamos sendo e o que nos vai sucedendo, resulta, em muito, de tudo o que ao longo dos anos e de vidas sucessivas temos vindo a pensar, a sentir, a realizar. Daí a afirmação ‘colhemos aquilo que semeamos’, embora o tempo que dista entre a ‘sementeira’ e a ‘colheita’ possa variar bastante. Está ainda longe o dia de descobrirmos e assumirmos, em plenitude, o que realmente Somos. Entretanto, importa irmos entendendo as razões ou raízes das escolhas que determinam o percurso que aqui vamos traçando.

“Vós sois interiormente mais livres do que ousais imaginar. A vossa personalidade, no entanto, prefere aprisionar a águia de luz do que deixá-la voar pelas vastidões rutilantes do reino do Fogo. Teme deixar de sentir-se a si própria quando o ser interior voa para o Sol espiritual ou quando ele retorna com as pérolas colhidas onde frutifica o Karma libertador. A águia de Deus voa no som com a velocidade da intuição. Nada pode detê-la quando já levantou voo; por isso, os receios da pequena personalidade procuram conservá-la em terra. Contudo, os ousados podem entregar-se à vertigem da liberdade e da ascensão. Eles sabem que, se a águia não regressar, isso apenas indicará que a essência da personalidade a acompanhou. Na Nova Era, ficar em terra será, cada vez mais, uma escolha consciente. Vós, que sabeis, podeis escolher imediatamente; se disserdes ‘amanhã pensarei nisso’, tereis escolhido ficar em terra até amanhã” 2

Ser livre
Falamos facilmente de liberdade mas ainda nos custa entendermos que ser livre passa por agir por dever, de acordo com uma opção consciente e lúcida; por entendermos o que é o melhor - simplesmente, o Melhor -, mesmo que não fosse “isso” que mais nos “apetecesse”. O dever está para além de uma qualquer obrigação ou imposição. Relaciona-se com viver segundo os preceitos mais correctos, benéficos, justos e adequados. Ainda que exista alguma obrigação, por exemplo, na realização de um trabalho que não nos satisfaz pessoalmente mas que nos garante a sobrevivência, é possível, em todos os momentos, tentarmos pensar, sentir e realizar o Melhor. Se pensarmos que “depois logo se vê”, “assim serve”, “sinto-me bem assim”, “isso não tem a ver comigo”, etc., se deixarmos sempre as questões importantes para amanhã, arriscamo-nos, por um lado, a desperdiçar o “nosso” tempo e energia e, por outro, a perder oportunidades que nos permitem conhecer-nos um pouco mais, interiormente, e avançarmos no Caminho, tornando-nos mais conscientes e aptos para contribuirmos para uma sociedade e um mundo mais construtivos.
A isso aludiram igualmente, entre tantos outros, alguns conhecidos grupos de rock: “And then one day you find ten years have got behind you, No one told you when to run, you missed the starting gun”1 (Pink Floyd em ‘Time’), ou, “. sometimes it’s seen a strange spot in the sky, a human being that was given to fly”2 (Pearl Jam em ‘Given to fly’). Nós nascemos para ‘voar’, impulsionados pelas asas do pensamento, sob a inspiração do amor e o alento (dos primeiros raios) da intuição. O Caminho pode ser longo, difícil e doloroso. Recordemos as palavras do Senhor (Buda) Gautama dirigindo-se a um seu discípulo: “Não te iludas Ananda, toda a existência é dor; por isso chora a criança, logo ao nascer”. Só que, como tão bem nos transmitiu, a dor advém do desejo pelas coisas e pela existência externa, donde, se conseguirmos cessar esse tipo de desejo, cessará também o nosso sofrimento e alcançaremos a verdadeira liberdade. Para tal, ao nosso ritmo, precisamos de progredir, o que só é possível… caminhando, tomando opções sempre que se impõe qualquer escolha, de modo progressivamente mais consciente.

