A Libertação das Formas - (A Vida Depois da) Morte

Poucas questões são para o Homem tão misteriosas, tão alvo de superstições e receios, e tão mal compreendidas, como a morte. Com efeito, consciente ou inconscientemente, a maior parte de nós evita qualquer reflexão ou discussão sobre este assunto, encarando-o como qualquer coisa de inconveniente e desagradável.

Todavia, e sendo a morte a (aparente) meta final da estrada da vida – ou pelo menos a derradeira meta que por nós pode ser observada no horizonte de uma encarnação –, o que pode ser mais importante do que procurar compreendê-la?

Em tempos não tão longínquos – e antes de ser adulterado pelas doutrinas religiosas, que o colocaram como algo de aterrorizante – o conceito de morte era encarado como a passagem para uma outra vida, como uma das fases da transmutação da natureza que se encontra espelhada em todo o universo. Inseridos noutras leis e princípios maiores, tal como a doutrina dos ciclos, do renascimento, e da evolução (1), os ensinamentos sobre a morte eram parte integrante da tradição de cada cultura, quer fossem apresentados sob a forma de alegoria e mito, quer fossem transmitidos sob uma forma mais esotérica. Aliás, existem muito boas razões para dizer que, desde a antiguidade e até ao surgimento da Romana na sua vertente ortodoxa ou exotérica, os ensinamentos sobre a morte e o renascimento eram quase universalmente aceites, incluindo por uma grande parte dos primeiros padres da Igreja, tendo muitos destes ensinado estas doutrinas (2).

No entanto, tanto a doutrina da Igreja Católica (e de outras Igrejas Cristãs dela saídas) como outras doutrinas transformadas em religiões organizadas, foram perdendo ou repudiando as ligações com os ensinamentos originais, transformando a morte num mistério aparentemente intransponível.

Por contraste, e desde tempos imemoriais, a Filosofia Esotérica tem vindo a projectar luz sobre esta importante fase da evolução humana, mostrando que a morte é apenas uma porta para um outro estado de existência. De acordo com os ensinamentos da Sabedoria Esotérica, ou Ocultismo, a vida do homem na Terra é apenas uma fase do desdobramento do Ego reencarnante. A morte no plano físico é, portanto, antes de mais, um alargamento da esfera de consciência do homem, cujo processo consiste em pôr de lado – camada por camada – os revestimentos com que a alma humana se velou.

Estes ensinamentos – sob a sua forma não velada – foram dados pela primeira vez ao Ocidente no final do século XIX. Apesar dos termos técnicos em sânscrito, estes ensinamentos foram transmitidos directamente a um pequeno grupo de discípulos ocidentais numa forma susceptível de serem por estes compreendidos, de acordo com o seu grau de receptividade. Juntamente com revelações sobre os mistérios das leis da natureza, sobre a origem do Universo e a constituição oculta do ser humano (entre outros), os ensinamentos transmitidos sobre a morte vieram posteriormente a ser publicados – já em 1923 – sob o título de “As Cartas dos Mahatmas” (3). É à luz das sustentações contidas nesta obra e nos textos de Helena Blavatsky que vamos tratar o tema objecto deste artigo.

A constituição oculta do ser humano
De facto, e para que se possa compreender o processo da morte à luz da tradição oculta, deve-se em primeiro lugar enquadrá-lo no contexto do sistema esotérico em geral e, em particular, do que ele ensina acerca da constituição oculta do ser humano.

Segundo a filosofia esotérica, o homem tem vários Princípios de ser e de consciência, actuando em diversos níveis do cosmos ou planos do universo (4). A sua constituição é, deste modo, septenária e cada um dos seus corpos ou invólucros – referidos em ocultismo como princípios – têm a sua contraparte em cada um dos sete planos do universo. Cada um destes princípios permite ao homem relacionar-se com o respectivo plano do universo.

