Giordano Bruno
O Grande Filósofo do Renascimento

O Universo é um, infinito e imóvel. A potência absoluta é uma, o acto é um, a forma
da alma é uma, o material do corpo é um … Não é gerado, pois não existe outro ser…
Não é corruptível pois não existe nada mais em que se possa transformar, visto que É todas as coisas
(De la Causa, Principio e Uno)

A Vida

Giordano Bruno nasceu em Nola 1, província de Nápoles, no ano de 1548 (sete anos após a morte de Paracelso), sendo Filippo o seu nome de nascimento.
Em 1558, é enviado pelos seus pais para a escola em Nápoles e em 1563, com 15 anos, entra no mesmo Mosteiro Dominicano onde São Tomás de Aquino tinha vivido e leccionado 3 séculos antes, recebendo o nome de Giordano. Já nesta altura era visível a sua rebeldia em relação à doutrina católica, considerando que os padres o tentavam afastar das mais dignas e altas ocupações e aprisionar o seu espírito, para o fazer escravo de um sistema tolo e miserável. De facto, desde muito cedo que Giordano mostrou o seu espírito independente em relação aos dogmas da Igreja Católica, chegando mesmo a retirar todas as imagens dos santos da sua cela e a declarar abertamente que preferia ler literatura mais interessante do que aquela que era recomendada; entre esta literatura, encontravam-se as obras de Copérnico, Pitágoras, Platão e vários dos neoplatónicos.
Com 24 anos de idade, em 1572, Giordano é ordenado Sacerdote e celebra a sua primeira missa. Giordano prossegue os seus estudos em Teologia e permanece no Mosteiro Dominicano até 1576, ano em que tem de abandonar o Mosteiro sob acusação de heresia. Esta primeira acusação de heresia tem origem numa peça satírica escrita por Giordano, na qual ele descrevia o ambiente de depravação que o circundava. Assim, compreendendo o perigo que esta acusação representava, abandona Nápoles e segue para Roma, de onde teve novamente de fugir, após um segundo processo de excomunhão. De seguida, já em 1578, dirige-se para Genebra, onde deu aulas de gramática e astronomia. Nesta cidade recebe o apoio de um nobre italiano, o qual se interessou pelas suas ideias e o ajudou a disseminá-las. É também aqui que vai ter um breve contacto com os Calvinistas mas, como escreve um texto onde era patente a sua discordância com as teses daqueles, acaba por ser preso (note-se que Genebra era uma cidade em que as teses de Calvino eram extremamente consideradas); no entanto, como lhe é permitido “corrigir” as suas críticas, apenas é obrigado a abandonar a cidade.
Em 1579, chega a França, mais propriamente a Toulouse, onde esteve pouco tempo, partindo depois para Paris. Nesta altura, já com o grau de Doutor em Teologia, começa a ganhar fama devido à sua prodigiosa memória e atrai a atenção do Rei Henrique III. É sob a protecção do rei que consegue editar cerca de 20 obras num período de sete anos, incluindo várias sobre o treino da memória com base num elaborado sistema mnemónico.
Em 1583, sente que o seu destino não se encontrava em França e abandona Paris, seguindo para Inglaterra com cartas de recomendação de Henrique III. Giordano tenta obter um lugar como professor na Universidade de Oxford mas este foi-lhe negado, na medida em que a autoridade de Aristóteles se fazia sentir no campo académico e Giordano recusava-se enfaticamente a aceitar tal autoridade. Enquanto esteve em Inglaterra foi recebido pela Rainha Isabel e esta considerou-o demasiado radical, subversivo e perigoso. Achando, pois, que Inglaterra nada tinha a oferecer, parte de novo para Paris, em 1585, na companhia do embaixador francês em Inglaterra. Mas, tendo publicado recentemente as suas 120 Teses contra a Ciência Natural de Aristóteles e tendo-se envolvido numa acesa discussão filosófica, Giordano abandona novamente Paris e decide ir para a Alemanha. Lá encontra alguma hostilidade em Marburg, onde lhe é novamente negado um lugar de professor na Universidade. É, porém, recebido com entusiasmo em Wittenberg, onde é convidado para leccionar na Universidade. Quando os calvinistas ocuparam os lugares de poder na Universidade de Wittenberg, Giordano vê-se obrigado a abandonar esse local e dirige-se para Frankfurt, onde conhece dois italianos com uma oficina de publicações, os quais publicam um conjunto das suas obras em Veneza.
Estas obras chamam a atenção de Mocenigo, que o convida a ir para sua casa em Veneza, oferecendo-lhe o alojamento e uma quantia considerável em troco de aulas privadas sobre as técnicas mnemónicas de treino da memória. Ora, Giordano, que sofria com saudades da sua terra natal, aceita o convite, que se virá a revelar fatal. Em Maio de 1592, preparava-se para ir a Frankfurt para editar uma nova obra mas é feito prisioneiro de Mocenigo e este denuncia-o à Inquisição Veneziana, acusando-o de ser um herético e inimigo da Santa Igreja. O julgamento em Veneza parecia estar a ser-lhe favorável quando, por solicitação do Papa, Giordano é transferido para Roma. Durante seis anos, entre 1593 e 1600, fica retido na Prisão Papal. Em 1600, responde à sentença de morte que lhe foi proferida com a frase “talvez vocês, meus juízes, pronunciem esta sentença contra mim com mais medo do que aquele com que eu a recebo”. Foram-lhe dados mais oito dias para que pudesse reconsiderar a sua doutrina mas Giordano não cedeu, tendo morrido na fogueira da Inquisição, a 17 de Fevereiro de 1600, no Campo di Fiori.

