Que lacrau?

Estamos habituados a pensar no escorpião como uma ameaça. Sabemos que a sua ferroada é terrível, e supomos que estes animais não têm préstimo na natureza!

No entanto, não é assim. É bem certo que todos os seres na natureza - todos, mas mesmo todos! - têm o seu próprio lugar legítimo e nobre, e, enfim, que nada é desprovido de utilidade. Cabe-nos indagar, conhecer, entender cada expressão de vida. O que nos falta é empatia - para que pudéssemos viver em harmonia e plenitude.
Ora, no que concerne ao escorpião (em Portugal, também chamado lacrau), objecto da nossa atenção de hoje, este animalzinho parece ter consigo um segredo. O seu temível ferrão pode ser portador da cura para um número significativo de doenças ameaçadoras, algumas até hoje fatais.

Um Pouco de História
Só muito recentemente a Ciência médica se tem ocupado da investigação da química dos venenos, da semelhança das suas estruturas proteicas com estruturas proteicas humanas e, bem assim, da interpretação das reacções no corpo humano à sua inoculação. Até agora, apenas os chamados curandeiros e a medicina popular, em diferentes regiões do globo, utilizavam os venenos das múltiplas espécies de escorpião para fins terapêuticos.
No nosso país, particularmente na década de 90, foi muito popular uma prática de cura por picadas controladas de escorpião, levada a efeito numa pequena aldeia do interior por um intuitivo das medicinas alternativas. O efeito destas picadas - numa ou mais sessões, dependendo da natureza ou da gravidade do caso - destinava-se a estimular a imunidade dos pacientes e tinha uma taxa de sucesso bastante satisfatória num considerável número de afecções agudas e crónicas.

Do mesmo modo, há muito que o veneno de escorpião tem merecido um lugar particular na medicina popular cubana, a ponto de, nas últimas décadas, ter cativado a atenção e o respeito de investigadores académicos conceituados.

Num congresso em Havana, foram apresentados estudos promissores sobre o efeito do veneno de algumas espécies de escorpião - em particular, o Rhopalurus junceus (o escorpião azul), e o mais comum Tityus serrulatus (o escorpião amarelo) - no tratamento de tumores, principalmente cancerígenos. O trabalho desta equipa iniciou-se na década de 90, em Guantanamo: trataram-se pacientes oncológicos com um soro de uma das toxinas presentes no veneno e efectuaram-se testes que revelaram a paragem de crescimento tumoral, uma reversão dos efeitos inflamatórios bem como das dores que acompanham este tipo de patologia.

Em paralelo, resultados igualmente satisfatórios foram obtidos em doentes com insuficiência renal, com a doença de Parkinson, com doenças metabólicas graves, e outras.

Nos anos que se seguiram, levou-se por diante a pesquisa e fez-se o ensaio em mais de 50 mil pessoas em Cuba, e em muitas outras no México, na Colômbia, na Argentina, na Espanha, na Itália, na Holanda e nos Estados Unidos. O fármaco, denominado Escozul, “encontrou uma resposta positiva em 97% dos pacientes com tumorações malignas”, segundo afirma o responsável pelo projecto, Dr. Misael Bordier. Este produto tem vindo também a ser testado, com resultados alentadores, num grupo de pacientes com SIDA num hospital universitário em Nbarara, Uganda, onde trabalham médicos cubanos 1.

Um estudo similar tem sido levado a cabo no México, onde o veneno de uma espécie autóctone tem sido tratado e reduzido a um soro com efeitos surpreendentemente eficazes no tratamento de tumores cerebrais. Curiosamente, diz a tradição que, durante a dominação espanhola, os curandeiros do Iucatão eram tidos por milagreiros e utilizavam uma panaceia com ingredientes à base de ervas e venenos de escorpião e de lagarto.