Não se procurando aqui efectuar uma descrição detalhada de cada princípio do ser humano, destacam-se sucintamente os seus principais aspectos, assim como os efeitos a que estão sujeitos no decorrer do processo de morte (5).

Começando dos níveis inferiores, mais densos ou materiais, os primeiros três princípios – o Sthula-Sharira (Corpo Físico), o Linga-Sharira (o Corpo das Causas Formativas), e o Prana (Princípio Vital) – morrem quando se dá a morte física, dissipando-se e voltando aos planos que lhes deram origem. Por sua vez, estes três princípios, em conjunto com Kama (o Princípio do Desejo), formam o Quaternário Inferior, que constitui a Personalidade, a nossa natureza mortal.

Os princípios superiores do homem – Atma, Buddhi e Manas – formam a Tríade Superior, a Individualidade ou a nossa natureza Imortal. No entanto, Manas em si mesmo não é imortal. Embora seja um princípio uno, durante a vida apresenta-se como um princípio dual, com um aspecto inferior e um aspecto superior (6). O seu aspecto inferior está orientado para os desejos, impulsos e emoções (Kama), formando o Kama-Manas, a base da Personalidade. Esta constitui a nossa natureza mortal, apartando-se, na morte, da Tríade Superior e Imortal. Em contraste, o aspecto superior de Manas unido a Buddhi, forma a díade Buddhi-Manas, a Alma Humana. Esta é a nossa Individualidade, a natureza perene do homem, e portanto o denominado Ego Reencarnante.

O Homem verdadeiro é portanto Buddhi-Manas, o Ego Reencarnante. O Homem Animal é o Kama-Manas, o Eu Inferior.

Esta dualidade de aspectos – inferior e superior – e a forma como o homem se relaciona com ela em vida são determinantes no desenrolar dos estados post-mortem. Com efeito, da Personalidade apenas sobreviverá o que for puramente espiritual e, portanto, susceptível de ser absorvido pelos princípios superiores. Por outro lado, quanto maior for o grau de espiritualidade alcançado pela personalidade por meio do Ego Reencarnante, maior será o grau de existência consciente nos estados post-mortem.

Assim como a constituição do Homem reflecte a constituição septenária do Universo, também o Homem está sujeito, como parte integrante do Universo, às Leis da Renovação Constante e da Periodicidade. Segundo estas doutrinas, tudo na Natureza se renova, e todos os períodos de actividade são alternados com períodos de descanso.

Estas duas leis tornam clara a necessidade da morte, assim como dos seus processos. Segundo as mesmas, os princípios superiores estão, portanto, associados (por um período de tempo) com os princípios inferiores, permitindo que o agregado de invólucros experiencie os ciclos evolutivos dentro de um ser maior.

Quando, findo um período de actividade, os princípios superiores partem para um período de repouso, é desfeita a união que permite ao corpo funcionar como um todo. Após esse período de descanso, os princípios superiores regressam para nova reencarnação, para o que voltam a reunir o conjunto de veículos inferiores, compostos essencialmente pela mesma substância e forças constituintes dos agregados anteriores.

O processo da morte do Corpo Físico
Segundo a doutrina esotérica, a morte física é devida, em grande parte, à expansão da consciência humana. A consciência, ao expandir-se para além da capacidade do corpo físico para a conter, chega a um limite. “Apertada” e limitada, a consciência vai provocar a senilidade e o envelhecimento do corpo, até que este é posto de lado como uma vestimenta usada e gasta que já não serve o seu propósito. Deste modo, algum tempo antes da morte física ocorrer, os princípios encarnados do ser humano começam a desagregar-se, retornando gradualmente aos planos que lhes deram origem. É a esta desagregação que se deve o declínio físico na idade avançada. Consequentemente, e segundo a filosofia esotérica, não é a morte que causa a dissolução dos princípios mas, sim, a dissolução dos princípios (pessoais; não os espirituais) que provoca a morte.

