Em Defesa de Helena Blavatsky

A Editora Teosófica dos Estados Unidos e as Cartas de Solovyov

Um comentário sobre The Letters of H.P. Blavatsky
(As Cartas de H. P. Blavatsky) - Volume I, Editadas por John Algeo, TPH - Wheaton, USA, 2003.

Em As Cartas de H.P.Blavatsky - 1o Volume constatamos estarem incluídas aproximadamente 20 cartas que se diz estarem escritas por Helena Petrovna Blavatsky (HPB) mas cujos originais nunca apareceram, como o editor (John Algeo) justamente reconhece. Estas cartas foram exclusivamente obtidas de uma publicação feita por Vsevolod Sergueyevich Solovyov, tal como indica John Algeo no final do texto de cada uma delas. Solovyov foi um conhecido inimigo do movimento Teosófico e de HPB. Ele fez numerosas falsas acusações contra ela, como é demonstrado por Sylvia Cranston no seu admirável livro Helena Blavatsky - A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno, uma obra cuja edição em língua portuguesa eu tive a honra de coordenar pessoalmente para a Editora Teosófica de Brasília.

Noutro livro importante - Blavatsky and Her Teachers -, a escritora britânica Jean Overton Fuller declara que Solovyov falsificou e publicou várias cartas, tendo-as atribuído a HPB. Numa delas, Solovyov coloca HPB a confessar “ter inventado” toda a ideia da existência dos Mestres.

Numa terceira e conhecida biografia de Helena Blavatsky, escrita por Howard Murphet, When the Daylight Comes, podemos conhecer ainda mais sobre as falsas acusações de Solovyov contra HPB. Nessa obra, pode ler-se - p.193 - que Solovyov desempenhou o papel de “um jornalista de baixo nível, que procurava assuntos sensacionais sem qualquer consideração para com a verdade”.

Na mesma página 193, Howard Murphet cita Henry S. Olcott (HSO), o presidente-fundador da Sociedade Teosófica. Segundo HSO, o facto de Solovyov ter publicado os textos contra HPB somente após a morte dela “fez com que ficasse em segurança ao dizer falsidades sobre ela, o que revela ser ele tão cruel e de carácter tão desprezível como os Coulombs, embora cinquenta vezes mais engenhoso que estes”. O casal Coulomb ficou famoso por fazer perseguições e falsas acusações contra HPB, que com sua obra destemida em defesa da fraternidade universal desafiava as religiões dogmáticas em pleno século 19.

Infelizmente, o Sr. Algeo, embora conhecido como sendo um erudito e linguista atento para os detalhes, cometeu o erro de publicar essas “cartas”. E cometeu também o erro bem grave de não mencionar que Solovyov, a única fonte destes textos, foi um dos maiores inimigos de HPB e do Movimento Teosófico de todos os tempos, e que, como tudo indica, falsificou essas cartas em completo ou em parte. O próprio facto do nome da Theosophical Publishing House (Editora Teosófica) aparecer neste volume, e o facto de este estar publicado como parte da colecção de Escritos Reunidos (Collected Writtings) de HPB, dá ainda mais peso à falsa ideia de que estas cartas sejam autênticas.

A maior parte destas cartas “obtidas” e “organizadas” por Solovyov são endereçadas ao Sr. A. N. Aksakoff. Além das que comentamos a seguir, outras cartas incluídas no volume editado por John Algeo foram obtidas exclusivamente do “trabalho” de Solovyov. Entre elas encontramos as cartas números 11, 12, 17, 33, 45, 53, 54, 55, 60, 61, 69, 70, 72, 76, 85, 90 e 94.
Algumas das cartas mais injuriosas neste volume são as números 7, 12, 17, 33, 53, 69 e 76. Mas em muitas outras das “cartas de Solovyov” HPB é retratada como uma pessoa obcecada por dinheiro, uma má pessoa, intelectual e moralmente centrada em assuntos de pouca importância.

