“Ichchhâsakti” ou o Poder da Vontade

Ensina-nos a Sabedoria Antiga que existem sete forças na Natureza que comandam ou operam a Evolução. Do Plano Divino, Tudo se cumpre por meio desses poderes presentes em toda a Natureza e divinizados ou entronizados pelo Homem.

No Mundo Físico, um de tais poderes tem um particular papel na Evolução orgânica e, assim, na Evolução das espécies. Os sábios hindus chamaram-lhe o poder de Ichchhâsakti.

Ichchhâsakti
Lamentavelmente esta palavra não encontra tradução fiel nas línguas hodiernas do Ocidente; contudo, poderíamos talvez significá-la por “a força que impele para a frente” e “a força que cria a função” (isto é, que prodigaliza os meios ou instrumentos para a obtenção de resultados práticos - materiais, ou intelectuais).

Apesar de ser uma Força Universal, ela pode, com maior ou menor acuidade, em função do nível de consciência individual atingindo, ser momentaneamente aprisionada e veiculada por “entidades” individuais, para uso da sua própria evolução. É a ela que se deve, pois, a incomensurável diversidade das formas e a correspondente diversidade das funcionalidades e aptidões. Com efeito, as características e qualidades que distinguem todas as formas em todos os Reinos da Natureza são o produto espelhado desse poder latente e inteligente da Natureza. 1

O Mundo Físico e o Reino Animal
Escalando a escada evolutiva e chegando ao Reino animal, esta força está mais incisiva e irradiante que antes. Revela-se como um manancial eléctrico vigoroso, ágil, certeiro. O indivíduo animal é já possuidor de um instrumento - uma glândula (a pineal 2) - que lhe permite especializar (sorver do Akasha) essa energia e convertê-la, para seu propósito e benefício específico, em resultados práticos orgânicos. A biofuncionalidade, com toda a sua crescentemente complexa estrutura orgânica, é lentamente segregada e depois cristalizada, conformando a enorme variedade plástica e biológica dentro do Reino animal. Aquela secreção da pineal é a precursora de todo o sistema de base orgânica, de todo o sistema cartilagíneo e depois ósseo, de todos os órgãos vitais, de todos os órgãos sensoriais. 3

Através da glândula pineal, os animais afinizam-se e aplicam a si mesmos os impulsos rítmicos vitais que imperam em toda a Natureza: os impulsos alternados de receptividade e de actividade, de noite e de dia, de negatividade e de positividade eléctricas, de sono e de vigília. Ao fazê-lo incorporam igualmente em si a capacidade de “sonhar”.

Sonhar
“Sonhar” é um processo eminentemente criativo; é, por excelência, a base processual da possibilidade de criar - quer no mundo intelectual, quer no mundo das formas. É o fio mágico que liga e articula o contacto entre os dois mundos: o da interioridade ou subjectividade, e o da expressividade material ou objectividade.

É através dessa aparentemente “vida suspensa” que todos nós, seres individuais, mais fielmente somos sensíveis - captamos sem filtros - as forças e impulsos vivos da Natureza, e as influências e emanações colectivas que “pairam” na atmosfera vital.

É através do estado permeável ao sonho que se metabolizam esses impulsos que nos empurram colectivamente para a frente. Mas o estado de “sonho” acordado é o mais efectivo e profícuo. É chamado a “visualização imaginativa” ou “onírica” e ocorre nos momentos de quietude e repouso (relaxação) do indivíduo animal, em que a consciência fica como que semi-suspensa, idealizando… 4

E é através da substância do sonho (que alberga sucessões ou cadeias de pequenos “inputs” de desejos 5) que a Natureza, através de nós e em nós, objectiva todas as potencialidades, cria todos os instrumentos e mecanismos para a Acção, torna possíveis e realizáveis todos os desejos, dá-lhes forma e o poder e a eficácia de agir, prodigaliza todos os Milagres, cria todos os deuses-que-tudo-podem. É, em última análise, o Poder Oculto da Natureza que cria todo o Universo Manifestado 6.

