Pesticidas

A Situação é Alarmante e Urgente!

Fertilidade sabotada, inteligência corroída, sistema imunitário destruído e alterações neurológicas que levam à hiperactividade e a comportamento agressivo. Estudos científicos mostram que isto já está a acontecer às nossas crianças.

Os casos graves de envenenamento por pesticidas de síntese química – como o acidente em Bhopal, em 1984, na Índia – deram-nos a noção de que estes compostos são perigosos para a saúde. Porém, projectando o que acontece com os venenos naturais, achámos ingenuamente que essa toxicidade dependia da concentração dos produtos e que a mesma poderia ser acautelada pelas leis. Assim, acabámos por aceitar como natural o convívio diário com pesticidas, quer na alimentação, quer nas nossas casas ou jardins.
Porém, os pesticidas sintéticos (onde se incluem insecticidas, herbicidas, fungicidas, entre outros produtos destinados a eliminar organismos indesejáveis) não são naturais e actuam segundo uma lógica totalmente diferente.

Quantidades infinitesimais que actuam no longo prazo

A exposição a quantidades infinitesimais destes tóxicos numa fase crucial do desenvolvimento humano, como a gestação e os primeiros anos de vida de uma criança, é suficiente para causar danos que se repercutem por toda a sua vida. Danos que põem em causa além da saúde imediata (há casos de leucemia infantil que parecem estar ligados à exposição a pesticidas durante a fase de gestação), a capacidade reprodutora, a inteligência e o comportamento em sociedade.
O facto de não serem naturais, torna difícil a sua degradação e, por isso, acumulam-se nos ecossistemas. A factura que pessoas e animais selvagens estão a pagar por esta acumulação é tão alarmante em efeitos e extensão, que urge denunciar uma mentira que a indústria quer passar por verdade. Os agroquímicos não são necessários para matar a fome à humanidade.
Os surpreendentes acréscimos de produção registados no início da chamada revolução verde, depressa se revelaram fogo de palha. O número de pragas resistentes aos pesticidas cresce exponencialmente, exigindo a utilização de produtos cada vez mais tóxicos, à medida que se observam perdas crescentes de produtividade nestes sistemas agrícolas.
Quem nos protege?

Se atendermos ao facto de que apenas 0,3% dos pesticidas aplicados no mundo inteiro entra em contacto directo com os organismos indesejáveis visados, perdendo-se quase a totalidade no escoamento de águas e sendo arrastados pelo vento, percebemos por que assistimos à poluição de todo o Globo por estes compostos.
Ao contrário do que acontece na agricultura biológica, não existe qualquer inspecção, por parte de autoridades públicas, sobre a utilização de produtos químicos nos sistemas agrícolas convencionais. Os regulamentos existentes apenas se referem à quantidade de resíduos de pesticidas admissíveis nos produtos que chegam ao mercado.
Porém, mesmo estes valores não garantem a defesa do consumidor. Eles são baseados em testes que não têm em conta a maior vulnerabilidade das crianças, nem os efeitos relativos à perturbação do sistema endócrino. Além do mais, os testes efectuados estudam apenas o efeito de uma substância isolada, e hoje sabe-se que o efeito da presença conjunta de mais do que uma substância pode ser totalmente diferente da soma de cada uma delas.
A única defesa do consumidor é a informação!

A Sexualidade em causa

Uma das questões mais preocupantes sobre os efeitos dos pesticidas, reside na capacidade de muitas destas substâncias quebrarem o equilíbrio do sistema hormonal e porem em causa a fertilidade de pessoas e animais.
A atenção dos cientistas para este problema começou pela verificação da incapacidade de populações selvagens de mamíferos, aves e répteis se reproduzirem. Na origem destes fenómenos estavam comportamentos sexuais anómalos, como o desinteresse pelo acasalamento e órgãos sexuais deformados.
No ser humano, os disruptores hormonais (onde se incluem, além dos pesticidas, as dioxinas, os PCB, os fetalatos, etc.) são responsáveis por uma diminuição de 50% do número de espermatozóides no sémen, no período entre 1938 e 1990. Mas os efeitos estendem-se a problemas ainda mais graves, como cancros no aparelho reprodutivo, síndroma da degenerescência testicular e pénis demasiado pequenos, entre outros.

Problemas de desenvolvimento, aprendizagem e comportamento em crianças

Diversos estudos evidenciam a ligação entre a exposição a pesticidas e a ocorrência de lesões no sistema nervoso em crianças. Essas lesões traduzem-se numa diminuição significativa da capacidade mental e num aumento de comportamento agressivo.
O grupo de investigação de Elizabeth A. Guillette (antropóloga) trabalhou com dois grupos de crianças indígenas, dos 4 aos 5 anos de idade, que vivem no Vale Yaqui, no noroeste do México. Um dos grupos vive nas zonas baixas, onde se faz uma agricultura com uso intensivo de pesticidas (45 ou mais aplicações por ano). O outro grupo vive nas montanhas, onde os pais cultivam praticamente sem pesticidas.
Uma bateria de testes de desenvolvimento realizada com os dois grupos, revelou que as crianças expostas a pesticidas eram muito menos resistentes, tinham uma coordenação motora inferior, problemas de memória e não eram capazes de desenhar uma simples figura humana. Também foram observados comportamentos agressivos mais frequentes nas crianças do vale.

