O Advaitismo

O Vedanta

As suas origens exactas perdem-se nos milénios, embora se considere que o Vedanta, supostamente formulado por Vyasa (o compilador dos Vedas), tenha cerca de 3.300 anos. Também chamado de Brahma-Jnana, ou o conhecimento puro e espiritual de Brahman, o Vedanta é igualmente conhecido como o fim dos Vedas. Aliás, a própria palavra Vedanta é interpretada como o “fim do conhecimento” ou o fim do pensamento, indicando claramente as ideias de transcendência do plano mental, e de Não-Mente, como acesso aos planos superiores do Ser.

Integra, como principais escrituras, os Upanishads (a segunda parte dos Vedas, que fazem, como estes, parte da “Sruti”, ou “Revelação”), o Brahma-Sutra, o Bhagavad-Gita e o Ashtavakra-Gita, entre outros textos.

O Vedanta ocupa-se com as questões referentes ao Brahman (TAT, o Absoluto), e às manifestações d’Este no universo fenomenal. Sustenta que não existe senão uma realidade e que tudo o resto é ilusório, ou uma aparência do Uno como muitos, sem uma separação real d’Este em partes.

Sustenta, também, que a razão do universo ilusório é “Avidya” (ignorância), causado por “Maya” (aparência ilusória). É na compreensão da natureza e características de Maya, que reside o caminho da libertação do espírito.

O Advaita Vedanta e a natureza de Brahman

O Vedanta divide-se em três grandes escolas ou correntes: o Vedanta Dvaita (Vedanta Dualista), o Vishitadvaita (ou Vedanta Dualista com diferença), e o Advaita Vedanta (ou Vedanta Monista, Não-Dualista). O Sistema filosófico Advaita Vedanta, ou o Vedanta da Não Dualidade (ou, se quisermos, o Advaitismo), é um dos sistemas filosóficos mais importantes da Índia, que ganhou especial expressão com a linhagem iniciada por Sankaracharya, que teria aparentemente vivido entre os Séculos VII e VIII da Era Cristã, embora a tradição ocultista fale numa data anterior.

Como principais pressupostos da corrente mais tradicional deste sistema, e também de todo o Vedanta, temos a questão da prisão do Homem no Ciclo das Reencarnações (Samsara), a qual consiste em sofrimento, e a libertação (moksha) desse mesmo sofrimento.

De uma maneira muito geral, as correntes mais tradicionais do Vedanta diferem entre si precisamente nestes pressupostos, isto é, no que consiste a “prisão” em que o Homem se encerra ou as razões para o seu aprisionamento, e nos meios ou caminhos para a sua libertação.

Na escola Advaita Vedanta, as razões para o aprisionamento do Homem prendem-se com a ignorância (Avidya) da sua verdadeira natureza, sendo que a libertação assenta na eliminação da ignorância, o que é efectuado através do conhecimento (Jnana) da natureza mais interna do Homem, que é Atman (Eu Espiritual).

Mas Atman também é Brahman, conforme o Mahavakya AYAM ATMA BRAHMA (Este Atman é Brahman), pelo que a natureza mais interna do Homem é também o mesmo que o Absoluto.

Os Mahavakyas são postulados presentes nos Upanishades, sobre os quais o sistema Advaita se fundamenta. Existem quatro Mahavakyas nos Upanishades, um em cada dos quatro Vedas:

TAT TVAM ASI (Tu és Aquilo): também chamado de Upadesa-Vakya ou Upanishade-Vakya; está presente no Chandogya Upanishade do Sama Veda.
AHAM BRAHMASMI (Eu sou Brahman): também chamado de Anusandhana-Vakya, que é a ideia na qual o aspirante tenta fixar a sua mente; está presente no Brihadaranyaka Upanishade do Yajur Veda.
AYAM ATMA BRAHMA (Este Atman é Brahman): também chamado de Anubhavabodha-Vakya; está presente no Mandukya Upanishade do Atharva Veda.
PRAJNARAM BRAHMA (Brahman é Consciência): também chamado de Svarupabodha-Vakya, que explica a natureza de Brahman e do Ser; está presente no Aitareya-Upanishade do Rig Veda.

