Esoterismo de A a Z

Hilozoísmo

Subsistem no mundo diferentes concepções sobre a existência ou não do Divino no Universo, no que concerne à natureza dessa Divindade, bem como acerca de uma questão que lhe é muito próxima, a saber, a da existência ou não de uma realidade espiritual que não seja uma simples excreção ou afecção da matéria – no fundo, diferentes concepções sobre a Vida.
O Agnosticismo

Uma dessas posições é o Agnosticismo. Acerca das questões acima apresentadas, os agnósticos respondem: “Não sabemos”: não sabemos se há Deus ou não; não sabemos se há uma realidade espiritual ou não; não sabemos o que é a essência nem o sentido da Vida, se é que algum sentido existe.
Há um Agnosticismo primário e preguiçoso (infelizmente, o maioritário), que renuncia a uma investigação apurada e proclama a impossibilidade de encontrar uma resposta antes mesmo de a buscar com seriedade e afinco. Esse tipo de agnosticismo não justifica apreço. Na verdade, encontramo-lo um pouco por todo o lado, mesmo entre muitos dos que se afirmam crentes de uma determinada religião – por exemplo, no Ocidente, os que se afirmam cristãos – mas que, interrogados, acabam por afirmar alto e bom som que não sabem nem é possível saber coisa alguma sobre as mais diversas questões essenciais (e, na verdade, nem lhes interessa muito saber…).

No entanto, há outro tipo de agnósticos, que são aqueles que, tendo-se esforçado diligentemente para encontrar uma resposta coerente e convincente para as perguntas que começámos por elencar (e, claro, igualmente para outras), afirmam honestamente: “pelo menos por agora, não sabemos!”. Esta é, por exemplo, a declaração que fazem muitos investigadores no campo da Ciência. Afigura-se-nos esta posição muito mais digna do que a daqueles que, irreflectida e indolentemente, sem exigência de seriedade, acreditam (sem saber porquê) que existe Deus ou que não existe (também há os que crêem na inexistência…), que há espírito ou que não há, etc. Na verdade, alguns dos buscadores que se afirmam agnósticos, além de mais sinceros e honestos, são muito mais genuinamente religiosos e místicos do que legiões de crentes…

Quem declara não saber mas não desiste de procurar o conhecimento merece-nos o maior respeito e tem, por via de regra, uma atitude importante, que é a de conservar uma mente livre e aberta.

Não obstante o que dissemos, o facto é que o Esoterismo não é nenhuma forma de Agnosticismo. É Ciência, que apresenta leis exactas, com as quais explica o Universo. Um grande Ser, o Mahatma Koot-Hoomi, foi claríssimo ao afirmar: “A Nossa doutrina não conhece meios termos. Ela afirma ou nega, porque só ensina aquilo que sabe ser a verdade. (…) Tendo encontrado a Gnose, nós não podemos esquecê-la e transformarmo-nos em agnósticos” 1 2.

Ao Agnosticismo, contrapõe o Esoterismo o conhecimento adveniente da Tradição Espiritual e Oculta – a Sabedoria das Idades –, uma lógica poderosa, subtil e levada às últimas consequências, e os resultados de uma metodologia que foi muito bem exposta pela Dra. Liliana Ferreira no seu artigo “Ciência e Esoterismo (Uma Vivência Pessoal)”, publicado no nº 18 da Biosofia, e para o qual remetemos.

O Ateísmo

Por vezes confunde-se Agnosticismo com Ateísmo, o que é incorrecto. Ao que o Agnosticismo responde “Não sabemos se existe ou não”, afirma o Ateísmo, peremptoriamente “não existe”. Em termos estritos e rigorosos, o Ateísmo limita-se a afirmar que não existe Deus, embora, geralmente, a esta proposição venha ligada a (proposição materialista) de que não há tal coisa como uma realidade espiritual, independente do mundo físico.

