HORTAS nas Escolas

Pátios cimentados e canteiros abandonados deram lugar a hortas-jardins em muitas escolas. Cavar, semear, mondar, regar deixaram de ser meras palavras do dicionário - são tarefas habituais para alunos, professores e auxiliares de educação, que trabalham lado a lado. O projecto Viver a Botânica na Escola tem proporcionado a formação de professores e prepara-se para apoiar a criação de mais hortas escolares, neste novo ano lectivo.

“Alguém me sabe dizer o que é isto que vocês têm na vossa horta”, perguntámos em jeito de provocação. E logo dispararam as respostas dos miúdos, com o dedo indicador em riste: “cebolo, alfaces, couves, salsa, morangueiros, hortelã, coentros, tomateiros, amendoins, abóboras, papoilas, alhos, poejos, feijão, pimentos, malaguetas, nabiças, ervilhas, batatas…” Olhando de repente, não dava para imaginar que tudo isso estivesse naquele pequeno canteiro, situado atrás de um dos pavilhões da antiga escola primária de Caneças (EB1 o1, como agora lhe chamam). “São os nossos legumes”, diziam com orgulho, enquanto sacudiam a terra das mãos, “não nos importamos nada de vir para aqui, é mais fixe do que estar dentro da sala”. Só nesta escola, 86 crianças estão directamente envolvidas na horta pedagógica.
ÃL;�s portas de Lisboa, o recém formado município de Odivelas iniciou há 4 anos o programa Hortas Pedagógicas, que hoje abrange 33 escolas de todos os graus de ensino, desde jardins de infância a escolas secundárias. Muitos destes alunos nunca tinham “mexido” na terra antes, o que não é surpresa num meio acentuadamente urbano. Mas muitos professores também não. A falta de conhecimentos teóricos e práticos para implementar ou dar continuidade a hortas como estas, pode ser colmatada através das acções de formação levadas a cabo pelo Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, que em Setembro de 2003 lançou o projecto Viver a Botânica na Escola.

Ensinar a “hortelar”
Há quem chegue a adulto sem nunca se ter apercebido como é intenso e único o cheiro da terra molhada! Sem saber distinguir um pé de feijão de uma batateira… Não admira que as crianças de muitas escolas continuem a pensar que as hortaliças sejam produzidas nas fábricas! “As hortas-jardins podem ter um papel fundamental, tanto do ponto de vista estético como educativo; funcionam como um espaço de descoberta e aprendizagem directa de muitas matérias que são abordadas na sala de aula. Mas, acima de tudo, dão à criança a oportunidade de se ligar à Natureza, de sentir que faz parte dela, que tem um lugar e um papel a desempenhar, tal como todos os outros seres”, comentou Cristina Baptista, a engenheira do ambiente que está à frente do projecto Viver a Botânica na Escola.
“Eu própria, quando iniciei este projecto, não tinha a percepção de como as hortas pedagógicas podem servir de ponto de partida para abordagens tão ricas e diversificadas, como a educação alimentar, a conservação da Natureza, técnicas de jardinagem, o estudo do solo e das plantas, a construção de ninhos para aves, criação de joaninhas…”, os temas não param de emergir. Neste primeiro ano, 46 professores (do 1o, 2o e 3o ciclos do ensino básico) receberam formação, num total de 50 horas. “Estiveram presentes professores de todas as áreas - Educação Visual, Matemática, História, Educação Física… mas só alguns tinham experiência directa com as hortas ou jardins, por isso foi necessário explicar tudo”, referiu Cristina Baptista.
As hortas-jardins seguem os procedimentos da agricultura biológica, e “o nosso objectivo é evitar que os professores ou os alunos façam as coisas apenas porque alguém lhes disse que é assim que se faz. Mostramos os gigantescos impactes ambientais associados à agricultura convencional, comparamos a qualidade dos alimentos biológicos e convencionais, reforçando a necessidade de se promoverem formas mais saudáveis e sustentáveis de produzir os alimentos”. As crianças ficam afastadas de substâncias potencialmente tóxicas e, ao mesmo tempo, descobrem que afinal muitos dos insectos (joaninhas, aranhas…) e outros animais (sapos, lagartos) não só são inofensivos como são muito úteis. “Estimula-se o respeito pelas diferentes formas de vida”.