A Obra

As obras publicadas de Giordano Bruno são:
- De umbris idearum (1582)
- Cantus Circaeus (1582)
- De compendiosa architectura (1582)
- Candelaio (1582)
- Ars reminiscendi (1583)
- Explicatio triginta sigillorum (1583)
- Sigillus sigillorum (1583)
- La Cena de le Ceneri (1584)
- De la causa, principio, et Uno (1584)
- De l’infinito universo et Mondi (1584)
- Spaccio de la Bestia Trionfante (1584)
- Cabala del cavallo Pegaseo - Asino Cillenico (1585)
- De gl’ heroici furori (1585)
- Figuratio Aristotelici Physici auditus (1585)
- Dialogi duo de Fabricii Mordentis Salernitani (1586)
- Idiota triumphans (1586)
- De somni interpretatione (1586)
- Centum et viginti articuli de natura et mundo adversus peripateticos (1586)
- Delampade combinatoria Lulliana (1587)
- De progressu et lampade venatoria logicorum (1587)
- Oratio valedictoria (1588)
- Camoeracensis Acrotismus (1588)
- De specierum scrutinio (1588)
- Articuli centum et sexaginta adversus huius tempestatismathematicos atque Philosophos (1588)
- Oratio consolatoria (1589)
- De triplici minimo et mensura (1591)
- De monade numero et figura (1591)
- De innumerabilibus, immenso, et infigurabili (1591)
- De imaginum, signorum & idearum compositione (1591)
- Summa terminorum metaphisicorum (1595)
- Animadversiones circa lampadem lullianam (1586)
- Lampas triginta statuarum (1586)
- De vinculis in genere (1591)

Entre as suas obras que não chegaram a ser editadas, podemos encontrar as seguintes:
- Gli pensier gai (1576?)
- Il tronco d’acqua viva (1576?)
- Lezioni sulla sfera (1576-81)
- Lezioni sul “De Anima” di Aristotele (1579–81)
- Clavis Magna (1579–81)
- De’ predicamenti di Dio (1581–82)
- Arbor philosophorum (1585?)
- Lezioni sull’ “Organo” di Aristotele (1587)
- Delle sette arti liberali (1589–91)
- Delle sette arti inventive (1589–91)
- De rerum imaginibus (1591)
- Templum Mnemosynes (1591?)
- De multiplici mundi vita (1591?)
- De naturae gestibus (1591?)
- De principiis veri (1591?)
- De astrologia (1591?)