Como afirma Helena Blavatsky, a Sabedoria Esotérica “não prega o ateísmo, salvo no sentido da palavra sânscrita nâstika, ou seja, rechaçamento de ídolos, inclusive todo o deus antropomórfico. Em tal conceito, todo o ocultista é um nâstika” 3. Sobretudo, o Ocultismo afirma claramente que há muitas realidades para além da matéria física – vitais, psíquicas, mentais, espirituais e divinas – mesmo se tais realidades, no nosso Universo, têm necessariamente uma base de manifestação substantiva.

Alguns são ateus por uma espécie de conveniência, decorrente de um materialismo em termos éticos, e, portanto, de interesses exclusivamente baixos e egoístas. Seria, contudo, bastante injusto considerar todo o ateísmo da mesma forma. Muitos ateus são-no como justa reacção contra as teses insustentáveis da posição teísta, nomeadamente a das religiões ditas monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), quanto à natureza de Deus. Lamentando que os ateus não vão mais longe e não cheguem a outra, e mais perfeita, concepção sobre o Divino, que é a da Ciência Esotérica, o ocultista pode frequentemente entender, pelo menos até certo ponto, algumas das suas afirmações. Não as preconiza nem compartilha; mas respeita-as, quando não vão acompanhadas de um desinteresse ou afrouxamento moral. Acrescentamos até mais: um indivíduo agnóstico ou ateu, sem nenhum tipo de crenças ou convicções religiosas ou espiritualistas, que faz questão de actuar com correcção, pelo simples sentido de dever face ao bem geral, sem esperar prémio ou temer punição, tem nisso muito mais mérito do que  o beato, o devoto ou o crente que se abstém do mal ou pratica a caridade (unicamente) com receio de ser castigado por Deus, por desejo de ir para o Céu ou por almejar ter um bom Karma. É a diferença entre uma motivação inegoísta e uma consideração interesseira…

O Teísmo

Outra posição filosófica-religiosa é a do Teísmo. Sustenta que há uma Divindade que criou e governa o Universo, do qual é distinta. É a noção, nomeadamente, do Islamismo e das Igrejas Cristãs (exceptuamos, naturalmente, alguns místicos muçulmanos, como os sufis, e os cristãos gnósticos ou dotados de penetração filosófica e mística, como um John Scotus ou um Meister Eckhart).

Por norma, os teístas afirmam que esse Deus pessoal, criador e governante do Universo – bem como dos seres (pelo menos, os humanos) que nele existem – é omnipotente, infinito e perfeito.

Ora, face a isto, notemos que, se essa Divindade não é infinita, absoluta e causa de si própria, a resposta que o Teísmo pretende dar sobre a existência do universo não é mais do que um adiamento, pois perguntar-se-á então: e quem criou Deus?

Se, por outro lado, esse Deus é incriado, absoluto e infinitamente bom, poderoso e justo, como no presente afirma a quase totalidade dos teístas, como então é possível que haja imperfeição, limitação, sofrimento (não só para os homens mas também, designadamente, para os animais) e tentativas falhadas no Universo, como evidentemente há? Como é possível que de um Criador ilimitado saia uma criação limitada?

A teologia cristã procura responder a esta contradição através da ideia do “pecado original”. Segundo esta teoria, antepassados nossos teriam cometido uma falta há tempos remotos, por consequência da qual teríamos de sofrer – e muito! – neste mundo. Mas, perante isto, teremos necessariamente que perguntar: se há um Deus infinitamente bom e justo, como é que podemos entender e aceitar que milhares e milhares de gerações de seres humanos, muitos e muitos milhares de milhões de homens e mulheres, continuem a sofrer as consequências de um facto para o qual não contribuíram, visto não existirem no momento em que esse facto foi – por outros – praticado (lembremos que as Igrejas Cristãs não aceitam a ideia da preexistência das Almas, da Reencarnação e, basicamente, do Karma)? Como explicar tamanha monstruosidade por parte de um Ser (a Divindade) que, supostamente, é todo Poder, Bondade, Justiça e Sabedoria? De facto, a teoria do pecado original, nos termos em que é exposta pelas teologias exotéricas do Judaísmo e do Cristianismo, dificilmente pode ser sustentada.