Comentários a alguns dos textos contidos em Letters of H. P. Blavatsky, Volume I:

Carta 7 - Neste texto, HPB surge a oferecer os seus serviços à Policia Secreta Russa. Ao que parece, o original desta carta pode, a qualquer altura, ser objecto de exame, pois encontra-se disponível nos Arquivos Públicos na Rússia (Arquivos Centrais Estatais da Revolução de Outubro). John Algeo, porém, não teve disponibilidade ou não estava interessado em investigar quem falsificou o mencionado texto. Nas primeiras linhas do documento, HPB diz que ela e Nikifor Blavatsky “se separaram por mútuo acordo várias semanas após o seu casamento” (p.24). No entanto, no penúltimo parágrafo diz ela, em flagrante contradição: “Eu fugia não da Rússia mas de um, há muito, odiado marido que me tinha sido imposto…”.

Na página 26, primeira metade, é demonstrado mais ódio. Aqui ela diz - ou dizem por ela… - que tem um “ódio inato a todo o clero Católico”. Como bem sabemos, uma das condições basilares de um Iniciado, ou mesmo de um aspirante é não abrigar qualquer sentimento de ódio por qualquer ser vivo (incluindo maridos e padres).
Na segunda metade da página 26, HPB afirma que tem “completa certeza que serei mais que útil à minha terra natal, que eu amo mais do que qualquer outra coisa no mundo, e ao nosso Imperador, a quem todos nós deificamos.” Então, ela acreditava num Deus pessoal - e Deus era o Imperador..!? Este texto não faz qualquer sentido.

Na página 27, ela parece estar orgulhosa da sua “astúcia”, que seria “similar à de um Índio Pele Vermelha”.

Na página 29, ainda na Carta 7, ela diz: “Amo a Rússia e estou disposta a dedicar todo o resto da minha vida aos seus interesses.”

A autenticidade desta carta dificilmente pode ser considerada mais do que nula; e a sua fonte deve ser procurada. A julgar pelo conteúdo, poderá ter sido produzida por Solovyov, ou pelos Coulomb, e mais tarde terá sido entregue aos Arquivos Centrais Estatais da Revolução de Outubro. Seria preciso verificar qual o seu real conteúdo em Russo e identificar a sua verdadeira origem, pois tudo indica que foi escrita ou “adaptada” por outra pessoa. Nada indica que algum pesquisador confiável já tenha examinado essa carta pessoalmente.

Carta 8 - Esta carta serve de preparação para a leitura das Cartas 11 e 12.

Cartas 11 e 12 - Ela escreve como se fosse moralmente culpada de vários tipos de comportamentos indignos. Uma das frases na Carta 12, na página 49, diz: “Estes são os amargos frutos da minha juventude dedicada a Satanás, à sua vaidade e obra!”.
Há muitas mais frases atribuídas a HPB que são obviamente falsas.

No seu livro Blavatsky and her Teachers (Blavatsky e os seus Mestres), Jean Overton Fuller avalia, correctamente, como falsa, a carta que foi publicada como autêntica por John Algeo e incluída neste volume como Carta 11.

Seria inútil reproduzir aqui mais trechos dos ataques contra HPB publicados por John Algeo como se fossem palavras dela própria.

No prefácio deste volume contendo “cartas de HPB”, John Algeo revela escrupulosamente DETALHES menores dos seus “Princípios Editoriais” em aspectos como Referências, Transliteração, Tradução e Ordem. No entanto, ele não refere que inclui várias cartas atribuídas a HBP cujos originais nunca foram vistos e cujas supostas reproduções unicamente foram publicadas por um mentiroso declarado - como foi demonstrado por Sylvia Cranston, Howard Murphet e Jean Overton Fuller, entre outros, para não mencionar Henry Olcott, que viveu naquela época.

Pelo próprio título do volume - As Cartas de H. P. Blavatsky - o leitor é levado a presumir que as Cartas foram autenticamente escritas por HPB. A incluir estes conteúdos, a abordagem editorial justa seria, no mínimo, mencionar e esclarecer que as cartas 7, 11, 12, 17 e outras não podem, com segurança, ser atribuídas a HPB, e que grande parte delas terão sido falsificadas e deturpadas por Vsevolod Sergueyevich Solovyov.

