O Caos e a Emergência do Sentido

Não existia nada: nem o claro céu,
Nem ao alto a imensa abóbada celeste.
O que tudo encerrava, tudo abrigava,
E tudo encobria, que era? Era das águas
O abismo insondável? Não existia a morte,
Mas nada havia imortal. E a separação
Também não existia entre a noite e o dia.
Só o Uno respirava em si mesmo e sem ar:
Não existia nada, senão Ele. E ali
Reinavam as trevas, tudo se escondia
Na escuridão profunda: oceano sem luz.
O germe, que dormitava em seu casulo,
Desperta ao influxo do ardente calor
E faz então brotar a Natureza Una

Rig Veda

Algumas breves notas cosmológicas

Nas narrativas cosmogónicas e mitológicas de povos muito diferentes, em épocas também distintas mas, predominantemente, arcaicas (ainda que, em muitos casos, perdurando até aos nossos dias), encontra-se a referência a um Caos primordial, a um Abismo pleno de potencialidade mas vazio de existência actual, a um Não-Ser ou Existência Negativa, a um estado de confusão ou dispersão dos elementos com que só mais tarde se construirá o Cosmos.

Alude-se, assim, a uma realidade, ou antes, a uma meta-realidade em que o sentido inexiste ou, talvez melhor, em que existe um ser e um sentido absolutos que são essencialmente ininteligíveis para inteligências relativas e limitadas, como as nossas (porque partícipes de um mundo que, ainda quão grandioso, é ele mesmo relativo, limitado, condicionado pelas circunstâncias de espaço e de tempo).

Verificamos isso nas cosmogonias hindus, com as suas noções de uma Noite Primordial, antes de cada dia de manifestação, ou existência objectiva, ao qual chamam Manvantara; nas cosmogonias da Suméria, da Assíria, da Babilónia, da Caldeia; no Egipto antigo, pré-cristão e pré-islâmico, com Nut, o Abismo Celeste, o espaço infinito, onde corre o rio celestial, ou das águas primordiais, que é Nun, a matriz de onde nascerão os deuses; na Grécia antiga, com o Chaos que, nas palavras de Ovídio, “é a personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo”; também no Génesis bíblico, onde se lê: “No princípio (…) a terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (1: 1-2).

O despontar do sentido surge com (e só é humanamente entendível após) a acção do Demiurgo (o artífice do mundo), do Nous (a inteligência), do Logos (a razão ordenadora), do Verbo (a palavra criadora).

Deparamo-nos com esta concepção no hinduísmo, com Vach, o Logos feminino, significativamente apodado de “deusa da linguagem”, com Shabdabrahman, “a palavra divina” ou com Ishvara, o Senhor do Cosmos que surge do Absoluto ou pré-Cosmos; no mazdeísmo persa, a religião de Zaratustra, com Ahura-Mazda, fonte da vida e criador do mundo, que é o Logos que surgiu de Zeroana Akerna, o Tempo sem limites, pré-cósmico (evidentemente, o Caos precede o Cosmos ou o Universo ordenado); na filosofia grega, com o Logos de Heraclito e, mais tarde, dos estóicos, com o Demiurgo e o Kosmos Noetos (ou Cosmos Inteligível) de Platão, com o Nous e o Logos de Plotino e de outros neoplatónicos; em geral, com os diferentes demiurgos das mitologias egípcias, babilónicas, gregas e romanas, respectivamente, Atum, Bel, Zeus e Júpiter.

Na tradição judaico-cristã também encontramos a mesma noção da palavra ou discurso ordenador do Universo. É assim, em primeiro lugar, nas Escrituras. No Genesis, a criação surge em resposta à ordem da palavra divina: podemos ler sucessivamente “Deus disse” e “foi feito” (1: 3, 6, 8, 9, 11, 14, 15, 24,  29, 30). Em outro livro veterotestamentário, o da Sabedoria, lê-se: “Deus de nossos pais, e Senhor de Misericórdia, que todas as coisas criastes pela vossa palavra”. No início do Evangelho segundo São João, existem as famosas palavras: “No Princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” (1: 1-3).