Como chegar à presa (ou ao objecto do desejo)
A função faz o órgão: esta é uma antiga máxima ocultista. Com efeito, as espécies evoluem biologicamente em função da constante interacção com o meio envolvente e a consequente necessidade de adaptação aos seus rigores. Os permanentes desafios de resistência às hostilidades e a feroz competitividade obrigam todos os indivíduos a proverem-se de mais e mais “artefactos” biológicos: delicados sensores (refinados aparelhos sensoriais, antenas de longo alcance, visão “infravermelha” ou “ultravioleta”…), engenhosas armas de combate e de defesa (venenos, tentáculos, armas de arremesso, possantes chifres ou vigorosas mandíbulas, descargas electrizantes de alta voltagem, fluidos hipnóticos eficazmente dominadores, sistemas imunológicos inimaginavelmente dotados…), expedientes multifacetados para garantir um lugar na procriação (cores exuberantes, atractiva textura da pele, pêlos ou penas, imaginativas danças encantatórias, falas e chilreios maviosos, enfim…).

Evidentemente, todas estas habilidades são o resultado de fastidiosos e pacientes planos e ensaios, assentes na visualização do objecto almejado. O animal (ou o homem), com a força e permanência do seu desejo, imprime na tela etérica (akáshica) a forma e o fito idealizados. Ao fazê-lo estabelece um elo magnético com essa projecção e inicia o processo de preenchimento desse mesmo hiato (ou ténue fio) com a substância segregada do seu “querer” - à semelhança do que faria a aranha com a urdidura dos fios da sua teia, os quais estende até ao alvo do seu propósito.

Lentamente no tempo e no espaço, cada espécie trabalha para desenvolver mais e melhores instrumentos que cumpram os seus objectivos. Quiçá, pernas longas e ágeis para correr e alcançar as presas; intrincados mecanismos de engenharia para capacitar a voar; olhos sagazes e perscrutadores para ver a longa distância; complicados mecanismos de hibernação que lhes permitem sobreviver ao frio e ao jejum prolongados dos invernos… Como o faz? Sonhando. Sonhando, o impossível acontece: o longe se faz perto, o fraco se faz forte, o feio torna-se belo, o mudo canta, o cego vê até na mais funda escuridão, o preso-na-terra ganha asas e conquista os céus!… Sonhando, o ser cria os arquétipos que depois preencherá, no decurso de eras, com a sua própria seiva espiritual que quimiquizou. Sonhando e sonhando, inspira e vai segregando, a partir da “Matéria lúcida” 7 (a matéria-prima da Natureza), os mais aptos e inteligentes meios que se vão conformando, que se vão precipitando e continuamente aperfeiçoando em função de cada propósito e especificidade.

Isabel Nunes Governo

1 No Reino mineral, as características químicas, a geometria, o grau de dureza, a cor, a condutibilidade eléctrica de qualquer elemento químico é apanágio desta potencialidade. No Reino vegetal, esta potencialidade está ainda mais actualizada, manifestando-se em aptidões de diversidade estética, odorífera, de versatilidade plástica, de engenho nos métodos de reprodução, variegando-se em inumeráveis espécies de pródigas capacidades. No Reino animal, as aptidões são ainda mais alargadas: a onda ou nuvem que imerge as unidades de cada espécie e que opera de fora (o impulso cego e apenas telúrico) dá lugar a uma maior particularização ou força individual (a polarização do desejo num “centro de eu”) que, cada vez com mais destreza, opta, escolhe - de dentro para fora.

2 … o pólo ou expressão material directamente focado no centro brahmarandra, dito “chakra coronal”.

3 Ainda no estado pré-natal, a pineal é já o pólo mais energético emergente.

4 Do exposto, decorre que não nos referimos aos sonhos de que comummente se fala, nomeadamente em livros de timbre oracular que pretendem apresentar regras abusivamente ditas esotéricas para a sua interpretação, os quais não nos merecem nenhuma simpatia, por os considerarmos astralizantes e alienantes.

5 … fragmentos ou códigos de desejos próprios, e a sua visualização criativa no espelho akáshico. Todos os germes de ideias e conceitos constróem e moldam formas através da secreção ou destilação da chamada “luz astral”.

6 Em estágios de consciência definidamente avançados (a consciência de ioguis e rishis), esta energia de Ichchhâsakti alia-se à força ou poder de Kriyâsakti, para criar num sentido muito mais vasto, elevado e significante.

7 O Seio da Mãe Universal, pródigo e infinitamente inteligente, onde todos os recursos presentes, passados e futuros são encontrados. Alude ao Akasha; é uma outra sua designação.

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