Fohat

Fohat é uma palavra tibetana que designa um dos conceitos mais importantes da Cosmogénese Esotérica. Tem o seu correlato no Eros da Mitologia Esotérica, no Apãm-Napât (”Filho das Águas”) dos Vedas e do Ahura-Mazda, no Daiviprakriti das Escolas Filosóficas Hindus, particularmente da Samkhya, e em Toom e Khepera do antigo Egipto.
“Fohat é uma coisa no Universo ainda não-manifestado e outra coisa no mundo fenomenal e cósmico” 1.

No Imanifestado
No Imanifestado, ou seja, antes da formação de Cosmos objectivos, Fohat é latente e coeterno com Parabrahman e Mulaprakriti. Parabrahman (Para: além de; Brahman: o Ser Cósmico) é a Consciência Absoluta (ou a Inconsciência Absoluta de qualquer coisa em particular). Mulaprakriti (Mula: raiz; Prakriti: natureza, substância) é a raiz pré-cósmica da substância universal, a natureza caótica antes da organização do Cosmos. Movimento Absoluto, Força Absoluta de União (entre) Consciência e Substância, Fohat mantém absolutamente unidos Parabrahman e o seu véu Mulaprakriti. Movimento Absoluto no (Não-)Ser Absoluto, une sem unir (pois nada existe separado), tal como se move sem se mover. Mas, sendo Fohat o “incessante poder destruidor e formador” 2, que simultaneamente une e separa, liga ou des-liga; sendo Fohat o desejo criador (que no domínio cósmico é Kama-Eros) que impele para a manifestação, do seio do Todo Ilimitado (em si mesmo, Imanifestado), ciclicamente 3 ele aparta os protótipos do Pai e da Mãe, do Pensamento e da Matéria, da Subjectividade e da Objectividade (Intra)Cósmicas, Parabrahman e Mulaprakriti - que, como tais, são (simultaneamente) Pai-Mãe 4, Pensamento-resultado do Pensamento, Sujeito-Objecto.

No Manifestado
Então Fohat torna-se o Raio Divino de inesgotável potência criadora que incute o Pensamento Divino Absoluto (ParaBrahman) no seio da proto-Mãe (Mulaprakriti). Ele volve-se de Filho em Esposo (processo que encontramos nas mais diversas Mitologias). O processo que dará lugar à construção do Cosmos, iniciou-se, com o despertar do até então latente Primeiro Logos. “A princípio, dormindo no seio de Mulaprakriti é então seu Filho. Assim que desperta, torna-se seu Esposo e o â��Pai-Ocultoâ�™, jorrando a energia universal chamada Shekinah na Cabala e Daiviprakriti no Bhagavad Gita” 5. O Primeiro Logos serve somente como um centro transmissor de força, a Luz do Logos, cuja fonte é Parabrahman. E este último, “tendo aparecido por um lado como o Ego [sujeito activo consciente] e por outro como Mulaprakriti, actua como a energia una através do Logos” 5. Esta energia, a Luz do Logos (ou Verbo de Parabrahman) é Fohat-Daiviprakriti.

Começa a estabelecer-se a dualidade Espírito-Matéria, Pai-Mãe, Purusha- Prakriti 6. O Segundo Logos é justamente explicado assim na Doutrina Secreta: “Espírito-Matéria, Vida; o â��Espírito do Universoâ�™; Purusha e Prakriti”.

Continuamos a citar a Doutrina Secreta de Helena Blavatsky, ilustrando o que escrevemos anteriormente, e abrindo caminho para o que se seguirá:

“Assim como a Ideação Pré-Cósmica é a raiz de toda a consciência individual, assim também a Substância Pré-Cósmica é o substratum da matéria nos seus diversos graus de manifestação.

Daí resulta que o contraste desses dois aspectos do Absoluto é essencial para a existência do Universo manifestado. Isolada da Substância Cósmica, a Ideação Cósmica não poderia manifestar-se como consciência individual; pois só por meio de um veículo (upâdhi) de matéria é que a consciência emerge como â��Eu sou Euâ�™, sendo necessária uma base física para concentrar um Raio da Mente Universal a certo grau de complexidade. E por sua vez, separada da Ideação Cósmica, a Substância Cósmica não passaria de uma abstracção vazia, e nenhuma manifestação de consciência poderia surgir.

