Algumas Reflexões sobre o Karma

No número 19 da “Biosofia”, em artigo dedicado a Alexandria 1 - aos grandes eventos ali ocorridos, às figuras notáveis que viveram naquela cidade e ao labor que desenvolveram -, dissemos o seguinte a propósito do filósofo neoplatónico Olimpiodoro: “Sustentou que é na virtude que reside a verdadeira felicidade e que ela deve ser independente de qualquer consideração (sempre ‘egoísta’) sobre castigos ou recompensas, seja na presente vida, seja numa futura”.

Uma Ética Superior e Activa
Esta é uma noção que nos é particularmente cara e sobre a qual temos insistido em diversas ocasiões e oportunidades. Aproveitámos a referência a Olimpiodoro para lhe fazermos nova alusão, que agora desenvolvemos um pouco mais.
Entendemos que uma Ética superior não pode estar baseada no medo e na ameaça de castigos - sejam eles as penalizações humanas, qualquer suposto inferno post-mortem ou, ainda, o aceno de um Karma negativo - nem sequer, no desejo de prémios ou compensações egoístas - sejam eles materiais, sociais ou espirituais. A vivência ética verdadeiramente nobre e digna deve resultar de um impulso espontâneo, autêntico, inteligente (mas não calculista) e amoroso (mas não beato, no sentido comum). Falamos afinal, e também, de uma Ética de Liberdade e, necessariamente, de inegoísmo.

Interpretações Primárias
Ao mesmo tempo, subscrevemos inteiramente a afirmação de que “para sermos virtuosos, não basta estarmos isentos de culpas de um mal; é necessário termos plenamente desenvolvidas as qualidades e estruturas materiais das virtudes” 2, no que, aliás, também insistimos desde há muitos anos. Limitar-se, passivamente, a não se fazer mal (ou a julgar que não se faz…), de uma forma cinzenta, comodista e omissa quanto a uma prática benéfica e altruísta, não significa realmente qualquer virtude.
Lamentavelmente, até mesmo de algumas noções (regra geral, bastante simplistas) sobre a Lei do Karma, se parte imediatamente para extrapolações mesquinhas, auto-centradas e eivadas de ambição ou de interesseirismo pessoal. Em meios ditos espiritualistas, é tristemente habitual ouvir frases como “Temos que nos portar bem porque os Mestres estão a ver-nos (!!!) e podemos ter um mau Karma”, “Não me vou misturar com más companhias, porque acabo por gerar também um mau Karma para mim”, “Vou fazer isto, porque serei karmicamente recompensado/a” e outras de idêntico teor.

