Adão e Eva

Desfiguração de um segredo arcano

O Sopro necessitava de uma Forma;
deram-lha os Pais.

O Sopro necessitava de um Corpo denso;
A Terra o modelou.

O Sopro necessitava do Espírito de Vida;
Os Lhas Solares o insuflaram na sua Forma.

O Sopro de um Espelho [duplo astral] do seu Corpo;
“Nós lho daremos de nós próprios, disseram os Dhyânis.

O sopro necessitava de um veículo de Desejos;
“Ei-lo aqui!”, disseram os Drenadores das Águas.

O Sopro necessitava de uma Mente para abranger o Universo;
“Isso não podemos dar!”, disseram os Pais.
“Nunca a tive!”, disse o Espírito da Terra.
“A Forma seria consumida, se eu lhe desse a minha!”,
disse o Grande Fogo. . . .

O Homem permaneceu um Bhûta, vazio e sem entendimento…

Assim deram a Vida os ‘sem Ossos’
Aos que se tornaram ‘Homens com Ossos’ na Terceira…

Excerto do Livro de Dzyan,
Estância IV, Versículo 17

Dizem-nos os anais da Ciência Esotérica que a Humanidade, digna desse nome, tem assento na Terra há cerca de 18 milhões de anos. Por essa altura foi-lhe inculcado o “princípio pensante”, que lhe conferiu, verdadeiramente, o estatuto humano. Antes disso, os seres que deram origem à Raça humana, eram homens-animais, seres gigantes e disformes, e hermafroditas. Estava-se na segunda metade da Terceira Raça Raiz, ou Lemúriana.

Na época acima aludida, seres de grande envergadura espiritual, muitíssimo mais avançados em termos evolutivos do que qualquer ser habitante da Terra, vieram do nosso planeta irmão, Vénus ou Shukra 1.

Vénus, o planeta físico, encontrava-se, como se encontra ainda hoje, em Pralaya 2, sendo que as entidades aludidas eram provenientes do Globo “G” da Cadeia Venusiana. Assim, nesses dias recuados da nossa infantil humanidade, um pequeno grupo 3 daquele “Esquema irmão” tomou a si a tarefa da cooperação para o nosso incremento evolutivo, sendo que nos encontrávamos ainda a um passo largo de atingir o propósito de assumida “humanização” (ou seja, a aquisição de “individualidade” libertadora).

Rezam as crónicas antigas que esses seres, “divinos” comparativamente à nossa génese de então, inculcaram o “gérmen da mente” aos mais amadurecidos e aptos entre os homens-animais. Alguns dentre estes tinham chegado a uma fase charneira do seu percurso biológico – uma metamorfose que possibilitaria, que abriria portas à futura expansão de consciência. Tal marco foi a transformação dos seres hermafroditas que eles eram, em seres de cada um dos dois sexos, em separado.
E, nos registos mais “ocultos”, está dito que o primeiro resultado desta metamorfose foi um ser de polaridade feminina. Este ser acasalou, entretanto, com outro, bissexual, e desta união proveio a humanidade unissexual (homens e mulheres) que hoje constituímos.

A separação dos sexos teve como consequência directa a assunção da energia mental (em essência, a energia mental e a sexual são da mesma natureza 4).

Em cada ser, agora unissexuado, a energia subvertida (não utilizada), veio a ascender e assumiu a condição mental (kâma-manásica), constituindo a primeira acha, na qual poderia efectivamente pegar a contraparte superior de Manas 5 –  o verdadeiro Ego –, aquela que é pertença da Tríade superior e iluminada. E é então este raio (do divino Mahat), o tão precioso “presente vindo dos deuses”, o qual iluminará e abrirá o caminho para a Libertação ao recém-tornado homem (provido de intelecto). E é esta então a centelha sagrada que – vigiando sempre para que o fogo 6 seja constante e não se apague –  se converterá na flor da razão e da autoconsciência humana.

Assim, os venusianos doaram de si a centelha espiritual, a centelha da Mente 7, que muito lentamente foi pegando e ateando (n)a consciência dos mais preparados.

Os nossos “Pais Espirituais”

A vinda dos divinos seres que prodigalizaram estes acontecimentos está naturalmente registada nos Arquivos Ocultos, e, bem assim, consta das mais remotas tradições esotéricas e exotéricas. Através dos séculos e milénios, receberam eles numerosos nomes e designações: “Senhores da Chama” ou “Dhyânis do Fogo”; “Senhores da Mente” ou “Manasaputras”; “Anjos Caídos”; “Os Filhos da Noite”, mas também, por vezes, “Os Filhos da Aurora” (alusivos eventualmente à sua filiação venusiana – Vénus é ainda hoje a “Estrela d’Alva” ou “Estrela da Manhã”); “Agnishvattas”; “Kumâras”; “Prajâpatis”; “Amashaspends”; “Triângulos”, etc. 8

A centelha da mente, como já referimos, “pegava” nos seres cuja polaridade sexual se tinha definido num só sentido. O seu combustível (o seu duplo ou o seu “gémeo”), (Kâma)/Manas inferior (funcionando como uphâdi), era o resultado da energia incrementada, concentrada numa só polaridade.

Por muito tempo ainda nasceram seres bissexuados a par de outros unissexuados e que, por sua vez, acasalavam entre si, a despeito das indicações “superiores”, dos seus pais espirituais, de que os homens dotados de razão (“os filhos dos deuses”) unicamente deveriam unir-se entre si (e não acasalar com “as filhas dos homens-animais”).

O conhecimento destes factos longínquos foi conservado ocultamente, no curso da História, pelos Guardiões da Humanidade, isto é, pelos mais altos Iniciados que mereceram a comunhão desses segredos. Contudo, de tempos a tempos, alguma fresta dos Anais se entreabre para deixar passar alguma luz sobre, nomeadamente, a nossa verdadeira identidade, de onde viemos, o propósito por que estamos aqui, para onde nos dirigimos… No entanto, cada dádiva apenas se cinge à justa medida da nossa capacidade de assimilação em cada momento histórico, e visando, tanto quanto possível, preservar da profanação os conhecimentos desvelados. Ainda assim, nem esta prudência tem impedido que o amontoar do tempo e o desregramento dos homens tragam a adulteração destas sublimes verdades, sob a forma de mitos e de múltiplas formulações dogmáticas das religiões exotéricas.