A hesitação sombria
Um dos problemas com que nos deparamos é que o conhecimento do ‘melhor’ e da verdade nos pode parecer demasiado longínquo, insondável ou inalcançável, no nosso íntimo. O que nos pode levar a hesitações, adiamentos ou precipitações. Atentemos nas palavras profundas e incisivas de um insigne sábio:
“Olhe ao seu redor, meu amigo: veja os ‘três venenos’ devastando o coração dos homens - o ódio, a cobiça e a ilusão; e as cinco escuridões: a inveja, a paixão, a hesitação, a preguiça e a descrença, sempre impedindo-os de ver a verdade.” 3
Entre os maiores obstáculos ao crescimento interior centremo-nos agora na hesitação; “a hesitação - como ‘traço de carácter’ - é tão nefasta como o seu oposto, a precipitação ou impulsividade inconsequente.” 4 A hesitação pode levar ao adiamento contínuo e sucessivo de decisões, conduzindo, em alguns casos, à opressão, à imobilidade, relacionando-se, eventualmente, com o medo (por exemplo de falhar ou de encarar quaisquer consequências de uma opção), com a preguiça, a dificuldade de concentração, de raciocínio lógico-abstracto ou, até, com a negligência face a determinada questão ou a si mesmo, a desesperança, a falta de confiança ou de auto-estima. E como os opostos se atraem, numa “fuga para a frente”, na falta de uma resolução (mais) consciente, uma forma de contrabalançar ou prevenir a hesitação é pela precipitação ou impulsividade, por vezes eivada de emoção ou paixão, senão até de agressividade, como se o facto de realizar algo com sentimento pudesse regular as consequências que daí advêm.
Pode também acontecer que a hesitação, como ‘modo de reagir’ às situações, se mascare de ponderação, quando está associada ao não pensar, ao calculismo pessoal, ao arquitectar de subterfúgios… ainda que se queira transmitir a sensação de estar a avaliar seriamente uma questão. A cumplicidade será uma outra companheira indesejável da hesitação…, do amor e da paz, pois, ao não assumirmos uma decisão, ao nos furtarmos a uma acção ou tomada de posição clara, colocamo-nos no lugar de Pilatos, “daí lavamos as nossas mãos”… e depois logo se vê. Ao hesitarmos demasiado, podemos igualmente privar-nos de adquirirmos aquilo que no fundo mais nos distingue como seres humanos, a auto-consciência, uma vez que, sendo lógico que “nada se nos depara ou nos acontece que não estejamos preparados para o encarar”, então, estaremos a furtar-nos de descobrir o que em nós anseia por brotar. Nessas circunstâncias, a hesitação pode também ligar-se à dificuldade em lidar com o novo, o inesperado ou o diferente, ocultando a falta de criatividade, flexibilidade mental, adaptabilidade ou um ‘deserto de ideias’.
Alguma hesitação poderá ainda relacionar-se com um estado de tensão. E pode mesmo, essa espécie de hesitação, ser equilibrada, correspondendo realmente a uma adequada ponderação, quando não se impõe uma decisão imediata, que permitirá uma escolha em consciência. Mas, caso se imponha uma escolha imediata, ou algo de Maior esteja em causa, não podemos hesitar! Em qualquer caso, a aprendizagem e a evolução não se processam em “linha recta”. Nós aprendemos, tantas vezes, à custa de tropeções, erros, enganos, … só não se engana quem nunca tenta. E o tentar implica sempre alguma diligência, tensão … e risco, implica, por vezes, não ceder à hesitação exagerada, vencer o medo … amadurecer e progredir.