Karma Colectivo
Uma tal estreiteza de concepção do que seja o Karma conduz, igualmente, a que quase nunca se ponderem a noção e as implicações de “Karma colectivo”.
Como Lei de Causa-Efeito ou de Re(equilíbrio) - significando que toda a causa tem necessariamente o(s) seu(s) efeito(s), e que cada efeito (qualquer circunstância, em qualquer dos mundos) é consequência de uma causa -, o Karma abrange tudo e todos no Universo manifestado. É mesmo considerado a Lei por excelência.
Tudo quanto existe é densificação do Akasha (a Luz Astral, nos níveis inferiores), e a elasticidade é uma das características mais proeminentes desse Espaço continente de toda a manifestação (ou animação) cósmica. Por essa inerente elasticidade, o substrato do universo reajusta-se ou reequilibra-se continuamente. O ovo áureo de cada indivíduo, formado de substância akáshica diferenciada, tem sempre os seus próprios registos e arquétipos kármicos (como cada Homem espiritual é o Logos de si mesmo, da sua manifestação externa, assim aquele é o seu Senhor do Karma). Podemos dizer que a compensação dos opostos é o próprio equilíbrio ou estabilidade em manifestação dinâmica.
Todos os seres nos Universos manifestados - e não apenas os seres humanos - têm Karma, e assim acontecerá até à sua plena reassunção no Seio do Absoluto. Os animais, as plantas ou os minerais têm Karma, visto que este não concerne unicamente aos aspectos morais, ao contrário do que em geral se supõe. É verdade que existe um género de Karma de tipo moral (aquele mais habitualmente referido, por dizer respeito de modo mais definido ao ser humano), que pressupõe a inteligência ou mentalidade minimamente organizada, e de que decorrem responsabilidades pessoais - em termos de méritos ou de deméritos. Este particular funcionamento da Lei do Karma é de fundamental importância mas de modo algum a esgota. Em outro sentido, há um género relevante de Karma, um pouco mais abarcante que o anteriormente mencionado, que actua apenas onde existe determinação de vontade. Não está aqui em causa a Vontade Espiritual (ÃL;‚tman) mas o impulso de desejo (atracção) ou o contrário (repulsão), que o princípio Kâmico, ou melhor, Kâma-Manásico proporcionam (como sucedâneo, neste nível inferior, da Vontade Espiritual). Nesta acepção, o Karma funciona relativamente aos Reinos Humano e Animal, embora em níveis e amplitudes de responsabilidade distintas. Na definição mais englobante, porém, a Lei do Karma rege todos os seres de todos os Universos; não é simplesmente moral mas, sim, vital, inerente a toda a manifestação de Vida - e o Cosmos está prenhe de Vida, É a própria Vida.
Existem muitos tipos de Karma Colectivo, designadamente:
- Karma Sistémico; Karma Planetário; Karma de cada um dos Reinos da Natureza, nomeadamente o Humano; Karma Racial; Karma Sub-Racial; Karma Nacional; Karma Grupal (de diferentes tipos de grupos); Karma Familiar, etc.
Este último “etc.” significa que existem muitas entidades colectivas intermédias que, de modo idêntico, têm Karma.
ÃL;€ medida que o estudante vai progredindo no seu entendimento e abarcância da Ciência Oculta, e lendo com maior perfeição as Leis Universais em camadas mais profundas do Akasha, a sua perspectiva e o seu interesse vai incidindo cada vez menos no Karma individual e mais e mais no Karma Colectivo. As questões kármicas colectivas, por um lado, revestem-se de uma dignidade maior, devido à sua mais ampla abarcância, merecendo pois um maior detenimento. Por outro lado, a generalidade dos seres humanos possui ainda tão escassa definição própria - é tão determinada por factores hereditários e sociológicos, tão determinada pela alma colectiva da humanidade e pelas correntes psíquicas invisíveis -, que o seu Karma individual pouco se destaca daquele que caracteriza e condiciona a massa humana. Não obstante, por regra, toda a atenção (em conformidade com uma postura de individualismo pessoal) vai para o Karma de cada um: o do próprio, com o fito calculista de evitar sofrimentos e obter prazeres (como, por vezes, o contentamento de alcançar uma evolução supostamente especial e proeminente); o dos outros em redor, habitualmente para se remoer e insinuar que o que de mau lhes acontece é por isto ou por aquilo (como se alguém fosse conhecedor do Karma alheio, quando nem o próprio verdadeiramente conhece!), para asseverar que não aprenderam esta ou aquela lição, para proclamar, enfim, que são reprováveis!

Modos subtis de Karma
Em função do mesmo superficialismo imediatista, as noções sobre as relações de causa-efeito subjacentes à Lei do Karma são quase invariavelmente de carácter muito rasteiro e primário: “… se fulano tem um defeito físico é porque provocou o mesmo (!!!) defeito físico em alguém, numa outra encarnação”; “Tal pessoa é muito rica… é porque tem um Karma muito bom…”; “Vivem na pobreza… é porque foram muito maus noutra vida”, etc, etc. Depois, vem a pergunta exibida com ar de grande entendimento: “Não sei se se deve ajudar aquela pessoa, porque não sei se será bom para o seu Karma!..”.
Pelo contrário, mesmo do ponto de vista individual, é muito, muito raro vermos questionadas, reflectidas e tomadas em linha de conta as causas passadas ou as sementes de um Karma futuro de potencial de conhecimento ou de ignorância; de sensibilidade refinada ou de embotamento; de altruísmo ou de egoísmo; de riqueza ou de vazio interior. Estes mais subtis géneros de Karma (tanto considerados do ponto de vista das causas, quer dos efeitos) são ignorados e negligenciados - apesar de serem eles os mais importantes.
A Lei do Karma é perfeitíssima e majestosa; não devemos rebaixar a sua compreensão com as nossas tendências pueris, míopes, egoístas.

Em Jeito de Síntese…
Entretanto, procuremos fazer uma síntese fácil de entender:
O Universo é regido por Leis e, nele, reina, soberana, a mais absoluta e rigorosa justiça.
Todas as Entidades vão recebendo exactamente o que os seus méritos ou deméritos justificam, ponderados o seu grau relativo de responsabilidade ou livre-arbítrio.
Ninguém está impossibilitado de gerar as mais venturosas e frutíferas condições futuras, embora tenha igualmente um espaço (ainda que limitado) para criar as condições opostas.
A Justiça Universal é rigorosa e inabalável mas compassiva e amorosa na sua execução, trazendo para cada um apenas o que pode suportar em cada momento e que lhe permita aperfeiçoar-se e caminhar para um futuro mais radioso 3. Cada Ser é o Bem e a Lei, e nesta trindade (Ser, Bem, Lei) encontra fundamento a perfeita compatibilidade entre Justiça e Compaixão.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 Cfr. “Um Dia na História”, pp. 21 a 36.
2 Humberto Álvares da Costa, “A Lei do Karma”, Lisboa, 1997.
3 In “Cartas de Luxor” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2000).

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