Deste modo, as religiões semitas, herdeiras ou copistas da tradição originária da antiga Índia 9, infringiram, no curso das Idades, numerosas adaptações e desfigurações aos preciosos conteúdos iniciais.

Por seu turno, as Igrejas Cristãs, hoje maioritariamente prevalecentes na nossa civilização europeia e americana, acabaram dar “o golpe final” a essa herança, afastando-a em definitivo da sua pureza e genuínos significados originais.

Iremos, neste artigo, ater-nos unicamente às questões que se prendem com a nossa génese colectiva, e procuraremos assinalar as principais zonas de fractura e adulteração do mito judaico-cristão relativamente às fontes da Antropogénese legada pelos primitivos hindus.
O Mito de Adão e Eva

A Tradição Judaico-Cristã apresenta-nos o mito de Adão e Eva, como sendo os nossos primeiros pais. Conta-nos que eles viviam no Paraíso e que, nesse Paraíso, Deus os tinha proibido de comerem do fruto (uma maçã) de uma determinada Árvore, “do Bem e do Mal” (a Árvore do Conhecimento ou da Sabedoria). Acrescenta que uma Serpente, demoníaca – Satanás –, se aproximou de Eva e a tentou, instando-a a que desobedecesse e comesse dos maravilhosos frutos daquela Árvore, pois estes lhes proporcionariam a imortalidade e os tornariam igual aos deuses (…“se comerdes deste fruto, não conhecereis a morte!” e “sereis como deuses”; Genesis, 3: 4-5). Conclui que Eva foi seduzida pelo logro da Serpente e que, por sua vez, tentou (e conseguiu) que Adão comesse a maçã junto com ela.

Um apêndice do mito na versão hebraica é a existência de “uma rival de Eva”, Lilith. Esta era uma criatura horrenda e animalesca, meio homem meio mulher, e que havia sido a companheira de Adão antes de Eva. Lilith tinha-lhe dado filhos, todos com as mesmas características telúricas e disformes, “nascidos do seio da terra”. Em “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky, vemos uma sua descrição nos seguintes termos: “uma fêmea animal peluda, de uma espécie hoje desconhecida – mas, em todo o caso, uma fêmea animal que, nas alegorias cabalísticas e talmúdicas, é considerada o reflexo feminino de Samuel, Samael-Lilith, o homem-animal (unidos), um ser que no Zohar tem o nome de Hayo Bishat, a Besta ou Besta Má.”

Não obstante, a versão do “livro sagrado” dos cristãos obviamente descartou esta parte da versão rabínica, por obstar à sustentação de que Eva “fora a primeira mulher”, o início de toda a humanidade…

Vejamos o que a Ciência Esotérica tem a dizer sobre toda esta dissertação do mito hebraico, extensivo ao cristão:

Eva não é outra se não o primeiro ser unissexual que se destacou da Humanidade-Animal. Temos, assim, que o primeiro resultado desta separação dos sexos foi um ser do sexo feminino. A tradição semítica deu-lhe o nome de Eva, Heva ou Hovah – que, inicialmente, significava Aurora  (curiosamente também, em contraposição com o nome Lilith, uma vez que, segundo alguns etimologistas, Lilith deriva de “Layl” ou ainda de “Laylah”, ou seja, “noite”). Por outro lado, o termo latino aurora (“ausos”) provém da raiz sânscrita “awes”, que significa “brilhar”, e, de facto, as palavras sânscritas “usâs” e “ushas” revestem o mesmo sentido, e Usanas (ou Uzanas) era, para os nossos ancestrais hindus, o Planeta Vénus, ou, mais explicitamente, a Divina Entidade que animou o planeta físico de Vénus, bem como a todos os restantes globos da respectiva Cadeia.

Eva uniu-se a Adão, que era um ser hermafrodita (Adão, o de dois rostos), e tiveram filhos. Como bem se diz na “Doutrina Secreta” já citada, “o primeiro Adão terrestre (o Adão de pó) ‘só tinha o sopro de vida’, Nephesh, mas não a Alma vivente.” Essa só podia ser ateada nos seres já emancipados e dotados de razão intelectiva (ainda que incipiente). Antes de Eva, Adão teria acasalado com Lilith, bissexual como ele, e tiveram filhos 10.

Continuando: a tradição esotérica desvela que o Abel e o Caim bíblicos eram um mesmo ser, bissexuado (tal como o pai), porém que Caim, a contraparte masculina, era dominante, a que estava activa (“Caim matou”, submeteu “Abel”, a polaridade feminina) 11. Unicamente Seth, o terceiro filho de Adão e de Eva, continuou, de forma bem sucedida, a linhagem de seres unissexuais. 12 Com efeito, na letra de “A Doutrina Secreta” de HPB, que naturalmente citamos amiúde, diz-se o seguinte: “A reprodução [na Terceira Raça-Raiz] era de três tipos: na primeira sub-raça, processava-se por gotas de suor [exsudação dos Chhâyâs, ou sombras protoplásmicas] e apenas mal se distinguia o sinal sexual no corpo; gradualmente surgiu a geração ovípara (na terceira e quarta sub-raças), produzindo inicialmente seres hermafroditas e mais tarde com predomínio de um só sexo, até que, finalmente, nasceram do ovo machos e fêmeas. Na quinta sub-raça, o ovo começou a ficar retido no seio materno e nasceu uma geração de criaturas débeis e desvalidas; finalmente, já nas sexta e sétima sub-raças, se deu a procriação pela união dos sexos.” O trecho bíblico é, então, uma (pretendida) narrativa, ou melhor, uma alegoria, reportada a esta fase final da Terceira Raça-mãe. Por outro lado, a figuração da “queda na geração”, alude, de forma clara, à assunção dos dois sexos em separado, e à evolução biológica da gestação (que, desde a primeira Raça até à presente – a quinta – passou por muitas fases).