O conceito de Consciência (ou Anubhuti) refere-se, aqui, à Consciência Impessoal ou Cósmica, a qual:
• É provada por si própria (svatah-siddha);
• Não é objecto de conhecimento (avedya);
• É eterna, sem princípio nem fim (nitya);
• É Imutável (nirvikara);
• Não é muitas mas só uma (advitiya);
• É indiferenciada (nirvisesa);
• É o próprio Ser (Atman).

Outro postulado relativo à concepção absoluta de Brahman, e ao conceito de Uno que permeia todo o sistema, é SARVAM KHALVIDAM BRAHMA (Tudo é, na realidade, Brahman), donde se infere que Brahman é Uno e é Tudo o que É, que só Brahman existe, não existindo (mais) nada nem dentro d`Ele nem fora d`Ele: Brahman é Permanente e Indivisível.
O Advaita Vedanta difere assim claramente das concepções de Deus presentes nos sistemas Vishishtadvaita, Samkhya e Yoga. Quer a Escola Vishishtadvaita (ou Vedanta dual), quer o sistema Yoga de Patanjali, admitem a existência de um Ishwara (Senhor do Universo) e de almas individuais que reencarnam sucessivamente, num ciclo evolutivo de regresso ao Absoluto. Quanto ao sistema Samkhya, tanto é negada a existência de Ishwara, como também é, em algumas interpretações, considerado este como um Purusha eternamente livre.

A Manifestação

No que se refere ao conceito de manifestação e ao modo de encarar a existência do Universo Fenomenal, o Vedanta Não-Dualista difere também das outras Escolas do Sanatana Dharma (o que entendemos geralmente por “Hinduísmo”).

A existência do universo fenomenal, como defendido pela Escola Vishishtadvaita Vedanta, reside na ignorância que ilude “elementos de Brahman”, produzindo Maya e o próprio Universo. No entanto, esta concepção admite um Brahman composto de inumeráveis “elementos” ou “modos”, o que contradiz o postulado de que não há (mais) nada a não ser Ele, nem dentro d’Ele, nem fora d’Ele.

Outros Vedantinos afirmam que a base da existência do universo fenomenal não resulta de qualquer (impossível) divisão de Brahman mas, sim, da reflexão de Brahman sobre Maya, comparando a relação entre Brahman e as almas individuais com a reflexão do sol do meio-dia num milhão de gotas de chuva, das quais cada uma parece conter um Sol em miniatura, sendo a base de todas o mesmo Sol, que não é afectado pelas suas inúmeras reflexões.

Quanto à posição do Advaita Vedanta relativamente à base da existência do universo fenomenal, em vez de assente na ideia de inumeráveis almas individuais (manifestadas, criadas, emanadas, ou reflectidas) enredadas no princípio de Maya, postula que é o próprio Brahman que está enredado e envolvido na ilusão, imaginando que está dividido em inumeráveis espíritos individuais ou almas, que é o próprio Brahman que se vê a si mesmo reflectido nas gotas da chuva, imaginando que é muitos, em vez de Um.

A filosofia Advaita nega assim, em última instância, a existência de almas individuais, pois afirma que só há Brahman, o Ser Absoluto, e que realmente não existe nenhuma individualização. Não havendo nenhuma individualização, conceitos como Karma e Reencarnação tornam-se redundantes, uma vez que deixa de ser considerada a existência de um Ego pessoal que possa reencarnar ou que possa estar sujeito a Karma. Atenção: a Reencarnação e o Karma são factos, é verdade, mas no domínio do irreal. Existem como fenómenos num universo que (por fenomenal) é, em si mesmo, ilusório.

O conceito Advaitista do Ser caracteriza-se pela total ausência dum Ego individual realmente existente, pela total ausência de separação, estando totalmente alicerçado na (ausência de) relação entre Atman e Brahman. Assim, só existe Brahman, que é Atman, que é o Ser.

Maya – A ilusão

No Advaita Vedanta, Maya é algo mais do que a mera “ignorância ou ilusão individual da(s) alma(s)”, sendo considerada a própria causa material do Universo fenomenal. Por sua vez, não podendo Brahman estar realmente sujeito a Maya (ou a qualquer outra coisa), Brahman é a própria razão ou causa desta.
Assim, Maya é a natureza da imaginação de Brahman, em que Ele se imerge, quando sonhando. Não obstante uma ilusão, o universo fenomenal não é um “nada”; ele é a aparência ilusória de uma Realidade que está na sua base, irreal em si mesma mas real para todos os fins práticos.