Abordámos de forma desenvolvida as incongruências das posições teístas em dois artigos anteriores, para os quais tomamos a liberdade de remeter: na Biosofia nº 10, o artigo “Ordem e Inteligência no Cosmos”, na secção “Entre o Céu e a Terra”; no nº 18, o artigo “Demiurgo”, nesta mesma secção “Esoterismo de A a Z”. A sua leitura seria, porventura, recomendável para aclarar esta temática, dispensando-nos de repetições.

Considerando a miséria de todo o tipo, que existe no Universo, alguém uma vez resumiu o dilema, ao qual o Teísmo não pode responder, da seguinte forma: “Se Deus permite tais coisas, não pode ser bom; ou, então, não tem o poder de as fazer de outra maneira, e não pode ser Deus”.

Acresce ainda esta contradição: se Deus é Absoluto, como pode o Universo ser distinto dele? Deus limitar-se-ia e relativizar-se-ia aí mesmo onde começava outra coisa, ainda que por Ele mesmo criada.

Quer dizer que não há grãos de verdade no Teísmo? Sim, há. Por certo há uma força criadora no Universo; só que essa não é nenhuma pessoa (de resto, a ideia de “pessoa” implica desde logo limitação) mas, sim, Fohat, o dinamismo da ideação cósmica, o poder criador electro-vital 4.

Por outro lado, quanto à noção de governo moral do Universo, as formulações do Teísmo são um derivado (ou sucedâneo) imperfeito e antropomórfico da Lei do Karma (trata-se de uma Lei e não de um castigo ou prémio dado por uma “Pessoa Divina”) – conforme exposto, neste mesmo número da Biosofia, no nosso artigo “Temor a Deus?”.

O facto, de qualquer maneira, é que são as posições teístas que, por reacção, têm conduzido muitos homens e mulheres inteligentes para o campo do Ateísmo, do Materialismo teórico ou, pelo menos, do Agnosticismo.
O Deísmo

O Deísmo compartilha com o Teísmo as ideias sobre a existência e a natureza de Deus mas dele difere por não admitir a realidade de quaisquer milagres (supostas alterações das Leis universais por vontade pontual de Deus) nem revelações (que tivessem sido vertidas em Livros Sagrados). Entende que o homem acede à compreensão da existência de um Deus pessoal por uma espécie de razão natural. Deste modo, o Deísmo está à margem das religiões eclesiasticamente organizadas. No essencial, aplicam-se-lhe as mesmas considerações que fizemos a propósito do Teísmo, descontando a referência a um “pecado original”, cuja teoria não é defendida por muitos deístas.

O Panteísmo

Do ponto de vista do Ocultismo, muito mais perfeita do que as posições anteriormente consideradas, é a panteísta.

Segundo as concepções do Panteísmo, Deus não se distingue do Cosmos mas é, sim, o próprio Todo Universal. É o Ser, a Vida e a Substância do Universo. Só existe, pois, uma única substância ou natureza: o Ser por si existente, absoluto, eterno, infinito e impessoal. Todos as coisas e seres são modos de manifestação do Absoluto.
Encontramos esta noção de Divino na Vedanta, pelo menos na Vedanta Advaitista, e, portanto, nos Upanishades. Encontramo-la, por exemplo, nos grandes filósofos neoplatónicos, nomeadamente Plotino e Porfírio. Encontramo-la em Dionísio Pseudo Aeropagita ou em John Scotus. Encontramo-la, mais tarde e mais próximo de nós, em  Spinoza, que afirmava “só há uma Substância, Deus ou a Natureza” e “Deus é o Ente Absolutamente infinito, isto é, uma Substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita” (desses atributos só dois nos são conhecidos: Pensamento ou Ideação, e Matéria ou Extensão). Encontramo-la em Hegel, com a sua formulação da Ideia Absoluta que se vai realizando através de um longo devir ou em Fichte e Schelling com as suas filosofias de Identidade Sujeito / Objecto ou  Espírito / Natureza.

Diz-se, por vezes, que, para o Panteísmo, Deus está em tudo. Na verdade, mais esclarecidamente, dir-se-ia antes que tudo está em Deus, como uma imagem (que é Maya, para os advaitistas). Como veremos, se se considerar Deus como a Vida Una, fora da qual nada existe, então, a Sabedoria Oculta pode subscrever esta concepção.

