Temor a Deus?

Em algumas religiões, particularmente as chamadas monoteístas1, ou seja, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, a ideia do temor Deus, da cólera divina e do castigo serevíssimo e implacável surge com muita abundância.

É assim, desde logo, nos respectivos livros sagrados, tanto no Antigo Testamento, como no Novo Testamento, como no Corão.

Entre inúmeros exemplos que poderiam ser dados, mencionaremos  somente uns poucos:

“Não façais mal uns aos outros mas temei vosso Deus, pois Eu, o Senhor, sou vosso Deus” (Levítico, 25: 17).

“Adorai ao Senhor vestidos de trajes santos; tremei diante dele, todos os habitantes da terra” (Salmos, 96: 9).

“E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei” (Lucas, 2: 4-5).

“Temei a Deus. Honrai ao rei” (I Pedro, 2: 17).

“Temei a Deus e dai-Lhe glória… adorai Aquele que fez o céu e a terra”. (Apocalipse 14: 7).

“Sabei que Alah é severíssimo no castigo” (Corão, 2: 196).

“Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser, do qual criou a sua companheira e, de ambos, fez descender inumeráveis homens e mulheres. Temei a Alah, em nome do Qual exigis os vossos direitos mútuos e reverenciai os laços de parentesco, porque Alah é vosso Observador” (Corão, 4: 1).

Entre os judeus, é muito frequente a referência a alguém que se considera bom, justo e honrado com a expressão “o temente a Deus” a anteceder o nome da pessoa em causa. Nos países cristãos, é frequente alguém afirmar que tem convicções religiosas através da frase “Eu temo a Deus”.

Por muito que estas palavras se possam chocar com a noção de um Deus de amor e misericórdia, a verdade é que elas aludem a uma experiência que a maioria dos seres humanos conhece realmente, de forma mais ou menos consciente: a reverência perante um poder superior e a noção de que, sempre que agimos erradamente “por pensamentos, palavras, actos e omissões”, algo nos trará funestas consequências.

A Ciência Oculta não reconhece a existência de um Deus pessoal, governador moral do Universo e nele interveniente, defendendo sim, um Todo Divino, a plenitude de ser, no manifestado, e o Não-Ser ou Ser Absoluto, no imanifestado. Assim, que diz ela acerca disto, como explica um tal sentimento?

Ensina o Ocultismo que o Cosmos é regido não por um Deus caprichoso, ciumento, vingativo ou que espere pedidos e súplicas mas, sim, por Leis universais, perfeitíssimas.
Uma dessas Leis, na verdade, a Lei das Leis, como escreveu Helena Blavatsky na “Voz do Silêncio” 2, é a do Karma ou de Causa e Efeito. São Paulo expressou-a singelamente nestas palavras: “Tudo o que semeardes, colhereis” (Gálatas, 6: 7). Quer dizer, de acordo com esta Lei de Equilíbrio, recebemos efeitos bons ou maus, consoante os nossos actos, sentimentos ou pensamentos forem, respectivamente, bons ou maus.

(Fazemos aqui, propositadamente, uma apresentação muito simples da Lei do Karma, não considerando o seu dinamismo, as suas dimensões colectivas, a intercessão com outras Leis, etc.).

A percepção, inconsciente que seja, dos resultados desta relação causa efeito, cria naturalmente no ser humano a predisposição a recear que algo de desagradável lhe ocorrerá quando viola as regras Éticas, de bem pensar, bem sentir, bem falar, bem agir…

Após a morte, em cada ciclo de uma reencarnação, o ser humano passa por duas revisões dessa sua última existência, nas quais é espectador do que fez, sentiu, pensou… A primeira, ocorre logo após a morte física; a segunda, no final da estadia no Kâma-Loka 4 (o plano ou região seguinte ao terrestre), antes de ingressar no Devachan 5 6. Tais revisões são uma fonte de aprendizagem de excepcional importância. O sentimento que podemos definir por remorso é de grande poder evolutivo e contribui para formar o que podemos chamar “voz da consciência”, essa que não só nos sussurra o que é correcto e o que é errado, como nos provoca uma alegria interior quando nos conduzimos bem ou uma espécie de sofrimento quando pensamos em agir malevolamente (ou quando o chegamos a fazer).

