Máquinas

Em alguns aspectos, a nossa civilização está cada vez pior. Por exemplo, na tremenda engrenagem social, em que nos tornamos - ou somos convidados a tornar-nos - máquinas ao serviço de exigências, deveres e até direitos que nos escravizam e desumanizam. Que nos mantêm numa contínua alienação de nós mesmos e de vivências profundas e criativas. Que nos volvem em instrumentos, em lugar de sujeitos conscientes. Prazos, papéis, horários, registos, taxas, entrega de impostos, deduções e benefícios fiscais, pagamentos disto, daquilo e ainda de mais coisas, concursos, promoções, despedimentos, subsídios, participações, notificações, comprovativos… um nunca acabar de obrigações, uma teia infernal de compromissos, uma rede aprisionadora de imposições, ónus e diligências!

Perante isto, se não capitulamos, volvendo-nos em simples peças da gigantesca máquina social (que é o que, possivelmente, faz a maioria), restam somente duas hipóteses, qual delas a mais tremenda: viver numa contínua fricção, com todas as obrigações impostas pelo mundo externo e pela engrenagem da complexa vida contemporânea, ou tornarmo-nos numa espécie de párias, sempre acossados e olhados de esguelha pelos homens de “sentido prático”.
Mas… tem algum “sentido prático” esta correria louca, este desejo irracional de (ter sempre) mais coisas, esta criação contínua de novas complicações? Não será antes um sonho disparatado que se transformou em pesadelo e de que temos, todos, de acordar?

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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