Outras vezes, impropriamente e para o denegrir, identifica-se o Panteísmo com uma espécie de animismo primário, segundo o qual cada ser ou objecto, por exemplo uma pedra ou uma palavra, seria Deus. Desta ideia, a que falta a dignidade de uma noção de unidade, certamente está distante o Esoterismo.

O Panteísmo é uma concepção nobre e elevada e que, claramente, desde logo por ser evolucionista e não criacionista, resiste melhor à mentalidade e à lógica científica do que o Teísmo. Não gera as contradições insolúveis do Teísmo. No entanto, ainda assim, só por si, não resolve, ou melhor, não considera todas as questões.

Em primeiro lugar, o Panteísmo comum não trata da questão da hierarquia no Ser: este é integrado por miríades de seres mas eles têm uma hierarquia entre si. Há uma distância entre uma planta e um homem, como há uma distância entre um homem comum e um Buda ou um Cristo. Depois, não costuma considerar o problema da pluralidade das vontades e das forças criadoras, tantas vezes até contraditórias, e do seu lugar no Todo Universal, nem esclarece a natureza peculiar dos Seres que são a base ontológica e o dinamismo de cada uma das Leis Universais. De facto, a “ordem implica inteligência. As leis, que a ciência se esforça por desvelar e formular de modo compreensivo, implicam inteligência. Ora bem, onde há inteligência, tem de haver algo ou alguém que seja inteligente; onde há ordem, tem de haver algo ou alguém que disponha, garanta e mantenha a ordem. Se essa ordem inteligente existe no Cosmos (também) do lado de lá da nossa subjectividade, então, quem ou o quê a detém, sustenta, É? Qual a realidade ontológica desse Algo ou Alguém – seja singular ou plural – que é inteligente, extraordinariamente inteligente a ponto de dar ordem a um Cosmos tão imenso e prodigioso? Na Natureza ou na Matéria, vemos tantas Inteligências, ordens e forças paralelas, relativamente autónomas e com domínios circunscritos – mas tantas vezes cruzando-se e chocando-se –, que uma tal afirmação é redutora e simplista, passando por cima da questão: Quem ou o Quê opera na Matéria, na Natureza, no Universo, conferindo-lhe ordem, inteligência, relações fenoménicas que podemos compreender como Leis? Quem ou o Quê é o(s) sujeito(s) ou agentes legisladores?” 5.

O Politeísmo e o  Monoteísmo

Já agora, vem a propósito referir a distinção entre Politeísmo e Monoteísmo. Entende-se por Politeísmo a concepção dos que defendem a existência de uma pluralidade de Deuses; por Monoteísmo, a doutrina dos que postulam que há um Deus único.

Na verdade, em grande medida, a distinção, que habitualmente se faz, entre religiões monoteístas e politeístas, é falaciosa. As religiões ditas politeístas da Antiguidade, mais acima do panteão de deuses ou potências criadoras e directoras, reconheciam o Uno, o Absoluto, o Inominável. E, na verdade, talvez seja mais reverente aludir-lhe como o Inominável e, até, como o Inefável, do que pretender dar-lhe nome, seja Allah ou Jeová (que, tendo nome, são palavras, e, portanto, Verbos, Logoi ou Demiurgos, mas não o Deus Absoluto). As filosofias hindus que referem Brahman como o Absoluto, o “Um sem segundo”, podem acaso ser consideradas politeístas? Por outro lado, não encontramos nós nas religiões ditas monoteístas, como o Judaísmo e o Cristianismo, os Elohim, Anjos, Arcanjos, Tronos, Virtudes, Potestades, Dominações, Principados, Querubins, Serafins, Potências, Degraus, Anuphaim, Sete Espíritos diante do Trono, Anciãos, etc?  Até na religião muçulmana, que tende a taxar o Cristianismo de politeísta, por causa da sua doutrina da Trindade Divina, encontramos referências aos Anjos (desde logo, a Gabriel, que teria transmitido a Maomé o conteúdo do Corão).  Ora, que são esses seres? Diz-se popularmente que os Anjos (não confundir com os “anjinhos” agora tão vulgarizados em literatura pretensamente espiritualista) e os Querubins são “mensageiros de Deus” e “cantam a glória do Senhor”. No fundo, são expressões sugestivas, se passarmos além do simplismo de pensar que existem legiões e legiões de anjos a servirem de correio de “revelações” ou a providenciarem música de fundo ao paraíso celestial… São “mensageiros de Deus”, porque através deles se veicula, transmite e manifesta o Pensamento divino, que se imprime na Substância universal sob a forma de leis; “cantam a glória divina” porque, no seu conjunto, constituem o Verbo, o Som, a Vibração que cria, sustém e (algum dia) dissolve todas as formas existentes no Universo em que o Divino está imanente. Que grandes diferenças há, pois, entre os “coros angélicos” e, por exemplo, os Devas do hinduísmo?