O universo fenomenal pode ser considerado verdadeiro enquanto não é conhecida a Verdade, isto é, tudo pode ser admitido como real em Maya, no seio do manifestado, embora só Brahman seja a única Realidade.

Teorias da criação do Universo manifestado

O Advaitismo compreende diferentes teorias (ou Vadas) de criação do universo manifestado, cuja aparente contradição tem o seu fundamento no facto de cada um de nós se encontrar num diferente nível de compreensão e de consequente avanço espiritual.

A um nível mais básico da existência objectiva ou da realidade fenomenal (Vyavaharika), são aceites as teorias mais dualísticas de Srrishti-Drrishti-Vada (a criação do mundo é anterior à percepção que dele temos) e Drrishti-Srrishti-Vada (a criação do mundo acontece em simultâneo com a sua percepção, sendo a sua existência dependente da percepção que dele temos).

A primeira considera a manifestação como uma realidade objectiva que se rege pela Lei de Causa e Efeito, numa sucessão de causas e de efeitos que remonta até ao momento da criação do universo. A segunda, Drrishti-Srrishti-Vada, consiste já numa teoria mais avançada, que defende que o mundo é criado no acto de cognição, consistindo numa mera ilusão da mente.

Para os capazes de entender a única real e verdadeira existência (Paramarthika), a teoria de Não-Causalidade ou Ajati-Vada compreende o ensinamento mais avançado, o de que a criação do universo nunca ocorreu, de que nada vêm à existência ou cessa de existir, uma vez que só o Ser existe como a única realidade imutável, e que o Tempo, o Espaço, a Causa, e o Efeito só têm existência na mente dos que vivem na ignorância.
O falso ego e a iluminação ou despertar

No sistema Advaita Vedanta, aquilo que normalmente entendemos como ego ou personalidade, não é mais do que um conjunto de memórias e hábitos psico-físicos e emocionais, em constante mutação (o que é um conceito bem próximo do budista).

Adicionalmente, para onde desaparece o ego quando adormecemos? Quando em sono profundo só o Ser existe, não havendo qualquer sentido de ego, razão por que este último não pode constituir o Ser.

A verdade do nosso Ser também não pode residir no corpo, na mente ou nas nossas emoções, que são de carácter impermanente. Sendo que o Ser não é senão Atman (que é Brahman, a eterna Realidade), o Ser também não pode pertencer ao ilusório e ao impermanente.

De igual modo, estando o ego tão ligado à ignorância, o próprio conceito de Moksha (libertação) implica que este não pode existir na “libertação”, pelo que o Ser não pode ser o ego. Para o Advaitista, a Iluminação consiste na compreensão profunda da Unidade do Ser, da inexistência de um eu separado dos restantes, ou do mundo. Assim, a Iluminação não é mais do que a total desidentificação com o falso ego, ou melhor, a desidentificação com o sistema psico-físico corpo/mente, em que se incluem também as memórias, pensamentos e emoções.

Os grandes instrutores de Advaita Vedanta no século XX

Venkataraman – Ramana Maharashi – nasceu no Sul da Índia e foi um dos maiores instrutores espirituais da Índia moderna. Viveu entre 1879 e 1950. Aos 16 anos teve uma súbita e intensa realização de desidentificação com o corpo, e foi compelido a partir para a montanha de Arunachala, que já no seu tempo era um sítio sagrado de peregrinação.

Considerada para os Hindus como uma manifestação de Shiva, a montanha de Arunachala foi o lar de Venkataraman até à sua morte, sendo que durante toda a sua vida nunca se afastou mais do que 3 Kms da sua base. Permanecendo vários anos em silêncio, começou a atrair seguidores que o apelidaram de Sri Ramana Maharashi, nome por que ficou conhecido o “sábio de Arunachala”.

Ramana Maharashi, como outros mestres advaitistas, defendia o postulado de que “A Consciência é tudo, só existe a Consciência”, isto é, que PRAJNARAM BRAHMA (Brahman é Consciência) e que SARVAM KHALVIDAM BRAHMA (Tudo é, na realidade, Brahman).