Neste sentido, não é uma falta de vitalidade que trás a morte mas, sim, uma superabundância de actividade prânica. É o excesso de força prânica que, através dos anos, enfraquece os órgãos pelo stress e esforço a que estes estão sujeitos ao serem portadores da circulação vital. Por outras palavras, o corpo tem uma capacidade limitada para as correntes prânicas, que o vão “desgastando” e causando o seu enfraquecimento, culminando, por fim, na doença e na morte.

A morte, na maioria dos casos, é precedida por um certo período de abandono da personalidade. O Ego Reencarnante obedece de forma tão cega à atracção dos mundos internos que o chamado “cordão prateado”, o Sutratma (7), acaba por se romper.

O coração morre primeiro. O cérebro, por sua vez, é o último órgão que o Sutratma deixa. Assim, e já com o coração parado, há ainda actividade akáshica no cérebro, produzindo o conhecido “panorama da vida passada”, caracterizado pela revisão da existência que acabou de se deixar.

A primeira revisão da vida passada
No momento da última pulsação, quando a última centelha de vida deixa o corpo, toda a vida física então terminada é reflectida no cérebro e o homem revive os seus eventos minuto a minuto, mesmo os momentos aparentemente esquecidos. Isto acontece porque o cérebro, no momento imediatamente antes de morrer, “descarrega” a memória com um forte impulso e, ao fazê-lo, restabelece totalmente todas as impressões guardadas durante a vida.

Nesses instantes, o Ego Espiritual observa toda a cadeia de causalidade subjacente à vida que terminou no plano físico. Ele revê e compreende a sua vida (seja ela caso de orgulho ou de decepção) como um espectador, e reconhece a justiça de todo o sofrimento a que foi submetido. Nestes breves instantes, a personalidade torna-se una com a individualidade. Esta visão, num sentido abarcante, vai constituir o princípio da futura existência do homem.


A importância dos últimos pensamentos

Pode considerar-se (e tal é um facto reconhecido para os Hindus) que o futuro nascimento de uma pessoa depende do último desejo que esta teve no momento da morte.

Naturalmente, os últimos pensamentos ou desejos de uma pessoa reflectem os seus mais frequentes pensamentos e emoções, uma vez que estes são de carácter involuntário, não tendo o homem controlo sobre eles. Neste sentido, os últimos desejos no momento da morte reflectirão e sintetizarão o carácter da vida que passou, ou seja, a sua natureza mais interna. É, por sua vez, a natureza interna da existência a terminar que vai constituir a base para a futura existência.

A entrada no Kama-Loka. O Sono Akáshico.
Como já referido, quando um homem morre, o Corpo Físico, o Linga-Sharira e o Prana, morrem com ele, voltando aos planos do universo que lhes deram origem. Assim, ao decomporem-se, o Corpo Físico volta ao mundo físico, o Linga-Sharira volta à Luz Astral, e o Prana volta a Jiva. Por sua vez, o Kama-Manas, o Manas Superior, Buddhi e o princípio Átmico formam o então quaternário sobrevivente.

Deste quaternário, os dois princípios da personalidade – Kama e Manas Inferior – entram no próximo estagio post-mortem, ou seja, na realidade subjectiva do Kama-Loka (8), onde dormem o chamado Sono Akáshico.

O ser pode permanecer nesta esfera horas, dias, meses ou anos. A sua duração depende do ser em causa, da qualidade da existência que teve no mundo físico, do seu estado mental no momento da morte, do tipo de morte, etc.

Aqui, a díade intermédia do desencarnado e os dois princípios superiores encontram-se adormecidos, sem consciência ou memória. Apesar do estado normal no Kama-Loka ser uma ausência total de consciência, pode acontecer em alguns casos (enquanto a natureza kama-manásica ainda está ligada à Tríade Superior) passar-se por uma variedade de estados oníricos e, mais raramente, recuperar-se alguma consciência durante um período. O conteúdo de tal consciência é totalmente definido pela experiência da vida passada.