Note-se que todas estas cartas são de datas posteriores a 1870, quando a entrega de uma carta dos Mahatmas a uma tia de HPB fez saber que HPB estava já em contacto com Estes e era já um Discípulo Aceite. Consequentemente, não se pode dizer que HPB escreveu estas cartas na ingenuidade ou que não tinha ainda entrado no Discipulado, etc.

Naturalmente, os membros do “Comité Editorial para as Cartas de HPB” - Dara Eklund, Daniel Caldwell, R.Elwood, Joy Mills, Nicholas Weeks - têm alguma responsabilidade pela publicação das mesmas. Segundo John Algeo, essa responsabilidade é plena. Em uma carta que me dirigiu em de 6 de Junho de 2004, Algeo afirma que a cada membro do Comité Editorial “foi enviado todo o conteúdo, tal como foi preparado, e cada membro respondeu a estes conteúdos, sem mencionar o assunto que é objecto da sua preocupação”.

Contudo, Dara Eklund havia escrito numa carta para mim, datada de 17 de Maio de 2004:

“O meu marido Nicholas Weeks tinha prevenido John Algeo sobre as cartas de Solovyov mas ele tomou a decisão final…”.

Dara Eklund enviou-me também uma cópia de um e-mail de John Algeo dirigido a ela, escrito em Maio de 2004 após ter recebido a minha primeira carta para ele e para Dara. Nesse e-mail, Algeo diz o seguinte: “A questão da seriedade das cartas de Solovyov já me tinha sido abordada por Leslie Price, pelo que a tenho em mente. Verei a possibilidade de fazer um aviso geral na próxima reimpressão, e notas especificas, sobre as suas falhas, na próxima edição. Eu estava naturalmente consciente que Solovyov (assim como outros que citaram ou resumiram as cartas de HPB) não pode ser levado à letra, e há uma declaração geral sobre isso no Volume. No entanto, pelo facto de Boris incluir essas cartas na sua colecção, eu não fui tão crítico em relação às mesmas como provavelmente deveria ter sido”.

Neste parágrafo, John Algeo menciona as “erros específicos” de Solovyov. “Erro” não é a palavra apropriada para aquilo que o Sr. Solovyov fez. Ele intentou injuriar e, de facto, teve nisso um sucesso considerável. Inclusive porque as suas mentiras são até hoje divulgadas, graças a John Algeo.

Pode ser argumentado que a maior parte destas cartas foram traduzidas por Boris de Zirkoff, que as incluiu na sua colecção há décadas atrás. É uma verdade. Mas isto não significa que Zirkoff considerasse as cartas como autênticas. Boris publicou falsas acusações contra HPB e cartas falsificadas atribuídas a ela no volume VI de HPB Collected Writtings (os “Escritos Reunidos” de HPB). No entanto, ele fez isso identificando claramente estes textos como falsificações, deixando isso claro já no próprio título e incluindo comentários (muito francos) da própria HPB sobre essas difamações. Não haveria confusão possível. Não havia qualquer possibilidade de o leitor pensar que um texto falsificado fosse verdadeiro.

Em contrapartida, John Algeo silenciosamente tomou como verdadeiros os ataques contra HPB. É inútil discutir as intenções de John Algeo - mas existe um oceano de distância entre os dois tratamentos editoriais com relação aos ataques contra HPB.

Numa carta dirigida a John Algeo, datada de 25 de Maio de 2004, fiz algumas perguntas técnicas:

“1) Que provas possui de que as cartas de Solovyov, cujos originais nunca apareceram, sejam verdadeiras?

2) Por que razão, como editor, implicitamente acredita que Solovyov é uma fonte histórica fiável?

3) Quem fez a histórica descoberta de que Henry S. Olcott, Jean Overton Fuller, Howard Murphet, Sylvia Cranston e muitos outros estudiosos da matéria estavam errados, e que Solovyov é, no fim de contas, fonte fidedigna dos documentos concernentes a H. P. Blavatsky?

4) Quais são as provas científicas que corroboram tão grande descoberta?

5) Ou aceita as evidências de que Solovyov é um mentiroso e um traidor da Verdade?

6) Mas, assim sendo, por que razão publicar os seus textos como verdadeiros e sem aviso ou esclarecimento?