E, nomeadamente, podemos ler na Estância VII, do Livro de Dzyan, a vetusta alegoria: “24. Os Criadores superiores 13 repudiam as Formas Desenvolvidas pelos “Filhos da Ioga 14”. 25. Não querem encarnar-se nos primeiros nascidos do ovo. 26. Elegem os andróginos posteriores. 27. O primeiro humano dotado de mente.” (…)

Eva foi “tentada” pela serpente, Satanás. A serpente sempre foi, em todas as culturas e tradições, um símbolo de Sabedoria (Sophia) 15. Os “Ofitas”, os  “Dragões de Fogo” ou “Agnishvattas”, os “Nâgas”, os “Narjols”, os “Seraphim” 16, os “Ameshaspentas” 17, etc, são algumas designações associadas ou representativas dessa mesma Sabedoria 18. Significativamente, o chefe supremo dos Kumâras (os nossos Pais Espirituais), era Sanat Kumâra – e Satanás ficou como uma corruptela  (a que se associaram desvirtuas e invertidas interpretações) deste augusto nome. Por outro lado, a “Árvore do Conhecimento” era una com todas as Árvores Simbólicas do Conhecimento de todas as Ciências Religiosas do passado. Agnishvattas (outro nome dos Kumâras) é literalmente a Árvore de Fogo (ou simplesmente Ashvatta), cujo fruto é a Inteligência Espiritual dotadora de imortalidade. A Árvore Bo (também chamada Nâgabandhu), dos budistas; a Árvore Bodhi ou a Pippala, dos hindus; a Zampun, dos tibetanos; a Asherah, dos assírios; a Yggdrasil, dos escandinavos, todas possuem essa significação. Na verdade, em toda a Antiguidade, o símbolo universal do Conhecimento Sagrado e Secreto era uma Árvore, regra geral guardada por Dragões ou Serpentes, também eles símbolos de Sabedoria.

A maçã é o fruto, por excelência, significativo da Mente (libertadora), o princípio de Manas, e primeiro degrau da Tríade superior (espiritual, redentora e imortal), em contraposição com o Quaternário inferior (material e perecível). Este símbolo muito provavelmente assenta na configuração pentagonal dos alvéolos das suas sementes, alusiva ao 5º princípio (Manas) na escala septenária dos princípios do Homem. No âmago da maçã (abrindo-a transversalmente), podemos ver claramente um pentágono cujas pétalas contêm as preciosas sementes, alusivas às sementes da Mente doadas pelos Kumâras. E assim lemos, na mesma Estância (do Livro de Dzyan), no versículo seguinte: “(…) Os Filhos da Sabedoria … desceram. Viram as formas vis 19 da Primeira Terceira. ‘Podemos escolher’, disseram os Senhores, ‘nós temos a Sabedoria’. Alguns entraram nas Chhâyâs 20. Alguns projectaram de si uma Centelha. Alguns demoraram até à Quarta 21 (…) com o seu próprio Rûpa encheram 22 o Kâma…”.

O apetecido fruto da macieira era então o símbolo da aquisição da mente espiritual, nas diversas fábulas e versões mitológicas. Era o que significava a maçã de cristal do mito de Prometeu, que lhe serviu para guardar alguns raios de Sol com que animou a estátua de barro que havia fabricado 23, bem como as maçãs “áureas” 24 do Jardim das Hespérides, guardadas por uma serpente enroscada na árvore, e cobiçadas por Hércules no cumprimento de um dos seus “12 Trabalhos”.

Ainda, em outras paragens no mito bíblico, está dito que “os deuses desejaram as filhas dos homens”, sendo essa uma alusão ou desfiguração da narrativa esotérica de que “por muito tempo ainda, os seres ‘emancipados’ (já dotados da centelha espiritual, os ‘filhos dos deuses’) acasalaram com os remanescentes homens-animais e sua prole”.

Adão Kadmon é o Homem arquetipal, a Humanidade no seu todo, e esta Humanidade é, na sua contraparte espiritual e arquetípica, andrógina 25 26. O antropónimo bíblico “Adão” foi presumivelmente eleito para caracterizar a condição hermafrodita do companheiro de Eva 26 e, bem assim, da humanidade primitiva, de que ele era um representante. A diferenciação dos sexos foi e é uma condição necessária, temporalmente, para providenciar a concentração de energia propulsora da apreensão e, depois, maturação do princípio mental. Nas últimas etapas da  peregrinação pelos mundos da forma, a humanidade reassumirá a sua condição andrógina no sentido predominantemente espiritual (isto implicando que, em termos do veículo físico, a reprodução de então não se fará por via sexual e bidiferenciada).

A Estrela d’Alva

Já no séc. VI  A.C. Pitágoras ensinava que Lúcifer e Vénus eram um único astro. Lúcifer era o “portador da luz”, alusão de significado eminentemente ocultista no que se refere ao papel de Vénus na evolução da nossa Humanidade. Este significado era, aliás, comum nas mais representativas e recuadas filosofias e tradições religiosas. Inclusive, na primitiva cristandade verificamos que um dos primeiros papas foi denominado Lúcifer, como atestam Yonge e certos registos eclesiásticos. De facto, o termo Lúcifer não consta no Novo Testamento como (o) nome de diabo, pelo contrário: o primeiro Arcanjo, que surgiu das profundezas do Caos, foi chamado de Lux [Lúcifer], o luminoso “Filho da Manhã” [ou Aurora Manvantárica]. O próprio Jesus teria dito de si (ou do que representava): “Eu sou a raiz e o descendente de Davi, sou a radiosa estrela d’alva” 27 (idêntico ao nome de Lúcifer – o portador do facho da Luz-Vida imortal 28). Muito expressivamente, podemos ler na “Doutrina Secreta” de Helena Blavatsky que Lúcifer e o Verbo são um só, no seu aspecto dual. E efectivamente, fazemos notar, de igual modo para alguns gnósticos egípcios, o Meissi (Messias) – termo que significava a Palavra Sagrada (o Verbo) – era uma serpente coroada, figurativa da Redenção, e que estava presa numa cruz.