Decorrido este período de sono akáshico no Kama-Loka, virá o momento em que Manas é separado de Kama, deixando de alimentar o nível psíquico inferior e (re)unindo-se à Tríade Superior.

A manutenção de consciência no Kama-Loka não é comum. Tal como um homem normal não consegue transportar-se com consciência ao Kama-Loka durante a vida, também não é natural que a mantenha na morte.

Os Estados de Gestação
Os estados de Gestação consistem em períodos intermédios de preparação que ocorrem entre o tempo passado no Kama-Loka e a entrada no Devachan. Esta preparação é essencial para que a entidade desencarnada possa entrar no Devachan, pois, nesta fase, não só são recolhidas as sementes de espiritualidade, como é nesta altura que estas germinam para formar um material apropriado para entrar no mundo do Ego Espiritual.

A duração destes estados depende do conteúdo espiritual da vida terrena pois é através deste processo que se dá a transferência e assimilação dos conteúdos mais puros da mente pessoal na Tríade Superior. Para que tal transferência se efectue, a Personalidade e o Ego Espiritual encontram-se ainda ligados, embora inconscientes.

A Luta Mortal
No período de gestação, ocorre um dos momentos mais decisivos de todos os estados post-mortem – a chamada “Luta Mortal” – onde será avaliada a nobreza da vida do homem e descartado o que da existência terrena não for susceptível de aproveitamento nos mundos superiores.

Para melhor se compreender a luta mortal, é necessário recordar o carácter dual do ser humano, ou seja, que ele tem uma Personalidade, e uma Individualidade.

A Personalidade é essencialmente egoísta e egocêntrica, com a sua atenção normalmente virada para os impulsos e ambições, e para tudo o que diz respeito ao eu individual e separado. A mais importante constituinte da personalidade é a inteligência humana da mente inferior. É esta inteligência que faz a ponte entre a parte inferior e a parte superior da mente, ligando-a por meio do chamado Antakahrana (9).

A Individualidade, por contraste, diz respeito àquilo que é completamente altruísta e nobre no carácter do homem, tal como o amor incondicional (diferente de paixão), a sabedoria, o desejo de servir, a compaixão, etc. Por outras palavras, diz respeito ao comportamento conduzido pela consciência superior.

A Luta Mortal é, assim, o processo de separação destes dois aspectos antagónicos da natureza interna do homem: o que tem a ver com a personalidade irá ser deixado para trás. Não tendo as características necessárias para conseguir entrar nos planos superiores de existência, a parte menos nobre da personalidade é rejeitada pelo Ego Espiritual.

O que da personalidade é rejeitado permanece no Kama-Loka sob a forma de algumas memórias e instintos, pouco mais do que os “restos” da personalidade anterior. Em contraste, a sua contraparte superior – o Ego Espiritual – nasce no próximo mundo ou plano de existência (o Devachan), enriquecida pela parte mais nobre da última experiência pessoal.

Trava-se portanto aqui uma “luta” entre a Personalidade e a Individualidade. Se durante a vida tiverem sido desenvolvidas características emocionais, mentais e espirituais de forma a que o Manas Superior as consiga absorver – os mais nobres afectos, as mais puras aspirações, a parte mais espiritualizada da mente –, esta quintessência é absorvida na Tríade Superior e o ser segue para a próxima etapa post-mortem – o Devachan.

Mas se, por outro lado, for o Manas Superior o derrotado, não conseguindo absorver nada daquela vida na Tríade Superior, então nada da experiência passada interessará ao Ego Espiritual. Aquela existência será como uma página em falta no livro da vida. Neste caso, o que foi descartado pelo Manas Superior permanece como um Cascão vazio, vagueando na “atmosfera” da Terra (com os seus instintos e memórias vivas durante um certo período) como Elementar (10).