A um Politeísmo puro (como já vimos, praticamente inexistente) falta a noção de unidade; pelo contrário, a um Monoteísmo puro, faltaria a consideração da diversidade (e hierarquia) de forças operantes no Cosmos ou Universo. Repare-se: o Cosmos é Uni-Verso. Uno e diverso, simultaneamente. Como veremos, o Ocultismo congraça as concepções monoteístas e politeístas.

O Hilozoísmo

Face ao exposto, perguntar-se-á então: e qual é o Ensinamento Esotérico quanto a esta temática?

O Ocultismo defende uma forma de Hilozoísmo. O que se entende por Hilozoísmo? A etimologia pode dar-nos uma primeira e importante achega. A palavra resulta da junção de dois étimos: Hyle, que significa Matéria ou Substância e Zoe, que significa Vida. Quer dizer, (toda) a substância, (toda) a Matéria, é dotada de vida; (todo) o Universo é vivo; o Cosmos é um organismo vivo. Mesmo nos minerais há vida: para o ocultista, a Vida é Movimento (ou o Movimento é Vida) – e, nos átomos de um mineral, não existe movimento incessante? Esse movimento ou, por exemplo, as combinações atómicas e de elementos, mostram que o mesmo númeno da Vida que se manifesta nos Reinos Vegetal, Animal, etc. está também presente no Reino Mineral. A Matéria é inseparável da Vida.

Por outras palavras: tudo é Vida e cada átomo, cada unidade de Ser, é uma Vida. Há uma só Vida, a Vida Única Universal, que integra incontáveis Vidas, cada uma ocupando o seu próprio lugar na Hierarquia do Ser e desempenhando a sua função na economia universal. É assim em todos os níveis do Cosmos, conforme o princípio: “Tudo quanto existe, tem o seu ser num ser maior”. Há seres dentro de seres, vidas dentro de vidas – partículas dentro de átomos, átomos dentro de organismos como o corpo dos seres humanos, seres humanos dentro de planetas, planetas dentro de sistemas solares, sistemas solares dentro de galáxias, galáxias dentro do cosmos total, o cosmos total dentro do espaço que tudo contém.

De acordo com o Hilozoísmo ocultista, o Ser é uma Unidade que é simultaneamente – e sempre – Vida, Consciência 6 e Substância. O Ser é substancial – como base ontológica – e a Substância é viva e inteligente. Nos Cosmos manifestados, Espírito e Matéria estão sempre interligados, indissociavelmente 7 – não há Espírito que não se expresse numa base material nem matéria que não esteja vivificada pelo Espírito 8 –, embora existam muitos diferentes níveis de materialidade, ou, por outras palavras, de relação entre o Espírito e a Matéria. O mundo físico é apenas um dos Planos do Cosmos septenário. O Hilozoísmo traduz-se na universalidade da presença da vida e do espírito como elemento intrínseco à mesma matéria.