Entretanto, não gostaríamos de deixar de lembrar o significado de algo que, a muitos, tem causado perplexidade: os mitos dos Dragões que expeliam fogo pela boca, mitos esses que foram uma constante, em todas as épocas, sobre todo o globo. Na verdade, mais não se trata do que uma reminiscência dos “Dragões de Sabedoria” ancestrais, portadores do Fogo de Manas. O fogo expelido pela boca é o poder do Verbo, pelo qual eles comunicaram a Palavra também ao homem. Efectivamente, o homem adquiriu a oralidade apenas nessa etapa do seu desenvolvimento. Igualmente, por meio daquele dom, os Senhores da Sabedoria instruíram os melhores entre a safra de (novos) homens, sobre todas as ciências 29.

Associada a esta questão, está o Dêvanâgari. O Dêvanâgari, a linguagem dos devas ou dos deuses, era precisamente a linguagem das Serpentes de Sabedoria – a linguagem ígnea e sibilina, apenas conhecida e dominada pelos virtuosos Rishis do passado. Segundo reza a Tradição, foi originalmente trazida e comunicada pelos Kabiri (uma designação muito específica dos Kumâras, como deuses de Mistério) e mantida durante a vigência das Dinastias Divinas. O sânscrito e os seus caracteres teriam a sua raiz nesta linguagem mística.

E retornando a H.P.B., escreveu ela na introdução da sua preciosa revista intitulada “Lúcifer” –  Nº I, Setembro de 1887: “(…) foi Gregório Magno quem aplicou a Satã, pela primeira vez, a seguinte passagem do profeta Isaías, ‘Como caíste do céu, ó Lúcifer, filho da manhã?’ (…), e, desde então, a metáfora do profeta, que se referia afinal a um rei assírio inimigo dos israelitas, foi tomada ao pé da letra e aplicada ao Diabo”.

Com efeito, Isaías ao falar, em certo trecho, da “morte do rei da Babilónia”, Nabucodonosor, utiliza metáforas de “estrela d’alva, caída do céu…” e fala da presunção daquele rei em subir às alturas e ali erigir o seu trono estabelecendo-o na “montanha da Assembleia, nos confins do norte…” onde se tornaria “semelhante ao Altíssimo”.

Nos poemas de Râs-Shamra, antiga cidade de Ugarit 30, a Estrela d’Alva e a Aurora são duas figuras divinas; neles originalmente se alude à “montanha da Assembleia, nos confins do norte, na qual os deuses se reuniam” [como, no Olimpo, os deuses dos gregos].

A Igreja romana tem-se encarregado da restante tecitura destas tramas. Os seus padres forçaram estas e outras interpretações, firmando definitivamente a queda da “estrela d’alva” (Lúcifer) como a do “príncipe das trevas”, Satanás – corruptela de Sanat Kumâra, como já vimos.

Símbolos que remetem para a nossa filiação venusiana

A Esmeralda

Diz a Bíblia: (…) E a antiga serpente, o Grande Dragão chamado demónio ou satanás, foi expulso de lá [do Céu], sendo atirado para a Terra com os seus anjos”. A este respeito diz a lenda, semi-cristã, que Lúcifer trazia uma pedra no meio da testa, uma esmeralda resplandecente, que lhe prodigalizava a visão clara de todas as coisas ocultas. Porém, na queda, esta esmeralda ter-se-á quebrado, soltando-se um pedaço que foi então guardado pelas hostes do Arcanjo Miguel. Mais tarde, o Graal teria sido esculpido deste pedaço.

Descortinando o símbolo, é bom de ver que esta esmeralda 31 era, pois, o Devâkcha, ou visão espiritual, que por sua vez os Kumâras  proporcionaram que outros tivessem, implantando a sua semente (ou bîja) na terra adâmica e fertilizável. É sabido, por outro lado, que, de todas as gemas preciosas, a esmeralda é a pedra polarizada por Vénus. Significa isto que a energia que preside à sua natureza interna e estruturação externa é a mesma que dimana do Regente de Vénus (a esmeralda tem um padrão de ressonância idêntico ao que emite aquele planeta).

Na versão de Wolfram von Eschenbach, o Graal não é uma taça mas, sim, uma pedra – uma esmeralda – trazida dos céus pelos anjos. Nesta versão do mito, a pedra recebe o nome de Exillis ou Lapis exillis, e ainda Lapis ex coelis, e é, pois, idêntica à pedra regeneradora dos alquimistas medievais, a Pedra Filosofal – que transforma os metais vis em Ouro, homens em Reis, aspirantes devotos em Adeptos.

A “Mesa de Esmeralda” evocada em outros tantos mitos de origem cátara alude à mesma realidade da “Tábua de Esmeralda”, atribuída a Hermes Trimegistos.

A maçã

Avalon (Ynys Afallach) é a mítica ilha das macieiras 32, da saga do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Nela viviam os heróis e deuses celtas e, para lá, pediu o Rei Artur para ser levado para se curar de uma ferida mortal.

Uma antiga lenda hindu diz que o “duplo astral” (Linga-Sharîra) do homem, onde ancora o raio verde de Manas, era denominado “a maçã” (com o seu coração penta-alveolado, alojando as sementes divinas). Tem isto certamente relação com a significação do mito da maçã de Prometeu, já atrás aludido, bem como é uma representação fabulosa das primeiras Encarnações das Mónadas Divinas (ou o nascimento do nosso verdadeiro Eu).

Para os povos germânicos, a maçã simbolizava a imortalidade. Iduna, a deusa imortal, a cada manhã alimenta os deuses com as maçãs da juventude eterna. Porém, um certo dia, a deusa e o seu tesouro foram raptados por um Gigante, o que deu origem ao envelhecimento e à doença dos deuses do Asgard. O deus Loki conseguiu resgatar Iduna, e todos readquiriram a imortalidade.

Existem, igualmente, numerosos contos celtas (imramas) nos quais a maçã é o símbolo central, de conhecimento, revelação e magia. Num deles, “A Viagem de Maeldwin”, o herói, numa busca incessante pelo mundo tentando encontrar os assassinos do seu pai, chega a uma ilha onde encontra uma macieira e dela corta um ramo com três maçãs. Estes frutos são capazes de saciar a sua fome e a de todos os seus companheiros de odisseia, por quarenta dias, sem que comessem de mais nenhum outro alimento. Num outro imrama, Condle, guerreiro intrépido, vencedor de cem batalhas, é também alimentado por maçãs, que nunca diminuem a sua quantidade. E noutro ainda, o herói é atraído por uma fada que lhe entrega um ramo de macieira e o convida para ir com ela para o seu reino – num outro mundo, de beatitude e bem-aventurança…

Outros símbolos relevantes do significado da maçã, designadamente na mitologia grega, já foram atrás mencionados.

