Edison : Faça-se a Luz!

“Uma postura de não-violência levar-nos-á aos mais altos patamares da ética, o escopo de toda a evolução. Enquanto não pararmos de provocar dano em todos os outros seres vivos do planeta, permaneceremos selvagens”
Thomas Edison

Na história da civilização humana, de entre todos os grandes patamares cruciais que auguram cada novo ciclo, o século XIX foi, por certo, dos mais determinantes. Algo aconteceu que viria a revolucionar o modus vivendi de todo o Planeta – a descoberta e utilização da electricidade.

Na verdade, pode dizer-se: há o “antes”, e o “depois” desse evento. A electricidade, esse grande mistério em que a humanidade se iniciou, veio abrir novas e insuspeitadas fronteiras. Do seu inesgotável filão se desencadearam um “sem-número” de novas conquistas, em todos os domínios, rasgando todos os horizontes – e não apenas no que à ciência e à tecnologia diz respeito mas invadindo, mesmo, a própria bioquímica do ser humano. Com efeito, também a mente humana foi exponencialmente activada, conquistando novíssimos territórios, por meio dos inúmeros estímulos que toda a diversificação de recursos veio proporcionar.

Um dos timoneiros – talvez mesmo o capitão – desta nova realidade foi um sonhador, pois o leme, neste novo mar, unicamente pôde consentir ser domado por sonhadores. O seu nome foi Thomas Alva Edison.

Uma reviravolta na história

Em 1878, Thomas Edison propôs-se obter luz a partir da energia eléctrica. Outros já o haviam feito mas sem o sucesso que ele logrou obter. Perseguia o objectivo de conseguir a “lâmpada perfeita”, uma caixinha mágica que guardasse a luz mas que fosse cristalina para poder deixá-la ver sempre a brilhar.

Era preciso encontrar o “pavio” ideal. Para tanto, inicialmente recorreu a diferentes filamentos metálicos. Depois de inúmeras e árduas experiências, decidiu-se por um fio de algodão parcialmente carbonizado. Montado num balão de vidro onde se produzia o vácuo, aquecia-se com a passagem da corrente eléctrica até ficar incandescente sem, no entanto, se corromper. Ei-la aqui!…

Em 1879, uma irreverente lâmpada assim construída brilhou por 48 horas seguidas e, nas comemorações de fim de ano, uma rua inteira, próxima ao laboratório de Edison, foi iluminada para demonstração pública.

Com efeito, na história da Civilização humana, esta inauguração – esta “abertura da luz” – teve um significado não apenas factual. Esse acontecimento memorável espoletou a abertura de outras numerosas e mais importantes luzes no universo da consciência do homem. Hoje não somos o que somos sem a “luz instantânea”, a televisão, os telemóveis, os inumeráveis aparelhos domésticos, a aeronáutica, os computadores, a internet e tudo o mais cuja utilização e funcionamento radicam na “electricidade controlada”. Ela foi a chave que abriu as portas para a tecnologia. Vivemos na era dos “passes de mágica”, do “instantâneo”, e esquecemo-nos frequentemente que 150 anos antes de nós o mundo estava mergulhado na escuridão. Hoje, à distância de um clique – um quase imperceptível e inconsciente toque no interruptor – instantaneamente se faz luz.

