Um Grande Arcano e as Muitas Arcas

O Miserere
Na Europa culta e erudita do século XVIII, era obrigatória,  para quem fazia o Grand Tour, uma incursão na Basílica de S. Pedro e uma audição do célebre Miserere na Capela Sistina. Este coral, atribuído a Gregorio Allegri e então muito diferente da versão que nos chegou até hoje, era uma obra quase mítica, rodeada de imposições de secretismo, a ponto de a sua execução ser proibida fora dos muros da Capela Pontifical. Nos salões das elites das grandes capitais, falava-se entusiasticamente sobre a beleza e o carácter único da peça, repleta de ornamentações secretas – os chamados abbellimenti –, nunca postas em partitura mas intransigentemente transmitidas por via oral, de intérprete a intérprete. Por édito papal, qualquer réplica não autorizada era punível pela excomunhão, pelo que se reconheceram apenas 3 cópias que, à época, pareceram ter o beneplácito do Papa. A primeira tinha sido confiada ao Imperador germânico Leopoldo I, que solicitara permissão para o coro imperial de Viena a interpretar; foi-lhe enviada uma cópia mas que não incluía quaisquer ornamentações, queixando-se, então, Leopoldo ao Papa de lhe haver sido remetida uma peça menor, sem qualquer aproximação ao original. As outras duas, que se lhe seguiram, tiveram autorizações mais controversas e eventualmente seriam cópias não autorizadas da primeira: uma delas esteve na posse de um eminente músico bolonhense, o Padre Giovanni Battista Martini 1; a outra chegou à corte do Rei português D. José I, pela mão do seu ministro Sebastião José de Carvalho e Melo 2.

Pelo meio destas empolgadas interdições, quiseram os caprichos da História que um jovem e talentoso músico, de apenas quinze anos de idade, quebrasse definitivamente o piedoso sigilo. Numa Páscoa, do ano 1770, Wolfgang Amadeus Mozart  – o génio musical que aos três anos de idade, antes de aprender a ler, já era capaz de distinguir o diapasão de um instrumento até à oitava de um tom, que aos cinco já escrevera um concerto para piano, de dificílima execução –, em visita com o pai a Roma, pôde assistir a uma audição plena de magia do Miserere na Capela Sistina. Sôfrego e fascinado, de regresso ao quarto, transcreveu de memória as cinco partes que o compunham. Dois dias depois ainda regressou, para nova audição e para algumas pequenas correcções, escondendo a partitura debaixo do chapéu.

Este Miserere medieval, votado exclusivamente aos ritos e cerimoniais da Capela Sistina, celebrava e reproduzia o Salmo 50, de David – aquele que se inicia com as palavras “Miserere mei, Deus”, e que o rei de Israel teria contritamente recitado, dançando ao redor da sua Arca. Este Salmo perpetuou-se na liturgia católica e  tradicionalmente canta-se nos últimos 3 dias da Semana Santa (e, no rito anglicano, na Quarta-feira de Cinzas). A sua recitação em Laudes obedece, porém, a uma longínqua tradição que vem desde os primórdios do Cristianismo. Já S. Basílio, em meados do séc. IV, a ele se referia quando relatava que “o povo cristão, tendo passado a noite a cantar salmos e orações, entoava o Miserere ao romper do dia, fazendo suas as palavras de contrição de David”. Todavia, o que não muita gente sabe é que a matriz do Miserere – a melopeia, o significado litúrgico, o simbolismo – é ainda mais recuada. Com efeito, remonta ao tempo dos antigos egípcios e foi uma das muitas apropriações da Igreja cristã àqueles que tão desdenhosa e depreciativamente apelida de pagãos.