Num aparte, contudo, e no campo da anatomia, o nome de maçã-de-Adão dado à proeminência da cartilagem tiróideia comum nos homens, encontra coerência e, por ventura, assento numa curiosa reminiscência (rebuscada, quem sabe, no inconsciente colectivo): foi, de facto, a Humanidade pós-Adamita, nos finais da Terceira Raça, que desenvolveu a laringe e a linguagem falada.

A serpente

A relação Vénus–Serpentes de Fogo entretece o fio da nossa já longa História. Vemos Vénus associado às serpentes nas antigas religiões Tolteca (os Toltecas teriam sido a 3ª sub-raça da 4ª Raça-raiz ou Atlante) e, depois, Azteca, que foi herança da primeira. Com efeito, Vénus teve para ambas as civilizações uma enormíssima importância cosmogónica, uma vez que os seus povos se consideravam “filhos dos deuses venusianos”. Subsistem ainda hoje lendas de que, num remoto passado, haviam por eles sido instruídos, a ponto de instituíram o seu próprio calendário a partir dos movimentos astronómicos do planeta irmão. Quetzalcoatl, o deus supremo, era o deus da Serpente Emplumada (de penas verdes), e a personificação de Vénus.

Paralelamente, o “Códice de Dresda”, de proveniência Maia – que versa sobre astronomia (detendo-se na revolução sinódica de Vénus, nos eclipses, etc.), a divindade, artes divinatórias, rituais religiosos – descreve, num muito significativo quadro do “sacrifício do deus”, uma ave de rapina  rasgando, com as suas garras, o corpo da serpente para dela retirar o sangue virtuoso destinado a formar o homem sábio.

No “Livro dos Mortos” do antigo Egipto, a alma, transformada em Ba-ta, a serpente omnisciente, profere: “Eu sou a Serpente Ba-ta, de idade vetusta, Alma da Alma, sepultada e renascida em cada dia; sou a alma, que desce às profundezas terreais”. De igual modo, nos rituais das religiões célticas, algo de semelhante, numa fórmula mântrica (ou frase de poder), era pronunciado pelos druidas: “Sou uma Serpente, Sou um Druida!”.

Os Ofitas 33 davam o nome de Agathodaemon ao Logos e à Sabedoria Divina, o qual, nos Mistérios de Baco  34, era representado por uma serpente erigida no alto de um mastro, em tudo idêntica à “serpente de bronze” da Bíblia, a qual “o Senhor Deus” teria mandado construir a Moisés, [metaforicamente] a fim de prover a imortalidade: “‘Todo o que for mordido [tomado pelo seu espírito], olhando-a nos olhos, será salvo’ Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, conservava a vida” (Num 21, 8-9). Diziam os Ofitas: “Nós veneramos a serpente porque Deus fez dela a grande causa da Gnose para a Humanidade”.

Por outro lado, em alguns túmulos do Egipto gnóstico, nomeadamente em Tebas, foram encontrados símbolos de serpentes. Um deles, encontrado no séc. XIX pelo explorador italiano Belzoni, tinha representado uma sugestiva serpente alada, com três cabeças (representativas da Trindade Âtma-Buddhi-Manas) e quatro pernas humanas, que simbolizavam o carácter andrógino do Ser ascendido (da alma espiritual), que havia saído vitorioso da sua passagem pelo mundo material. De modo geral, os próprios mapas estelares dos egípcios, no Alto como no Baixo Egipto, estão profusamente ilustrados com serpentes. Não deixa de ser curiosa esta duplicidade de significados, aliás comum a muitas outras culturas. A serpente simboliza numerosas vezes os “seres celestes” – ou astros – em co-valência com os nossos próprios corpos astrais (i.e., o nosso duplo, animado e feito da mesma substância dos ferouers 35 desses grandes deuses dos Céus).

Ali ao lado, naquela mesma zona geográfica do globo – na Palestina –,  bem como um pouco mais ao norte, na Síria, também as serpentes eram cognomes, títulos e até nomes de povos que se pretendiam a si próprios votados à espiritualidade. Helena Blavatsky atesta, no seu “Ísis Sem Véu”, que os Hivitas eram, “como todos os levitas e ofitas de Israel, ministros Iniciados dos templos [isto é, ocultistas], e, nominalmente, tribos das “Serpentes da Palestina”, uma vez que Hivi e Levi significavam serpentes. Designadamente, os gibeonitas, os quais Josué destinou ao serviço do Santuário, eram hivitas.

Na Grécia, Platão, referindo-se a Dionysos-Zagreus [o primeiro Dionísio, que Orfeu reverenciava], num comentário sobre a antropogénese do Orfismo, dizia: “(..) e cada ser humano carrega dentro de si uma faísca de eternidade, uma chispa do divino, uma parcela de Dionísio [ou Dhyân-Chohân, um dos nossos longínquos Progenitores de origem venusiana]. Este Dionísio, segundo a Tradição cretense, frígia e órfica, era filho da união de Zeus e de Perséfone [o espírito e a alma, o céu e a terra] e, para consumar esta união, Zeus ter-se-ia transformado em serpente”. Mais expressivo do que isto – comentamos nós –, mal poderia ser!…

Neste ponto, interpolamos aqui um episódio no mínimo curioso: em trabalho publicado pelo investigador Reginald Walker, já falecido, sustentava-se que o chamado “Jardim do Éden” se situaria numa determinada planície, muito fértil e condicente com os relatos bíblicos, na região do Tabriz, actual Irão. O Tigre e o Eufrates, referidos no livro do Genesis, não oferecem dúvidas quanto à sua localização (situando-se a oeste-suduoste do Tabriz, hoje em território iraquiano); porém, os outros dois rios mencionados – o Giom e o Pison – não se identificaram até ao presente. No curso das suas pesquisas, R. Walker tomou conhecimento de que o rio Aras foi, num passado recuado, conhecido como Gaihun, equivalente ao hebraico Gihon (Giom). E analisando a palavra Pison, convenceu-se de que se tratava de uma corruptela do hebraico Vizun – um rio, hoje conhecido por esse nome, que corre naquela mesma planície.