Dada a sua enorme fama, começou a atrair muitos seguidores. Para os mais preparados, indicava que o único caminho para a libertação era a observação do Ser, ou Atma-Vichara. Para estes, quando o questionavam sobre dado tema, ele meramente respondia: “Quem é que pergunta? De onde vem esse eu que pergunta? Concentra-te nesse eu que questiona e não penses em mais nada. Tenta focar-te nesse sentido de Ser, o qual é o único que podes ter alguma certeza que é Real e, para te ajudar, pergunta-te a ti constantemente, ‘Nan Yar’ (Quem sou Eu)?”

Outro grande instrutor deste século foi Sri Nisargadatta Maharaj (1897-1981). Nascido em Bombaim em Março de 1897, Maruti viveu numa pequena quinta na vila de Kandalgaon até à morte de seu pai.

Aos 18 anos, mudou-se para Bombaim onde abriu uma pequena loja de venda de tabaco e cigarros. Nove anos depois, já com 27 anos de idade, casou-se e teve um filho e três filhas. Aos 34 anos de idade conheceu o seu Guru, Sri Siddharameshwar Maharaj, líder do ramo Inchegeri de Navanath Sampradaya (a tradição dos nove mestres), do qual recebeu um único ensinamento: “Atenta ao teu sentido de Eu Sou, e não prestes atenção a mais nada”.

Três anos depois terá atingido o estado de “desidentificação” com o corpo e a mente e, segundo a cultura Advaita, tornou-se num “Jnani” (grande sábio). Tomou então o nome de Nisargadatta, sendo que “Nisarga” está associado a espontaneidade, à libertação do conceito de Tempo.

Ele professava que o Tempo é meramente uma ilusão, defendendo as máximas de que “a eternidade é aqui e agora” e de que “a divindade está no momento presente”. Defendia a filosofia do momento presente, “do aqui e agora”, e da intemporalidade e impessoalidade da Consciência.

Segundo Maharaj, “… há algo de excepcional, de único, no momento presente. Algo que o momento antecedente e o momento seguinte não possuem. Do que percepcionamos, só os momentos de total espontaneidade, só os momentos totalmente inesperados e imprevisíveis possuem o selo da Realidade. E qual é esse selo? Nada mais do que a minha própria presença. Quanto ao passado, este encontra-se na memória, e o futuro, apenas na imaginação…”.

Nisargadatta Maharaj ficou muito conhecido no Ocidente, por causa da publicação de um livro de gravações das suas conversas com os seus seguidores, em ambiente de “Satsang” (associação com a verdade), que tinham lugar no seu modesto apartamento em Bombaim. Depois da publicação deste livro – “Eu Sou Aquilo” –, a compilação das gravações traduzidas por Maurice Frydman, começou a atrair inúmeros seguidores ocidentais que o iam procurar no pequeno sótão do prédio em que vivia.

Nisargadatta Maharaj repetia as máximas “a Consciência é tudo o que existe” e “o Entendimento é Tudo”. A iluminação é o “Paramartha”, palavra que se traduz como o “Derradeiro Entendimento”, o entendimento final – neste contexto, o entendimento do nosso verdadeiro Ser, o conhecimento do nosso “Svarupa”.

Discutia muito a relação Sujeito/ /Objecto para explicar os seus ensinamentos. Para Nisargadatta Maharaj, a relação conhecedor como sujeito e o conhecido como objecto, é uma relação em que há um falso sujeito, sendo na verdade a relação objecto/conhecedor – objecto/conhecido.

Para Maharaj, “o Númeno, sendo puramente subjectivo, permanece o único Sujeito, pelo que, quer o Conhecedor, quer o Conhecido, são apenas objectos para a Consciência.” Basicamente, o que Maharaj dizia é que o Sujeito só existe no Absoluto, e que os Homens que julgamos ser não são mais que ilusões no pano de fundo da Consciência, nada mais do que objectos projectados na tela da Consciência Universal.

