O Mistério Shakespeare-Bacon

As obras de William Shakespeare terão sido escritas por Francis Bacon?

Embora geralmente desmentida nos círculos literários convencionais, a tese Bacon-Shakespeare é aceite consensualmente entre estudiosos da tradição esotérica. A escritora britânica Jean Overton Fuller (com quem mantive correspondência durante vários anos) aborda a questão na sua biografia intitulada “Sir Francis Bacon” 1. Ela constatou, por exemplo, que trechos do diário de Francis Bacon são transcritos literalmente na obra “Rei Henrique VI”, atribuída a Shakespeare. Assim como outros autores já fizeram, Jean Overton Fuller mostra que as obras assinadas por Shakespeare demonstram tamanha erudição e conhecimento clássico e místico que só poderiam ter sido escritas por alguém que fosse simultaneamente um grande pensador e que convivesse com os altos círculos de poder político, como foi Sir Francis Bacon. E não poderiam ter sido criadas por um pobre actor, de cultura limitada, como foi Shakespeare. Mas Francis Bacon, ex-chanceler da Inglaterra, não teria condições políticas de assinar pessoalmente obras que traçavam um retrato tão rigoroso das elites e da nobreza britânica da época. Jean Overton Fuller analisa a vida de Bacon e mostra como os seus sofrimentos pessoais coincidem com os dramas dos personagens shakespeareanos. A relação da obra shakespeareana com a tradição esotérica também se explica pelo facto de que Bacon era um iniciado da tradição mística ocidental. Bacon escreveu e assinou ensaios de grande importância e é considerado o formulador do método científico moderno.
O notável erudito norte-americano Manly P. Hall compara na sua obra “The Secret Teachings of All Ages” 2 um retrato de Bacon com o retrato mais conhecido de Shakespeare. Hall publica um dos retratos em papel vegetal, transparente, ao lado do outro, o que permite a superposição das duas imagens e demonstra a identidade dos traços fisionómicos. M. P. Hall escreve, na página 165 do seu livro: “é bastante evidente que William Shakespeare não poderia ter escrito, sem ajuda, as obras imortais que levam o seu nome. Ele não possuía a necessária cultura literária, porque a cidade de Stratford, em que ele foi educado, não tinha uma escola capaz de transmitir as formas superiores de conhecimento que se reflectem nos escritos que lhe são atribuídos. Os seus pais eram analfabetos, e na sua juventude ele demonstrou um total desinteresse pelo estudo”. A análise da letra manuscrita de Shakespeare também demonstra, segundo M. P. Hall, que ele não estava habituado a escrever. A sua letra era insegura, incerta, mal definida. Do seu punho, só há algumas assinaturas do seu nome e o seu testamento. Nenhuma das obras atribuídas a Shakespeare tem originais com a letra do actor.

Carlos Cardoso Aveline

Jornalista, editor e autor brasileiro. Estuda filosofia esotérica desde 1980. Colaborador de “Biosofia”. Editou  “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” e “Cartas dos Mestres de Sabedoria” em língua portuguesa. Escreve em publicações de diversos países. Autor, entre outros livros, de “O Poder da Sabedoria” e “Informação Solidária”

Notas:
1 Sir Francis Bacon, segunda edição, George Mann Books, Maidstone, Kent, UK, 1994, 384 pp.
2 Editada pela Philosophical Research Society, Los Angeles, CA, EUA, segunda edição, 1994. O livro tem 245 pp. ilustradas.

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.