Motivações de um sonhador

A verdadeira arte de criar tem como génese o sonho. Ao longo da vida, Edison criou milhares de pequenos e grandes artefactos, gerados na sua mente prodigiosa. Tinha o vício de descobrir “coisas úteis”, coisas que pudessem facilitar a vida às pessoas individuais e às massas. Adorava a sensação de contribuir para o progresso colectivo em termos práticos mas também intelectuais.
Ao mesmo tempo, Edison era um “curioso das realidades ocultistas”, gostava de tactear no oculto e extrair de lá as suas verdades escondidas. Escreveria ele: “… Darwin mostrou-nos como nós surgimos no Mundo da Matéria, mas este, que ele descreveu, é o mundo menor. A investigação no outro mundo, o Mundo da Mente, nos mostrará coisas bem mais surpreendentes do que as que Darwin, grande homem como ele era, imaginou. A sua Lei Natural diz respeito àquilo a que chamamos matéria. Existe toda uma evidência de que há uma Lei Mental – uma lei que nós bem podemos descobrir ser baseada nos princípios fundamentais expostos pelos grandes mestres Cristo, Confúcio, Buddha… Os limites desta lei mental e do mundo mental que ela governa, eu nem posso imaginar. Nós estamos à beira de descobertas maravilhosas que concernem a tais coisas. No presente, o mundo da mente está cerceado por limitações advenientes do mundo da matéria; porém, em muitos aspectos, a matéria foi já parcialmente dominada. O telefone, o telégrafo, a radiografia, e centenas de outras coisas não serão eles triunfos sobre a matéria?” (1).
(1) The Columbian Magazine, Janeiro de 1911

Na verdade, uma das suas mais empenhadas investigações centrou-se na tentativa de fabrico de um instrumento tal que possibilitasse a comunicação entre este mundo terrestre e o chamado mundo “astral” – para onde prosseguiam os que haviam acabado de desencarnar. Acreditava que deveria haver uma frequência de rádio, entre as ondas longa e curta, capaz de tornar possível alguma forma de contacto com o mundo dos mortos.

Acalentando o sonho de realizar essa forma de comunicação, escreveu no seu diário: “Se, de facto, a nossa personalidade sobrevive, é de supor que retenha a memória, o intelecto e todas as faculdades e conhecimentos adquiridos na passagem terrena. Portanto, se a personalidade existe depois daquilo que chamamos morte, é razoável concluir que aqueles que abandonam esta Terra gostariam de se comunicar com aqueles que aqui deixaram. (…) Se este raciocínio está correcto, então, se conseguirmos criar um instrumento tão refinado que possa ser afectado, ou movido, ou manipulado pela personalidade, na forma como sobrevive do outro lado, será possível registar-se alguma coisa…”.

Trabalhos experimentais do chamado “Fenómeno de Voz” realizaram-se numa fase já tardia da sua vida, aos 73 anos. Nesse mesmo ano, numa edição da Revista Forbes datada de 30 de Outubro de 1920, Edison expôs extensa e publicamente as suas convicções sobre a “Vida depois da Morte”. No âmbito dessas mesmas convicções, aderiu ao “Congresso de Investigações Psíquicas”, em Chicago, e ao seu presidente escreveu o seguinte: “O Congresso será, sem dúvida, proveitoso para o interesse do Espiritualismo, porque dele advirá a distinção entre o verdadeiro e o falso, contribuindo para fazer luz sobre os assuntos. Será positivo para os espiritualistas porque a sua insuperável filosofia tornar-se-á patente.”

E, em outro lugar, ainda a respeito da morte, Edison escreveria: “Temer a morte é ignorar a beleza e os esplendores do espaço infinito, cuja porta se abre à alma fatigada das provas terrestres; é tomar por sombra a luz mais brilhante; é esquecer que ‘nada se perde e tudo se transforma’”.

Efectivamente, desde cedo Thomas Edison foi empenhado e activo na sua busca espiritualista. Em 4 de Abril de 1878, quando tinha 31 anos de idade, enviou o seu pedido de filiação à Sociedade Teosófica e, nos anos que se seguiram, trocou correspondência pessoal com Helena Blavatsky e Henry S. Olcott, fundadores daquela insigne instituição.

Segundo se pode ler nas “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Edison era seguido atentamente pela Hierarquia Oculta (2), designadamente pelo Mestre Morya. Da Carta nº 93B (do Mestre K.H.) extraímos o seguinte trecho, a propósito do significado e importância de um dos seus inventos:
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(2) A Fraternidade de grandes sábios dedicada ao serviço da evolução humana e mundial.