Alguns Aspectos
da Filosofia de Bruno

A arte da memória
Giordano era amplamente conhecido pela sua memória, o que lhe concedia a fama de mago. Na verdade, esse vigor da memória tinha como base um método que “permitia imprimir na memória imagens arquetípicas básicas, tendo como lugar-sistema a própria ordem cósmica 2 (no fundo, trata-se de ler no Akasha). Na sua obra De umbris idearum, Giordano revela algumas destas imagens arquetípicas, das quais reproduzimos as primeiras dos sete planetas considerados pelo autor 3.
“Primeira imagem de Saturno: um homem com cabeça de veado, sobre um dragão, e tendo, na mão direita, uma coruja, que come uma serpente.
Primeira imagem de Júpiter: um homem nobre numa carruagem conduzida por um dragão, com uma seta na sua mão direita, espetando a cabeça do dragão.
Primeira imagem de Marte: um homem de aparência feroz, com uma armadura, montado num leão.
Primeira imagem do Sol 4: uma mulher atraente e charmosa, com uma coroa magnifica, numa carruagem dourada conduzida por quatro cavalos.
Primeira imagem de Vénus: uma mulher desnudada, com longos cabelos até aos tornozelos.
Primeira imagem de Mercúrio: uma jovem mulher com um ceptro, no qual duas serpentes se entrelaçam e se contemplam face a face.
Primeira imagem da Lua: uma mulher com um corno-crescente, conduzindo um golfinho, e com um camaleão à sua direita e um lírio à sua esquerda.
Estas imagens mágicas eram inseridas num sistema de rodas da memória, que correspondia a outras rodas, onde eram lembrados todos os conteúdos físicos do mundo terrestre. “O possuidor desse sistema elevava-se acima do tempo e reflectia, na sua inteligência, todo o universo da natureza e do homem (…) Por meio da gravação, na memória, das imagens celestes – as imagens arquetípicas dos céus, que são as sombras próximas às ideias da divina mensagem –, Bruno esperava tornar-se o Aion, que contém em si todas as forças divinas. (…) O sistema da memória de Bruno representa, de facto, a memória de um homem que conhece a realidade que está além da multiplicidade das aparências”. 5

A Unidade e Eternidade
do Universo
Para Giordano Bruno, a unidade do Universo é inquestionável; para ele, o Universo é um, eterno e incorruptível:
“O summum bonum, o supremamente desejável, a perfeição e a beatitude supremas consistem na unidade que informa o todo … Possam os deuses ser louvados e todos os seres vivos louvarem o infinito, o simplíssimo, o muito uno, o altíssimo, a absolutíssima causa, começo e um.
(…)
A Unidade do Todo no Um é mui sólido fundamento para as verdades e segredos da natureza. Pois deveis saber que é por uma e a mesma escada que a natureza desce à produção das coisas, e que o intelecto ascende ao conhecimento delas; e que um e outra procedem da unidade e à unidade retornam, atravessando uma multiplicidade de coisas” 6.
“O Um tem de existir eternamente (…) Ele é eterno e contém todos os tempos. Ele conhece profundamente todos os eventos e Ele em Si mesmo é todas as coisas. Ele cria todas as coisas para além do início do tempo e para além do limite do espaço e do tempo. Ele não está sujeito a qualquer lei: Ele mesmo é a Lei” 7

A Divindade Presente
em Todas as Coisas
Com base nesta unidade do universo, é possível afirmar que a Divindade se encontra presente em todas as coisas:
“Existe apenas uma Divindade, a qual pode ser encontrada em todas as coisas, a mãe sustentadora do universo. (…) A Divindade revela-se a Si mesma em todas as coisas… tudo tem a Divindade latente no seu interior. Sem a Sua presença nada poderia existir, pois Ela é a essência da existência do primeiro ao último ser” 8.