7) Ou melhor: porquê, sequer, publicá-los?

8) Quem deu aos Arquivos Públicos Russos (onde está agora) a carta atribuída a HPB e publicada como número 7?

9) Você deve ter provas ou evidências de que os originais da carta 7, agora nesses Arquivos Públicos, não foram falsificados nem por Solovyov nem pelos Sr. e Sra. Coulomb?!

10) Agradecia que me informasse quais são estas provas e evidências.

11) Já algum especialista em falsificações examinou estes “originais”?

12) Relembre-se por favor de que a última vez que um especialista examinou quaisquer “provas” ou “documentos” contra HPB, esta foi considerada como inocente. HPB foi considerada vítima de falsificação, e a SPR, Society for Psychic Research (Sociedade para a Pesquisa Psíquica), apresentou publicamente desculpas em Abril de 1986, cem anos após ter condenado HPB com base em provas falsas. Por que não submeter a carta 7 a exame por um bom especialista em falsificações, se tal não foi efectuado ainda?

As minhas questões dirigidas a Mr. Algeo não tiveram resposta, o que não constituiu uma grande surpresa.

Entretanto, a Presidente internacional da Sociedade Teosófica (Adyar), Sra. Radha Burnier, escreveu-me uma carta sincera sobre o assunto. Acontece que John Algeo é o Vice-Presidente internacional da Sociedade de Adyar. Ao tentar entender o que se passava com as políticas editoriais da Sociedade de Adyar, eu tinha pedido à Sra. Burnier uma explicação. Numa carta datada de 24 de Junho de 2004, diz ela:

“Prezado Irmão Carlos,

Recebi a sua carta ao retornar a Adyar no final de Maio. Concordo em relação à inclusão, em The Letters of HPB (Cartas de HPB), volume publicado por TPH Wheaton, das cartas obviamente espúrias. Você deve pedir uma explicação, não de mim (que não tenho nada a ver com isso, e não fui consultada), mas do Comité Editorial nos Estados Unidos da América.

Com os meus melhores Votos,
Fraternalmente, Radha Burnier”
É significativo o facto de que a Sra. Radha não apoia a publicação daquilo das calúnias contra HPB e reconhece que as cartas de Solovyov são “obviamente espúrias”. Essa é uma atitude sensata. Há, de facto, grande número de estudantes honestos e sinceros na Sociedade Teosófica, e muitos deles sentem profunda admiração por Helena Blavatsky. Eles têm ficado chocados e surpresos diante do “trabalho editorial” de John Algeo.

Numa carta dirigida a mim e datada de 5 de Maio de 2004, a escritora Jean Overton Fuller, que escreveu uma das principais biografias de HPB, admite, ao comentar esse trabalho de John Algeo:

“… É tudo muito estranho - sendo Algeo um membro da Sociedade Teosófica e, além do mais, Vice-Presidente.” Na mesma carta, Jean faz uma avaliação em que expressa que a publicação das cartas de Solovyov, como sendo autênticas, é algo “realmente muito prejudicial”.

É verdade que John Algeo reconheceu, pelo menos parcialmente, ter cometido um erro ao publicar desta forma essas cartas de Solovyov. Mas este reconhecimento foi efectuado unicamente em privado. E um tal erro público deve ser reconhecido de modo público, tal como eu lhe solicitei numa carta datada de 19 de Junho de 2004:

“Seria obviamente injusto que a informação errónea chegasse a muitos, enquanto que o reconhecimento do erro fosse efectuado apenas perante uma ou duas pessoas. Como sabe, os jornais modernos costumam reconhecer os erros que cometem. Quando é cometido um erro em qualquer publicação, é regra (e é efectivamente o que diz a lei na maior parte dos casos) que o reconhecimento e correcção do erro tenha o mesmo alcance junto do público quanto o teve o erro publicado. No que diz respeito ao mundo religioso, até o Papa João Paulo II admitiu publicamente vários dos crimes cometidos pelo Vaticano contra o povo Judeu, contra os povos indígenas, nas Américas, na África, e durante o tempo da inquisição.