O Universo Manifestado acha-se, portanto, informado pela dualidade, que vem a ser a essência mesma da sua Ex-istência como manifestação. Mas, assim como os pólos opostos de Sujeito e Objecto, de Espírito e Matéria, não são mais do que aspectos da Unidade Una, que é a sua síntese, assim também no Universo Manifestado existe â��algoâ�™ que une o Espírito à Matéria, o Sujeito ao Objecto”.

A assunção nítida da dualidade ou diferenciação entre Ideação e Substância marca a transição do Segundo Logos para o Terceiro Logos, dois momentos da manifestação cósmica. Na Doutrina Secreta diz-se sobre o Terceiro Logos: “A Ideação Cósmica; Mahat ou Inteligência, a Alma Universal do Mundo; O Númeno Cósmico da Matéria, a base das operações inteligentes da Natureza”. Isto é: temos, por um lado, o Desenho, a Arquitectura do Universo (a Ideação Cósmica) e, por outro lado, a substância onde a obra, de acordo com as Ideias contidas na Mente Cósmica, se vai objectivar - sendo essa substância, pois, “a base das operações inteligentes da Natureza”. Numenicamente (como causa ideal), a substância é mental, conforme o postulado hermético: “O Universo é Mental”.

A Ponte entre a Ideação e a Substância
Existindo essa dualidade, é necessário, de facto, o tal “algo” que une a Ideação à Substância, o Espírito à Matéria, o Sujeito ao Objecto, da mesma forma como é necessário o dinamismo que permita a ligação entre a Ideia de um escultor e a pedra onde a obra se vai executar - sendo por via desse dinamismo que a substância é trabalhada e moldada. Esse “algo”, diz a Doutrina Secreta, é chamado Fohat pelos ocultistas. É a “ponte” através da qual as ideias existentes no Pensamento Divino são imprimidas na Substância Cósmica, como Leis da Natureza. Assim, pois, Fohat é “a energia dinâmica da Ideação Cósmica, ou, considerando de outro ponto de vista, é o meio inteligente, a potência directora de toda a manifestação, o Pensamento divino transmitido e manifestado através dos Dhyân Chohans, os Arquitectos do mundo visível (…) É o elo misterioso que une o Espírito à Matéria, o princípio animador que electriza cada átomo para lhe dar vida” 1. É através de Fohat que as ideias da Mente Universal são impressas na Matéria.

Sendo o Terceiro Logos identificado com a Mente Cósmica (Mahat ou Maha-Buddhi) cabe explicitar que a substância ontológica da Mente Divina são todas as Inteligências Divinas Espirituais. A Mente Divina são essas Inteligências Espirituais ou Deuses (incluindo as Mónadas Humanas) e não a Mente de um Ser (um Deus…) em particular. Do mesmo modo, o Logos ou Demiurgo não é um Ser Individual, excepto se tomado na acepção de o mais elevado Hierarca de um Sistema ou Cosmos, i.e., o vértice superior de uma Hierarquia, de uma Legião, de um vasto conjunto de Inteligências Criadoras ou Deuses; mais rigorosamente, expressa uma colectividade abstracta de Construtores, de Dhyani Chohans 7, de Hierarquias Septenárias de Poderes Criadores 8.

Deste modo, Fohat é o dinamismo da Mente Divina e, sendo a substância desta o conjunto das Inteligências Espirituais, ou Centelhas Divinas ou Dhyani-Chohans, é através destes - e mobilizando estes - que Fohat faz imprimir o desenho divino, os arquétipos divinos na substância Universal. Fohat é, pois, “o Construtor dos Construtores”.

Assim, percebe-se ao menos um pouco da Estância V do Livro de Dzyan:

1. Os Sete Primordiais, os Sete Primeiros Sopros do Dragão de Sabedoria 9, produzem por sua vez o Torvelinho de Fogo 10 com os seus Sagrados Sopros de Circulação giratória.