Para Giordano Bruno, o Divino deve ser procurado na Natureza e não fora dela. Com efeito, sendo a Criação proporcional ao poder do Criador, tanto o Universo quanto o Criador devem ser infinitos e eternos: uma forma que emana da sua própria essência (o Logos Criador que emana do Uno Absoluto) e que, por sua vez, cria uma outra forma (o Universo manifestado).

A Imortalidade da alma
Alguns historiadores e estudiosos, como Draper, consideram que Giordano não acreditava na imortalidade da alma. De facto, Draper afirma que “(…) a passagem desta vida à próxima, embora penosa, era a passagem de uma dificuldade transitória para a felicidade eterna (…) Caminhando através do vale sombrio, o mártir acreditava que existia uma mão invisível que o guiava. (…) Para Bruno não existia tal apoio. As opiniões filosóficas, às quais entregou a sua vida, não lhe podiam propiciar nenhuma consolação” 9. No entanto, tal como Helena Blavatsky salienta em Ísis sem Véu, esta afirmação não corresponde à realidade, na medida em que Bruno tinha aceite as doutrinas de Pitágoras, as quais consideram a imortalidade da alma como um facto inegável.

A Figura de Jesus Cristo
Tal como os platónicos de Alexandria e os cabalistas da época, Giordano considerava que Jesus era um mago no sentido atribuído a essa palavra por Porfírio, Cícero e Fílon, ou seja, como sendo um dos investigadores mais assombrosos dos mistérios ocultos da Natureza. De facto, na sua concepção, os magos eram homens santos que, isolando-se de qualquer outra preocupação terrestre, contemplaram as virtudes divinas e compreenderam mais claramente a natureza divina dos deuses e dos espíritos; e, então, iniciaram outros nos mesmos mistérios, que consistem na conservação de um intercâmbio ininterrupto com os seres e realidades invisíveis durante a vida.

A Acusação Final e a resposta de Giordano Bruno

Devido à magnificência, e à clareza e síntese da sua doutrina expressa na resposta de Giordano Bruno face à acusação fatal efectuada por Mocenigo (que, claro, distorceu as ideias de Bruno, por não as compreender), ambas são apresentadas integralmente em seguida:

Acusação:
“Eu, Zuane Mocenigo, filho do muito ilustre Ser Marcantónio, denuncio à vossa muito reverenda paternidade, para obedecer à minha consciência e a mando do meu confessor, que eu ouvi dizer por Giordano Bruno, nas muitas vezes em que ele comigo conversava em minha casa, ser uma grande blasfémia os católicos dizerem que o pão se transubstancia em carne; que ele se opõe à Missa; que nenhuma religião o satisfaz; que Jesus era um desventurado e que, se ele realizava obras perversas para seduzir o povo, poderia ele [Giordano] muito bem predizer que Ele deveria ser empalado; que não há distinção de pessoas em Deus, e que haveria imperfeição em Deus; que o mundo é eterno, e que há infinitos mundos, e que Deus os faz continuamente, porque, diz, Ele deseja tudo o que Ele pode; que Cristo fez milagres aparentes e que Ele era um mago, como também os apóstolos, e que Ele tinha em mente fazer tanto quanto ou mais do que eles; que Cristo mostrou relutância em morrer e evitou a morte tanto quanto a ela pôde Ele se furtar; que não existe nenhum castigo para o pecado, e que as almas criadas por acção da natureza passam de um animal a outro, e que assim como os animais brutos nascem da corrupção, também assim os homens quando eles renascem após a dissolução.
Ele mostrou indicações de um desejo de se fazer autor de uma nova seita, que levaria o nome de Nova Filosofia. Disse que a Virgem não podia engravidar e que a nossa fé católica está cheia de blasfémias contra a majestade de Deus; que os monges deveriam ser privados do direito de disputa e de seus bens, porque eles contaminam o mundo; que todos eles eram asnos, e que as nossas opiniões são doutrinas de asnos; que não temos nenhuma prova de que a nossa fé tenha um mérito qualquer diante de Deus e que não fazer aos outros o que não queremos que nos façam é suficiente para viver bem, e que ele ri de todos os outros pecados e se espanta com o facto de que Deus possa tolerar tantas heresias dos católicos. Ele diz que se quer dedicar à arte de adivinhação e fazer com que todo o mundo o siga; que São Tomás e todos os Doutores não sabiam nada em comparação a ele e que ele poderia fazer perguntas a todos os teólogos do mundo que eles não podiam responder”.