O Culto de Ísis e Osíris

A grande procissão de Ísis, a que assistiam multidões, decorria anualmente no mês de Athyr e comemorava o pranto da deusa pela perda do seu Senhor – Osíris. Oito sacerdotes transportavam a Arca sagrada, a Sekett, encimada de cada um dos lados por dois querubins e que continha os emblemas da geração, dos princípios masculino e feminino 3. A Arca, qual relicário, igualmente guardava elementos simbólicos e de culto, tais como pão, grãos e espigas de trigo  4, um bastão, um velo de carneiro – mas, também, e curiosamente, uma serpente e uma maçã. Os sacerdotes carregavam-na solene e devidamente paramentados com a sua sotaina e a sua alva de puríssimo linho – as quais viriam a ser, muito mais tarde, copiadas pelos padres cristãos; com a tonsura nas suas cabeças – signo sacerdotal que igualmente foi importado para o culto cristão; aspergindo a água benta com o hissope – também este, e o respectivo rito, assimilados pelos cristãos; partindo e distribuindo aos fiéis o pão sacramental, como mais tarde a Igreja de Roma também instituiu, como o mais santificado dos sacramentos. Atrás, no cortejo, entoando dolentemente o “cântico da expiação”, seguiam jovens adolescentes com a cabeça coberta com um fino véu. Também o uso do véu pelas mulheres foi um preceito litúrgico plagiado pela Igreja e obrigatório até há bem pouco tempo. 5

O pranto e o canto de Ísis acordavam para a vida o deus morto, e a sua comemoração ritual perpetuava o Grande Mistério da Vida 6. Muito mais tarde o Miserere medieval comemorava a morte e a ressurreição do Cristo (ao fim de 3 dias), e o triunfo do Amor, que ele (Cristo) representa, sobre a morte material. Também Osíris, ao fim de 3 dias – ou quarenta, noutras versões –, ressuscitou.

Osíris (como Hórus) nasceu num dia 25 de Dezembro e, a propósito do seu nascimento, se disse que, por todos os lugares, foram ouvidas hosanas, que clamavam: “Salvé, nasceu o Senhor de toda a Terra!” Lemos em “Egyptian Belief and Modern Thought”, de James Bonwick: “Hórus, o filho de Osíris, é descrito numa tábua como ‘a substância de seu Pai, Osíris’, de quem é uma encarnação e que é idêntico a ele. (…) O seu papel no mundo inferior está relacionado com o Juízo. Apresenta as almas a seu Pai. (…) No solstício de inverno, a sua imagem, sob a forma de menino recém-nascido, era retirada do santuário para ser exposta à adoração da multidão. Diz-se que veio do Maem Misi, o lugar nativo sagrado (a matriz do mundo) e é, portanto, o “místico menino da Arca” ou argha, símbolo da matriz. 7. Cosmicamente, é o Sol de inverno”.

Por outro lado, segundo o Glossário Teosófico, citando outro creditado egiptólogo, M. Theodule Deveria: “‘… Ftah é a forma inerte, material, de Osíris, que se converterá em Sokari [o Ego eterno] para renascer e logo ser ‘Harmachus’, ou Hórus na sua transformação, o deus nascido. Harmachus era, na verdade, idêntico a Hórus. Era a Esfinge egípcia, chamada Har-em-chu, ou seja, ‘Hórus (o sol) no horizonte’; a enigmática cabeça leonina [símbolo solar, entre todas as culturas] que levava nas inscrições o nome de ‘forma vivente da Esfinge solar na Terra’, segundo escreve H. Brugsh Bey”. Hórus, ou Harmachus, o filho da Virgem Ísis, é idêntico ao Cristo, a quem também foi chamado o Leão de Judá 8.  “Por vezes a figura do leão é vista de cada lado de Ísis… Era seu filho”, diz-nos Bonwick.

É de assinalar que a grande cerimónia evocativa da morte de Osíris se verificava a 17 do mês de Athyr (equivalente ao nosso 15 de Novembro); segundo o mito, decorreram 40 dias até ao seu renascimento para a vida. Assim, a 25 de Dezembro, nascia o menino-deus, Hórus (consubstancial a seu Pai). “Hórus é o Christos e simboliza o Sol”, lemos na “Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky. Como um deus que se fez homem (que viveu e reinou nesta Terra), Osíris experimentou a morte e triunfou sobre ela, com isso assegurando aos seus sucessores a vida eterna. Acreditou-se, assim, que cada rei se tornaria Osíris (como um Cristo) depois da morte, sendo, em vida, no seu corpo de carne, uma incorporação de Hórus, o seu filho bem amado. Com o tempo, esta noção e prerrogativa de vida eterna e bem-aventurada, estendeu-se a todos os adoradores de Osíris, que, na sua passagem ao Amenti 9, podiam aspirar a tornar-se um Osíris e fruir da Vida Eterna.

