O Esplendor da Herança Árabe

Percorrendo a Península Ibérica, deparamo-nos com a preciosa herança árabe, marca indelével de setecentos anos de história comum! Da arquitectura à toponímia, da gastronomia às danças e contos populares, o universo mourisco perdura e faz parte da nossa identidade. Não podemos continuar a ignorar as nossas raízes étnicas e culturais, nem o valioso legado árabe que, em cidades espanholas como Córdoba e Granada, é ostentado como cartão de visita!

Está ainda por fazer um levantamento extensivo da profícua herança árabe no território português. O nome de muitos lugares – Moura, Cova da Moura, Poço dos Mouros, Mouraria… – evoca um passado de glória, que muitos desconhecem. O domínio árabe no actual território nacional, prolongou-se durante quinhentos anos – desde 712 até 1249, com a conquista definitiva do Algarve – mas parte das populações, dos saberes e dos costumes permaneceram.
A superioridade da civilização árabe era inegável nos mais variados domínios, o que muito beneficiou a Península Ibérica. «Grande parte dos instrumentos que usamos, como o violino, a guitarra, o alaúde, a gaita ou o adufe derivam directamente de instrumentos árabes» 1, recorda Adalberto Alves, no seu livro Portugal – Ecos de um Passado Árabe. E acrescenta: «Na alimentação, basta compararem-se as descrições das iguarias constantes dos manuais andalusinos com as receitas da Idade Média, muitas das quais chegaram intactas ao cardápio actual da cozinha tradicional portuguesa, para nos convencermos de quanto os nossos hábitos de mesa são tributários da civilização islâmica (…) Quanto à nossa agricultura, sublinhe-se que ela pôde conservar-se até aos nossos dias mantendo os velhos métodos árabes de cultivo e de regadio. As espécies hortofrutícolas são quase as mesmas que o Alandalus conheceu e introduziu e a que se vieram somar as contribuições posteriores dos Descobrimentos. O rico Artesanato português, da olaria aos cobres e latões, da cestaria aos vimes, das esteiras à técnica dos tapetes de Arraiolos, do trabalho dos couros e encadernações às filigranas, sem esquecer o mobiliário pintado do Alentejo, muito deve aos filhos do Crescente que, antes e depois da conquista cristã, se notabilizaram nesses domínios» 2.