Fazemos notar, entretanto, a coincidência sugestiva de que a região e o monte que tem o mesmo nome, Tabriz, se inserem na Cadeia Zagros (Dzágros), o mesmo nome do suposto Kumâra Zagreus. E, muito curiosamente, que a Tradição situa o nascimento de Zarathustra 36 junto ao lago Urmia 37 – ou seja, no exacto local do Monte Zagros. Era comum, no passado, designarem-se os montes e montanhas com nomes hieráticos, de deuses ou locais com eles relacionados ou a eles consagrados. É o caso, por exemplo, de Nissi-Sinai (a Lua, como divindade) que teria dado nascimento a deuses vários e, de certo modo, homólogos – Baco, Dionísio, Osíris; é o caso do Monte Meru, onde se situaria o Svarga (dos hindus), equivalente ao Olimpo dos gregos; o próprio monte Olimpo; o Atlas, o chefe e o mais forte dos Titãs; o Monte Arafat 38, o mais importante local de peregrinação (a hajj) dos muçulmanos, onde Mohammad teria recebido a revelação da última passagem do Corão; o Monte Moriah, lugar tradicional do primeiro templo da Salomão, e a mesma montanha onde Abraão teria conduzido o seu filho Isaac para o sacrifício (de notar a identidade com o nome sânscrito Moryah, designativo de uma importantíssima linhagem, dos Râjput), etc.
Apesar das inequívocas deturpações e enxertos – em muitos casos, espúrias interpretações de factos acontecidos – que constituem os relatos bíblicos, é plausível que a menção a este território paradisíaco reflicta a região que foi palco das primeiras mutações do animal-humano para a sua verdadeira condição humana, e, bem assim, dos decorrentes (e por muito tempo continuados) desenvolvimentos civilizacionais.

E, fechando esta caracterização da serpente, fazemos notar que, para as teogonias hebraica e, depois, cristã, nem sempre a serpente foi um símbolo diabolizado. No texto bíblico, nomeadamente em Isaías (6, 6-8), o Anjo de Deus, um dos Serafins, purifica pelo fogo: “…  e um dos serafins voou na minha direcção; trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz. Tocou com ela a minha boca e disse: ‘Tendo esta brasa tocado os teus lábios, a tua culpa foi tirada, apagado o teu pecado’”. No Novo Testamento, o próprio Jesus teria reconhecido a serpente como sinónimo de Sabedoria, e em conformidade instruía os seus discípulos: “Sede sagazes [lúcidos] como as serpentes”, que não era outra coisa senão uma parábola, ou alegoria, de um significado mais profundo e interno.

Raízes do mito de Adão e Eva
– Conclusão

Com efeito, é patente que nada do relato bíblico respeitante ao mito de Adão e Eva é original e fruto de revelação directa e exclusiva. Pelo contrário, assenta ele numa reprodução de conteúdos muito antigos e de contrastante profundidade filosófica em relação à apresentação mosaica, exotérica, dos factos.

Na generalidade das pretendidas revelações, é possível entrever muitas das fundações autênticas em que as mesmas se inspiraram. Noutras passagens, porém, as desvirtuações, montagens, interpolações, invenções, amontoadas camada sobre camada no curso dos tempos, não deixam ver a luz de veracidade da maravilhosa Cosmogonia e Antropogénese que lhes subjaz.

E assim, em resumo, podemos apenas ressaltar, num espaço tão restrito como se impõe num artigo, que a nossa génese colectiva foi, de facto, objecto de intervenções de carácter divino, se por divindade entendermos o sentido de Seres de excelsa consciência, e amplo e poderoso espectro na sua actuação. E podemos dividir essa intervenção e esse auxílio em duas partes, ou fases cruciais e complementares: a primeira, que diz respeito à nossa natureza elemental, telúrica, condenada a perecer (meramente a de Animais-humanos); e a segunda, que diz respeito à nossa contraparte espiritual, divina e imorredoura (de homens condenados a ser deuses).