O pensador e místico Fílon de Alexandria (final do século I a.C. e princípio do século I d.C.) falava no Logos ou Verbo como “o Segundo Deus”, imagem do Deus Supremo Absoluto. Segundo ele, foi o Logos ou Sabedoria de Deus que criou o mundo do Caos, da matéria informe. Fílon, curiosamente, distinguia o Logos interior e o Logos pronunciado, pondo assim em relevo o duplo significado do Logos como “Razão Ordenadora” e como “Palavra Criadora”, da linguagem como discurso intelectual ou como emissão sonora. Também Basílides, um gnóstico cristão, que veio a ser considerado herético, distinguia entre o Deus-Nada (to ouden en) ou ante-cósmico e o “Deus Que Fala”, o Logos ou Verbo Criador. Na transição do século II para o século III, Clemente de Alexandria escrevia que “o Filho é a Consciência de Deus. O Pai só vê o mundo conforme este é reflectido no Filho”, sendo o Filho, é claro, o Verbo. A mística e a filosofia neoplatónica cristãs perpetuarão esta noção do Logos Criador.

A Cosmogonia
na perspectiva esotérica

Com base nas Estâncias de Dzyan, dadas a conhecer à Humanidade por via da incomparável Helena Blavatsky e da sua monumental e ainda mais incomparável obra “A Doutrina Secreta”, constatamos a existência de uma Realidade Absoluta, anterior a todo o Universo manifestado e condicionado, que constitui a “Raiz sem raiz de tudo o quanto foi, é e será”.

Esta Realidade Absoluta, também denominada Parabrahman, O “Eterno Pai” (associado à ideia de Espaço, a Causa Eterna) apenas se torna perceptível na nossa mente como uma Negação Absoluta. No entanto, assim que introduzimos o pressuposto da vontade de manifestação é como se saíssemos desta Negação Absoluta (Absoluto: negação de tudo aquilo que conhecemos), pois, através da Lei das Analogias, é possível realizar o seguinte raciocínio: se sabemos que o Mundo Manifestado é caracterizado por uma dualidade (Espírito e Matéria), podemos considerar que essa dualidade tem a sua raiz no Imanifestado; assim, a Raiz do Espírito e a Raiz da Substância encontram-se no Imanifestado.

(Para)Parabrahman, a primeira e derradeira Realidade referida nas “Cartas dos Mahatmas”, é muitas vezes definido como Consciência Absoluta; esta expressão “consciência absoluta” não é totalmente adequada pois qualquer noção que nós tenhamos de consciência implica dualidade e uma relação entre dois pólos, enquanto que no Absoluto Imanifestado existe pura e total unidade. Quando falamos de consciência está subjacente a existência de dois pólos e a relação entre eles: o sujeito, o conhecedor, o objecto,  aquilo que é conhecido, e o que une os dois, o conhecimento. Tal coisa não existe no seio do Absoluto pois há total coincidência entre o sujeito e o objecto. No tempo e no espaço, no Manifestado, existe uma diferenciação entre espírito e matéria mas ambos promanam/irradiam do Absoluto.

A natureza espiritual tem de se manifestar sempre através da natureza material, ou seja, não há no Universo Manifestado tal coisa como puro espírito sem matéria. Tudo, para se manifestar, necessita de um veículo (upadhi), de uma natureza receptiva, a qual possa impregnar e através da qual se possa expressar. Tem de existir uma natureza substantiva, receptiva, uma natureza moldável, plástica, que sirva de forma para a manifestação da consciência absoluta, em formas, moldes, veículos que permitam essa manifestação e que permitam o surgimento de consciência individual ou relativa. O quer que seja, para se manifestar com algum grau de objectividade, mesmo que muito subtil, precisa de uma natureza que lhe sirva de veículo, de forma, para se expressar.