“Em consequência, gostaria de fazer uma sugestão. Poderia, por favor, fazer uma declaração pública (na revista “Quest”, por exemplo), suficientemente visível para ser notada, admitindo que as cartas de Solovyov - uma vez examinadas as provas disponíveis - não podem ser consideradas autênticas, mas sim exactamente o oposto, já que foram, decerto, falsificadas?
Se o fizer, eu não me sentirei obrigado a tentar levantar sobre este assunto uma consciencialização geral crítica, para que numa segunda edição os erros sejam corrigidos.

Não tenho a opção de não fazer nada sobre este assunto, a menos que alguém me prove que Solovyov seja uma fonte legítima de documentos sobre História do movimento esotérico. A razão por que não posso ficar indiferente é que sinto um sincero dever de praticar a “valente defesa daqueles que são injustamente atacados (creio que você conhece este degrau das Escadas de Ouro)”.

É verdade que o Senhor fala em proceder às correcções na próxima edição. No entanto, acredito não ser necessária tamanha espera para uma correcção dos graves erros cometidos. Além disso, uma correcção nesse futuro indefinido deixaria em erro toda a primeira edição.”

Por outro lado, não há garantia de que haverá uma segunda edição, tal como o reconhece a Sra. Joy Mills, membro do Comité Editorial, numa carta que me escreveu, datada de 5 de Agosto de 2004:

“Nós apreciamos a sua preocupação com a inclusão, em Letters of H. P. Blavatsky, de quaisquer cartas que possam ter sido falsificações. Só poderão ser efectuadas correcções quando e se houver uma nova edição do primeiro volume das cartas. Enquanto isso, eu asseguro-lhe que tomaremos em consideração os seus vários comentários e objecções”.

É-me extremamente difícil de compreender por que razão a Sra. Joy Mills terá chegado à estranha conclusão de que “nada pode ser feito” até que haja, se houver, uma segunda edição. Ao contrário, a verdadeira questão é: “ainda que a segunda edição fosse sair em breve, por que esperar para corrigir os graves erros da primeira?”

Em 9 de Julho de 2004 escrevi o seguinte a Dara Eklund, com cópia para John Algeo:

“Porquê esperar? Por que deveríamos deixar circular falsificações - por acção ou omissão - entre os dois ou três milhares de leitores da primeira edição durante um longo período, de talvez 7 a 10 anos ou mais? Julgando pelas datas das reimpressões no caso dos “Collected Writings”, poderá levar até mais do que uma década. Você sabe que a primeira edição de qualquer livro produz um impacto mais duradouro do que o da segunda edição. Por que deveremos respeitar apenas os leitores da segunda edição, em talvez 2010 ou 2015, e ignorar os direitos dos leitores da primeira edição, que têm o mesmo direito de ser correctamente informados sobre a natureza do que lêem? Não. Penso que não devemos nem podemos esperar uma década para então começar a corrigir este grave erro. Toda esta questão se refere à primeira edição. Por que não fazer uma errata, uma folha de rectificação, que poderia circular com cada novo volume vendido? (…) Seria uma atitude adequada e profissional da parte de John Algeo e do seu Comité.”

E acrescentei, num dos últimos parágrafos da mesma carta:

“… Uma vez que John Algeo tem uma percepção clara da injustiça feita a HPB, ele ficará satisfeito por reconhecer o erro o mais depressa possível, como é próprio de qualquer editor experiente e capaz, nos dias de hoje, em todo o mundo. Em cartas anteriores eu já mencionei as desculpas do Vaticano no que se refere a vários dos seus crimes. Também mencionei a sábia tradição da “errata” e das desculpas editoriais que os editores prestam abertamente sempre que necessário. John Algeo seria merecedor de respeito se tomasse a iniciativa de se dirigir ao público (…) e produzisse um claro e moderado documento para circular junto com o livro. Tal estaria certamente dentro das nossas melhores tradições editoriais. Penso que concordará comigo em que um erro público não pode ser corrigido por uma emenda secreta.”

Num postal manuscrito datado de 19 de Julho de 2004, Dara Eklund reiterou-me que, na sua óptica, toda a responsabilidade editorial pertence a John Algeo, e disse que, de facto, “ele não teria que esperar dez anos para o fazer ” (i.e. as emendas).