Conforme afirmou o Mahatma Koot-Hoomi, “… Deus é, assim, a Vida Una, que não só penetra mas é a essência de cada átomo da matéria” 1; portanto, a vida tem os númenos de todas as propriedades da matéria: é a própria Matéria.” Afirmou também o mesmo Mestre: “A existência da matéria é um facto; a existência do movimento, outro facto; a eternidade de ambos, outro facto” 1. Quer dizer: a Matéria é infinita e indestrutível; (mas) é não existente sem o Espírito que, nela, é Vida, Movimento. O Movimento é eterno, porque o Espírito é Eterno. Entretanto, nenhum modo de Movimento pode ser concebido, excepto em conexão com a Matéria. E, assim, conclui ainda o Mahatama Koot-Hoomi: “A Matéria e o seu Movimento incessante, que é Vida, é a única divindade perpétua” 1.

Desenvolvendo mais o conceito, escreveu Helena P. Blavatsky: “O Hylozoísmo requer um Pensamento Divino absoluto que impregna as inumeráveis Forças Criadoras, Entidades que são movidas por aquele Pensamento Divino e existem nele, por ele e em virtude dele” 3. Da mesma forma como o Sol, insciente dos seus Raios, está, no entanto, em todos eles, assim a Vida Absoluta, a (In)Consciência Absoluta, o Ser Absoluto impregnam todas as vidas, todas as consciências, todos os seres.

A Vida Única Universal, o (Não) Ser Absoluto é Parabrahman, com o seu véu ilimitado, que é Mulaprakriti (Etimologicamente “a Raiz da Matéria”). Na Vida-Substância ilimitada, ou Parabrahman-Mulaprakriti, vão-se diferenciado vidas e seres substanciais que, porém, estão sempre imersos nessa Vida-Ser que tudo permeia, que em que tudo está.

Mesmo durante um Pralaya, ou seja, durante um período de repouso universal ou noite cósmica, de não manifestação objectiva, a Vida impregna a substância, então, amorfa, e o Movimento continua a existir. Voltamos a citar as palavras do Mestre Koot-Hoomi: “Nós dizemos e afirmamos que aquele movimento – o movimento universal perpétuo que nunca cessa, nunca diminui nem aumenta a sua velocidade, nem mesmo durante os intervalos, os pralayas ou ´noites de Brahma’, mas continua como um moinho que se movimenta haja ou não algo para moer (porque o pralaya implica a perda temporária de toda a forma, mas não, absolutamente, a destruição da matéria cósmica, que é eterna) – dizemos que este movimento é a única Divindade perpétua e não-criada que somos capazes de reconhecer”; “O movimento (…) é a vida imperecível (consciente ou inconsciente, conforme o caso) da matéria, mesmo durante o Pralaya (…) Quando Chyang, ou a omnisciência, e Chyang-mi-shi-khon, a ignorância, ambas dormem, esta vida latente inconsciente ainda mantém a matéria que ela anima em movimento incessante e sem sono” 1. Note-se que o mesmo Mahatma, a ter de admitir a existência de Deus, o veria como “a própria essência e natureza desta matéria eterna e ilimitada, a sua energia e o seu movimento”, como a “Vida Una”.

Um excerto de um texto de Helena P. Blavatsky, embora versando directamente sobre outra temática, ajuda a esclarecer melhor o Hilozoísmo: “Os Ocultistas sustentam que a concepção filosófica do espírito e a concepção da matéria devem ter uma mesma e única base de fenómenos, acrescentando que Força e Matéria, Espírito e Matéria, ou Divindade e Matéria, embora possam ser vistos como pólos opostos nas suas respectivas manifestações, são em essência e em verdade apenas um; e que a vida está presente tanto num corpo morto com num corpo vivo, na matéria orgânica como na matéria inorgânica. É por isso que, enquanto a ciência ainda está pesquisando e pode continuar pesquisando eternamente para resolver o problema do que é a vida, o Ocultista pode deixar de lado a questão, já que ele alega, com razões tão boas quanto as possíveis razões contrárias, que a Vida, seja na sua forma latente ou dinâmica, está em todo o lugar; que ela é tão infinita e indestrutível como a própria matéria, já que nenhuma das duas pode existir sem a outra, e que a electricidade é a verdadeira essência e origem da própria vida” 9  10.