2. Dele fazem o Mensageiro de sua Vontade. O Dzyu 11 converte-se em Fohat; o Filho veloz dos Filhos Divinos 12, cujos Filhos são os Lipika, leva mensagens circulares. Fohat é o Corcel, e o Pensamento, o Cavaleiro 13. Ele passa como um raio através de nuvens de fogo; dá Três, Cinco e Sete Passos através das Sete Regiões Superiores e das Sete Inferiores. Ergue a sua Voz para chamar as Centelhas inumeráveis e reúne-as 14.

3. Ele é o seu condutor, o espírito que as guia. Ao iniciar a sua obra, separa as Centelhas do Reino Inferior, que se agitam e vibram de alegria nas suas radiantes moradas, e com elas forma os Germes das Rodas. Colocando-as nas Seis Direcções do Espaço, deixa uma no Centro: a Roda Central.

4. Fohat traça linhas espirais para unir a Sexta à Sétima - a Coroa. Um Exército dos Filhos da Luz situa-se em cada um dos ângulos; os Lipika ficam na Roda Central. Dizem eles: “Isto é bom.” O primeiro Mundo Divino está pronto; o Primeiro, o Segundo. Então o “Divino ArÃL;�pa” se reflecte no Chhâyâ Loka 15, a Primeira Veste de Anupapâdaka 16.

5. Fohat dá cinco passos; e constrói uma roda alada em cada um dos ângulos do quadrado para os Quatro Santos… e seus Exércitos.

Fohat, vivificando e combinando os átomos, em agregados ou formas cada vez mais complexas, conduz ao desdobramento dos Planos e sub-planos da Substância Universal que, da Adi-Prakriti ou Substância Cósmica Primordial, por degraus sucessivos de densificação ou materialização, vai chegar até à pesada e comparativamente lenta matéria física. Como escreveu, novamente, Helena Blavatsky: “Fohat, correndo ao longo dos sete princípios do ÃL;�kâsha, actua sobre a substância manifestada, ou o Elemento ÃL;�nico e, diferenciando-se em vários centros de energia, põe em movimento a lei de Evolução Cósmica, que, em obediência à Ideação da Mente Universal, produz todos os diversos estados do Ser, no Sistema Solar manifestado”.

Em todos os Planos, Fohat é sempre o mediador - o transmissor eléctrico - entre a Mente Ideativa e a Matéria. Em 1888, escrevia igualmente Helena Blavatsky: “Pode ter-se uma noção ligeira da natureza de Fohat pela denominação de â��Electricidade Cósmicaâ�™, que às vezes lhe é dada; mas, neste caso, às propriedades conhecidas da Electricidade em geral, devem acrescentar-se outras, inclusive a inteligência. E é interessante observar que a ciência moderna acaba de reconhecer, finalmente, que toda a actividade cerebral é acompanhada de fenómenos eléctricos”. E, acrescentamos hoje, é certamente interessante notar o que a Ciência afirma sobre a importância da electricidade no surgimento da vida e sobre os actuais meios electrónicos de transmissão de imagem, som, informação, conhecimento…

A Ciência Esotérica considera que Fohat é a grande Força Universal, com os seus “filhos-irmãos” (filhos e irmãos, porque Fohat é a síntese de todos), a saber: Movimento, Som, Calor, Luz, Coesão, Electricidade e Magnetismo. É Fohat que incita a matéria à actividade e à evolução. É ele o portador da Vida.

Fohat não é apenas o poder electro-vital construtor de grandes Cosmos, onde imprime o Pensamento Divino (da colectividade de Inteligências Divinas Espirituais). Na verdade, afirma o Ensinamento Ocultista que existem tantos Fohats quantos são os mundos, e cada um deles varia em poder e em grau de manifestação. Os Fohats individuais perfazem um Fohat universal e colectivo - o aspecto-entidade da Não-Entidade una e absoluta, que é a Asseidade absoluta, Sat. Há Fohat em cada Ser individual, nomeadamente num ser humano. Neste, temos Fohat a unir o “Espírito puro, o Raio inseparável do Absoluto, com a Alma, constituindo ambos a Mónada humana” 2, tal como, na Natureza, Fohat é o primeiro elo entre o Incondicionado e o manifestado - ou antes, é o próprio detonador da Manifestação. É Fohat que, na substância akáshica, delimita o Ovo Áureo 17 de cada Ser Humano. É, ainda, de energia fohática que é constituído o Sutratman, o fio da Vida que percorre os diferentes níveis de manifestação humana. É fohática toda a energia eléctrica e nervosa que decorre do nosso desejo motivador da acção. O Ocultismo correlaciona, no Universo manifestado, Fohat com o 4o Princípio, Kama, o Desejo, a Alma Animal.