Com noções muito confusas da Lei do Karma, as religiões ocidentais são naturalmente “obrigadas” a recorrer às noções do temor ou receio de Deus ou do Senhor. Já vimos a razão de ser desse “temor”; mas qual é o sucedâneo do Senhor ou de deus a que se referem, visto que, no nosso entendimento, é insustentável a ideia de um Deus pessoal que castiga ou premeia?
Em vários artigos nesta revista, temos referido a constituição septenária do ser humano, tal como apresentado por Helena Blavatsky e pelos seus Mestres.

Vejamos o que escrevemos num deles 3, ao referir-nos aos sete níveis existenciais e de consciência do ser humano, assim enumerados (contados de cima para baixo e do mais elevado para o inferior):

“1.7. Atman – o Espírito (como Ser Incondicionado e Vontade Pura); o Eu Divino; o Purusha da Filosofia Samkhya; o  “Pai que Está no Céu”, de que falou Jesus (Mateus, V; Lucas, XI, 13, etc.);

2.6. Buddhi – a Inteligência Espiritual; a Intuição;

3.5. Manas (Manas Superior) – a Mente (Superior);

4. Kâma ou Kâma-Manas – a força do desejo egotista e a energia mental por ele mobilizada e envolvida;

5.3. Linga-Sharîra – o Corpo padrão ou modelo, e das causas formativas do Corpo Físico; foi inicialmente chamado Corpo Astral e, mais tarde, Duplo Etérico;

6.2. Prâna – a Vitalidade;

7.1. Sthûla Sharîra – o Corpo Físico.
Os três Princípios superiores, Âtma-Buddhi-Manas, constituem a Tríade Superior, o Homem Espiritual; os quatro restantes Princípios formam o Quaternário Inferior ou Personalidade, isto é, a natureza mortal [ou só condicionalmente imortal, no que respeita ao Kâma-Manas], que dura somente o período de uma encarnação”.

Entretanto, em instruções dadas aos seus discípulos mais próximos, nos anos anteriores à sua morte, Helena Blavatsky deu uma outra classificação, afirmando que “Metafisica e filosoficamente, e em estrito sentido esotérico, o homem, como unidade completa, compõe-se dos Quatro Princípios básicos e dos seus Três Aspectos na Terra. E, assim, distinguiu os (quatro) Princípios Eternos e Fundamentais dos (três) Aspectos Transitórios Produzidos pelos Princípios, desta forma:

Princípios Eternos
e Fundamentais:

Âtmâ ou Jiva – “a Vida Una”, que impregna o Trio Monádico (Um em três e três em Um).
Envoltório Áurico – o substrato da Aura que circunda o homem é o Akâsha puro e primordial, difundido universalmente, a primeira película formada na expansão ilimitada de Jiva, a imutável Raiz de tudo.
Buddhi – um raio da Alma Espiritual e Universal (Âlaya).
Manas (o Eu Superior) – procede de Mahat, o primeiro produto ou emanação de Pradhâna, que contém potencialmente todos os Gunas (atributos). Mahat é a Inteligência Cósmica denominada o “Grande Princípio.

Aspectos Transitórios Produzidos pelos Princípios:

Prâna – o Sopro da Vida, o mesmo que Nephesh. Com a morte do ser vivo, Prâna volta a ser Jiva.
Linga Sharîra – a Forma Astral, emanação transitória do Ovo Áurico. Esta forma precede à formação do corpo vivo, e permanecerá aderida ao corpo morto, somente se desvanecendo depois que se desintegrar o último átomo (com excepção do esqueleto).
Manas Inferior – a Alma Animal, o reflexo ou sombra de Buddhi-Manas, com as potencialidade de ambos, mas dominado geralmente pela sua associação com os elementos do Kâma 7.
Repare-se que, enquanto os Princípios estão enumerados do superior para o inferior, o contrário se verifica nos Aspectos e, assim, “os extremos tocam-se”.

Ora, o Ovo Áurico ou Ovo Luminoso 8, segundo as mesmas instruções de H. P. Blavatsky, “reflecte todos os pensamentos, palavras e actos do homem” e “é o conservador dos anais Kármicos”. É na sua substância – akáshica – que ficam impressas as “memórias” ou registos (akáshicos) Kármicos. Elástica, como é essa substância akáshica que o constitui, tudo quanto a impulsiona tem o correspondente movimento de (re)equilíbrio ou re-harmonização – e tal é a operação do Karma em nós, em todos os níveis do ser humano, que estão envolvidos por esse Ovo Áurico.