Face ao exposto, julgamos que fica claro que, das posições anteriormente referidas, o Panteísmo é a mais próxima do Hilozoísmo. Na verdade, e em rigor, como escreveu Helena Blavatsky, “filosoficamente, o hilozoísmo é o mais elevado aspecto do Panteísmo. É a única escapatória possível do absurdo ateísmo baseado na materialidade letal e das ainda mais absurdas concepções antropomórficas dos monoteístas. Entre um e outras, encontra-se no seu próprio terreno completamente neutro” 11  12. Tal como no Panteísmo, o Divino de que falam os ocultistas, é o Todo, a Vida Una, Ser Ilimitado – e não uma Pessoa ou um ser individualizado e distinto do Universo.

Não obstante, além do Panteísmo, o Hilozoísmo une superiormente algumas características do Ateísmo, visto que reconhece a eternidade da matéria e, na acepção do Ocultismo, é nâstika,  rejeitando toda a ideia de um Deus antropomórfico; do Teísmo, porque consente a ideia de força(s) criadora(s), embora não de um Criador pessoal, e apresenta a Lei do Karma, correspondente superior e impessoal de um governo “moral” do Universo; do Politeísmo, já que se refere à Vida Una ou ao Ser Uno mas afirmando que aí estão englobados incontáveis Seres ou Vidas, cada um deles sendo, minimamente que seja, co-criador do Universo; finalmente, do Monoteísmo, posto  afirmar que há um Ser-Vida-Substância-Consciência Una e aludir a Parabrahman  (mais uma vez nas palavras do Mahatma Koot-Hoomi) como “a Lei Una Imutável”.

Esta é, de resto, uma das mais extraordinárias virtudes decorrentes da superioridade da Sabedoria Oculta: com a sua visão ampla e de perspectiva, consegue conciliar teorias diferentes e contraditórias, eliminar os seus erros parciais e suprir as suas limitações, chegando, deste modo, a uma síntese onde todas se subsumem. F

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Notas:
1 In “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett”, Ed. Teosófica, 2001, Brasília.
2 Não obstante, tristemente, vive-se na ST em pleno agnosticismo krishnamurtiano, conforme expusemos no nosso artigo “O Valor do Conhecimento Espiritual”, publicado no nº 23 da Biosofia.
3 In “A Doutrina Secreta”, Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973.
4 Sobre Fohat, cfr. o nosso artigo publicado no nº 23 da Biosofia.
5 José Manuel Anacleto, “Ordem e Inteligência no Cosmos”, Biosofia nº 10.
6 Nos domínios do Imanifestado, Consciência Absoluta, que, do nosso ponto de vista relativo, é Inconsciência Absolta (de qualquer coisa em particular).
7 E, portanto, há somente um princípio na natureza – espírito-matéria ou matéria-espírito, já que, em última instância, os dois são um só (uma unidade bipolar), sendo apenas diferentes nas suas manifestações.
8 “Despojado de Prakriti [Substância, Matéria], Purusha (Espírito) é incapaz de manifestar-se e, portanto, deixa de existir, torna-se nada. Sem espírito ou Força, mesmo aquilo que a ciência descreve como matéria ‘sem vida’ (…) jamais poderia ter assumido formas”. In “Cartas dos Mahatmas pra A. P. Sinnett”.
9 In “Blavatsky Collected Writing, Vol. IV”, Theosophical Publishing House, Wheaton, 1969. Chamamos também a atenção para os nossos artigos sobre “A Matéria”, publicados na secção “Entre o Céu e a Terra” dos nºs 15 e 16 da Biosofia.
10 Em pleno Século XXI, é perfeitamente normal, em termos científicos, dizer-se que a electricidade está na origem da vida; mas de modo algum era assim no século XIX, quando Helena Blavatsky escreveu aquelas palavras.
11 In “Glossário Teosófico”, Ed. Ground, S. Paulo.
12 Encontramos, na história, diversos pensadores hilozoístas, mais ou menos próximos da – sempre mais completa – concepção ocultista. É o caso, na Grécia Antiga, dos filósofos da chamada Escola Jónica, nomeadamente Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, e, inclusive, Heráclito. Todos eles procuravam encontrar a substância última das coisas – o elemento primordial eterno – numa matéria única, e defendiam que nessa matéria estava imanente uma força activa, de que derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenómenos na substância una.

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