A coragem de ter medo
- a importância de decidir
Lembro-me de ter lido há vários anos, era ainda criança, uma frase de Marco Aurélio, num livro de banda desenhada que não mais esqueci: “A verdadeira coragem é saber dominar o medo.” Nada devemos recear senão nós mesmos. Recordo-me também de ver, mais tarde, num filme de ficção (que os nossos críticos se apressaram a catalogar de “filme de fantasia para crianças”), uma cena em que um guerreiro, na sua demanda para tentar salvar o mundo (e quem entre nós não teve esta grande ‘ilusão’ de querer salvar o mundo?), chegou a um local distante, no “oráculo do sul”, onde se deparou com a prova mais dura e devastadora entre todas (a tal ponto que ninguém a ultrapassara antes): olhar-se no espelho e observar-se a si mesmo, nas suas qualidades e defeitos. O que não podemos deixar de relacionar com a inscrição no templo de Delfos: Nosce Te Ipsum!, ou “Conhece-te a ti mesmo”, remetendo-nos, novamente, para sábios como Sócrates, Pitágoras ou Platão, na Antiguidade clássica. A verdade pode ser bem dura de olhar. “A maior coragem é não ter medo da verdade.” 5
Num filme mais recente, Braveheart (quem não o viu?!), que se reporta ao séc. XIV, há uma cena em que William Wallace, liderando um escasso grupo de escoceses (sons of scotland ou warrior poets, como lhes chamou), na sua maioria camponeses esfomeados e munidos de armas rudimentares que eles mesmos forjaram, os incita no campo de batalha a lutar pela liberdade (a Escócia era domínio da Inglaterra) contra os tiranos invasores, numerosos e fortemente armados. Alguém diz que é melhor fugir, ao que Wallace responde: “sim, podem fugir e podem sobreviver, pelo menos durante algum tempo; se lutarem podem morrer mas, daqui a vários anos, quando estiverem a morrer nas vossas camas, será que não gostariam de trocar todos os dias que viveram por uma única chance de voltar aqui e dizer aos nossos inimigos que podem tirar as nossas vidas mas nunca poderão retirar-nos a nossa liberdade?!” Então, sem hesitar, todos optaram por lutar, e juntos conquistaram a independência para a Escócia.
Também nós, no dia-a-dia, nos deparamos com múltiplos desafios, confrontos, obstáculos… e ‘pequenos nadas’, em nada inócuos, que imploram a nossa capacidade de decidir. Voltando à ‘História Interminável’, no filme como no livro, Michael Ende escreve que “o nada é o vazio que fica quando o Homem deixa de imaginar”, sendo esta uma ideia essencial na sua (nossa) fantástica epopeia. Este mundo alimentado pela imaginação foi chamado de Fantásia. Mas Fantásia está a morrer porque as pessoas começaram a perder a esperança, esqueceram a razão de ser e os seus sonhos, hesitaram demasiado e tornaram-se facilmente controláveis; como tal, o Nada assumiu uma face sombria (e desdobrou-se em egoísmo, maldade, mesquinhez, ignorância e até cumplicidade e passividade), expandiu-se, volveu-se cada vez mais forte e, como o desespero, vai engolindo pessoas, locais e cidades, destruindo este mundo. Só que Fantásia pode sempre surgir de novo, renascer, expandir-se e reerguer-se… simplesmente por não ter limites nem fronteiras. Assim o queiramos e mantenhamos acesa a chama da esperança.

(A esperança) Por um mundo melhor
“Agarrai na esperança. A esperança legítima é feita da substância da certeza. Ela está alicerçada na inabalável confiança na força da evolução, que decorre do Conhecimento, volvido Sabedoria, das Leis Universais. Agarrai na esperança e, como a abelha, concretizai-a em certeza, com o fruto da vossa emanação - a secreção do vosso intenso labor” 6
Ainda que tenhamos muitos momentos de tristeza e de desilusão, não podemos deixar-nos vencer pelo desânimo nem podemos deixar de tentar, sempre, da maneira que nos pareça a mais adequada. E sempre que se impõe uma decisão, não tenhamos dúvidas de que uma opção terá mesmo que ser tomada pois, se não formos capazes de vencer a dúvida, a hesitação ou o medo, ou se não optarmos em consciência, algo ou alguém optará por nós.
Se “tudo é Caminho”, este apenas se poderá fazer Caminhando. Num mundo de ilusões e impermanência, precisamos manter-nos ligados ao que verdadeiramente nos une, define e importa, com a noção de que cada momento é único, irrepetível e inolvidável. Assim, tentemos não perder tempo nem desperdiçar energia, inutilmente. Conta-se que entre o rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda era bem conhecida uma afirmação que eles entoavam quando se reuniam, e que nós, com reverência, transcrevemos:
“Que Deus nos conceda a sabedoria para distinguir o bem, a vontade para o escolher e a força para que dure!”

Abílio Oliveira
Engo Informático; Psicólogo Social; Assistente do DCTI no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; Autor dos livros: “O Desafio da Morte”,
“Olhar Interior” e “Sobreviver”

Notas:
1 excerto do livro “Sementes e Pérolas”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1989, pág. 20.
2 excerto do livro “Pérolas de Luz (vol. II)”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1991, pág. 16.
3 palavras do M. Koot-Hoomi - excerto do livro “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett (vol. I)”, Editora Teosófica, 2001, pág. 214.
4 palavras de Isabel Governo no artigo “A hesitação”, Biosofia o 19, Outono 2003, pág. 54.
5 excerto do livro “Sementes e Pérolas”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1989, pág. 13
6 excerto do livro “O Sétimo Círculo - A Coroa de Liberdade”, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1995, págs. 128-129.

Tradução:
1 “… e um dia descobres que dez anos passaram por ti, ninguém te disse quando deverias correr, e perdeste o tiro de partida”
2 “… por vezes observamos um estranho ponto no céu, um ser humano que nasceu para voar”

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