Também a Páscoa cristã, símbolo da Ressurreição de Jesus Cristo, é precedida dos 40 dias da Quaresma, 40 dias que simbolizam Penitência e Reconciliação – 40 dias de Contrição, tal como se configura no salmo Miserere… E, sendo a Páscoa o símbolo do novo nascimento, foi a sua celebração, por longo tempo, concomitante com o Baptismo – o Baptismo que purifica e lava de todos os pecados… mesmo aquele pecado que “todos trazemos”.

Esse pecado original – marca inilidível da nossa Humanidade –, vê-mo-lo, afinal, representado nas insígnias da Arca Sagrada, na Festa de Ísis e Osíris. Ali figuravam uma serpente e uma maçã… No entanto, maçã e serpente são ambos símbolos de Conhecimento e Sabedoria. São as sementes (também elas representadas na arca), os legados preciosos que todos transportamos na nossa pequena arca individual, neste ciclo da 5ª Raça. São a Mente, atributo terrível mas também redentor, que estamos aprendendo a bem usar e que nos transformará em verdadeiros Homens.

Muitas Arcas

A História está repleta de relatos e alegorias fantásticos que convergem para idênticos significados e que reportam para idênticas realidades. Na lenda de Osíris, ele foi morto e fechado numa urna ou numa arca, que depois foi largada nas águas do Grande Nilo. O dia e mês em que ele entra na arca – 17 de Athyr – é o mesmo dia e mês mencionado no Genesis para o mesmo feito de Noé; e ambos estiveram quarenta dias fechados na arca. A Arca de Noé (relatada pelos hebreus) chamava-se em hebraico Thbe, o mesmo nome da cidade sagrada dos egípcios – Tebas. Em hebraico, Noé, o pai da humanidade actual, dizia-se Né ou Mnée, o mesmo que o Menei 10 egípcio, o primeiro homem que reinou sobre os seus antepassados. Porém, em arameu, o seu nome era Noah, o que parece ser um anagrama do Naos egípcio. O Naos era um santuário, oratório ou orago dos Templos (no caso do Sanctum Sanctorum dos principais Templos, era o oráculo ao qual unicamente o faraó podia aceder) mas tinha também o significado de Arca ou Barca. Dele derivam os múltiplos nomes latinos e gregos conotados com o sentido matricial da Arca-nauta: nau, nave, navio, arca, barca, argha… Ainda hoje as igrejas cristãs conservam a nomenclatura de Nave: por exemplo, a Nave Central, para designar o recinto mais nobre do Cerimonial litúrgico. Já agora, refira-se que as primitivas igrejas normandas têm a forma de um drakar (a típica embarcação viking) invertido.

Diz a tradição que no tempo do rei-patriarca Menei todo o Egipto era um mar, à excepção da província de Tebas – o que faz aludir ao fenómeno do Dilúvio e à Arca (Thbe) que dele se salvou. Rezam as crónicas egípcias que em Tebas foi construída uma grande nave ou (b)arca com 300 côvados de comprimento. Lembremos que a Arca de Noé tinha 300 côvados de comprimento… Heródoto menciona que duas pombas foram enviadas de Tebas; por seu turno, Noé lançou uma pomba, por duas vezes, da sua Thbe, para se certificar se a terra estava seca. Os habitantes de Tebas vangloriam-se de terem sido os primeiros a conhecer a vinha; Noé, saindo da Arca, plantou uma vinha.

Idêntica alegoria é descrita nos textos purânicos, referindo-se ao embarque e salvamento do Manu. Os gregos relatam um semelhante acontecimento, o Dilúvio, e o salvamento de um casal, Deucalião (rei da Tessália e filho de Prometeu) e Pirra, numa Arca; Júpiter, desgostoso com a maldade crescente dos homens, decidiu acabar com a linhagem humana, poupando exclusivamente este casal (porque eram virtuosos e justos) e seus filhos, juntamente com um par de animais de cada espécie. Para os eslavos, esse protagonismo foi para Belgamer ou Belgelmir. Sisthrus ou Xisuthrus (850.000 anos antes de Noé) foi o herói caldeu, poupado pelo deus Hea 11, e por este exortado a construir uma arca (argha) 12 para nela se refugiar da destruição diluviana, juntamente com alguns poucos escolhidos; esta arca ou barca teria encalhado 13 no Monte da Salvação Nizir-Ararat… E deste herói caldeu, foi protótipo Ziusudra, o “Salvo das águas”, dos sumeros. Yima, foi o “Noé” da antiga civilização iraniana. Peirun, o “Amado dos deuses” – por eles avisado para que construísse uma barca… – foi o dos chineses, etc, etc. Esse acontecimento universal, o Dilúvio e o período simbólico da sua duração, cujas reminiscências povoam ainda o imaginário de todas as culturas, representa um Pralaya 14 – um adormecimento ou recolhimento dos germens espirituais de todas as coisas.

