Jnana

Bonecos de corda
Uma grande, grande parte dos seres humanos afiguram-se-nos como se fossem bonecos de corda. A imagem pode parecer severa e demasiado contundente; de qualquer forma, vamos tentar explicá-la.

Vejamos o que acontece com um boneco movido a pilhas ou a que se dá corda: assim que é activado, começa a mexer-se muito – até a corda “acabar” ou as pilhas se esgotarem –, sem que ele saiba ou se pergunte porquê…

Semelhantemente, a maioria dos seres humanos surge neste mundo, começa e passa a vida a mexer-se, a agitar-se, a fazer barulho e muitas outras coisas, sem que jamais tenha parado para pensar por que e para que tudo isso. Considera tal questionamento como absurdo, desnecessário e uma perda de tempo. Frequentemente, aliás, nem nunca chega a pôr tal hipótese, sequer por uns instantes, durante toda a sua existência. De resto, a cultura oficial, em boa medida, incentiva essa atitude. Com toda a sua pompa, raramente se atreve a enfrentar o âmago das coisas… é uma cultura do efémero, da banalidade e do superficial!

A maior parte das pessoas diz-se seguidora de uma religião – por norma, aquela que é predominante no espaço geográfico em que nasceu. Corresponderá isso a uma consequência de um verdadeiro, genuíno e exigente anseio de conhecer o mistério do Ser, do Universo e da Vida? Poderia supor-se que sim. Infelizmente, contudo, não é assim. As religiões – especialmente as ocidentais e monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) – , na sua vertente exotérica, inculcaram nas gentes a nefasta suposição de que a espiritualidade é uma questão de acreditar; e, preguiçosa e comodamente, as pessoas crêem nas explicações mais insensatas. Logo passam a “mexer-se”, a rezar, a participar em liturgias e a repetir frases feitas, sem se preocuparem em entender qual a sua (possível) razão de ser.

O facto é tão notório que a maior parte das pessoas que se dizem crentes desta ou daquela religião dificilmente sabem minimamente explicar o que caracteriza a religião a que dizem pertencer. Com frequência, negam afoitamente “coisas” afirmadas como dogmas da sua religião ou afirmam de modo peremptório ideias por esta expressamente repudiada; e chegam ao ponto de se rir de determinados conceitos, desconhecendo que, afinal, elas são artigos de fé da tal “sua” Igreja ou seita religiosa.

Infelizmente, na vaga de new age e de (pseudo)esoterismos vigentes, algo de semelhante se passa.

Fazer Antes de Saber, ou Saber Antes de Fazer?

Por todo o lado, há quem ofereça práticas, métodos, experiências. Raramente se justifica e fundamenta a razão em que assentam tais propostas – na melhor das hipóteses, apresentam-se um ou dois pressupostos pueris. Tristemente, também por todo o lado há quem adira a essas práticas, métodos e experiências, sem parar para pensar se têm alguma base sólida. Muitos, confundem ilusões e bem estar sensorial com espiritualidade. Alguns, enveredam por caminhos que os conduzem ao limiar da insânia e da perturbação mental. Poucos, pouquíssimos, buscam ciência Espiritual, verdadeira Sabedoria, uma explicação completa, fundamentada e coerente para o mistério grandioso do Universo e da Vida.

As coisas pequenas (tantas vezes mesquinhas), as fúteis curiosidades, as sensações fortes ou as promessas de factos e conquistas estrondosos e imediatos, atraem. O Conhecimento, a explicação rigorosa, a penetração na essência das coisas, é considerado aborrecido e desnecessário.

Assim, mais uma vez, inúmeras pessoas assumem a posição dos tais bonecos a quem se dá corda. Aceitam, fácil e docilmente, ser programadas, manipuladas – tantas vezes usadas e exploradas.

A Ciência Oculta reconhece que há diferentes métodos, caminhos ou margas possíveis de desenvolvimento individual. Cada um deles poderá ser adequado a um tipo de ser humano ou a uma particular fase evolutiva.  O verdadeiro Esoterismo é Sabedoria universal e inclusiva.

No entanto, uma coisa é haver diferentes caminhos legítimos; outra coisa, bem distinta (e reveladora de pouco ou nenhum discernimento), é julgar que todas as propostas, algumas delas completamente primárias e insensatas, sejam válidas. Uma coisa é seguir um método depois de se questionar, ponderar e entender os pressupostos em que ele assenta; outra coisa é começar a praticá-lo sem nenhuma compreensão e sem outro motivo que não o de fazer qualquer coisa.
Jnana

Face ao exposto, é natural que tenhamos na mais alta estima o conceito de Jnana 1.