De acordo com os ensinamentos de Nisargadatta Maharaj, cada indivíduo constitui-se como objecto para a Consciência de outrem, não possuindo por isso existência subjectiva na manifestação. O nosso sentido de um eu pessoal decorre do nosso condicionamento e da própria constituição do sistema psicossomático (corpo-mente) que assistimos ser animado pela Consciência. Esta, limitada e iludida pelo corpo físico e pela mente, identifica-se com estes, criando assim uma pseudo-entidade. E é esta pseudo-entidade que, julgando-se como agente das acções em que “participa”, está sujeita às consequências das mesmas, ficando presa pelo conceito de Karma.

Segundo Nisargadatta Maharaj “não existem pessoas mas somente os conjuntos das restrições e limitações que as definem. Quando acreditamos ser uma pessoa, uma entidade separada, vemos pessoas (separação) em todo o lado, quando na realidade não existem pessoas mas apenas conjuntos de memórias e hábitos” (mais uma vez, constata-se uma grande proximidade nas concepções budistas sobre os agregados de Skandhas).

O que somos não pode ser descrito, excepto como uma negação total. Tudo que podemos dizer é “não sou isto, não sou aquilo” (neti-neti). Para Maharaj, tudo o que podemos apontar como “isto” ou “aquilo” não pode ser o nosso verdadeiro Ser.

Quanto à manifestação e à realidade do mundo fenomenal, Maharaj tentava mostrar aos seus discípulos como o mundo que percepcionamos através dos nossos preconceitos e hábitos mentais é um mundo pessoal, privado, e impossível de partilhar; um mundo intimamente nosso, em que ninguém consegue entrar e ver o que vemos, ouvir o que ouvimos, sentir as nossas emoções ou pensar os nossos pensamentos. No que se refere à Libertação ou Iluminação, para Maharaj, ela não pode ser pessoal, pois implica a libertação do próprio conceito de “pessoalidade”, o qual é a base do aprisionamento.

Ramesh Balsekar, nascido em 1917 e ainda vivente, é um instrutor Advaita contemporâneo, discípulo directo de Nisargadatta Maharaj. Natural de Bombaim, entrou para o Banco da Índia em 1940, donde se reformou em 1977 na posição de presidente. Tomando contacto com Sri Nisargadatta Maharaj um ano após se reformar, tornou-se o seu principal discípulo, sendo hoje o maior intérprete vivo dos seus ensinamentos.

O seu próprio ensinamento segue a linha de Sri Nisargadatta Maharaj (“o Entendimento é Tudo”) mas colocando uma maior ênfase no profundo entendimento e aceitação da “Impessoalidade da acção” resultante da não-existência de um eu individual, do que na auto-observação do sentimento de Eu Sou como o seu mestre, ou no questionamento “Quem sou Eu” de Sri Ramana Maharshi. Assim, em vez de preconizar a observação do sentimento de Eu Sou, ou a observação dos pensamentos e emoções que constituem o Não-Ser, Ramesh Balsekar defende a observação das provas diárias da inexistência de um Livre Arbítrio.

Segundo os ensinamentos de Ramesh Balsekar, não é verdadeiramente possível identificar um EU separado que toma decisões e que é causa de acções. Para este instrutor, nós, como nos identificamos, não vivemos, mas somos antes vividos pela Consciência Impessoal. Assim, nós meramente “acontecemos”, não tendo qualquer capacidade de interferir no “programa” do corpo-mente, o qual consiste da herança genética e dos condicionalismos a que fomos e somos sujeitos. É a própria noção de fazer algo, de poder ser uma causa, que aprisiona o Homem.

Ramesh Balsekar afirma: “Quem, ao viver, pode exercer a sua vontade, quando na realidade não existe nenhuma entidade individualizada para a exercer? A vida não é mais do que o funcionamento da Consciência Cósmica/Universal através de milhões de formas físicas, e os resultados do aparente exercer de uma vontade individual resumem-se apenas ao inevitável”. Para ele, a verdade é que não existe nada a alcançar mas somente algo a largar – a falsa sensação de responsabilidade na acção, de livre vontade, de acção pessoal.

Quanto à razão de ser da falsa identificação com o ego, esta é resultado do que chama de a “hipnose divina”, a qual cria a ilusão do ego individual porque, sem ele, a vida como a conhecemos não poderia ter lugar, isto é, a manifestação não poderia funcionar, uma vez que se encontra baseada na interconexão de pares de opostos. Já no que se refere à própria razão de ser da manifestação, Ramesh Balsekar oferece uma explicação singular: “Não podemos saber por que é que há manifestação. Quem é este objecto que pergunta por que há manifestação? Não é possível para um Objecto (o Homem) conhecer os desígnios do Sujeito (o Absoluto).”