A par deste estudo incidente em tumores cerebrais, uma equipa de médicos em dois dos mais renomados centros de pesquisa norte-americanos - City of Hope, de Los Angeles, em cooperação com a Universidade de Alamama, de Birmingham (UAB) - tem utilizado uma versão sintética de uma toxina (clorotoxina) de veneno do escorpião no tratamento de uma das mais mortais formas de cancro cerebral, o glioma.
Entretanto, muito recentemente, uma equipa de cientistas italianos e brasileiros descobriu que o veneno de escorpião tem o poder de multiplicar as ilhotas de Langerhaus, constituindo assim uma fundamentada esperança no tratamento da diabetes. No Brasil pesquisam-se, nomeadamente, as propriedades do veneno do escorpião preto (o Tityus bahiensis), indígena, em especial, das terras baixas da floresta equatorial.

Aqueles cuja picada mais riscos traz aos seres humanos são originários do norte de África e do Médio Oriente (Androctonus, Buthus, Hottentotta, Leiurus), América do Sul (Tityus), Índia (Mesobuthus) e México (Centruroides). O veneno é uma mistura química complexa, principalmente composta por peptídeos de baixo peso molecular. Mais de 100 destes peptídeos já foram isolados e o seu estudo prossegue. Em diversos venenos de escorpião, segundo as espécies, foram encontrados múltiplas neurotoxinas, histamina, seratonina, enzimas, inibidores de enzimas, aminoácidos, minerais e oligoelementos (como ferro, níquel, enxofre, silício, fósforo, zinco, manganés, crómio, chumbo, alguns destes em quantidades muito residuais) e outros compostos ainda não identificados. Naturalmente, a toxicidade dos venenos, e outras relevantes características, variam de espécie para espécie; mesmo dentro de cada uma, pode haver variações importantes. A ocorrência de morte por envenenamento escorpiónico resulta de falência cardio-respiratória algumas horas após o acidente.

A reacção imediata à inoculação do veneno, varia também, naturalmente, de espécie para espécie, em função da quantidade de veneno que o escorpião injecta em cada picada (o que, partindo do mesmo animal, pode variar) e do peso corporal e estado de saúde geral da vítima. Contudo, os sintomas, mais ou menos intensos, tendem à semelhança: alterações do ritmo cardíaco, alterações da tensão arterial, sudação e salivação profusas, hipotermia, secreção gástrica e pancreática aumentadas, desordens na motilidade intestinal e, em casos graves, convulsões e alterações acentuadas da consciência 2.

A diversidade de Escorpiões
Actualmente, enumeram-se cerca de 1500 espécies e sub-espécies de escorpiões, divididas em 16 famílias. Contudo, presume-se que existam bastantes mais, um pouco por todo o Globo.
Os escorpiões são considerados os aracnídeos mais antigos, encontrados até ao momento, tendo uma idade e biomorfologia praticamente inalteradas desde há cerca de 300 a 350 milhões de anos. A sua capacidade de adaptação é singular, sabendo-se que existem espécies capazes de resistir a temperaturas tórridas nos desertos, bem como outras que aguentam literalmente a congelação e o regresso à vida, tendo o seu habitat nas cordilheiras nevadas de algumas das mais inóspitas latitudes.
De facto, não deixa de surpreender como resistem a este fenómeno sazonal, em que o seu corpo congela durante meses para ser depois devolvido, revelando vitalidade impensável, a uma cálida natureza primaveril e, depois, estival.

No presente, desperta ainda a atenção dos investigadores um artrópode marinho afim aos escorpiões, o Limulus, que habita as águas do Golfo do México. Este artrópode possui um extraordinário sistema imunológico. Actualmente, o estudo incide, em particular, na hematologia e na oftalmologia.

Há, igualmente, escorpiões (troglobites) que vivem em cavernas profundas e outros completamente soterrados - os quais, malgrado o seu grande potencial de resistência e sobrevivência, parece não terem ainda sido objecto de estudo. Existem os escorpiões das areias (psammophiles), os que vivem nas regiões rochosas (lithophiles) e outros que têm o seu habitat exclusivo nas alturas das copas de árvores das florestas tropicais, um grande número destes sendo, por isso, ainda não conhecido ou classificado.