Entende-se por Jnana o Conhecimento Sagrado, o Conhecimento Espiritual, a distinção entre a Verdade e a ilusão. Ele está por exemplo presente, na Índia, na Vedanta, particularmente na Vedanta Advaitista – o sistema de Shankaracharya configura um marga (caminho) de Jnana-Yoga 2. Os Upanishads são, evidentemente, tratados de Jnana. Está presente, na tradição Ocidental, na tradição pitagórica-platónica (e neopitagórica e neoplatónica), na Cabala, no Hermetismo e, em geral, na Gnose.

A teosofia moderna é ela, também, primordialmente jnânica. “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky, é um expoente jnani.

Conhecimento Espiritual

O conhecimento espiritual aludido na expressão Jnana não é exclusivamente (e muito menos, finalmente) um conhecimento livresco. A literatura de qualidade, fundadora das Tradições Espirituais de todos os povos, ou nelas assente – continuando-as, desenvolvendo-as e combinando-as – é sem dúvida um meio de grande valor, que é insensato desprezar. Do mesmo modo, todos aqueles que nos podem instruir com Sabedoria, rigor e verdade, devem merecer o nosso respeito e a nossa atenção. No entanto, o conhecimento precisa de ser por nós mesmos investigado, reflectido, meditado, digerido e metabolizado, para em nós mesmos se transmutar em qualidade de ser. Se assim não for, permanecerá sempre como coisa superficial, efémera e evanescente.

O caminho de Jnana, conduz a Atma-Vidya, o conhecimento de Atman, o Eu Espiritual. Atman é Brahman (o Ser Universal), afirmam os Upanishads. Conhecer Atman conduz necessariamente ao conhecimento de Brahman; e o conhecimento de Brahman acabará por volver-se fusão em Brahman, a realização da Unidade.

O Papel de um Mestre

Neste contexto, cabe compreender o papel de um Mestre (ou Mahatma, ou Rishi ou Arahat ou qualquer outra expressão equivalente). Um Mestre é um Homem Perfeito, alguém que se elevou – em Sabedoria, em Amor e em domínio de todas as tendências inferiores – acima das limitações humanas e que penetrou nos segredos do âmago da Natureza, detendo em alto grau o Conhecimento Oculto, de que se pode constituir como Instrutor. É um Mestre de Sabedoria, porque de tal forma ampliou e aprofundou o seu conhecimento, que se chegou a identificar com as Leis Universais, de acordo com as quais passa a trabalhar em perfeita sintonia; é um Mestre de Compaixão porque, tendo merecido karmicamente o gozo de uma suprema bem-aventurança, a ela renuncia, para compartilhar da nossa paixão, isto é, do nosso sofrimento. Um Mestre de Sabedoria e Compaixão, de acordo com o Conhecimento magnífico que conquistou, dedica-se a tentar melhorar a condição de todo o ser vivente, dentro do que as Leis, designadamente a Lei do Karma, permitem. Uma das formas de prestar esse auxílio e, ao mesmo tempo, de reunir colaboradores para o seu trabalho abençoado, é o de aceitar discípulos (chelas ou upasakas3).

Um indivíduo pode chegar a tornar-se discípulo de um desses grandes Seres. Para tal, precisa de uma intensa e genuína aspiração, de uma importante purificação, de um notável desapego e de um esforço continuado de chegar ao verdadeiro conhecimento (mas só) com o objectivo de, com esse poderoso instrumento, ser mais útil aos seus semelhantes. Nesse processo, até ser aceite como discípulo ou chela de um Mestre e por ele ser conduzido pelo Caminho da Iniciação, ele precisa de passar pela etapas prévias de discípulo (chela) laico e em prova. Face ao exposto, poucos são aqueles que têm individualmente um Mestre, embora todos lá possam vir a chegar.

De qualquer modo, quando um indivíduo tem um Mestre – ou, indirectamente, quando tem como referência a figura e a Sabedoria de um desses Grandes Seres –, recebe ensinamento e uma dádiva de qualidade que melhora o seu ser e facilita a aprendizagem desse ensinamento. O ensino, porém, não se destina a ser recebido passivamente pelo discípulo ou estudante. As chaves são-lhe dadas mas é ele que tem de abrir a porta; o mapa é-lhe mostrado mas é ele que tem de trilhar o caminho; as pistas e referências fundamentais são-lhe apresentadas mas é ele que tem de as desenvolver e explorar de forma criativa e científica. Assim, o ensinamento é transformado em compreensão e a compreensão abre caminho para a sabedoria intuitiva (vijnana). Seja como for, jamais se apela à crença. Jamais se põe “o carro à frente dos bois”, as práticas à frente da sua razão de ser.

Conhecimento, Respostas e Soluções…
ou Folclore?