Em ambos as fases tivemos uma Mão superior, que nos criou. Contudo, os níveis de glória – ou seja, de consciência e consequente aptidão – desses Ancestrais, mesmo tratando-se dos “deuses”, são imensamente diversos. Uns são “deuses maiores”, outros são “deuses menores” e, na voz sempre eloquente de Helena Blavatsky, “cada classe de Criadores só pode contribuir com aquilo que tem de si: uma 39 construiu [da sua carne] a forma exterior do homem, outra 40 lhe comunicou a sua essência – a qual, depois, se converte no Eu Superior Humano graças aos esforços pessoais de cada membro da humanidade…”.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Notas:
1 Preferimos a designação Shukra (ou também Usanas) porque, com mais rigor, ela refere o Vénus integral, o “Regente” de Vénus – isto é, o Dhyân Chohân que o anima, bem como a todos os restantes globos da Cadeia Venusiana.
2 Um Naimittikka-Pralaya (um Pralaya parcial, entre Rondas).
3 … cognominado os “Chyutas”, porque caíram na geração.
4 Ambas têm um imenso poder criativo, do qual apenas nos é mais aparente a energia da procriação. Porém, e na presente fase do nosso desenvolvimento comum, relativamente ao pólo superior e mental, mal conhecemos um vislumbre do seu potencial (denominado o poder de kriyâshakti). Na verdade, o Manas superior, ainda mal está activamente presente e desperta na esmagadora maioria dos seres da humanidade actual.
5 Por vezes chamada o Kârana Sharîra (o centro ou corpo das causas). Manas é dual, o seu pólo superior sendo partícipe da Tríade divina e imortal; o seu pólo inferior, estando ancorado em Kâma (a energia dos desejos inferiores) e no Quaternário inferior, que é sombrio e perecível.
6 … fogo, por muito tempo ainda, apenas bruxuleante… A centelha, ainda hoje, permanece apenas latente na maioria dos humanos. Requer, ela, esforços persistentes e continuados até florir plenamente e unir-se indissoluvelmente à chama de Buddhi.
7 … a substância de que eram formados, do Plano das suas existências.
8 Eram também chamados de “Anjos Solares”, no sentido alegórico de que patrocinaram os nossos princípios superiores e divinos – a Tríade imortal Âtma-Buddhi-Manas, em contraposição com os “Anjos Lunares” ou “Pitris Barhishads”, que deram de si os nossos princípios inferiores – o Quaternário –, sendo estes os Construtores (Elohim) da nossa natureza material, das nossas personalidades transitórias e mortais.
9 Âryâvarta, ou a antiga Índia do Norte, havia sido, num passado remoto, a depositária de um vasto Conhecimento, legado pelos “Divinos Progenitores”.
10 Como curiosidade, podemos inclinar-nos sobre a referência que hoje temos de animais identicamente bissexuados e dos seus meios de reprodução – por exemplo, as planárias, uma divisão dos platelmintos. Estes animais, muito primitivos, se bem que hermafroditas, reproduzem-se por fecundação cruzada, trocando espermatozóides e injectando-os reciprocamente numa vesícula receptora gineceuta. As planárias possuem uma altíssima capacidade de regeneração, o que lhes providencia aquilo que é chamada “a reprodução por cissiparidade”, isto é, a fragmentação espontânea, e sem sensibilidade dolorosa, de uma parte do corpo. Cada fragmento regenera, então, o que ficou faltando e constitui-se num novo animal completo.
Curiosa é também a alusão bíblica ao castigo que pesaria sobre a humanidade (subsequente à desobediência de Eva), e que consistiria na geração com dor. Efectivamente, tudo faz supor que relativamente à humanidade, à altura desse seu mesmo estádio hermafrodita de fecundação cruzada, a reprodução seria idêntica e presumivelmente indolor. Os corpos físicos ainda não possuíam organização nervosa.
11 Noutra abordagem, psicológica, Caim é um símbolo do eu superior (o aspecto positivo, ou solar), e Abel, o do eu inferior (o aspecto negativo, ou lunar).
12 Curiosamente, existe uma certa lenda iraniana (xiita) que relata que, depois da expulsão do Paraíso, o Anjo Gabriel teria confiado uma herança sagrada a Seth, o filho de Adão, tendo-lha colocado sobre os ombros na forma de um manto de lã verde (alusão à sua filiação venusiana). Para os Gnósticos, entretanto, Gabriel, “o mensageiro ou o portador da vida” e o “Espírito” ou Christos são um só (Cfr. Irineu, Adversus Haereses, I, XII). [com o significado de “o portador da vida divina”, sendo essa vida o Christos, o Eu Superior que há em cada um de nós].
13 Os “Senhores da Chama” (os Kumâras).
14 Os Progenitores das primeiras Raças de homens, ou mais rigorosamente, dos veículos d’aqueles que se viriam a converter nos humanos que hoje colectivamente somos.
15 Sophia (a Sabedoria), o Logos feminino dos gnósticos, corresponde à Mente universal, bem como ao Espírito Santo da tradição judaico-cristã.
16 De sarpa, serpente em sânscrito.
17 No masdeísmo, os seis Anjos ou potências divinas personificadas que, juntamente com Ahura Mazda (o sétimo e a Força nuclear e sintética de todos), procederam à Criação de tudo o que existe à face da Terra (equivalem, eles, aos 7 Prajâpatis do Bramanismo, às 7 e às 10 Sephiroth da Cabala, e a todos os Poderes Criadores das demais Filosofias-religiosas de todos os tempos e lugares). O nome zende Ameshaspentas tem um significado serpentino, como é frequente em todas as cosmogonias. Curiosamente, o primeiro par humano (dotado de razão), identificado ao Adão e Eva da ortodoxia judaico-cristã, tinha o nome de Meshia e Meshiana, com a mesma raiz conotada com serpente.
18 Os hierofantes do Egipto e da Babilónia nomeavam-se frequentemente “filhos do deus-serpente” ou “filhos do Dragão”. Nomes individuais, com significação ofita, foram por exemplo o de Nâgârjuna, o primeiro Mestre da Doutrina Amitabha (no Budismo); o de Serapis, o deus-solar egípcio em honra do qual se cantavam as 7 vogais místicas (“oeaohoo”, a Raiz septenária da qual tudo procede; que contém em si as 7 Hostes Criadoras – Sephiroth); o nominativo Negus Negasti, o Rei dos Reis, Rei-Sacerdote da poderosa antiga Abissínia, e muitos outros, que pontilharam a História de todas as civilizações. O próprio Pitágoras (Pythagoras) tinha o seu nome originado de Python (serpente, em grego) e do sânscrito Pitris ou Pitaras (Pais Espirituais, dotadores do Fogo criador). Pitha, em sânscrito, era o Sol, o Fogo espiritual.
19 … viram as formas imprestáveis da primeira metade da Terceira Raça.
20 Literalmente, sombras – alusão ao duplo astral (linga-sharîra), base prototípica do organismo físico e biofuncional.