Tudo indica que John Algeo tem agora uma oportunidade de ouro para aceitar os factos e se redimir como editor, reduzindo ao mesmo tempo o grave prejuízo que causou à Verdade e ao movimento esotérico.

Carlos Cardoso Aveline
Jornalista, editor e autor brasileiro. Estuda filosofia esotérica desde 1980. Colaborador de “Biosofia”. Editou
“Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” e
“Cartas dos Mestres de Sabedoria” em língua portuguesa. Escreve em publicações de diversos países.
Contactos: carlosaveline@hotmail.com

Tradução do Inglês de Helena Castanheira
Nota do Editor da Biosofia:

O movimento esotérico contemporâneo deve ter Helena Blavatsky como referência sólida e inabalável. É nosso dever preservar a verdade sobre o seu trabalho e a sua obra, e ajudar a desmontar todos os ataques e injustiças de que continua a ser alvo.

Pessoalmente, pensamos que a posição da Sra. Radha Burnier, quanto a esta lamentável edição, se aparenta como bastante desinteressada e descomprometida. Face ao cargo que ocupa e à gravidade da situação, ser-lhe-ia exigível uma posição activa e determinada para de imediato se corrigir o mal que foi feito; não podemos entender que se proceda de outra forma. Ela resume a questão a duas linhas, e “lava as mãos do problema”.

Muito menos, face aos dados de que dispomos, podemos compreender as opções do Sr. John Algeo (procuraremos, contudo, obter a sua posição, e incluí-la em futuro número da “Biosofia”). A opção de incluir as cartas falsamente atribuídas a HPB, sem ser nos termos em que Boris de Zirkoff o havia feito no Vol. VI dos Collected Writings (e referidos pelo Carlos Aveline), é, no mínimo, muitíssimo discutível. Muito mais reprovável é a sua aparente despreocupação em remediar imediata e radicalmente o erro que cometeu. Como editores que somos, podemos afirmar inequivocamente que, em circunstâncias semelhantes, reconheceríamos de forma imediata e espontânea o nosso erro, fosse de modo explícito, fosse de modo implícito, assumindo tudo quanto necessário para anular ou minorar ao máximo o dano provocado, e não regateando empenho nem esforço para que a correcção e a verdade fossem repostas - nem que tal implicasse, para nós pessoalmente, suportar os correspondentes encargos financeiros.

Cabe aqui lembrar os leitores que já no anterior número da “Biosofia” este assunto começou a ser abordado. Através de um texto do Carlos Aveline, então publicado, foi possível tomar conhecimento de um dos factos que consideramos mais chocantes: o anúncio comercial que a Theosophical Publishing House publicou para divulgar a edição das Cartas de Helena P. Blavatsky:

“… Cartas controversas e pitorescas tais como: uma, escrita ao director da polícia secreta Russa, na qual HPB se oferece para se juntar às suas fileiras, ou outra, documentando a sua trágica e, na altura, bem humorada, tentativa de criar uma Sociedade de Espiritualistas no Cairo…”; “A sua correspondência pessoal revela pela primeira vez a HPB desconhecida, na sua complexidade de esfinge, raramente visível no material publicado”.

Ou seja, não só se pressupõe a autenticidade de uma das cartas (ao que tudo indica) forjada por Solovyov, como se acha interessante, pitoresco e digno de incentivo o “mexerico” sobre Helena Blavatsky. E aqui, não resistimos a reproduzir o justo e certeiro comentário do Carlos: “Tudo muito divertido, é claro. É tão engraçado rir do sofrimento de outros. É realmente agradável, encantador… - mas não para aqueles que buscam a verdade”.

Ou, como podemos ler algures nas cartas dos Mahatmas: “É agradável contemplar e criticar o martírio mas suportá-lo é mais difícil. Nunca houve uma mulher mais injustamente maltratada do que Helena Blavatsky” 1.