Todos eles, porém, têm como característica comum a notável capacidade de jejuar por tempos imensamente prolongados. Em cativeiro, nomeadamente, registaram-se jejuns de até dois anos.
Por outro lado, os escorpiões do deserto são os artrópodes mais especializados em conservação de água. Neste caso, a sua necessidade de água é suprida exclusivamente através do alimento. Os dejectos revelam extrema secura, devido, também, ao elevado teor em nitrogénio, e uma presença exígua de água. Para além disso, o revestimento, fino mas extremamente resistente, do seu exoesqueleto (rico em quitina), confere-lhes impermeabilidade, evitando, assim, perda de líquido corpóreo.

Algumas Sugestivas Pontes e Analogias…
Ao tomarmos conhecimento dos casos de congelamento e restituição à actividade metabólica de certos escorpiões, ocorreu-nos um intrigante paralelo que parece ter um passado na espécie humana.
No território africano do norte do Gana chegaram até hoje relatos de rituais ancestrais em que feiticeiros de tribo conseguiam operar uma “morte com retorno”. Descrevem-se como transes profundos em que os sinais vitais eram anulados - o coração deixava de bater e o corpo ficava frio - e que chegavam a ter a duração de três dias. Estes transes eram conseguidos por meio de uma beberagem cujo ingrediente principal era, precisamente, veneno de escorpião.
Por outro lado, sabemos que foi prática em alguns mosteiros himalaicos (e existem ecos do mesmo, em outros lugares e de outras civilizações) um rito de passagem para outros planos, permanecendo o corpo em vida suspensa por períodos, mais, ou menos, prolongados - i.e., suspendendo as funções vitais e o metabolismo enquanto durasse essa transmigração da consciência individual. Pelo menos em alguns destes casos, um procedimento preliminar era o da ingestão de certa bebida “iniciática” (preferimos a palavra “sagrada”) que mais não era do que o suporte, no plano físico, que propiciava a manutenção da coesão molecular, impedindo a desintegração do corpo e assegurando a continuidade de ligação do “fio da vida”. Evidentemente, não sabemos de que era constituída essa bebida (presumivelmente de origem vegetal); mas supomos que os princípios do ou dos seus ingredientes sugeririam ter propriedades afins com algumas que são hoje indagadas no veneno de escorpião. Com efeito, sabe-se que os alcalóides de algumas espécies vegetais possuem propriedades muito idênticas às presentes em algumas toxinas animais 3.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1 A extracção do veneno é feita sem dano para o animal. Misael Bordier testemunha que “são mantidos os escorpiões em caixas cheias de terra húmida e com muitos insectos, os quais lhes servem de alimento. Quando atingem um ano de idade, é-lhes, então, extraído o veneno, aproximadamente de 20 em 20 dias, durante um certo período, e depois são devolvidos à liberdade e integrados no seu habitat natural”.

2 Precisamente, de há muito, em Homeopatia, o veneno de escorpião vem sendo utilizado em específicos casos de: espasmos e convulsões infantis; vómitos espasmódicos, por vezes acompanhados de sangue, e certas diarreias; paralisias e afecções múltiplas do sistema nervoso central; edema pulmonar, angina de peito, palpitações e outros problemas cardio-respiratórios; ambliopia (cegueira súbita ou progressiva); inflamações locais, acompanhadas de dor intensa.

3 A par disto, existem registos que revelam que um iogui de nível avançado possa auto-produzir o seu sustentáculo à vida física através da actividade controlada da glândula pineal. Ao captar o éter (akasha) - substracto omnipresente, permeando o mundo físico -, transmuta-o (rebaixa-o) em substâncias químicas de primeira ordem - isto é, em água e nutrientes fundamentais e muito puros. Essas substâncias (por vezes designadas “néctar”, “água da vida”, etc.) gotejam, ou suam, por assim dizer, a partir do centro da cabeça, descendo à zona da laringe (às glândulas tiróide e paratiróide) e prosseguindo um percurso endócrino definido, assegurando, deste modo, a vitalização de todo o organismo corporal. Nos seus estados de intensa meditação, ao reduzirem ao mínimo o metabolismo e ao baixarem acentuadamente o nível da respiração, também evitam a perda de água nos processos de expiração. O seu controlo de quietude, endógena e exógena (na meditação prolongada), igualmente concorre para não exsudarem água nem energia. Há relatos de permanências de semanas - alguns, mesmo, de anos - sem comer nem beber e mantendo saúde regular.

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