Em latência, esse dois pólos, o espiritual ou consciência ou sujeito, e o pólo substancial ou material ou receptivo, que serve de veículo, existem no seio do Absoluto. Esses dois pólos são: Parabrahman – consciência absoluta – e Mulaprakriti – o véu que encobre Parabrahman..

A expressão Mulaprakriti, usada pelos filósofos vedantinos, etimologicamente significa: Mula – raiz, Prakriti – natureza, substância. Assim, Mulaprakriti significa “a raiz da natureza”, ou seja, a raiz pré-cósmica da substância. Mulaprakriti é um passo intermédio entre o Absoluto Imanifestado e o Universo Manifestado. É a primeira substancialização, o mais ténue dos véus, a mais ténue das vestes; mas, apesar de tudo, tal véu ou veste que encobre o Absoluto permite que possamos ponderar minimamente sobre Ele (ou Aquilo, o Absoluto) pois o substancializa, o coisifica.
Quando se fala da raiz pré-cósmica da substância, o que está a ser referido é algo ultra-subtil, algo que é a raiz do arquétipo (porque o arquétipo já pressupõe algum tipo de diferenciação), daquilo que virá a ter alguma substancialidade ou objectivação. Mulaprakriti é o impulso ou potência, no sentido da possibilidade, de receptividade, de natureza feminina, que serve de veículo. É a mais elevada natureza material, substantiva do Universo; é, por excelência, a Mãe Divina.

Mulaprakriti é a possibilidade de exteriorização, de constituição de formas materiais. No entanto, ainda não é a matéria que foi trabalhada, que foi fecundada e organizada, para constituir formas materiais, através das quais o espírito se manifesta. Mulaprakriti é a Matéria Virgem (de que são símbolos as Deusas Virgens e Imaculadas), a matéria ainda por activar, a (raiz da)  substância do caos primordial. Ela é matéria informe, ainda não potenciada; mas é ali, do ponto de vista material, que está toda a potência, que está a possibilidade de todas as formas que venham a existir (e até daquelas que não virão a existir num determinado período de manifestação).

Quando essa matéria começa a ser organizada, activada, quando começa a haver combinação de átomos e o surgimento de formas em particular, já se está num momento de maior relatividade: há determinadas formas e não há outras. Em Mulaprakriti ainda temos um mar absoluto de possibilidades, há toda as possibilidades de manifestação, há todas as possibilidades de formalização mas ainda não há formas construídas (e nem foi iniciado o processo de construção).

O símbolo de Mulaprakriti é um triângulo apontado para baixo, como uma gota de água:

Rajas                       Sattva

Tamas

As três gunas, Rajas, Sattva e Tamas, não são apenas qualidades ou atributos da matéria: são, por assim dizer, a própria materialidade da matéria, aquilo que faz com que a matéria seja matéria. A matéria não pode ser concebida/pensada sem estas três gunas e, onde há matéria, há gunas, inseparáveis, existindo tanto na partícula mais ínfima como no mais vasto sistema.

Podemos definir (resumidamente) as três gunas da seguinte forma: Rajas – movimento, a capacidade de cada partícula mudar de lugar (Brahma, 3º Logos – força dinâmica); Sattva – ritmo, harmonia, vibração (Vishnu, 2º Logos – força de coesão interna);  Tamas – resistência, estabilidade, capacidade de tomar forma (Shiva, 1º Logos – força de dispersão).

Quando estas gunas estão em equilíbrio, estamos num estado de Pralaya, e à matéria neste estado é associado o termo Pradhana. Na matéria caótica ou não-manifestada, as três gunas encontram-se em perfeito equilíbrio e, então, todas as potências e energias que aparecem no mundo manifestado repousam numa inactividade comparável à de uma semente; porém, quando se rompe tal equilíbrio, produz-se uma forma, uma manifestação, e toda a manifestação ou forma é produto do predomínio de uma das gunas sobre os duas restantes (Ver o artigo “Esoterismo de A a Z”, de José Manuel Anacleto, na Biosofia nº 24).