Na verdade, Helena Blavatsky foi martirizada durante toda a sua vida - com ataques vis, incompreensões e traições de toda a ordem - e continuou a sê-lo por deslealdades, por esquecimentos, por silêncios cúmplices e por desvirtuações, pelas décadas fora, até hoje. Talvez a sua natureza, tão humana e espontânea quanto sábia e profunda, não se preocupando em pôr o hábito que simula o “monge”, nunca assumindo uma postura de guru, como as que hoje proliferam (em pessoas sem nenhuma estatura real para tanto), e sim falando nos Mestres da Sabedoria Imemorial, tenha facilitado o desrespeito. Triste cegueira a de quem se deixa fascinar com os artifícios!

Até certo ponto, por muito grave que seja, a terrível falha na edição das Cartas de HPB é um epifenómeno. A nosso ver, somente é possível porque o “clima” para o desrespeito, a secundarização e até a ostracização de Helena Blavatsky e de tudo o que ela significa, na verdade, está criado - e está criado desde há muito. É uma longa e sucessiva cadeia de traições, de deslealdades, de “golpes de estado” dentro da(s) Sociedade(s) Teosófica(s), até ao ponto em que a voz imensa de Helena Blavatsky quase não se faz ouvir no meio de todos os ruídos para-teosóficos ou a(nti)-teosóficos; até ao ponto em que os escritos de Helena Blavatsky foram reduzidos a terceiras opções, a que só se recorre esporadicamente e, tantas vezes, para buscar apoio (com uma citação desfasada do contexto) para teses bem contrárias às suas, “macaqueações” da Sabedoria Esotérica por ela promulgada.

A Cosmogénese apresentada por ela, pelos Seus Mestres, e pelos primeiros teósofos é ignorada, considerada completamente desnecessária (”elucubrações filosóficas”!!!) ou qualificada como um conjunto de metáforas insustentáveis; a Antropogénese Esotérica é posta de lado ou pura e simplesmente ridicularizada; a Psicologia Oculta é baralhada (a questão do Septenário de Princípios…) ou impiedosamente espezinhada, ao sustentar-se que se pode saltar instantaneamente do Eu animal para o Eu Absoluto; a grande síntese de Religiões, Filosofias e Ciências, por HPB iniciada, desenvolvida e preconizada, é vista como um excesso de ecletismo (”um entretenimento para o intelecto”) que deve ser desvalorizado. E assim se tratam as pérolas!… Enquanto isso, discutem-se autoridades e “sucessões apostólicas”…

Tudo isto, seguramente, vem acontecendo, por causa do tremendo Karma colectivo (nomeadamente, de ignorância e obscurantismo) da Humanidade, que faz contracorrente à mensagem iluminadora e libertadora de Helena Blavatsky. Por isso, recusamo-nos a conformar-nos com a cómoda alegação de que os ataques que ela tem sofrido são resultado do seu próprio Karma. A questão é muito mais ampla do que isso e diz respeito a todos nós, especialmente aos que lhe são infinitamente gratos por todos os horizontes que a sua obra e a sua vida lhes abriu. Por muito grande que seja a traição, não devemos temer enfrentá-la nem coibir-nos de fazer a nossa parte para que a verdade seja reposta e Helena Blavatsky continue a ser a potenciadora da investigação, do trabalho construtivo e da conquista da sabedoria dos vindouros.

Quanto ao caso da lamentável edição das Cartas de HPB, continuaremos empenhados em que as necessárias rectificações sejam feitas quanto antes. A luta desenvolvida pelo Carlos Aveline já obrigou várias lideranças mundiais da Sociedade Teosófica a confrontarem-se com factos que não podem refutar. Como dissemos já, procuraremos ouvir o que o Sr. John Algeo tem a dizer sobre o assunto e publicá-lo em próximo número da “Biosofia”. Pensamos, entretanto, que será de grande importância que lhe possam chegar testemunhos sobre a urgência de desvanecer o mal que foi feito. Os seus endereço postal e e-mail são os seguintes:
John Algeo - P.O. Box 80206 - Athens, GA, 30608-0206
Estados Unidos da América - johnalgeo@aol.com

MAGNA EST VERITAS ET PRAEVALEBIT

José Manuel Anacleto

1 “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, 2001

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