As ilusões da Cultura Neo-Advaita

Existem presentemente no Ocidente vários indivíduos que se apresentam como instrutores de Advaita Vedanta que, considerados pelos seus seguidores como “despertos” ou “iluminados”, dão vida ao chamado movimento Neo-Advaita, assente no “Satsang” e caracterizado pela proliferação de websites sobre Não-Dualidade, publicação de livros sobre experiências pessoais de Iluminação, e um intenso calendário de palestras e de workshops de Gurus da Não-Dualidade.

Muitos destes intitulados instrutores são antigos seguidores ou discípulos de Bagwan Rajneesh (também conhecido por Osho ou o Guru do Sexo) e de Poonjaji, este descoberto pelo movimento hippie no final dos Anos 60, e convidado a viajar até ao Ocidente por muitos ocidentais que o visitavam e com ele residiam em Lucknow, na Índia. Após a sua morte, em 1997, houve um proliferar de mestres “iluminados” ou “despertos”, que começaram a conduzir palestras e a atrair os seus próprios seguidores.

Na cultura Neo-Advaita os ensinamentos são, sobretudo, apresentados nestes encontros de perguntas e respostas (os “Satsangs”). O instrutor convida os seus ouvintes a apresentar questões, e responde-as de modo idiossincrático e pessoal, não tendo normalmente lugar, nestes encontros entre Guru e discípulos, qualquer apresentação ou explicação dos princípios fundamentais do Advaita Vedanta. De igual modo, a maioria dos livros que se publicam são meras transcrições desses mesmos “Satsangs”, sem detrimento da existência de algumas raras pérolas de autores realmente profundos.

O fascínio da cultura Neo-Advaita para os seus seguidores reside, principalmente, no facto de remeter para ensinamentos avançados do Advaita mais profundo e do Budismo Cha’an (Zen), nomeadamente da “Escola do Despertar Repentino”, em que, aparentemente, nenhum esforço, estudo, determinação ou empenho são realmente necessários ou até desejáveis para o “Despertar” ou “Iluminação”.

Com tais orientações, torna-se fácil para o discípulo ocidental cair numa atitude, para com os ensinamentos, que é pautada pela preguiça e indolência, em vez de pelo esforço de compreensão e estudo das concepções mais metafísicas, como as preconizadas por Shankara e outros. Nem tampouco é considerada qualquer necessidade de desenvolvimento das capacidades de atenção e concentração (necessárias à prática de Atma-Vichara) ou de compreensão da terminologia sânscrita, uma vez que o esforço envolvido é (erradamente) visto com um reforçar do ego e do sentido de “Pessoalidade na Acção”, de que nos queremos ver livres.

Mas as afirmações dos grandes instrutores deste século, de que não é necessário qualquer esforço pois o nosso estado natural é já a Totalidade, só se aplicam quando realmente os praticantes atingiram um nível de compreensão em que tais esforços não são mais necessários. Assim, ao não considerar as práticas de observação do Ser e do Não-Ser como necessárias ao Paramartha, ou “Derradeiro Entendimento”, a generalidade dos seguidores do Neo-Advaita coloca-se numa confortável posição de passividade mental em que ”não há nada para fazer nem nenhum lugar para onde ir, pois de qualquer forma não está aqui ninguém”, ignorando assim o facto de tal só se poder colocar quando da dissolução do falso-Eu e da cessação da identificação do Ser com a mente e com o corpo, para o que é necessário transcender inúmeros hábitos e tendências da mente, ou Vasanas.

No entanto, apesar de incompleta na sua generalidade, a corrente do Neo-Advaita pode servir como uma introdução ao verdadeiro ensinamento, desconstruindo o falso ego, mesmo que parcialmente e só ao nível do intelecto, devendo porém ter-se em atenção o verdadeiro significado de afirmações mais profundas: realmente “não há caminhantes nem caminho”… mas só para os que já o percorreram.

Tomás Marques
Engenheiro do Ambiente

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.