Não seríamos quem somos

Durante séculos denegrimos a memória desses tempos, vangloriando as Cruzadas e apelidando os mouros de «terríveis inimigos infiéis». Em períodos de maior intolerância e fanatismo religioso, como sucedeu nos séculos XV e XVI, perseguimos e expulsámos os árabes da sua (nossa) terra, olvidando o seu precioso contributo. Ainda hoje, não lhes damos o merecido reconhecimento. Pelo contrário, muitos dos roteiros históricos das nossas vilas e cidades ignoram a herança árabe, fazendo referências apenas a partir do século XIII!
Como escreveu Adalberto Alves, “Se, num passe de mágica, fosse possível apagar, de Portugal actual, todos os vestígios do legado árabe, a nível étnico e cultural, a paisagem humana, física e civilizacional que contemplaríamos seria inteiramente diversa. Tornar-nos-íamos, possivelmente, louros e não morenos como habitualmente somos. Deixaríamos de falar o latim arabizado que é o português, e perderíamos mais de mil palavras do nosso léxico. Muitas das nossas povoações deixariam de existir ou mudariam de nome. Não saberíamos como nomear a maior parte do que comemos ou cultivamos. Como chamaríamos o jasmim, a laranja, a tâmara e a romã? Que nome daríamos ao alguidar, ao alfaiate, ao alaúde e ao alferes? A nossa poesia – o mais alto valor do génio português – sem o contributo árabe, não teria visto nascer, provavelmente, as cantigas trovadorescas. E sem o sentimento de saudade, herdado do nasib da qasida árabe, de raiz beduína, que seria feito do nosso lirismo? Que Camões seria possível? A este respeito, e bem, Fernando Pessoa afirma expressamente que nós somos um povo romano-árabe porque ‘foram os árabes que nos educaram’. E Antero de Quental, não o esqueçamos, filia a nossa decadência na expulsão dos árabes” 3, cujas escolas tinham renovado o pensamento e a filosofia.
“Nesse cenário de imaginação”, continua Adalberto Alves, “os núcleos históricos de muitas das nossas cidades perderiam o encanto do seu traçado labiríntico. Pensemos em Lisboa, sem Alfama nem Mouraria. Pensemos num Alentejo, sem a vertigem branca da cal das suas casas, e num Algarve sem açoteias nem chaminés, minúsculos minaretes sobre os telhados. Que artesanato teríamos? (…) Sem a Ciência Árabe – Medicina, Matemática, Astronomia, Geografia, Física e Botânica – que Renascimento teria sido esse? Que Filosofia teríamos tido, se os muçulmanos não tivessem preservado a maior parte do legado Greco-Latino desenvolvendo inovadoras direcções? (…) Como é que um pequeno povo, como o nosso, teria chegado aos quatro cantos da Terra sem o auxílio das ciências de navegação árabes?” 4.
Nos últimos vinte anos tem sido feito um esforço para recuperar a memória islâmica em Portugal, com estações arqueológicas em vários pontos do país, que descobrem mais vestígios que conduzem a novas interpretações da história. Mas tal não basta. Se olharmos para o lado de lá da fronteira, galgando a Andaluzia, encontramos um vasto património arquitectónico árabe, cuidadosamente recuperado e divulgado como atracção turística. Toda a Península Ibérica foi em tempos designada por al-Andalus, subsistindo hoje o termo Andaluzia para designar a região do sul de Espanha, a última a ser tomada pelos cristãos. Portugal tem, talvez, Mértola como símbolo maior da presença árabe. Espanha tem Córdoba e Granada, duas cidades que ostentam o seu passado islâmico das mais variadas formas… e que vale a pena conhecer!

O equilíbrio perfeito

Quando se chega ao fim da tarde a Córdoba, estranha-se o intenso frenesim no emaranhado das ruas estreitas do centro histórico. Mais do que as centenas de visitantes, enchem-nos os olhos “los cordobeses” que se passeiam em trajes de festa, com a família e os amigos, entre gargalhadas cúmplices e murmúrios abafados pelo agitar dos leques e pelo balançar das saias folhadas. Os saltos dos sapatos ecoam no empedrado das ruas, em despique com as ferragens dos cavalos, que aguardam os clientes que vão passear de “coche” pela cidade. Todos os dias parecem festivos em Córdoba mas tanto asseio é explicado pelo aproximar de um feriado religioso. Tudo gira em volta da imponente Mesquita-Catedral, classificada como Património da Humanidade.
Córdoba foi célebre pela sua posição estratégica no final do período romano mas nada se compara ao prestígio que obteve durante o domínio islâmico com a Dinastia Omíada, convertendo-se na jóia de todo o al-Andalus. A Mesquita foi mandada construir ainda no século VIII, para ser a maior do mundo, tendo sofrido sucessivas ampliações até ao século X, época em que a cidade atingiu o seu máximo esplendor. Córboda era então a cidade mais próspera e culta da Europa, reunindo os mais importantes pensadores, poetas e artistas à volta da corte. Esta apurada sensibilidade para as artes ainda hoje se reflecte no ensino universitário que a cidade oferece, no requinte e aprumo de todos os edifícios que formam os bairros antigos… que se esforçam por exibir qualquer traço arquitectónico islâmico ou medieval. Não há lugar para edifícios abandonados, deteriorados ou desenquadrados… As labirínticas e estreitas ‘calles’, esboçadas assim por motivos defensivos e para evitar as altas temperaturas de Verão, estão hoje repletas de lojas de ‘recuerdos’, hospedarias e pequenos restaurantes. Nas janelas, varandas ou ao longo das paredes das casas, quase todos os habitantes penduram pequenos vasos com flores. É inevitável desviar o olhar para os pátios interiores das residências, ornamentados com plantas e fontes refrescantes, principalmente quando as temperaturas ultrapassam os 40 graus centígrados.
Mundos cruzados