Mais a Ocidente
Também na “Doutrina Secreta” podemos ler: “Na cosmogonia grega arcaica, que difere muito da que veio depois, Eros é a terceira pessoa da trindade primitiva, Caos - Gaea - Eros - a qual corresponde à trindade cabalística: Ain Soph, o Todo sem limites (pois Caos é o Espaço), Shekinah, e o Ancião dos Dias (ou Espírito Santo). Neste último, ele é aquele poder oculto, eléctrico e vital que, sob a Vontade do Logos Criador, une e relaciona todas as formas, dando-lhes o primeiro impulso, que com o tempo se converte em lei. Mas no Universo Não Manifestado Fohat não é isso, como Eros não é o brilhante Cupido alado posterior, ou o Amor. Fohat ainda nada tem a ver com o Cosmos, porque o Cosmos não é nascido e os Deuses dormem ainda no seio do Pai-Mãe. É, sim, uma ideia filosófica abstracta; não produziu ainda nada por si mesmo, é simplesmente o poder criador potencial, em virtude de cuja acção o Númeno de todos os fenómenos futuros se divide, por assim dizer, para reintegrar-se num acto místico supra-sensível e emitir o Raio criador.

Quando o â��Filho Divinoâ�™ exsurge, Fohat passa então a ser a força propulsora, o Poder activo, que é a causa de o Um se converter em Dois e em Três (no plano cósmico da manifestação.) O tríplice Um diferencia-se nos Muitos, e Fohat transforma-se na força que reúne os átomos elementais e faz com que se aglutinem e se combinem entre si. Vemos um eco destes antiquíssimos ensinamentos na mitologia grega primitiva. Erebos e Nux nascem de Caos, e, sob a acção de Eros, dão, por sua vez, nascimento a Aether e a Hemera, a luz da região superior e a da região inferior ou terrestre. As Trevas engendram a Luz. Compare-se isto com a Vontade ou o â��Desejoâ�™ de criar de Brahmâ, nos Puranas; e, na cosmogonia fenícia de Sanchniathon, com a doutrina de que o desejo é o princípio da criação”.
A brilhante sugestão de HPB, leva-nos a fazer uma pequena digressão pela mitologia grega, aproximando-nos assim de uma tradição mais ocidental.

A mitologia grega passou por várias mutações ao longo dos séculos mas sempre se manteve a ideia do Caos antes de todas as coisas. Na feliz expressão de Ovídio, o “Caos é a personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo”. Na cosmogonia egípcia e grega, o Caos é uma energia poderosa do mundo informe e não ordenado, que cinge a criação ou cosmos. Existia antes da construção do Universo e coexiste com o mundo formal, envolvendo-o como uma imensa e inexaurível reserva de energias, nas quais se dissolverão as formas nos fins dos tempos.

Como já vimos, numa das apresentações da mitologia grega, Gaea ou Gaia, e Eros, eram (com Caos) os outros elementos da Trindade primitiva. Depois, Ouranos, como Primeiro Logos, sucede a Caos (o correspondente a Parabrahman, como Gaia corresponde a Mulaprakriti, e Eros a Fohat).

Gaia, Géia ou Gê é, na mitologia grega, a personificação da Terra (daí que se use como prefixo para designar ciências relacionadas com o estudo do planeta). Mas esta deusa era também tida como a propiciadora dos sonhos e a protectora da fecundidade. O sentido é profundo: tal como Prakriti é “a que tem atributos femininos” 6 e, portanto, da sua unidade primordial, pode dar origem à reprodução multiplicadora, assim Gaia é a proto-Mãe do Cosmos. Tinha, deste modo, o epíteto de Magna Mater. Por outro lado, o Cosmos, o Universo manifestado, é, em última instância, uma ilusão, Maya, um sonho…

Sem intervenção masculina, Gaia gerou sozinha Urano (o Céu). Formou com Urano o primeiro casal divino - o 1o Logos (Urano), de que Gaia é simultaneamente Mãe e Esposa (à semelhança de tantas Cosmogonias arcaicas), passa a ser um vórtice, um centro transmissor de força na substância pré-cósmica.