Resposta:
“Eu creio, em suma, num universo infinito, isto é, num efeito do poder infinito, porque estimei que seria indigno da bondade e do poder divinos que, sendo eles capazes de produzir além deste mundo outros e infinitos mundos, pudessem produzir um mundo finito. Assim, eu declarei que há mundos particulares infinitos semelhantes ao da Terra que, com Pitágoras, creio ser um astro de natureza semelhante à da Lua, à de outros planetas e à de outros astros, que [que em seu número] são infinitos; e creio que todos esses corpos são mundos, que eles são inumeráveis, e que isso constitui a universalidade infinita num espaço infinito, e se chama universo infinito – no qual existem mundos inumeráveis, de maneira que há uma dupla espécie de grandeza infinita do universo e de multidão de mundos. Indirectamente pode-se considerar que isto repugne à verdade de acordo com a verdadeira fé.
Além do mais, coloco nesse universo uma Providência universal, em virtude da qual tudo vive, vegeta e se move e atinge a sua perfeição. E eu a compreendo de duas maneiras: uma, no modo como a alma inteira está presente em todo o corpo e em cada uma das suas partes, e a isso eu chamo Natureza, a sombra e a pegada da divindade; a outra, o modo inefável pelo qual Deus, por essência, presença e poder, está em tudo e acima de tudo, não como uma parte, não como uma alma, mas de uma maneira inefável.
Além disso, considero que todos os atributos da divindade são uma e a mesma coisa. Junto com os teólogos e os grandes filósofos, reconheço três atributos: poder, sabedoria e bondade, ou antes, mente, intelecto e amor, com os quais as coisas têm primeiramente, através da mente, um ser; depois, um ser ordenado e distinto, através do intelecto; e, em terceiro, concordância e simetria, através do amor. Assim, considero o ser em tudo e acima de tudo, porque não há nada sem participação do ser, e não há ser sem essência, assim como não há nada que seja belo sem que a beleza não esteja presente; assim, nada está isento da presença divina; e assim, pelo raciocínio e não por meio de uma verdade substancial, considero eu a distinção na divindade.
Admitindo, então, o mundo causado e produzido, considero que, de acordo com todo o seu ser, ele depende da causa primeira, de modo que não rejeitei o nome da criação, que considero ter sido expresso por Aristóteles quando disse: ‘Deus é aquilo de que dependem o mundo e toda a Natureza’; de maneira que, de acordo com a elucidação de São Tomás, seja eterno ou temporário, ele é, de acordo com todo o seu ser, dependente da causa primeira, e nada nele é independente.
Depois, em relação àquilo que pertence à verdadeira fé, não falando filosoficamente, haveria que chegar à individualidade das pessoas divinas, à sabedoria e ao filho da mente, chamado pelos filósofos de intelecto, e pelos teólogos de Palavra, que se deve crer ter-se revestido de carne humana. Mas eu, atendendo-me às frases da Filosofia, não a compreendi assim, antes duvidei e não fui, nesse sentido, constante em minha fé. Não que eu me lembre de tê-lo deixado transparecer em meus escritos nem em minhas palavras, excepto indirectamente por outras coisas; algo pode ser colhido como que por ingenuidade ou por profissão de fé em relação àquilo que pode ser provado pela razão e deduzido segundo a nossa luz natural. Assim, no que diz respeito ao Espírito Santo como terceira pessoa, não fui capaz de compreender aquilo em que se deve acreditar, mas, à maneira pitagórica, com conformidade com a interpretação de Salomão, considerei-a como a alma do universo, ou como adjunto do universo de acordo com a máxima de Salomão: ‘O Espírito de Deus preenche toda a Terra, e contém todas as coisas’, que está igualmente conforme a doutrina pitagórica explicada por Virgílio no texto da Eneida:

Principio coelum ac terras
camposque liquentes,
Lucentemque globum lunae,
Titaniaque astra,
Spiritus intus alit, totamque
infusa per artus
Mens agitate molem 10

Assim, deste Espírito, que é chamado a vida do universo, eu considero, na minha filosofia, que procedem a vida e a alma de tudo o que possua vida e alma; que, além disso, considero ser [Ele] imortal, como também os corpos, que, quanto à sua substância, são todos imortais, não existindo outra morte senão a desagregação, segundo parece inferir-se da sentença do Eclesiastes, que diz ‘Não há nada de novo debaixo do Sol; o que é, será’” 11.

Giordano Bruno e a Teosofia

Giordano Bruno pode, de facto, ser considerado um Teósofo, na medida em que considera que a natureza pode aparecer aos olhos humanos em numerosas formas, mas deverá sempre ser entendida como una no seu princípio fundamental; assim, a natureza não deverá ser concebida como criação do nada mas, sim, como um desenvolvimento do Princípio Primordial: aqui encontramos a Primeira Proposição fundamental da Doutrina Secreta. Igualmente a Lei da Periodicidade, a segunda Proposição fundamental (também da Doutrina Secreta), é tida como verdade para o nosso filósofo, visto que este afirmava que tudo no universo manifestado se encontra no processo de “vir a ser” ciclicamente, e que todas as coisas “vêm e vão e retornam novamente”. Também a unidade de todas as almas com a Alma Universal ficou bem expressa na afirmação de que a suma-essência do homem é una com o Universo. Tal corresponde à 3ª Proposição fundamental da Doutrina Secreta.
Para terminar, poderemos dizer que Giordano Bruno foi o mais inspirado filósofo de todo o Renascimento, aquele que mais se aproximou da Verdade ou Sabedoria de todos os tempos e lugares, e que a sua coragem perante o fogo da pérfida Inquisição deverá ser um exemplo para todos aqueles a quem a vontade vacila dia após dia.

Ana Isabel Neves
Licenciada em Sociologia

Notas:
1 Motivo pelo qual foi chamado de “O Nolano”.
2 Yates, Frances, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Cultrix, São Paulo, 1964.
3 Nesta obra, Giordano refere sete imagens para cada um dos sete planetas principais.
4 O Sol surgue aqui, claramente, em substituição da Terra, como se vê pela ordem em que os sete planetas estão colocados. A Lua aparece a velar um planeta oculto.
5 Yates, Frances, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Cultrix, São Paulo, 1964.
6 Bruno, Giordano, De la Causa, Principio te Uno, diálogo 5.
7 Bruno, Giordano, De innumerabilibus, immenso, et infigurabili.
8 Bruno, Giovani, Spaccio de la Bestia Trionfante.
9 Draper, History of the Conflict between Religion and Science, p. 180.
10 “Desde o princípio do mundo, um mesmo espírito interior anima o céu e a terra, as extensões líquidas, o reluzente globo da Lua, o Sol e as estrelas: espalhado pelos membros, esse espírito move a matéria e mistura-se no grande conjunto de todas as coisas; daí a linhagem dos homens”.
11 Berti, Domenico, Vita di Giordano Bruno da Nola.

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