“Atman é Karma”, como os Mestres de Helena Blavatsky e William Q. Judge lhes diziam. Por outras palavras, é o Espírito Divino no homem – e não uma Divindade externa –, ainda que em cooperação com os Lipika ou Mahârâjas (os Senhores do Karma), que gere o próprio Karma. O Self ou Atman em cada um de nós é um com Brahman, o Divino Universal, como afirmam os Upanishads e proclama a Filosofia Vedanta. Assim, como escreveu Helena Blavatsky – “Não é o Reitor ou Mahârâja quem castiga ou recompensa, com ou sem a permissão ou ordem de Deus, mas sim o próprio homem” 9 – ou, ainda, como o expressou um outro autor – “Nós somos o nosso próprio Karma (…) Que parte de nós exerce o grande movimento sobre aquilo que nós seremos no futuro? É a parte mais elevada…” 10 – somos nós próprios, é o Espírito Divino no homem, quem exerce o Karma de cada um de nós, tornando individual a mesma Lei que é Universal.
E é este Deus (que é o nosso verdadeiro Eu), aquele a quem devemos temer ou a quem nos devemos dirigir. F

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Notas:

1 Na realidade, não há religiões puramente monoteístas (temos, no Judaísmo, no Cristianismo e até no Islamismo, os Anjos, Arcanjos… Tronos, Querubins, Serafins e todos os que co-operam com Deus) nem puramente politeístas (pois estas reconhecem, explicita ou implicitamente, o Divino Inominável, indefinível, insondável, mais além de todos os deuses).
2 Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1921 (tradução de Fernando Pessoa); Ed. Pensamento, S. Paulo, 1989.
3 No nº 22 da “Biosofia”.
4 Kâma-Loka – Palavra sânscrita que significa, etimologicamente, a “região do desejo”, correspondente ao limbo ou ao purgatório da teologia cristã, ao Hades da Mitologia Grega ou ao Amenti dos Antigos Egípcios. “O plano semi-material, subjectivo e invisível para nós, onde as ‘personalidades’ desencarnadas, as formas astrais, chamadas Kâmarûpa, permanecem até se desvanecerem totalmente, graças ao completo esgotamento dos impulsos mentais que criaram esses eidolons das paixões e desejos humanos e animais” (In “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky; Ed. Ground, S. Paulo).
5 Devachan – Palavra tibetana que significa, etimologicamente, “a morada dos deuses”. Após a morte do corpo físico, o homem despoja-se também de dois outros princípios do Quaternário Inferior, o Prâna (Força Vital) e o Linga-Sharîra (Corpo Modelo ou Duplo Astral). Permanece então com a Tríade Superior e com o Kâma, então volvido Kâma-Rûpa (Corpo de Desejos) e as porções inferiores de Manas adstritas a Kâma. Pode libertar-se também fulgurantemente desses remanescentes do Quaternário Inferior, se se tratar de um homem especialmente elevado; caso contrário, como vimos na nota anterior, o Kâmarûpa vai-se desvanecendo mais ou menos longamente no Kâma-Loka. Vem então a segunda morte, e o homem – a parte superior do homem – ingressa no Devachan, estado subjectivo de bem-aventurança, de plena felicidade, onde vivencia a frutificação e a realização de tudo quanto de nobre sentiu, aspirou e idealizou na encarnação anterior. Quem usufrui do Devachan é a Alma Humana, ou seja, o Manas Superior, tutelado, coberto (“overshadowed”) por Buddhi e Manas; não é, pois, a Mónada Divina (cfr. “Occult Glossary”, de G. De Purucker, Theosophical University Press, Pasadena, 2ª ed., 1996), pelo que o Devachan pode ser considerado um estado sublimado e purificado de pessoalismo ou egotismo, a cujo gozo – que se pode prolongar por muitos séculos ou até milhares de anos – renunciam algumas das almas mais avançadas.
6 Para uma síntese da existência post-mortem, recomendamos o livro “When We Die – Exploring the Great Beyond”, de Geoffrey Farthing (Point Loma Publications, San Diego, 1994).
7 In “Blavatsky Collected Writings”, Vol. Xii, Wheaton, 1980; Publicado em Português num 6º Volume de “A Doutrina Secreta” (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).
8 Correspondência, no Microcosmos, do Ovo do Mundo (Hiranyagarbha).
9 In “A Doutrina Secerta”.
10 G. De Purucker in “Fountain-Source of Occultism” (Theosophical University Press, Pasadena, 1974).

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