“… O tasímetro de Edison, ajustado ao seu grau máximo de sensibilidade e acoplado a um grande telescópio, poderá ser muito útil quando aperfeiçoado. Nesta associação, o tasímetro poderá medir não só o calor da mais remota das estrelas visíveis, mas detectar, pelas suas radiações invisíveis estrelas que nunca foram vistas (…). O seu inventor [do tasímetro], membro da Sociedade Teosófica, e bastante ‘acompanhado’ por M. [Morya], defende o seguinte: se em qualquer região do espaço – um espaço que parece vazio mesmo para um telescópio da maior potência – o tasímetro assinalar um acréscimo de temperatura, essa será uma prova evidente de que o instrumento tem um corpo estelar no campo da sua observação, mesmo que ele seja não-luminoso e que esteja a uma distância tão grande que fique fora do alcance da visão telescópica. O seu tasímetro, diz ele, ´é sensibilizado por um espectro mais amplo de ondulações etéricas do que aquelas que o olho pode perceber’. A ciência auscultará sons de certos planetas antes de vê-los. Isto é uma profecia” (3).
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(3) Esta previsão estava certa, a profecia cumprir-se-ia: quasers, buracos negros, pulsares, supernovas, e até mesmo a silenciosa “radiação cósmica de fundo” são exemplos das descobertas propiciadas pela radioastronomia.

Com efeito, a primeira observação da emissão de infravermelhos (4) de uma estrela (sem ser o Sol) foi realizada por Edison no ano de 1878, mediante um aparelho que denominou tasímetro. O tasímetro detectava e registava ínfimas modulações de temperatura, na ordem de um milionésimo de grau, por um processo aferido pelas mudanças de pressão suscitadas em determinados sólidos em processo de contracção e expansão. Edison fabricou o seu tasímetro especificamente para poder observar e analisar um eclipse total do Sol cuja data e visibilidade ele próprio havia previsto para uma dada região dos Estados Unidos. Para lá se dirigiu, para Wyoming, onde se veio a encontrar com diversos astrónomos, e preparou-se para observar o eclipse. Enquanto ajustava o seu precioso instrumento, apontou-o na direcção de Arcturus, uma estrela da constelação de Boötes (o Boieiro), acusando a sua presença e dando início, nesse passo, à era da astronomia infravermelha (5). No entanto, muito tempo ainda decorreria até a ciência capitalizar este significativo avanço. Somente a partir do segundo quartel do século vinte se reconheceu cabalmente que os astros emitiam outras ondas para além das luminosas, abrindo-se então o vasto campo da radioastronomia.

A radioastronomia veio trazer enormes somas de conhecimento: designadamente foi ela que permitiu descobrir a natureza e a forma da nossa Via Láctea, bem como de outras galáxias. Todos os grandes avanços da astronomia a ela se devem.

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(4) Os raios infravermelhos situam-se entre a luz visível e os sinais de rádio.
(5) Em 1890 proporia um método para detectar ondas de rádio provenientes do nosso Sol.