Um problema de proporções epidémicas

Pensa-se que estas dificuldades resultam da exposição aos tóxicos em períodos do desenvolvimento das crianças em que elas estão mais vulneráveis, como acontece dentro do útero e nos primeiros anos do seu crescimento. É nestas fases que o sistema nervoso se estrutura, determinando em grande medida o seu potencial para o resto da vida.
Estima-se que nos EUA a percentagem de crianças a sofrer de atenção deficitária e hiperactividade se situe entre os 3 e os 6%, embora estudos recentes sugiram que o valor possa chegar já aos 17%. O número de crianças a tomar Ritalin, medicamento prescrito para esta situação clínica, tem duplicado a cada 4 a 7 anos desde 1971, estimando-se que hoje seja de um milhão e meio. Os estudos já realizados confirmam que uma grande variedade de produtos químicos, usados vulgarmente na indústria e nos lares, podem contribuir para a ocorrência de dificuldades de aprendizagem, problemas de desenvolvimento e comportamentais. Os principais neurotóxicos incluem: metais pesados; a nicotina; pesticidas; dioxinas e PCB; e solventes usados em pinturas, colas e soluções de limpeza. Estes produtos químicos podem ser directamente tóxicos para as células ou interferir com as hormonas, neurotransmissores ou outros factores de crescimento.

Comissão Europeia detecta resíduos de pesticidas nos alimentos

No final de Julho passado, o MDRGF (Mouvement pour les Droits et le Respect des Générations Futures), associação ecológica francesa especializada em poluição química e agrícola, lançou o alerta. Um estudo da Comissão Europeia acabava de revelar que cerca de 53% das frutas, hortícolas e cereais consumidos em França contêm resíduos de pesticidas. Pior ainda, em 8,9% destes alimentos o teor dos resíduos ultrapassa os limites europeus permitidos.
Estes resultados, publicados pela Direcção de Saúde e Protecção do Consumidor da Comissão Europeia, referem-se a análises realizadas em 2002 nos países da UE, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Cerca de 38% das amostras analisadas continham resíduos de pesticidas, ainda que abaixo dos limites Máximos de Resíduos (LMR). Estes limites são excedidos em 5,5% das amostras. De salientar que, na EU, 20,7% das amostras analisadas apresentavam resíduos de vários pesticidas em simultâneo.

Ministros Europeus têm o sangue contaminado

O alerta foi lançado pelo WWF (Fundo Mundial para a Vida Selvagem) no passado mês de Outubro. Ministros do Ambiente e da Saúde de 13 países europeus têm o sangue contaminado com uma série de produtos químicos considerados perigosos.
As amostras de sangue foram colhidas em Junho, durante uma conferência ministerial da Organização Mundial de Saúde, realizada em Budapeste. Nos 14 ministros que aceitaram realizar o teste, foram encontrados 55 produtos químicos diferentes, como resíduos de pesticidas, compostos para dar cheiro aos produtos de higiene e compostos presentes nas panelas não aderentes, entre outros.
Esta acção do WWF teve por objectivo alertar para a necessidade de um controlo mais efectivo sobre estes poluentes. Apenas 140, dos cerca de 30 mil produtos químicos utilizados em maior escala na UE, foram alvo de uma avaliação detalhada dos seus efeitos na saúde.

“Não vou esperar por mais provas para mudar os meus hábitos alimentares”

Embora os efeitos mais brutais dos pesticidas tenham a ver com as crianças, as consequências para a população adulta são igualmente graves. Walter J. Crinnion, médico nutricionista, dirige um programa de desintoxicação para poluentes ambientais e integra o corpo docente da Universidade de Ciências da Saúde Natural Bastyr, de Seatle, nos EUA. Ele tem tratado doentes que lhe chegam com problemas de saúde que outros médicos não conseguiram diagnosticar.
As análises ao sangue destes doentes invariavelmente revelam diversos pesticidas, como o DDT, que vão entrando no corpo lentamente ao longo dos anos e se acumulam nos tecidos adiposos. Eles estão na origem de doenças autoimunes, como o lúpus, alergias, cancro da mama e outros tipos de cancros, assim como doenças neurológicas, como o mal de Parkinson.
O Dr. Crinnion afirma que “evitar resíduos de pesticidas nos alimentos pode salvar muitas vidas e reduzir o custo do sistema de saúde”. Os seus doentes recuperam a saúde após submeterem-se a um longo programa de tratamento para eliminar os pesticidas do corpo e adoptarem uma alimentação biológica.

Os pesticidas combatem-se com informação

Rachel Carson foi bióloga marinha e autora de vários livros. Ela iniciou uma revolução ambiental mundial ao publicar “Silent Spring” (Primavera Silenciosa), em 1962. Este livro mudou o curso da história ao fazer a primeira exposição pública sobre o que o pesticida DDT estava a fazer no nosso ambiente.
A Primavera Silenciosa chocou a opinião pública, sensibilizando-a para as questões ambientais de modo efectivo. Ela marca o início dos movimentos ecologistas.
Chamada por alguns “a Rachel Carson dos anos 90”, Theodora Colborn (ou Theo Colborn, como é mais conhecida) é doutorada em zoologia e dirige o programa sobre vida selvagem e poluentes na WWF (World Wildlife Fund). Tornou-se uma figura controversa ao publicar o livro “Our Stolen Future” (O Nosso Futuro Roubado), em 1996.
A sua mensagem central é que mesmo doses muito baixas de diversos compostos químicos produzidos pelo homem, podem afectar bebés e fetos em desenvolvimento.
O que distingue o trabalho de Colborn, relativamente a outros cientistas que nas últimas três décadas têm alertado para os perigos associados aos disruptores endócrinos, é uma abordagem multidisciplinar que cruza toxicologia, endocrinologia, embriologia e psicologia.

Cristina Baptista
Engenheira do Ambiente

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