Em “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky, transcrevem-se algumas linhas de um papiro egípcio milenar, agora conhecido como Livro dos Mortos, em que se fala da Luta Mortal ou Segunda Morte. Note-se, a propósito, que o Ensinamento Ocultista apresentado por Helena Blavatsky e pelos seus Mestres não é uma revelação fantasiosa, tendo sido apresentado de forma a que pudessem ser encontrados apoios – ecos da Sabedoria Eterna, do Conhecimento Oculto – nas mais diversas tradições espirituais, dos mais diferentes povos.

Segundo este livro, na Luta Mortal, o Manas dual aparece como a vítima do dragão Apophis. O dragão Apophis representa a personalidade do homem kama-rúpico com a sua natureza inferior e a sua natureza superior. Se, no curso da sua vida terrestre, o homem alcançou o conhecimento dos Mistérios Celestes – a Gnose (11) –, a personalidade do desencarnado “triunfará sobre o seu inimigo” (a morte).

Por outras palavras, finda a existência terrena, são apenas os pensamentos purificados que se encontram impressos no Manas Inferior que, por sua vez, podem ser assimilados pelo Ego Superior e Imortal. Como refere Helena Blavatsky:

“Por isso, a menos que o Kama-Manas transmita a Buddhi-Manas semelhantes ideações pessoais e a consciência do seu ‘eu’ ou personalidade, de modo que as possa assimilar o Ego Divino, desse ‘eu’ nada sobreviverá no eterno. Somente pode sobreviver o que for digno do nosso imortal deus interno, idêntico por sua natureza à quintessência divina, porque, neste caso, as mesmas ‘sombras’ ou emanações do Ego Divino são as que sobem até Ele, que as reintegra em sua Essência. Nenhum pensamento nobre, nenhuma aspiração elevada, nenhum desejo puro, nenhum amor imortal e divino pode aninhar-se no cérebro do homem carnal, a não ser como emanação directa do Eu Superior, mediante o inferior. Tudo o mais, ainda que pareça intelectual, procede da ‘sombra’, da mente inferior, associada e mesclada com Kama, acabando por fenecer e aniquilar-se para sempre. Ao invés, as ideações mentais e espirituais do ‘eu’ pessoal retornam a ele [ao Eu Superior], como parte da essência do Ego, e nunca murcham. Assim é que da personalidade sobrevivem e se imortalizam tão só as suas experiências espirituais, a lembrança de tudo o que de nobre e bom houve com a consciência do seu ‘eu’, mesclada com a dos outros ‘eu’ que a precederam” (12).

A segunda revisão da vida passada
O reavivar da consciência e a segunda revisão da vida passada faz-se depois do período de Gestação e imediatamente antes da entrada no Devachan. Tal se verifica após a Luta Mortal, quando da separação definitiva da Tríade imortal dos “restos” do quaternário inferior, e da já referida absorção do que pode ser considerado o “aroma” espiritual da personalidade.

No fim do período de gestação, as memórias começam a chegar lentamente ao Ego Espiritual, processo que é completado no momento da entrada no Devachan. Nesse momento, a vida passa novamente, minuto a minuto, evento a evento, à frente do “olho espiritual” do Ego.

Refira-se que, para que seja possível acordar no Devachan para a vida latente da consciência – e especialmente para realidades da personalidade individual –, são necessários os mais altos atributos do quinto princípio (Manas), pois o sexto (Buddhi) e o sétimo (Atman) princípios constituem a Mónada – eterna e imortal mas, também, inconsciente. Consequentemente, do passado nada permanece a não ser aquilo que o Ego “sentiu” e viveu espiritualmente. O que vai para o Devachan é portanto o Ego pessoal – mas purificado e glorificado.

O Devachan
O Devachan é um estado em que o Ego recebe gratificação pelo altruísmo exercido durante a vida terrena. Nele, o ser está completamente envolvido na beatitude de todas as suas afeições, preferências e pensamentos, recebendo os frutos das suas acções meritórias.