21 O processo da “doação da centelha divina” durou até meio da Quarta Raça de homens (a Atlante).
22 Com a sua própria substância, a semente espiritual, “impregnaram” (tornaram prenhe) o veículo dos desejos (o Kâma-rûpa), em que ancoram os princípios superiores.
23 Não esquecer que Prometeu (Phoroneus, ou ainda Phosphoros) era outro nome prototípico para um Agnishvatta (i.e., um dos Kumâras).
24 … também elas símbolo de imortalidade. As Hespérides eram as filhas do Titã Atlas e de Hésperis, a filha de Héspero (ou seja, de Vénus). Ládon, a serpente guardiã das maçãs do Jardim, tinha 100 cabeças, cada uma das quais falando uma língua (alusão à eloquência e à sabedoria da serpente). Quando ela foi morta, Hera, destroçada pelo desgosto, levou-a para o céu, onde figura como a constelação do Dragão.
25 Diz o Rabino Simeão: “Oh! Companheiros, companheiros! O homem, como emanação, era [a princípio] homem e mulher – Adão Kadmon – e este é o sentido das palavras ‘Faça-se a Luz [Luz espiritual, o princípio Vida], e a Luz foi feita’. E é este o homem duplo.” In “Auszüge aus dem Zohar”
26 … porque Adão significa “o homem duplo”, e daí a simplista (ou intencional?) interpretação bíblica de Adão se ter dividido em duas metades, de uma sua costela fazendo nascer Eva.
Com efeito, do Adão Brahmânico (o Homem cósmico, Adão Kadmon), a lenda hindu fez sair do seu lado esquerdo os Asuras, entidades (na versão esotérica e original) altamente espirituais, e literalmente “os Alentos divinos, os Sopros da Vida Imortal”. Este Adão corresponde ao Terceiro Logos, e é, naturalmente, bissexual.
Em conformidade, na Árvore Sephirotal – Paradigma do Homem cósmico – a Sephira feminina Binah, a Mãe Suprema (que significa Entendimento, Intelecção), encontra-se à esquerda da Coluna do Grande Equilíbrio. Na Filosofia arcaica dos Árias, Idâ, a polaridade feminina do Universo macro e microcósmico, igualmente se situa à esquerda do Sushumnâ.
Na esfera microcósmica, com a separação dos sexos, poderá eventualmente a Teologia mosaica ter ido buscar o mito macrocósmico e, assim, feito sair Eva da costela de Adão (?).
27 Apocalipse 22: 16
28 Outro nome para Lúcifer era Fósforo (Phosphoros), composto de (phôs), “luz” e do verbo (phérein), “trazer, levar”, donde “o que traz a luz”. Fósforo era, pois, a estrela d’alva, a que anuncia a aurora, também denominada Heósforo (tal como surge na Ilíada).
29 Com efeito, os registos falam de uma linhagem divina, de Homens-Deuses, que instruíram os homens comuns sobre um espectro tão amplo de ciências como a cosmologia ou astronomia, a antropogénese, a medicina, a física, a agricultura, a magia, a filosofia, as ciências morais e as regras civilizacionais, e também as artes. As primeiras dinastias dos faraós egípcios foram os últimos representantes desta geração de Homens. O Uraeus ou serpente-real, portada, erecta, no meio da fronte de todos os faraós, era um símbolo da clarividência e dos formidáveis poderes dos que haviam sido os primeiros reis-divinos. É representada igualmente na cabeça de Osíris e de Hórus, bem como de algumas outras divindades.
30 Importante por causa do riquíssimo e muito antigo património literário relacionado com a posterior literatura bíblica. Esse património está consignado em tabuínhas redigidas em sete sistemas diferentes de escrita, correspondentes a sete línguas diferentes. Os textos que mais nos interessam, do ponto de vista da pesquisa religiosa, estão em ugarítico (língua aparentada do cananeu), e deles foram encontrados cerca de 1300 textos.
31 Esta esmeralda, em sentido alegórico, é equivalente à poderosa cornalina branca dos gnósticos (mais tarde adoptada pelos rosacruzes): “Àquele que vencer será dado de comer do maná escondido [o conhecimento oculto que, como sabedoria divina, desce dos céus] e lhe darei uma pedra branca e na pedra um novo nome escrito [o “nome de mistério” do homem interno ou o Ego do novo Iniciado], nome que ninguém conhece a não ser aquele que o recebe”. (Apocalipse, 2: 17).
32 Na Cornualha, o nome Avalon – Afallach em galês significa maçã – é ainda hoje memorizado na “Festa das Maçãs”, celebrada no equinócio de Outono, sob o signo da Balança (regida por Vénus).
Ynys Afallach, a Ilha de Avalon, também chamada o Jardim das Macieiras, era, pois, o nome daquele “Jardim do Éden” onde repousavam heróis e deuses. Alusivamente, também Merlin ensina debaixo de uma macieira – a árvore do Conhecimento superior.
33 Os Ofitas ou Irmandade da Serpente, eram uma Fraternidade gnóstica surgida no Egipto no séc. II.
Por outro lado, em hebreu o nome serpente é naas, o que originou Naasenes, equivalente a Ophitas (nome genérico e prevalente àquela particular Irmandade. Nomeadamente, nos frisos das câmaras funerárias de Ramsés V, podem ver-se representações da serpente alada, ou serpente-solar). Estes Naasenes são os Nazareus (mais tarde conhecidos, através dos livros bíblicos, pelo nome de Nazarenos) – ou seja, pertencentes à “Confraria da Serpente”.
34 Este Agathodaemon era também o emblema da arte de curar e da imortalidade; nesse contexto, significa o soma, licor dos deuses ou filtro da Sabedoria Divina. Encontra, certamente, pontos de ligação com o bastão de Asclépios, o  Divino Curador, bastão que nele tinha enroscada uma serpente.
35 A contraparte espiritual ou anímica de tudo o que é material, desde os deuses maiores, até ao átomo e à própria substância elemental.
Nesta analogia, os ferouers dos entes estelares, tanto quanto o nosso alter-ego, possuem luz própria, que irradiam e com ela alimentam a natureza inferior, transitória e material.
36 … um dos Zarathustras, uma vez que houve mais do que uma Entidade que recebeu esse nome. Este Zarathustra, na língua zende, tinha o curioso nome de Dzéréhoschtrê, que significava “o astro brilhante” – poderemos presumir que fosse Vénus, a estrela da manhã?
37 Igualmente o lugar da Shiz, o “centro do mundo” para os parsis.
38 … ou Arahat, nome igualmente dado aos santos jainos, e mais tarde aos budistas iniciados nos grandes Mistérios. E Arhat, que em sânscrito é o nome por que se designam aqueles que já transpuseram o “Portal de Ouro”, alcançando a quarta e última iniciação.
Por outro lado, o Monte Ararat (hoje, na Turquia) é o lugar bíblico onde Noé teria ancorado a sua barca depois do Dilúvio.
39 … os Pitris Barhishads, no texto bíblico denominados os Elohim ou, em outros enquadramentos, Jeová.
40 … os Pitris Agnishvattas.

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