A nosso ver, e do ponto de vista da Ciência Esotérica, o importante não é pôr gente a “praticar” (sabe-se lá o quê e porquê…) mas aceder a um conhecimento profundo, vasto, rigoroso, holístico e que projecte luz e ofereça soluções sobre as mais diversas questões e os mais diferentes problemas.

Ao contrário, o folclore de práticas importadas do Oriente sem conhecimento do que lhes subjaz (só pela novidade e exótico) ou das que a todo o momento são inventadas ad-hoc, conduz frequentemente à alienação, ao fascínio pelo acessório exterior e à suposição de que “o hábito faz o monge”. Enquanto isso, o intelecto permanece letárgico, a sensibilidade embotada, a compreensão omitida, a intuição adormecida, a espiritualidade meramente ficcionada.
Conhecimento e Serviço

Tornou-se moda, nos últimos anos, supor-se e afirmar-se que, em termos de Espiritualidade, pensar é perigoso, e que o Conhecimento Espiritual é desnecessário, egoísta e para fins de gratificação pessoal. Interessa, diz-se, é sentir muito… como se tal fosse sinónimo de Espiritualidade! Aliás, é uma frase demasiado corrente nos círculos ditos “esotéricos”: “… estou a sentir muito que é assim…”, ou “eu logo senti que era assim…” – e tal é, ou pretende ser, uma aferição ou um vaticínio fidedignos e infalíveis 4.

Por certo, sentir fortemente não é critério de bondade. Os grandes fanáticos e sanguinários, bem como os milhões de pessoas que apoiaram delirantemente as experiências mais hediondas (veja-se a Inquisição; os regimes políticos totalitários e de terror; as duas Guerras Mundiais do século XX, etc, etc….), frequentemente “sentiam muito”, e reparemos bem no que deu esse “sentir muito”. Amor é uma coisa; emoções, são outra.

Pode o Conhecimento Espiritual ser egoísta e uma mera gratificação pessoal? Por definição, não pode. Os níveis de espiritualidade são transpessoais e estão mais além da Alma Temporal – o Kama-Manas 5, a grande sede do egoísmo. Se houver egoísmo e crescimento da noção de eu separado, o conhecimento não é espiritual. É mero conhecimento – superficial, efémero, não espiritual. Não é Jnana.

Seja como for, nós preconizamos veementemente uma postura de serviço como complemento, ou melhor, como consequência do conhecimento espiritual. Ao Jnana Yoga, acresce assim o Karma Yoga. Entendemos aqui por Karma Yoga o caminho de aperfeiçoamento através da acção inspirada, das obras benfazejas, levadas a cabo de modo desinteressado. A predisposição para o Serviço constitui um autêntico “detector de mentiras” da pretensão de se ter Conhecimento Espiritual. Se o corolário desse Conhecimento não é uma vivência de fraternidade e a contribuição para o Bem Geral, então, não é Espiritual.
Deve tomar-se em consideração que, por Serviço, não pensamos na comum concepção esmoler – que acode aos efeitos sem actuar ao nível das causas; nem na demagogia político-jornalística; nem, sequer, em  sermos dramaticamente bonzinhos (somente) para os que nos estão próximos (e, de facto, apenas por serem uma extensão de nós mesmos), esquecendo tudo o resto. O Serviço em que pensamos deve ser lúcido, universalista e actuar ao nível das causas – e, para tanto, o Conhecimento Espiritual é não somente necessário mas, de facto, imprescindível. As grandes causas dos males que existem no mundo são o ódio e a ignorância; só o verdadeiro Amor e a verdadeira Sabedoria os podem sanar.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Notas:
1 Jnana, palavra sânscrita, pode igualmente ser transliterada por Gnana, Gnyana, Jhana, Dnyan, Djana, Dhyana, etc. (cfr. “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky, Editora Ground, S. Paulo; “Dictionnaire Encyclopédique du Bouddhisme”, de Philippe Cornu, Éditions du Seuil, Pais, 2001). Dzyan tem o mesmo significado; e lembremos que “A Doutrina Secreta” de Helena Blavatsky tem como base estrofes do Livro de Dzyan, as quais comenta, desenvolve e correlaciona.
2 Cfr., entre outros, “Seven Schools of Yoga”, de Ernest Wood (Quest Books, Theosophical Publishing House, Wheaton, 1976).
3 O feminino de upasaka é upasika. Por este designativo, era às vezes chamada Helena Blavatsky pelos seus Mestres.
4 Remetemos para o que, sobre este assunto, escrevemos no nosso livro “Espírito: Ciência ou Ilusão” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2005).
5 Cfr. os nossos artigos “A Alma” e “Esoterismo, Psiquismo e Artes Ocultas”, publicados, respectivamente, nos nºs 13 e 22 da “Biosofia”.

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