É uma urbe escaldante mas branca e florida que circunda a grande Mesquita, o pólo de todas as atenções. Formam-se filas intermináveis a partir das dez da manhã para as inúmeras visitas guiadas ao templo islâmico, transformado em catedral cristã após a reconquista. Os visitantes parecem desconhecer que a entrada é livre e gratuita antes dos sinos tocarem as dez badaladas… A torre sineira del Alminar, com 93 metros de altura, ocupa o lugar do antigo minarete islâmico. No entanto, mantém-se o acolhedor pátio das laranjeiras, outrora local de preparação e purificação antes da entrada nos portais sagrados, hoje zona de descanso para os turistas. As laranjeiras, introduzidas na Europa pelos árabes, ocupam sempre um lugar de destaque junto aos templos e palácios islâmicos. Oferecem frutos dourados suculentos, como um espelho que reflecte a luz do céu vivificante, a luz divina.
São rostos de espanto e deslumbramento aqueles que se cruzam no interior da Mesquita. A luz irrompe através das centenas de colunas e de arcos listados sobrepostos, produzindo um efeito quase labiríntico! Mais uma vez, as arcadas duplas, que se erguem sobre as colunas, simbolizam a confluência dos dois mundos: o terreno e o divino. Este gigantesco templo, que ocupa uma área total de vinte e três mil metros quadrados, consegue a simbiose de dois credos: o cristão e o islâmico, ao albergar no seu interior altares para as celebrações católicas… Foi a tentativa de conversão em Catedral, com os inevitáveis ícones cristãos, que (apesar de tudo) evitou a demolição e permitiu a sua conservação ao longo dos últimos séculos. Ainda que desajustadas, as recentes adições iconográficas não ofuscam a magia deste espaço milenar, no seu estilo califal e de influências bizantina e visigótica. São as gentes que o visitam, de todas as partes do mundo, que lhe conferem ainda maior pluralidade e sentido. Toda a zona em redor da Mesquita, repleta de lojas de ‘recuerdos’, conserva o nome de La Judería, em alusão à comunidade judaica, a mais antiga da cidade. A Sinagoga dista escassos metros da Mesquita Catedral. Não apetece caminhar para lá do centro e descobrir uma cidade idêntica a tantas outras. É o núcleo, com a sua magia mourisca, que guardamos na memória, é a multiplicidade étnica e cultural que nos impele a voltar…

O bastião árabe

Partindo de Córdoba, percorremos mais de cento e cinquenta quilómetros, inebriados pelo contraste verde e dourado da paisagem, até abraçarmos Granada, aos pés da Serra Nevada. É uma cidade extensa, intensa e fulgurante, que não dá descanso a mentes curiosas. Granada, hoje capital de província com o mesmo nome, foi um estado muçulmano independente, o último a ser tomado pelos reis católicos no final do século XV. Foram mais de setecentos anos de domínio árabe, expressos nos majestosos palácios Alhambra que ainda hoje fazem prosperar Granada. Não temos nenhum monumento nacional que rivalize com o número de visitantes que o Alhambra recebe diariamente! O número de ingressos é limitado e a entrada em determinados palácios tem hora marcada, para evitar concentrações excessivas.
Tudo o que é edifício religioso ou real impõe-se em grande escala, em claro contraste com os apertados bairros antigos. Granada encheu-se de igrejas, abadias, capelas, mosteiros… e uma catedral, sinal evidente da ostentação do fervoroso poder cristão, herdeiro de uma impressionante riqueza islâmica. É em redor da catedral, na típica Alcaicería, que se concentra o mercado árabe, repleto de aromas e apinhado de cores fortes. Os rostos que nos atendem são quase todos do Médio Oriente ou do Norte de África – imigrantes vindos de Marrocos, Magrebe, Síria, Paquistão, Iraque… alguns fazem questão de usar as suas vestes tradicionais. Por instantes, acreditaríamos mesmo que percorremos um bairro árabe, não fosse a pronúncia espanhola…

