Quem tem medo de Helena Blavatsky?

Introduzimos neste artigo uma questão que virá ser amplamente tratada nos próximos números da “Biosofia”. Trata-se da incrível edição das cartas de Helena Blavatsky, promovida pela Editora da Sociedade Teosófica (Sociedade por ela fundada há cerca de 130 anos), na qual se incluem cartas que, segundo todos os estudiosos do tema, são espúrias e forjadas por um dos seus mais ferozes inimigos e caluniadores. Nessas cartas, se fossem verdadeiras (contrariamente a toda a evidência), Helena Blavatsky atribui-se a si mesma torpes desígnios e intenções, bem ao arrepio do que foi a sua vida e obra.

Temos o dever de ajudar a repor a verdade face a mais esta ignomínia que recai sobre essa mulher tão extraordinariamente sábia e nobre, a quem a Humanidade tanto deve. É isso mesmo que o nosso amigo Carlos Cardoso Aveline (estudante de filosofia esotérica, com vários livros editados, membro da Associação HPB/Mestres, Ecologista, Jornalista, e habitual colaborador da “Biosofia”) tem vindo a fazer, e de que é exemplo a carta abaixo reproduzida, dirigida a uma outra estudante de filosofia esotérica.

No próximo número da Biosofia, como dissemos, o tema será desenvolvido e explicado pormenorizadamente. E, visto que nada nos move contra ninguém, estando apenas em causa que se faça justiça, e de acordo com princípios de ética editorial, procuraremos também ouvir o que tem a dizer sobre o assunto o Sr. John Algeo, responsável pela publicação em causa, e Vice-Presidente Mundial da Sociedade Teosófica.

José Manuel Anacleto
Chefe de Redacção da Biosofia

CARTA DE CARLOS CARDOSO AVELINE

Brasília, 12 Agosto de 2004
[Aniversário de HPB, de acordo com o calendário ocidental]

Estimada E.,

Muito obrigado pela sua carta de 1 de Agosto, que acabo de receber.
Nela levanta uma série de questões interessantes, que me estimularam no sentido de examinar novos aspectos, ocultos e éticos, sobre toda a questão das cartas e libelos forjados por Solovyov e a adopção inocente dos mesmos pelo experiente editor da TPH (Theosophical Publishing House), Sr. Algeo, erudito e pândita §. (Fazendo um ajuizado uso das minhas melhores habilidades diplomáticas, não mencionarei a sua presumível responsabilidade como vice-presidente internacional da Sociedade Teosófica nem o facto dele ter sido avisado antecipadamente pelo Sr. Nicholas Weeks).
Escreve na sua carta de 1 de Agosto:
“Embora eu esteja satisfeita, evidentemente, por ter participado na chamada de atenção sobre a falsidade dessas cartas específicas, deverá aguardar pela resposta de John Algeo. (…) Parece ter trocado muita correspondência sobre este assunto (o que lhe agradeço), mas sinto que devemos ter cuidado para não desencorajarmos as pessoas a ler o volume I por causa das cartas falsas.”

Já recebi a resposta de John Algeo, datada de 6 de Junho, que anexo. Pode tirar conclusões por si própria. Por favor veja também o texto junto, “Sr. Algeo e as Cartas Solovyov”, para perceber o contexto e o significado da resposta de Algeo. Este documento resume e actualiza toda a investigação e chega a uma nova conclusão na Carta 7.
Quanto ao efeito do trabalho de Algeo sobre as pessoas, gostaria de citar as suas próprias palavras na carta anterior que me escreveu, datada de 11 de Maio 2004:

“Eu tinha começado a ler este Volume apenas há um par de semanas e senti-me MUITO APREENSIVA (letra maiúscula e sublinhado seus, não meus) com algumas delas (especialmente aquelas onde ela parece denegrir o seu próprio passado, a sua proposta de ‘Rússia para sempre’ etc., etc.; e, como a sua carta chegou ontem, estive a reler passagens relevantes de Jean O.F., Sylvia Cranston, H. Murphet, bem como algumas das cartas atribuídas a HPB. Embora ela, é claro, dirigisse muitas vezes provocações por escrito aos seus correspondentes e APARENTEMENTE minimizasse a sua própria importância, que me lembre nunca se denegriu a si própria; nunca! Isso ter-se-ia reflectido n’ ELES.”

Sim, e eu gostaria de dizer que, o facto de se adoptar como verdade essas mentiras cobardes sobre essa alma pura, SE REFLECTE obviamente também NO TRABALHO QUE DESENVOLVEM porque, como Eles deixaram claro várias vezes, HPB, a sua vida e o seu trabalho são os alicerces magnéticos, ocultos, humanos, literários e intelectuais de uma das suas RARAS - VERDADEIRAMENTE RARA 1 - manifestações DIRECTAS na história humana.
Assim, HPB tem que ser atacada por aqueles que preferem fugir da Verdade. Não de forma aberta, é claro, porque tal seria ineficiente. Mas de forma encoberta. Que tal levarem a própria TPH e o vice-presidente internacional da ST, com toda a sua autoridade, a adoptar as mentiras de Solovyov? É uma boa ideia para os fugitivos-da-Verdade, não é?
Mas podemos tomar a sua reacção natural às cartas e, mais tarde, à minha advertência sobre elas como um exemplo claro da reacção natural de qualquer estudante honesto:
1) Desgosto profundo depois da leitura das cartas e, para um leitor inexperiente, certamente a desilusão em relação a HPB como pessoa, o que então quebra uma certa linha magnética ou ligação com as mais elevadas vibrações; e,
2) Depois de ter tido acesso a uma advertência bem documentada, devidamente sustentada com referências a livros e respectivas páginas, o desejo de ler e de conhecer mais e melhor.