Em todos os casos, em meio ao Imenso Mar, as Arcas planam, flutuam, tal como o Ovo do Mundo nas Águas primordiais. São elas frequentemente alegorias cósmico-genésicas que aludem ao útero 15 da Grande-Mãe Natureza, o qual contém os arquétipos ou raízes de todas as coisas passadas, presentes e futuras, de todos os elementos e seres que encontrarão a objectividade neste mundo externo. No plano microcósmico, são símbolos de iniciação: a entrada num ataúde, numa arca, numa urna, numa cripta – qual “descida aos infernos” – e o recobro triunfante da morte (ou do “mundo dos mortos”); por outras palavras, a Vitória do Espírito sobre a natureza inferior, corruptível e perecível.
Em termos macrocósmicos, a Arca de Noé (de todos os símbolos diluvianos e causativos, o mais presente na nossa cultura ocidental) reuniu as sementes de todas as coisas que deveriam “povoar” o mundo futuro. Essa Grande Arca é idêntica ao Chaos, o qual, no Egipto, foi personificado pela deusa Neith, anterior a todos os deuses, e remontando à I Dinastia. De certo modo, ela é a precursora de Ísis, como A Deusa-Mãe, e como A Mãe-Virgem. Neith, Neut ou Nout, é representada, nas pinturas mais antigas, como uma Mãe abraçando o deus com cabeça de carneiro – o “Cordeiro”. É também Naus, a nau celestial; é por isso que a encontramos na proa dos barcos egípcios, como Dido na proa das embarcações fenícias (Dido ou Astarté – a Virgem do Mar, que esmaga o Dragão sob o seu pé, como, muito mais tarde, também a Virgem Maria, na iconografia cristã). Não podemos deixar de notar alguma semelhança fonética de Neith, Neut ou Nout, com Noé – Noé, o capitão da  Grande (B)Arca, Noé, a súmula de todos os bens, o representante do que houve de melhor no Ciclo passado, e que transitou e foi a “Cabeça” da nova Raça de homens…

Noé não é outro senão o Manu Vaivasvata que presidiu ao nascimento da nossa 5ª e actual Raça-raiz, que trouxe as novas sementes do Grande Chaos, e que nos dotou de todas as potencialidades para a sucessão neste novo Ciclo.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

Bibliografia:
• “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky, Editora Pensamento, 1973
• “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky, Editora Ground
• “Anacalypsis”, Volms. I e II, de Godfrey Higgins, Kessinger Publishing
• “Egypt under the Pharaohs” de Heinrich Brugsh Bey, Bracken Books, 1902
• “Egyptian Belief and Modern Thought”, de James Bonwick, The Falcons Wing Press, 1956
• “A Bíblia”