Simbólico e inigualável

Implantados na colina, sobre o vale do rio Darro, ficam os assombrosos palácios árabes do Alhambra. Uma autêntica cidade palaciana, repleta de pátios, jardins e fontes, que se ergue sobre Granada, com a Serra Nevada como cenário de fundo. É fácil ficarmos desorientados ou perdidos ao seguirmos as sebes que nos conduzem aos palácios e jardins… Consultar o mapa do Alhambra e planear a visita é obrigatório quando se tem apenas uma tarde para a descoberta! Toda a zona é envolvida por muralhas, que cercam a colina. É um autêntico paraíso dentro de uma fortaleza militar, construído entre os séculos XIII e XV como residência oficial dos califas da dinastia Nazarí. Parte significativa do complexo original, todavia, foi demolida por Carlos V, para aí edificar um palácio renascentista com o seu nome, entretanto transformado em Museu do Alhambra e Museu de Belas Artes. Por mais que os monarcas cristãos se esforçassem, era impossível igualar o Alhambra em engenho e arte.
“Os árabes contratavam os melhores artífices e recorriam sobretudo à mão de obra local, daí a arte árabe cruzar várias influências e não ser igual em todos os lugares”, explicava o investigador Manuel Gandra a um grupo de portugueses, que se deslocou ao Alhambra numa das iniciativas de estudo das Rotas do Sagrado. “O belo está intrinsecamente ligado à ideia de bem. É a recriação dos cenários idílicos do paraíso, descritos no Alcorão, que aqui encontramos”. O emblemático Pátio dos Leões, adoptado como símbolo da cidade, evoca o paradigma de um lugar de todos os prazeres. A inebriante sequência de colunas consegue um intenso jogo de luz e sombra… imaginamos como seria a complexa talha nos seus tons brilhantes, o pátio com plantas aromáticas e palmeiras tamareiras, os leões ao centro, guardiões da água, fonte da vida… “A arquitectura islâmica foi beber à aritmosofia pitagórica muitas das suas formas. O cubo, com todas as suas faces iguais, é uma das formas mais perfeitas e sagradas. O octógono consegue a transição entre o mundo celeste e o mundo terreno”. Das paredes e tectos parecem surgir alvéolos, como se uma escada descesse do céu à terra… O efeito quase suspende a respiração!
Tudo é falante, embora o sentido tantas vezes nos escape, como as inscrições em arabesco esculpidas nas paredes… ou os amplos padrões geométricos desenhados pelos azulejos. Não há uma só representação humana nem qualquer imagem alusiva aos monarcas islâmicos, em consonância com os preceitos do Islão. Os jardins e pomares do Generalife, a casa de recreio dos reis Nasrid, distribuem-se em torno de um lago central, que serve de espelho de água. Fonte de inspiração para distintos poetas e artistas, ainda hoje são o local de eleição para leituras poéticas por parte dos visitantes… Do outro lado da colina, avista-se o Sacromonte, cujo renome é anterior ao período islâmico, com as suas ‘cuevas’ escavadas na montanha pelos antigos eremitas.
Ao percorrermos a Andaluzia, terra de poetas, filósofos e artistas, fazemos uma viagem no tempo… que evoca outros locais históricos do nosso país. Córdoba e Granada reavivam memórias de um património árabe que nos é comum. Outrora, todos fazíamos parte do grandioso al-Andalus.