Quanto a Eros, em termos de formulação escrita, aparece pela 1a vez na Teogonia de Hesíodo. Eros nasceu do Caos, ao mesmo tempo que Géia. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix ou Nux (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo (correspondente a Hiranyagarbha, o Ovo do Mundo), de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Nesta acepção, Nix corresponderia a Mulaprakriti, e Gaia a Pradhana, a substância cósmica primordial do Primeiro Logos. Eros é geralmente conhecido como deus do amor e do desejo - o que corresponde a Fohat, pois este é o desejo da acção criadora e, na sua qualidade de Amor divino, o poder eléctrico de afinidade e simpatia. Ao apresentá-lo como filho do Caos, a tradição mais antiga apresentava-o como a força ordenadora e unificadora - assim aparece na versão de Hesíodo e em Empédocles, o eminente filósofo pré-socrático. O seu poder unia os elementos para fazê-los passar do caos ao cosmos, ao mundo organizado. Deste modo, ele desponta o Cosmos do Caos, como incessante poder formador. Nas cosmogonias órficas, Eros tudo une, e destas uniões nasce a raça dos deuses imortais (os Dhyani Chohans, que ele mobiliza e através dos quais se transmite, como já vimos). Em Hesíodo, está entre os primeiros a emergirem do Caos (na verdade, Daiviprakriti-Fohat é a própria força de emersão do Cosmos das águas primordiais) e, com ele, “arranca” tudo o mais (do Caos).

Afirmava o neoplatónico Proclo (de que falaremos adiante) que, segundo Ferecides (o mestre do grande Pitágoras), quando Zeus deseja criar (demiourgein, ser Demiurgo) transforma-se em Eros. Fohat é a Luz do Logos (ou Demiurgo), diz a Doutrina Secreta. Eros é, pois, uma força motriz, uma espécie de primeiro motor nas antigas cosmogonias e como tal, aliás, reconhecido por Aristóteles. Eros traduz a união dos opostos e essa é a função de Fohat, que, desde logo, une os dois pólos radicais do Universo: Espírito e Matéria, Purusha e Prakriti.

Vemos, por conseguinte, a equivalência entre os orientais Fohat e Daiviprakriti e o grego Eros.
E a propósito de Grécia, passamos a mencionar um dos mais brilhantes filósofos gregos e pensadores da civilização ocidental, o grande Proclo (além de filósofo, foi igualmente cientista). Viveu no Século V, não só numa época em que a luz da grande Grécia se apagara já, em grande medida, mas, sobretudo, num tempo em que a Igreja Católica, volvida Igreja oficial do Império Romano, tiranizava tudo e todos os que pensassem de forma diferente da sua. Ela havia destruído milhares e milhares de obras, literárias e artísticas, que eram os produtos gloriosos da cultura antiga. Ela havia perseguido e martirizado milhares de sábios pagãos e de cristãos ditos hereges. Ela impedia a liberdade de culto e pensamento. Pouco depois da morte de Proclo, a escola neoplatónica de Atenas foi compulsivamente encerrada. Os seus dirigentes e estudantes foram obrigados a deixar o Império, excepto se preferissem enfrentar a morte. O ensino livre de filosofia e até de jurisprudência (!!!) foi proibido. Discutir qualquer assunto religioso fora da ortodoxia cristã era severamente punido.

Foi no meio deste crescente de obscurantismo que a luz de Proclo brilhou intensamente.