Notas:
1 O Padre Martini foi um distinto compositor, pedagogo e teorético, com quem Mozart estudou contraponto aos treze anos de idade.
2 O ministro, que veio a ser o “Marquês de Pombal”, desempenhara funções como embaixador em Viena, no tempo de D. João V. Ali teria frequentado os meios da música erudita e as mais altas esferas sociais, eventualmente, então se proporcionando as vias de acesso à tão cobiçada cópia do Miserere. Por outro lado, o “Marquês” tinha a consideração e o apreço do Papa Clemente XIV, que a ele se referia com palavras como estas: “Grande uomo! Grande uomo!”. Talvez o Papa tivesse mesmo contemplado aquele seu  amigo com um presente tão distinto como uma cópia do celebrizado Miserere.
3 Osíris e Ísis encontram correlação, no hinduísmo, em Iswara e Isi – os procriativos masculino e feminino poderes da natureza. Ishwara é o princípio divino na sua condição activa; um dos quatro estados de Brahmâ. Curiosamente, Isi, o seu aspecto feminino, embora no exoterismo popular seja a consorte de Iswara, é representada amamentando o menino-deus Iswara. Como veremos adiante, este fenómeno é reproduzido na religião egípcia, em que Ísis é a esposa e também a mãe de Osíris (neste último caso, Osíris assumindo a identidade de Hórus, igual a seu pai).
4 Entre os egípcios, o trigo era um símbolo de renovação ou renascimento e também da Lei da Retribuição (Karma). Aanrou, a segunda divisão do Amenti (o Reino dos mortos), era um enorme campo celestial semeado de trigo, e o “defunto” é representado ceifando-o para o “Senhor da Eternidade”. Repleto de simbologia, o mito distingue três tipos de ceifas: algumas espigas atingem 3 côvados de altura, outras, cinco, e as maiores, sete. Aqueles que conseguem produzir estas duas últimas, entram no estado de bem-aventurança (o Devachan, da Teosofia). Aqueles cuja colheita tinha apenas 3 côvados de altura, iam para as regiões sombrias (o Kâmaloka). Os côvados referiam-se aos sete, cinco e três “Princípios” humanos.
5 O mito de Ísis e Osíris tem numerosos símiles em outras tradições e culturas. Na Babilónia, Ishtar (de algum modo, também identificada à deusa Vénus) e Tammuz (ou Adónis) são um exemplo. Nas tábuas assírias, relata-se que Tammuz [também ele filho de uma virgem] foi assassinado por Izdubar, e que Ishtar, que o amava profundamente, buscou-o incansavelmente, atravessando as 7 Portas do Arali (idêntico ao Amenti ou ao Hades), até que o encontrou e libertou do Reino dos mortos. No entanto, o povo de Israel aglutinou este mito, identificando Tammuz a Adónis, e celebrando anualmente a sua morte. Duravam seis dias os Mistérios de Tammuz-Adónis, com procissões, cheias de lamentos e prantos, que eram seguidas por um jejum, e culminavam em grande festa pela ressurreição do deus. Algumas destas celebrações tinham lugar mesmo às portas do Templo de Jerusalém, para horror do reformador Ezequiel, que as comenta no seu livro da Bíblia, Ezequiel 8.14-15. Ainda no século IV da era cristã, tais festividades prosseguiam em Belém, sendo referidas por S. Jerónimo nas suas Epístolas: “O bosque de Tammuz, isto é, de Adónis, projectava a sua sombra sobre Bethelem. E na gruta onde antes chorara o menino Jesus, era chorado o amante de Vénus”.
6 Os Mistérios de Osíris tinham uma vertente popular mas também uma outra mais restrita e esotérica, celebrada no Adytum de certos Templos. Heródoto assim se lhes refere: “… Em Sais, encontra-se o túmulo daquele cujo nome não ouso pronunciar (…) No lago, pela noite, os egípcios representam os sofrimentos por Ele padecidos (…) Acerca dos Grandes Mistérios (os quais conheço), a minha boca guardará religioso silêncio”.
7 No frontespício do Templo de Ísis, em Sais, lia-se a inscrição: “O fruto que eu carrego no meu seio é o Sol.” Sobre isto, muito tempo antes do nascimento de Cristo, Plutarco escreveu: “… Esta Ísis é a casta Minerva, que, sem risco de perder o seu epíteto de virgindade, diz ser a mãe do Sol. Igualmente, Erástotenes afirmava: “Esta é a mesma Virgem dos céus [das constelações], a que os sábios de Alexandria chamavam Ísis ou Ceres, a qual [constelação] dava início ao novo ano e presidia ao nascimento do deus Sol.”
8 Também Krishna, segundo o Bhagavad Gita, é o leão entre os animais. Buda é o leão dos Shakya.