Memórias imperecíveis

Ainda hoje subsistem na língua portuguesa centenas de vocábulos árabes. Arroz, armazém, almofada, laranja, limão, alcântara, almeida, álgebra,… são apenas algumas das muitas palavras com origem árabe que usamos no dia a dia. A contribuição do conhecimento árabe desempenhou um papel crucial. “É preciso não esquecer que foram os muçulmanos que fizeram perdurar os clássicos da antiguidade, a cultura greco-latina, traduzindo-os primeiro para árabe. Só mais tarde, a partir do século XI, ficaram acessíveis em latim. A Península Ibérica foi a placa giratória a partir da qual a sabedoria antiga se propagou pela Europa, nas suas diferentes disciplinas”, comentou Manuel Gandra. “A visão eurocentrista da história levou o Ocidente a classificar de Renascença aquilo que, afinal, não foi mais do que a continuação do antecipado renascimento que o Islão tinha realizado em plena Idade Média, com as decisivas contribuições europeias do Alandalus e da Sicília. Assim se filtrou, na retorta árabe, o legado do Oriente e também o greco-romano. Sem o repositório de saber que os árabes trouxeram de todas as partes do mundo, e que afeiçoaram e desenvolveram com o seu génio próprio, jamais teria havido Renascimento e teria sido difícil, senão impossível, a grande aventura das Descobertas levada a cabo pelos portugueses” 5, escreveu Adalberto Alves.
O extremismo era naquela época apanágio do Cristianismo… basta recordar a tenebrosa Inquisição e as sangrentas Cruzadas contra os “infiéis”. “A fascinação do Islão, sentida pelos proto-portugueses e primeiros portugueses, era uma inevitabilidade, dada a superioridade e sofisticação da cultura árabe, face à fruste rudeza dos povos do Norte da Europa na Alta Idade Média. Por isso, desde tempos recuados, os árabes estão ligados, na memória do Povo Português, ao maravilhoso, ao belo e ao requintado (…) O Islão foi banido do território português pela expulsão dos crentes ou pela conversão forçada. Tais cicatrizes dolorosas só recentemente começaram a sarar, com o renascimento da liberdade religiosa” 6. Como acrescentou Adalberto Alves: “Fomos desapossados, durante séculos, dessa realidade-mito fundadora através da intransigência política e religiosa. A polaridade foi desfigurada ao retratarem-nos os Árabes e o Islão como parte do mundo do Outro, escondendo-nos que o Outro, afinal, somos Nós” 7. O nosso coração também é árabe. Urge recuperar essa memória, que tem o valor de um símbolo: de sabedoria, de beleza e de tolerância. O al-Andalus tem de ser redescoberto, por todos nós.

Reescrever a História?

No nosso imaginário perdura a visão redutora de que algures no tempo os ‘mouros’ invadiram o nosso território, tendo sido derrotados e expulsos por acção dos cruzados contra os ‘terríveis infiéis’. No entanto, é incontestável que a presença árabe ao longo de quinhentos anos trouxe grandes benefícios e riqueza ao território nacional, que em 1249 viu delimitadas as suas fronteiras, as mais antigas da Europa.
Uma interrogação incómoda é agora formulada pelo investigador Manuel Gandra. “Terão os muçulmanos no século VIII invadido a Península Ibérica ou terão sido contratados como mercenários pelos cristãos bizantinos da Península, que necessitavam de protecção contra as incursões dos cristãos do norte?”. Recorde-se que na época a Europa estava cindida por questões teológicas, deflagrando-se um conflito entre os cristãos obedientes ao Imperador de Constantinopla e os que apoiavam o bispo de Roma. “Recentemente, achados arqueológicos em Mértola revelaram a presença de várias lápides e artefactos, com inscrições em grego, de bispos bizantinos, o que pressupõe a existência de comunidades religiosas dependentes de Constantinopla, e não de Roma. Também foram encontradas, em vários pontos do país, inúmeras anforetas (ânforas com um palmo de altura) que eram utilizadas para transportar o vinho consagrado pelo patriarca de Constantinopla, usado nos rituais religiosos dos cristãos bizantinos”. Estes e outros indicadores têm posto em causa a versão oficial da História, afirma Manuel Gandra, autor de vários livros controversos. “Estes berberes, recém convertidos ao islamismo, eram descendentes de antigos povos que ocuparam a Península Ibérica (vândalos, alanos e suevos) e que foram empurrados para o norte de África pelos visigodos. Tal como os cristãos bizantinos (considerados hereges pelos cristãos romanos), partilhavam a concepção monofisita, segundo a qual Jesus fora um profeta, mas não filho de Deus». A coexistência pacífica, os acordos estabelecidos entre ambas as partes, apontam para a hipótese de os árabes terem sido inicialmente contratados para protegerem as muralhas e os castelos. Invasores ou mercenários, o sangue árabe ainda hoje nos corre nas veias…

Texto e fotografias:
Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social

Notas 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7: citações retiradas do livro “Portugal – Ecos de um Passado Árabe”, de Adalberto Alves, editado pelo Instituto Camões, págs.5, 6-7, 54, 54-55, 8-9, 53, 56, respectivamente.

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