Desenvolvendo os sistemas de Plotino, Porfírio e Jâmblico, ele interpretou a realidade desdobrando inúmeras trindades nos diferentes níveis do Ser, e sob distintas perspectivas. Assim, referiu-se, por exemplo, à tríade Causa-Poder-Efeito que, na verdade, implica todo um mundo de significados. Podemos, desde logo, ponderar que ele tinha em mente a Ideação Cósmica, com os Arquétipos ou Ideias Platónicas, como a(s) Causa(s); os fenómenos objectivos nas formas substanciais, como o(s) Efeito(s); e Eros ou Fohat, a força vital que dinamiza a Ideação Cósmica, por meio da qual esta se imprime na substância sob a forma das Leis da natureza, ou por outras palavras, Eros-Fohat, como o Poder que conduz o Mundo Ideal das Causas a plasmar-se nos efeitos objectivos. A expressão “Poder” é assaz curiosa. Com a ajuda da tradição hindu, esta última alusão pode ser melhor entendida, lembrando que cada deus ou força causal no Universo tem a sua Shakti, a esposa ou poder criador feminino; da relação desse par surgem todas as obras existentes. Fohat, por seu turno, é a potência activa (masculina) de Shakti, a potência receptora e logo reprodutora feminina. Fohat e Shakti são as duas faces do poder vital criador - Fohat despertando em Shakti a actividade criativa e multiplicadora.

José Manuel Anacleto

1 In “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).
2 In “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky (Ed. Ground, S. Paulo).
3 Ciclicamente, do nosso ponto de vista, visto que naquela condição não há Tempo, nem ciclos de tempo.
4 Conforme a Estância I do Livro de Dzyan, base da “Doutrina Secreta”: “Só as trevas enchiam o Todo Sem Limites, porque Pai, Mãe e Filho eram novamente Um, e o Filho ainda não havia despertado para a Nova Roda e a Peregrinação por ela”.
5 “Estudos Selectos em A Doutrina Secreta”, de Salomon Lancri (Editora Teosófica, Brasília, 1992); “Philosophy of the Bhagavad Gita”, de T. Subba Row (Theosophical Publishing House, Adyar, 1912).
6 Purusha - Espírito; etimologicamente, “que tem atributos masculinos”; Prakriti - Substância; etimologicamente, “que tem atributos femininos”.
7 Um Dhyan Chohan (Literalmente: “Senhor da Meditação Luminosa”) é uma Inteligência Divina encarregue de alguma das diversas formas de superintendência do Cosmos.
8 As Hierarquias Criadoras podem ser consideradas em múltiplos de doze, referindo-as, assim, a um dos sentidos mais profundos da Astrologia Oculta; em múltiplos de sete, se considerarmos peculiarmente os sete planetas sagrados, i.e., aqueles que conservam uma especial relação com a formação e desenvolvimento da Cadeia de Globos Terrestre.
9 “Os Sete Primeiros Sopros do Dragão de Sabedoria” - As Sete primevas Hierarquias de Poderes Criadores, os Sete Logoi, os Sete Filhos da Luz.
10 “O torvelinho de Fogo” - Fohat, o Mensageiro dos Deuses.
11 Dzyu ou Dgyu significa Real. Dzyu torna-se Fohat na sua fase activa, eléctrica.
12 Isto é, deuses, Dhyani-Chohans, Poderes Criadores.
13 “Fohat é o Corcel, e o Pensamento, o Cavaleiro”. Esta é uma expressão que se tornou clássica entre os estudantes da “Doutrina Secreta”. Em forma simbólica e poética, significa que Fohat é o meio pelo qual o Pensamento (Divino ou Humano) é transportado para a objectividade. O Pensamento dirige, Fohat “corre” a executar, a construir, a passar à acção objectivante. Assim, Fohat bem pode ser considerado o “mensageiro da Ideação cósmica e humana”.
14 Isto é, os Planos e subplanos do Cosmos. “Os Três e os Sete Passos referem-se às sete esferas habitadas pelo homem [em coadunação com os Sete Princípios], segundo a Doutrina Esotérica, assim como às sete regiões da Terra”; “Os Três Passos se referem, metafisicamente, à descida do Espírito na Matéria, ou à queda do Logos, como um resplendor, primeiro no espírito, depois na alma, e por último na forma física do homem, na qual se converte em Vida” (In “A Doutrina Secreta”). As Centelhas são os átomos, as unidades ou pequenos cosmos - que se integram dentro de outros cosmos -, em cada Plano, desde os mais espirituais ou numénicos, até aos mais materiais ou fenoménicos.
15 Chhâyâ Loka - Etimologicamente, “o mundo das sombras”. O mundo nebuloso de formas etéreas. O Plano imediatamente acima do terrestre.
16 Anupapâdaka - Etimologicamente: “Sem pais, nascido sem progenitores”. É o “nome que na terminologia teosófica se dá ao segundo plano cósmico, onde a Mónada humana tem a sua verdadeira morada”. Designa “o universo na sua eterna condição arúpica [sem forma], antes de ser modelado pelos Construtores” (In “A Doutrina Secreta”).
17 Ovo Áureo - Em apontamentos deixados por Helena Blavatsky, nos últimos anos de vida, a alguns dos seus discípulos mais próximos, foi apresentada uma classificação alternativa dos Princípios do Homem - em sentido estrito esotérico, como escreveu - à classificação mais habitualmente usada por ela (de baixo para cima: 1 - Corpo Físico; 2 - Prana, sopro de Vida; 3 - Linga Sharira - Corpo Modelo ou Duplo Astral; 4 - Kama - O Desejo, a Alma Animal; 5 - Manas - a Mente; 6 - Buddhi - A Intuição, a Inteligência Espiritual; Atman - o Espírito. Cfr., por exemplo, os nossos artigos “Buddhi” e “Esoterismo, Psiquismo e Artes Ocultas”, respectivamente nos os 14 e 22 da “Biosofia”).