Se utilizarmos o antigo axioma, no qual Parabrahman é o círculo cujo centro está em toda a parte e cuja circunferência não está em parte nenhuma, Mulaprakriti é a circunferência. Ao círculo (Parabrahman), nunca poderemos contemplar; mas, como existe uma circunferência, deduzimos que há um círculo.

Sempre que há dois pólos há necessariamente uma relação entre eles. Assim, entre estes dois pólos, Parabrahman e Mulaprakriti, há necessariamente uma interacção. O Absoluto, do nosso ponto de vista é imutável, mas é imutável porque é incessante movimento, um movimento tão prodigioso que para nós parece quietude; então, entre estes dois pólos, move-se sem se mover o Incessante Alento. Dizem os Grandes Mestres que este movimento não cessa nem nos momentos de Pralaya.

Ora, ainda no domínio do Imanifestado, podemos conceber o início de um processo de diferenciação, no qual surge o 1º Logos, a Primeira Grande Causa, que é ainda um Logos Imanifestado. Este Logos é uno com Mulaprakriti e seu Filho e Esposo: a princípio, o 1º Logos está adormecido no seio de Mulaprakriti, é então considerado o seu filho, a Potencialidade; assim que desperta, torna-se seu esposo e é então chamado o Pai-Oculto, a Potência.

O 1º Logos é o Logos Imanifestado, equivalente a Shiva (Maha-Shiva). É a Primeira Causa, é o ponto intermédio entre Caos e Theos. É o primeiro Centro Laya, onde o Universo é reassumido nos Pralayas menores. É o Todo (em contraposição ao Absoluto) – aquele no qual, em pralayas menores, o Universo é reassumido – Paranisphanna com ou sem Paramârtha, isto é, absoluto Ser com ou sem consciência (absoluta).

Quando o 1º Logos se assume como Pai, vai funcionar como um centro transmissor da Luz do Logos – Daiviprakriti. Daiviprakriti é irradiada por Mulaprakriti, que entretanto já se assume como Pradhana (Substância Pré-Cósmica, não organizada, indiferenciada), e é o Incessante Alento (de que falámos) já num estágio posterior. Daiviprakriti contém toda a “informação” a partir da qual o Universo vai ser construído. Daiviprakriti é Fohat no Mundo Manifestado – “o mensageiro dos Deuses”.

Num segundo momento deste processo de diferenciação, encontramos outra díade: o 2º Logos e Svabhâvat (a essência plástica que enche o Universo). Note-se que é a este momento de diferenciação que correctamente se deve associar a ideia de Deus Pai-Mãe. E é apenas com o surgimento do 3º Logos (Mahat ou Mente Cósmica cuja ideação se imprime na substância ou Prakriti) que nos encontramos num verdadeiro momento de diferenciação e manifestação.

Necessidade de Sentido

O ser humano sente-se perdido num mundo (ou em qualquer actividade) onde não exista ordem, regularidade, lei; e, geralmente, teme a perda dessa ordem estabelecida, excepto em momentos extremos de crise, quando o status quo vigente é considerado insuportável.

Os antiquíssimos cultos solares e agrários, ainda hoje popularmente enraizados (numa sobrevivência do chamado paganismo), inclusivamente em muitas regiões de Portugal, mostram essa reverência e apreço pela manutenção regular da ordem universal, sem o que tudo perderia sentido e um caos desagregador e angustiante poderia sobrevir.

Os antigos celebravam o Equinócio do Inverno, quando, após o Sol ter alcançado o seu zénite no ponto mais baixo, os dias começavam a aumentar progressivamente até ao Solstício de Verão. Isso era visto como o nascimento do Sol, o Sol Invictus, com o qual toda a natureza começava a despertar lentamente da sua letargia, e os humanos viam, uma vez mais, renovadas as suas esperanças na fertilidade da terra. No paganismo, a chegada da Primavera com a “Ressurreição do Sol” era festivamente celebrada e os Mistérios de Deméter aludiam-lhe simbolicamente.