9 O Amenti estava dividido em 14 partes ou regiões, correspondentes aos 14 pedaços em que, no mito, o corpo de Osíris tinha sido mutilado. Curiosamente, estas regiões, 7 X 2, encontram correspondência nos 14 subplanos (7 X 2) que integram os 2 Planos de consciência (Astral-Kâmico e Mental) que a alma percorre no seu ciclo de recolhimento ao Plano Causal, aquando da morte física. A Cerimónia de Athyr celebrava-se em 14 cidades, alusivas aos 14 pedaços do corpo retalhado de Osíris (ou aos 14 lugares do Amenti).
10 Menei ou Menes, o primeiro rei histórico do Egipto. Curiosamente, Menes em egípcio significa mente (como Manas, em sânscrito), podendo, assim, inferir-se que Menes ou Menei fora o primeiro da Raça de Homens dotada de mente.
11 Hea era o deus do Grande Abismo, dos “Mundos inferiores” (do “Quaternário Inferior”).
12 Argha, em caldeu, significava arca e a matriz da Natureza. Era também a Lua na sua fase crescente e um barco salva-vidas; designava igualmente uma taça usada para oferendas em certas cerimónias religiosas. Pomos como hipótese que da raiz argh derivaria o vocábulo grego argillos e o latino argilla, a substância saída do Chaos em cada momento inicial, com a qual o Demiurgo conformou o “homem de barro”. Curiosamente, a nossa palavra arquivo (do latim, archivum) deve originar-se, ou pelo menos sugere a noção, de grande arca. Quando pensamos em grande arca, fazemo-lo transportar para um sentido mais original, o sentido de “Repositório” (ou “Chaos”) onde se guardam todos os bens, todas as sementes e toda a experiência acumulada num Manvantara (neste caso, no período de vigência de uma Raça-Raiz). Sobre este mesmo contexto, fazemos notar que, esotericamente, um Arconte (ou Archeu) é um dos 7 “Construtores” em cada início de um dos 7 Grandes Ciclos.
13 A Naubandhana é um termo sânscrito que significa precisamente “a Nau encalhada”: nau = navio, e bandhana = prisão, sujeição. Refere o local, no Himavat (Himalaia), onde a Arca hindu encalhou de um dos Grandes Dilúvios que assolaram o mundo dos homens.
14 É um período, cíclico, de obscuridade ou repouso da Manifestação (planetário, cósmico ou universal). Neste caso, sendo um Pralaya planetário, é um Pralaya intermédio, secundário, entre Raças-raízes.
15 Significativamente, “útero” em sânscrito dizia-se gârbha. Atente-se à similitude com arga e à permutação das letras (inclusive no vocábulo latino “barca”), sabendo-se que o seu “c” e o “g” têm equivalente valor fonético. Segundo a lenda de Jasão e os Argonautas, Argos teria sido a primeira Arca ou Nave; nela, Jasão e os seus companheiros dirigiram-se à Cólquida, a fim de ali encontrar e conquistar o “Velo de Ouro” (velo de um puríssimo cordeiro, símbolo este que se encontra igualmente representado na Arca da Festividade de Ísis e Osíris). O Velo de Ouro, é o velo áurico – a aura – dos que conquistaram a imortalidade. É um atributo de Buddhi, como é o caso do Cristo – o Cordeiro de Deus (Agnus Dei) – e de todos os Cristos, isto é, todos Aqueles que consubstanciam ou participam da natureza de Buddhi, como Osíris, como Râma, o 7º Avatar de Vishnu (a primeira personificação ou símbolo vivo do Carneiro Divino), como Agni, como Indra, como Hermes, como Ammon Ra (chamado “o Sol Espiritual”, o “Sol da Justiça”). Ammon, a divindade criocéfala do Egipto (representada com uma cabeça de carneiro), tinha, em sua honra, um Templo portentoso em Tebas (Carnaque), a que se acedia por uma enorme alameda bordejada de estátuas de carneiros. Cada um destes tinha o anel pentacular (símbolo do domínio do 5º Princípio no Homem) de Ramsés II – o faraó que se intitulava a si mesmo “filho de Ammon”. Fica-nos a sugestiva interrogação sobre o significado literal do nome Ramsés (Ram-sés), tanto mais que é sabido ser esse um nome crismático, um nome de eleição, usado ou adoptado por treze faraós. No Egipto, os chifres de carneiro em forma de toucado foram uma insígnia da Iniciação e, por inerência, da dignidade Sacerdotal e da Realeza faraónica. Também a primitiva tiara Papal, com dois chifres, foi replicada daquele. Para mais desenvolvimentos sobre o tema dos Carneiros Divinos, remetemos para o nosso artigo “O Voo de Phrixus”, na Biosofia nº17.

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