Assim, ela distinguiu:
Quatro Princípios Eternos e Fundamentais:
1. Atman ou Jiva, que impregna o Trio Monádico (Um em três e três em Um);

2. Ovo ou Envoltório Áureo, o substrato da Aura que circunda o homem, que é de Akasha puro e primordial, a primeira película formada na expansão ilimitada de Jiva, a Raiz de tudo;

3. Buddhi, um raio da Alma Espiritual e Universal (Alaya;)
4. Manas, o Eu Superior, que procede de Mahat, a Inteligência Cósmica.

E três aspectos Transitórios

3. Manas (a Mente) Inferior, a Alma Animal, o reflexo ou sombra de Buddhi-Manas, com as potencialidades de ambos mas dominado geralmente pela sua associação com os elementos de Kama (Desejo pessoal-egotista);

2. Linga-Sharira, a Forma Astral, emanação transitória do Ovo Áureo. Procede à formação do corpo (físico);

1. Prana, o Sopro de vida, o mesmo que Nephesh (da Cabala e da Bíblia). Com a morte do ser vivo, Prana volta a ser Jiva.

Como é bom de ver, existe uma correlação entre os Princípios e Aspectos antecedidos do mesmo número.
Escreveu Helena Blavatsky: “O Ovo Áureo contém simultaneamente o homem divino e o homem físico, e está directamente relacionado com ambos. (…) Na sua essência, o Ovo Áureo é eterno; e nas suas constantes correlações e transformações, durante o progresso das reencarnações do Ego na Terra, é como uma máquina de movimento perpétuo . (…) O Ovo Áureo, que reflecte todos os pensamentos, palavras e actos do homem, é:
1o O conservador dos anais kármicos;
2o O repositório dos poderes bons e maus do homem que, pela sua vontade, ou antes, com o seu pensamento, admite ou rechaça essas potencialidades, que, uma vez acolhidas, logo se convertem em poderes activos (…);
3o [O que] provê o homem com a Forma Astral [o Linga-Sharira], sobre a qual se modela o corpo físico, primeiro como feto e depois como menino e homem; de modo que a Forma Astral vai crescendo paralelamente com a forma física”.

No fundo, o Ovo Áureo é o Sutratman ou Cordão Prateado.

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  1. Fohat « Ultérrimo on 08 Jun 2010 at 5:23 pm

    […] http://biosofia.net/2004/12/22/fohat/ Pelo que estou entendendo Fohat é a vontade de Deus sobre a matéria. Deus assim estaria presente em todas as coisas que existem pois através do Fohat chegamos ao átomo ultérrimo e através deste ao átomo físico. O átomo ultérrimo seria resultado de Fohat. É cada vez fica mais claro como Deus está em tudo. Ocollt […]

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