Fosse com conhecimento profundo, fosse por mera repetição, agradecia-se, assim, aos deuses a manutenção da ordem que surgira do Caos. É assim que um autor se refere a Atena, deusa da sabedoria, da justiça ordenadora e da guerra contra o caos e a prepotência, escrevendo: “O seu nascimento foi como um jorro de luz sobre o cosmos, aurora de um mundo novo, atmosfera luminosa, semelhante à hierofania de uma divindade emergindo de uma montanha sagrada. Caiu neve de ouro….”.

Para a criança recém-nascida, tudo é confuso e caótico no mundo onde surge. A partir daí, começa a extraordinária aprendizagem do sentido, da razão e da ordem daquilo que a cerca. A fascinante aventura da aprendizagem da linguagem, das palavras e do seu sentido racional e, posteriormente, a sua ordenação em frases e num discurso coerente, representa um triunfo – ao fim e ao cabo, do Logos – sobre o caos e a desordem, o sem sentido.

Inicia-se igualmente o processo de socialização da criança. A socialização é também a apreensão das regras de um cosmos ordenado (desde a célula familiar até à sociedade no seu todo), a partir de um caos primordial, em que cada um de nós é, de certa forma, um elemento disperso, não integrado. A vida em sociedade é o funcionamento de um Cosmos (com as suas leis e o seu sentido), que se opõe a um caos, que seria a desagregação social.

O Caos entre a desgregação e a reconstrução das regras e da racionalidade

Nas culturas arcaicas era comum o mito do eterno retorno, expressando a repetição cíclica do Universo, na sucessão da vida e da morte, dos dias e das noites, da expiração e inspiração, do fluxo e refluxo das marés, da sequência das estacões, da alternância das sementeiras e das colheitas… e até, em algumas cosmogonias, especialmente nas orientais, no nascimento, morte e renascimento de Universos sucessivos.

Havia assim um periódico regresso ao Caos, que significa a necessidade de que volte a fluir, impetuosamente, o impulso vital. É como que um repouso ou revitalização. Por isso, a Noite sempre foi associada ao Caos.1

O estado de sono é analógico de não-cosmos, de não sentido, de Caos. Por outro lado, os estados oníricos  são analógicos da transição do Caos para o Cosmos – o momento inicial da criação. Na mitologia grega, Gaia, a Mãe-Terra, era a propiciadora dos sonhos e o surgimento do Cosmos é algo de semelhante a um sonho: criar é sonhar e sonhar é criar.

Deste anseio de revitalização inerente a um Caos, decorrem os processos revolucionários de subversão da ordem instituída, quando um modelo exauriu as suas forças vitais; decorrem as actividades lúdicas populares, manifestações como as do Carnaval, as festividades portuguesas do Espírito Santo com a coroação de um menino (o que é curioso, apesar das extrapolações exageradas que se faz em certo tipo de literatura repetitiva, por simbolizar também um reinício purificador) ou os acessos destruidores mas regeneradores da temível e poderosa deusa Kali, consorte de Shiva, no Hinduísmo; decorrem, enfim, os processos de des-racionalização e de des-formalização de certos movimentos artísticos e literários que, reagindo contra estilos cristalizados, emergem com um forte sentido contestatário e de renovação.

No entanto, não de trata necessariamente de destruir por destruir mas, antes, de uma tentativa para voltar ao caos primordial, a partir do qual é possível a recriação, pulsante de vida. Um dos movimentos a que aludimos foi o surrealismo que, nas palavras de André Breton, pretendia “transportar-se de um golpe ao nascimento do significado”. É manifesto que correntes artísticas do século XX, tanto no domínio da literatura, como no das artes plásticas ou até da música, pretendiam “pulverizar” as formas ou significantes para que se reencontrassem com o momento mágico da criação como acto puro e não condicionado, com o momento ontologicamente real (e ainda não significado, mediatizado em palavras, traços, linhas ou melodias). Foi o caso do surrealismo, do impressionismo, do futurismo, ou da música dissonante ou até de certos modos da música Rock,  por exemplo.