Assim, a minha conclusão é que falar sobre a adopção por Algeo dos covardes ataques contra HPB, serve o propósito da verdade, defende o campo magnético dos leitores e estudantes de HPB/Mestres, e estimula um debate aberto, corajoso e confiante sobre a sabedoria esotérica e sobre os seus textos e documentos - que estão sempre cercados e atacados por falsários, mentirosos e afins (como Eles disseram tantas vezes nas suas Cartas).
Devo agora levantar a mim próprio outra questão: “Devemos nós esquecer estas 17-18 cartas e pensar apenas nas outras, nas autênticas? São as cartas forjadas realmente importantes?”
Bem, as cartas falsificadas receberam uma posição de destaque no volume, não dada por mim, mas pelos próprios Sr. Algeo e a TPH. Eu enviar-lhe-ei uma cópia (se me der mostras do mais ínfimo interesse) da vasta publicidade de duas páginas na revista Quest 2 sobre as “Cartas de HPB”. Neste anúncio o Sr. Algeo e a TPH estão orgulhosos de apresentar…
“… Cartas controversas e pitorescas tais como: uma, escrita ao director da polícia secreta Russa na qual HPB se oferece para se juntar às suas fileiras, ou outra, documentando a sua trágica e, na altura, bem humorada, tentativa de criar uma Sociedade de Espiritualistas no Cairo…”
Tudo muito divertido, é claro. É tão engraçado rir do sofrimento de outros. É realmente afectuoso, adorável - mas não para aqueles que buscam a verdade.
“A sua correspondência pessoal”, diz o anúncio, “revela pela primeira vez a HPB desconhecida, na sua complexidade de esfinge, raramente visível no material publicado”.
Ou seja, a verdadeira HPB conhece-se na sua “correspondência privada”. A “verdadeira HPB” inclui todas as mentiras que Solovyov inventou sobre ela - pelo menos de acordo com o Sr. John Algeo, até ele corrigir publicamente o seu erro editorial.
Assim, estas cartas são os grandes títulos. Elas são a atracção. O facto de serem falsas não pode ser posto de lado ou ignorado por quem respeita a Verdade. Especialmente para quem está incumbido do trabalho de editor. Porque qualquer editor sabe que o seu trabalho tem regras e as regras dizem: “uma vez confrontado com um erro editorial, o editor tem o dever formal de o reconhecer e corrigir formal e publicamente.”
E isso responde a uma importante questão que me colocou na sua carta datada de 1 de Agosto: “O QUE ESPERAMOS VERDADEIRAMENTE QUE ELE (ALGEO) FAÃL;‡A?”
Bem, E., eu quero que ele siga, neste acontecimento de menor dimensão, os maiores, mais honestos passos da SPR §§ de Londres que, em 1986, 100 anos depois de Richard Hodgson, disse: “MEA CULPA. Desculpem, mea culpa, nós estávamos enganados.” Mas desta vez não há razão para esperar anos para o fazer.
O livro de Vernon Harrison (publicado pela TUP 3) sobre as acusações forjadas pela SPR contra HPB é um exemplo de coragem intelectual e integridade, uma vez que Vernon Harrison o escreveu como membro da SPR.
Passemos ao presente. Hoje em dia jornalistas e editores papparazzi vendem livros e tablóides contando mexericos (verdadeiros ou falsos, que importa?) acerca da vida privada de pessoas famosas. Eles vendem “histórias controversas e pitorescas” sobre pessoas famosas.
Mas, quando apanhados numa mentira e confrontados com A VERDADE, o que fazem, E.?
Usam a primeira página dos jornais ou os media para dizer: “Desculpem. Estávamos enganados”.
Isso acontece frequentemente no Reino Unido e eu creio ter o direito de esperar que o Sr. Algeo tenha um comportamento melhor que o dos jornalistas papparazzi. Concorda comigo?
Termino parafraseando as suas palavras que citei acima, para dizer que a nossa acção ou inacção relativamente aos ataques à Velha Senhora também se REFLECTEM NELES. REFLECTEM-SE NO TRABALHO QUE LEVAM A CABO.
É por isso que termino esta carta com uma pergunta:
“Ajuda-me, E. (como puder e ao seu próprio ritmo)? Ajuda-me a defendê-la?
Com a maior estima, no aniversário de HPB, este seu colega brasileiro que busca a verdade,

a) Carlos [Cardoso Aveline]

§ Nota do editor - título concedido aos indianos versados no sânscrito, religião, filosofia, etc..
1 Rara, a propósito, porque em geral não merecemos, não trabalhamos para ter direito ao karma correcto para merecer que Eles se aproximem de nós.
2 Revista Quest, Volume 92, o1, Janeiro-Fevereiro 2004, veja a página interna da contracapa e a página anterior.
§§ Nota do editor - Society For Psychical Research. Sobre esta questão, ver a nota 4 na secção “Horizontes de Sophia” e o artigo “Um Dia na História”, a incluir na próxima Biosofia.
3 H.P. Blavatsky and the SPR, V. Harrison, Theosophical University Press, 78 pp.

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.

Post a Comment

You must be logged in to post a comment.