Nenhuma dor, pesar ou lamentação, se abate sobre o ser no Devachan. Se um homem teve um momento de pura felicidade na sua vida, o Devachan vive o prolongamento indefinido e os infinitos desenvolvimentos desse momento único. Ali todas as esperanças, aspirações e sonhos não concretizados, se tornam inteiramente realizados. Pode dizer-se que os sonhos do mundo da objectividade se transformam nas realidades da existência nesse mundo da subjectividade.

No entanto, para existir uma tal vivência perfeita, as nossas vidas pessoais têm que ter algum conteúdo significativo que marque a consciência superior. O destino dos Egos no Devachan depende da natureza da personalidade e dos feitos na vida precedente.

No Devachan podemos desenvolver uma actividade que gostamos e pela qual lutámos durante a vida, desde que a actividade seja da esfera do Mental Superior – por exemplo, actividades abstractas e de ideais, como a música, a pintura, a metafísica, etc. Refira-se, porém, que o Devachan é uma continuação idealizada e subjectiva da vida terrena mas não um estado de omnisciência.

A existência no Devachan pode ser muito longa em termos de anos terrestres (por vezes milhares de anos), sendo proporcional ao conteúdo espiritual da vida passada (um ser humano altamente espiritualizado pode, contudo, renunciar ao Devachan, voltando mais rapidamente à encarnação física para evoluir e servir). O factor determinante da sua duração é o Karma. A lei do Karma resulta da lei da retribuição, a qual nos diz que todo o efeito é proporcional à causa. Neste sentido, em todos os momentos da nossa vida presente, estamos a produzir as causas da nossa vida futura. Entretanto, devemos ter em atenção que o factor kármico determinante em cada momento é, acima de tudo, a natureza interna dos pensamentos e acções que o caracterizam, e não as suas circunstâncias físicas.

Apesar da sua longa duração, o ser no Devachan não tem noção do tempo, tal como a concebemos. Poderemos compreender melhor esta ideia ao recordar que a noção de tempo é algo específico e intrinsecamente ligado ao plano em que nos encontramos. Uma vez que o ser no Devachan se encontra no plano mental superior, o tempo é algo cuja percepção é completamente diferente daquela que experimentamos no plano físico.

O Renascimento
A vivência no Devachan dura até que o Karma seja satisfeito. Então, o ser move-se para a próxima “área de causas”. A vida no Devachan atinge, portanto, um auge, após o qual se assiste a uma gradual perda de forças e a uma entrada num estado de letargia até que o ser faz a terceira revisão da sua vida. Inicia-se, posteriormente, o processo conducente a nova reencarnação.

Vejamos o que condiciona este renascimento. Embora o homem morra e os seus veículos se dissipem, eles deixam resíduos nos mundos internos. Estes resíduos são tendências e predisposições (os chamados skandhas) psíquicas, mentais e físicas, como resultado do acumular de experiências nas vidas passadas. O balanço desse processo é trazido para a próxima reencarnação.

Como já referido, no Kama-Loka são deixados os resíduos de acções e pensamentos que não são suficientemente puros para entrar nos mundos superiores. Estes resíduos formam os chamados elementares humanos. São estes elementares que vão entrar na composição do novo corpo que nasce dentro do ovo áurico (13). Estes elementares são átomos de vida deixados pela vida prévia, que esperam ser acordados para se tornarem activos novamente. Estas características residuais irão manifestar-se no carácter do futuro homem. É nessa entidade que o Ego vai entrar após deixar o estado devachânico. Esta nova forma é, deste modo, composta em parte de essência akáshica pura e, noutra parte, de elementos terrestres recolhidos na última vida.

O modelo da futura personalidade é assim determinado pela vida anterior. O Ego Espiritual não o escolhe mas, acordando do estado de Devachan, tem uma visão da vida que o espera, e percebe todas as causas que ali o conduziram.