Muito curiosamente, também na Ciência, no decorrer dos últimos cem anos, se formulou o Princípio da Incerteza e, ainda, a Teoria do Caos.

Algo de semelhante se verifica com certas formas populares de expressividade artística ou lúdica em que, de certo modo, também se desagrega (ou, em outros casos, se contorna) a ordem racional. Referimos essa anterioridade ontológica nas notas cosmogónicas e a anterioridade psicológica na menção aos processos de crescimento a partir do nascimento.

Encontramo-nos, pois, em ambos os casos, com a noção de que a génese do acto de criação, aquilo em que a criação (e o surgimento do sentido) tem raízes ou de que parte, está numa dimensão de ante-racionalidade ou de para-racionalidade.

Conclusão

A racionalidade interpreta o mundo que existe, confere-lhe um sentido, extrai-lhe a ordem ou inteligibilidade que nele existe (para certas correntes gnoseológicas, que inclusivamente, em alguns casos, pretendem buscar argumentos em certos desenvolvimentos da Física moderna, o mundo, na verdade, não teria ordem e racionalidade, que só existiriam em nós, como forma de compreensão. As leis da razão existiriam, só, no sujeito, e a racionalização seria a justaposição dessas leis a uma realidade, em si mesma, caótica…  são questões muito interessantes mas que não cabe aqui desenvolver). Não obstante, coisa diferente é a criação (ou recriação), a injecção de um novo sentido. Aqui, estamos num domínio de para-racionalidade ou ante-racionalidade. O acto puro de existência, de nascimento, é anterior à descoberta do sentido; e crescer é progredir nesse encontrar do sentido e da ordem. Subjacente, como contraponto, está sempre o caos, o non-sense; e com ele convive, na sua pré-racionalidade, o simplismo de certas interpretações populares; a ele acede, numa espécie de catarse ou, diferentemente, de protesto, certas formas de expressão lúdica ou de arte popular; nele, enfim (ou sobretudo), mergulha raízes o impulso revigorante para a criação de novas formas, tanto na actividade artística e literária, como em outras vertentes regeneradoras do pensamento, do conhecimento e da construtividade humanas.

Quer dizer, há uma diferença entre a inteligibilidade como impulso criador e a interpretação intelectiva, incidente na definição de um sentido – sobre o que foi criado e se cristalizou. Há uma diferença entre o génio criador e o simples intérprete do que (já) foi criado.

A Manifestação do ser não está limitada à capacidade de compreensão. A imaginação criadora reconstrói ou completa a realidade, voltando a aceder ao caos, ao tempo em que as coisas eram significadas e não ditas, ao momento primordial, ao acto de criação pura, ao nível para-racional ou supraconsciente.

Assim, a inserção de sentido no mundo, é uma tarefa sempre renovável: contrariamente à ideia de uma racionalização acabada e cristalizada, a realidade pode ser sempre re-criada e o seu sentido pode ser sempre completado. A todos nós o cabe fazer, cumprindo o mais belo desígnio humano, que é o da criação. F

Ana Isabel Neves
Licenciada em Sociologia

Notas:
1 “Por isso sê para mim materna, ó noite tranquila… / Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz, / Tu que não existes, que és só a ausência de luz, / Tu que não és uma coisa, um lugar, uma essência, uma vida, / Penélope da tela, amanhã desfeita, da tua escuridão, / Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa, / Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos, / E sê frescor e alívio, ó noite, sobre a minha fronte…”. Fernando Pessoa  (Álvaro de Campos), Passagem das Horas.

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