Todos ajudam
A ideia é muito bonita mas é difícil de pôr em prática, pensam muitos professores. De facto, “é preciso, antes de mais, ter vontade e depois procurar os apoios certos. Praticamente não compramos nada, os pais e os avós mandam pacotinhos de sementes e até algumas plantas que têm na horta deles para nós as utilizarmos na nossa, um horto aqui perto oferece-nos terra e estrume sempre que precisamos, uma carpintaria está a preparar placas de identificação para colocarmos na horta e nos canteiros… há um grande envolvimento da comunidade e isso faz com que os alunos se sintam ainda mais motivados”, comentaram Maria de Lurdes Santos e Isabel Cristo, as professoras que impulsionam a horta pedagógica da escola de Caneças.
Todas as hortas escolares do concelho de Odivelas beneficiam do apoio directo da Câmara, que tem disponibilizado “ferramentas, terra, estrume, sementes e algumas plantas. Com o aumento das escolas envolvidas, deixámos de ter capacidade para preparar os terrenos, e agora são, sobretudo, as juntas de freguesia que disponibilizam alguém para colaborar nas tarefas mais difíceis”, disse Manuela Pacheco, do Departamento do Ambiente da Câmara Municipal de Odivelas. “Temos reuniões conjuntas com as escolas e as juntas de freguesia, três vezes por ano, para acompanhar os projectos e avaliar as necessidades que vão surgindo”.
Cada escola procura ter o “avô da horta, que pode ser o pai de um aluno, um familiar, um vizinho… que dedica parte do seu tempo à horta da escola”. Em Caneças conhecemos a Dona Joaquina, com as suas mãos fortes e gastas do tempo, a semear sorrisos e pevides de abóbora com os alunos, num canteiro recuado da escola. “É a nossa avó da horta”, auxiliar de acção educativa que ocupou o lugar do Sr. Armindo, antigo Jardineiro da Câmara.
“Durante as férias o pessoal auxiliar tem instruções para regar e tratar da horta mas nós passamos por cá na mesma, para verificar se está tudo bem”, contou a professora Lurdes. No recreio lá está a casinha das rolas, dos piriquitos, dos pombos e de um faisão, que já se habituaram à presença ruidosa dos miúdos. Na entrada, a pequena ameixoeira esforça-se por passar despercebida até que os frutos ganhem cor… “Temos também uma nespereira, um pessegueiro, uma tangerineira, um abacateiro e uma amoreira”. Os alunos agradecem.

Opções ecológicas
Assegurar a qualidade dos solos é um factor muito importante para o sucesso das hortas escolares. “Temos explicado como se faz a adubação verde e a compostagem, e temos dado uma atenção especial à utilização de certas plantas, como as urtigas, que são excelentes fertilizantes e protectores contra pragas e doenças”, disse a engenheira Cristina Baptista. “Trabalhos muito interessantes podem ser feitos dentro da sala de aula: por exemplo, a montagem de um vermicompostor que, entre outros aspectos, ajuda a clarificar o conceito de material biodegradável e permite observar a actividade dos invertebrados e dos microorganismos”.
Na escola de Caneças, o compostor foi estrategicamente colocado à sombra de uma árvore. Lá dentro, asseguram os miúdos, estão “as folhas das árvores que caíram no pátio durante o inverno, as folhas velhas da horta, restos de legumes, cascas de ovos e de fruta”. Mas atenção, “não se pode pôr as cascas dos citrinos!” E de imediato alguém se lembrou que “amanhã vou trazer montes de cascas dos ovos, porque a minha avó faz rissóis para vender”. O estrume é uma das melhores matérias primas para o composto; contudo, adverte Cristina Baptista, “a incorporação de resíduos de origem animal frescos, sem prévia compostagem, leva ao desenvolvimento de parasitas”. A saúde das plantas pode ficar em risco.
A precaução é um dos princípios básicos da agricultura biológica. “Para evitar o empobrecimento dos solos e diminuir o risco de pragas e infestantes, é fundamental a rotação das culturas e a consociação de plantas, isto é, cultivar plantas diferentes na vizinhança umas das outras”. Por exemplo, o trevo branco diminui a lagarta da couve-repolho, o linho repele o escaravelho da batata. As ervas aromáticas também têm um efeito protector (de doenças) e repulsivo (de insectos) muito eficaz. Daí a opção pelas hortas-jardins.