O ciclo está assim completo, desde a morte até ao renascimento. Vimos a entrada em inconsciência na morte, seguida do Sono Akáshico no Kama-Loka, da Luta Mortal e, ainda, da prolongada bem-aventurança no Devachan, culminando finalmente num novo período de perda de consciência quando, antes do início da nova vida, acordamos para uma nova encarnação. Para esta, trazemos alguns dons aperfeiçoados da vida anterior mas, também, algumas limitações kármicas (ver síntese de todos estes estados em quadro anexo). Temos, contudo, na vida que se segue, uma nova oportunidade de as ultrapassar.

Helena Castanheira
Licenciada em Gestão de Empresas

NOTAS:

(1) O fenómeno da morte deve ser enquadrado nas seguintes leis da doutrina esotérica: a Lei da Retribuição (ou do Karma), a Lei dos Ciclos, a Lei da Reencarnação e a Lei da Evolução.
(2) H. P. Blavatsky, “Collected Writings, Vol. XI”, Electronic Book Edition. Theosophical Publishing House, 2002.
(3) “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnet” – Volumes I e II. Ed. Teosófica – SP – Brasil, 2001.
(4) Sobre a relação entre os princípios no homem e no cosmos vide Capitulo II de “Imanência e Transcendência de Deus” por José Manuel Anacleto. CLUC, Lisboa, 2002.
(5) Sobre a Constituição oculta do ser humano vide Capitulo IV de “Imanência e Transcendência de Deus” por José Manuel Anacleto. CLUC, Lisboa, 2002; “A Constituição Septenária do Ser Humano” e “Esoterismo, Psiquismo e Artes Ocultas”, por José Manuel Anacleto, nas revistas Biosofia nºs 6 e 22. A leitura destas três referências é recomendável para uma melhor compreensão deste artigo.
(6) Cfr. “A Mente Dual – da Escravidão à Liberdade”, de José Manuel Anacleto, na Biosofia nº 20.
(7) Literalmente: “Fio do Espírito”; a Individualidade que se reencarna no homem, vida após vida, com as suas inumeráveis personalidades enfileiradas como contas de um rosário num cordão.
(8) Sendo Kama (do sânscrito kam, que significa desejar) o corpo do desejo, Kama-Loka significa literalmente mundo do desejo (Loka significa plano ou mundo, em sânscrito). Assim, o Kama-Loka (ou Plano Emocional) é a esfera da emoção, paixão, desejo, satisfação de desejos carnais, atracção, aversão, etc.
(9) Ponte entre o Manas superior e inferior. Serve como meio de comunicação entre ambos e transmite do Ego inferior para o superior todas as impressões pessoais e pensamentos que podem, pela sua natureza, ser assimilados e retidos pela Entidade imperecível e, portanto, tornados imortais como esta.
(10) Os elementares (não confundir com Elementais”) são restos kama-rúpicos de seres humanos em processo de desintegração.
(11) Literalmente “conhecimento”. Termo técnico empregado pelas escolas de filosofia religiosa, tanto antes como durante os primeiros séculos do chamado Cristianismo para designar o objecto de suas investigações (o conhecimento espiritual).
(12) In a “Doutrina Secreta” de Helena Blavatsky. Volume VI, Pgs. 151-152. Editora Pensamento – SP – Brasil, 2000.
(13) Sobre o Ovo Áurico, cfr. o artigo “Temor a Deus”, de José Manuel Anacleto, no nº 25 da Biosofia.

BIBLIOGRAFIA:

“Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnet” – Volumes I e II. Ed. Teosófica – SP – Brasil, 2001.

“Glossário Teosófico” – H.P. Blavatsky – Editora Ground, 1995.

“Vida Después de la Muerte – Devachan y los Estados Post-mortem” – H.P. Blavatsky – Kuthoomi – Blavatsky Editorial México, 2004.

“When We Die” – Geoffrey Farthing – Point Loma Publications, 1994.

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