Muito mais saborosos
Algumas escolas preparam os legumes da horta na cantina para todos poderem prová-los, mas aqui não há refeitório, por isso “vamos a uma sala de aula e sorteamos a couve ou o que tivermos, para o aluno levar para casa”. E eles garantem “que os legumes da nossa horta são muito melhores do que os que se compram no supermercado, somos nós que cuidamos deles!” Também já aprenderam a fazer germinados, com sementes de agrião, trigo e centeio, e provaram os rebentos, que são muito nutritivos.
Quase sempre surgem algumas resistências: “ao princípio os colegas faziam troça por comermos sementes ou por passarmos a utilizar o calendário lunar para fazer as sementeiras; mas agora são eles próprios que procuram na internet as informações para levar para casa!”, comentou Isabel Cristo. “Com a experiência da horta, é muito mais fácil falar com os alunos sobre a necessidade de mudar hábitos alimentares, eles compreendem e aceitam melhor”, acrescentou Lurdes Santos.
As acções de formação do programa Viver a Botânica na Escola têm decorrido em Odivelas, uma vez que “foi feita uma parceria com a Câmara, que fez uma excelente divulgação do projecto junto dos professores”, referiu Cristina Baptista. Estão previstas novas acções de formação para Outubro, em local ainda por definir.

Vale a pena
Por que não existem mais hortas escolares no nosso país? Um dos maiores obstáculos é, sem dúvida, a mobilidade dos professores e a carga horária excessiva. “Todos os professores deviam ter a certa altura uma espécie de licença sabática, que os libertasse das aulas e lhes permitisse desenvolver projectos como este, dando apoio aos alunos mas também aos colegas”, defende a professora Lurdes que, tal como a colega Isabel, usufruem dessa rara situação. E lançam o repto: “é a partilha de experiências que mais nos motiva e impulsiona. Ver nos manuais não é a mesma coisa. A formação tem sido muito rica e útil, não só para implementar na sala de aula, mas também para conhecimento pessoal. Mudámos muita coisa”.

Criar uma horta-jardim
O projecto Viver a Botânica na Escola dá inúmeras ideias de como desenhar uma horta-jardim, em função do espaço exterior da escola, dos meios disponíveis, da idade dos alunos e do tema que se pretende estudar. Oferece sugestões simples e fáceis de realizar para, por exemplo, converter um recreio cimentado numa horta, aproveitar espaços pequenos, improvisar vasos e contentores (fazendo uma cercadura com pneus velhos…), seleccionar plantas aromáticas e medicinais, planear canteiros sobre-elevados, percursos de texturas, casas nas árvores, túneis, corredores, cercas, etc… Ensina a cuidar dos solos, a controlar as pragas e as doenças nas culturas, sem recorrer a químicos. Os professores podem solicitar o acompanhamento e a supervisão no terreno. F

Texto e fotografias:
Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social, jornalista colaboradora de várias publicações

Informações: Tel.: 21 392 18 29
e-mail: eabotanico@fc.ul.pt

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