A infância de Edison
Thomas Alva Edison nasceu em Milan, no estado norte-americano de Ohio, em 1847. Foi educado em casa, com a mãe, que era professora, ao que parece devido ao insucesso na escola local, chegando a ser considerado “retardado”, principalmente no tocante à matemática. O pai foi um político contestatário no seu país de origem, o Canadá, tendo por isso sofrido o exílio. A família mudou-se para Port Huron, no Michigan, quando Thomas tinha sete anos.
Guiado e encorajado pela mãe, o pequeno Thomas deliciava-se com as leituras proporcionadas na recheada biblioteca do pai e, ainda não tinha dez anos, já havia devorado dezenas de livros, especialmente os de ciência. Por essa idade, instalou um rudimentar laboratório na despensa da casa, onde tentava reproduzir as experiências químicas descritas nos livros de texto.
Aos doze anos começou a trabalhar nos vagões dos caminhos-de-ferro Grand-Trunk, entre Port Huron e Detroit, como vendedor de jornais, guloseimas e fruta. Enquanto esperava o comboio de regresso a Port Huron, lia livros de química e electricidade na biblioteca pública de Detroit. Com o dinheiro ganho pôde comprar uma prensa manual e uma caixa tipográfica usadas, para imprimir o seu próprio e incipiente jornal – já revelava o ardoroso espírito de iniciativa e a curiosidade insaciável que o haveria de levar à genialidade. Em breve a sua “folha” impressa era lida por cerca de 300 pessoas. Naquelas andanças, nos intervalos da venda dos jornais, fazia experiências com produtos químicos e baterias num laboratório que havia improvisado no furgão de mercadorias. Desafortunadamente, provocou um pequeno incêndio, pelo que as suas actividades de “pequeno delito” foram descobertas, sendo então expulso e proibido de exercer a venda. Foi no decurso destas viagens que Thomas Edison sofreu um acidente que lhe havia de acarretar consequências para toda a vida: quando o comboio se encontrava já em marcha, foi içado por um guarda-freio que precipitada e violentamente o pegou por uma orelha, provocando-lhe uma surdez progressiva e permanente.
Certo dia, com a idade de 15 anos, Thomas Edison salvou de morrer debaixo dos carris o filho de um empregado da Grand-Trunk, e este, como gratidão, ensinou-lhe os segredos da telegrafia e conseguiu que a Companhia o nomeasse telegrafista em Stratford. Foi nesse cargo que realizou o seu primeiro invento. Uma das suas obrigações era o envio regular, de meia em meia hora, do sinal “6” em morse à estação vizinha. Em breve inventou um dispositivo que, accionado por um relógio, transmitia a mensagem à hora exacta, libertando-o da maçada. Pouco tempo volvido, o chefe da estação descobriu a sua “marosca” e o jovem Thomas foi despedido.
Os primeiros tempos de uma carreira fulgurante
Em 1869, Thomas viajou até Boston, onde, a 1 de Junho desse mesmo ano, obteve a sua primeira patente com um contador de votos que concebeu para o Senado. Ainda nesse ano transferiu-se para Nova Iorque e conseguiu trabalho na Bolsa de Valores como reparador do indicador de preços da Bolsa. Ali encontrou muitos dos financiadores que viriam a apoiar os seus ulteriores projectos. Também ali, inventou e patenteou uma revolucionária impressora-registadora de cotização de valores em Bolsa – a “Edison Universal Stock Printer”, cujos direitos foram depois adquiridos pela Western Union. Esta empresa pagou-lhe a vultuosa soma de 40.000 dólares, o suficiente para montar o laboratório com que sempre sonhara.
Instalou-o perto de Newark e logo chamou para colaborar consigo diversos ajudantes, entre os quais um grupo de operários especializados. Edison possuía a capacidade de vislumbrar o que havia de melhor em cada um dos elementos que atraía para a sua equipa de trabalho. Tinha um jeito todo especial para coordená-los e criar sinergia a partir das suas aptidões particulares. Era uma qualidade rara, pois a maioria dos grandes inventores parece ter tendência para algum autismo. A sua fenomenal carreira havia começado.
No ano de 1871, casou-se com Mary Stilwell, com quem viria a ter uma filha e dois filhos. No dia da cerimónia, Edison aproveitou para mostrar aos convidados – quase todos eles industriais, homens de negócios, cientistas – os recém-instalados laboratório e oficinas. Nessa apresentação, contudo, pôs os olhos numa experiência que deixara inacabada e, interrompendo o que estava a dizer, não resistiu a mergulhar no trabalho, a ponto de deixar esquecidos a noiva e os convidados. A festa teve de continuar sem a sua presença. A sua prioridade e devoção eram o trabalho.
Nos meses seguintes, desenhou um telégrafo automático de alta velocidade que podia emitir mil palavras por minuto e, um ano depois, inventou o sistema “Quadruplex”, que permitia transmitir quatro telegramas em simultâneo pelo mesmo fio. Todavia, neste caso, deparava-se com problemas de interferência de sinais suscitados pela multiplicidade de envios telegráficos em simultâneo, e tal facto acabou por o forçar a empenhar-se cada vez mais nos estudos de electromagnetismo e de química. Em resultado disso, veio a montar departamentos específicos de electricidade e de química nos seus laboratórios. Por essa altura, o número de patentes por si registadas ultrapassava já as 200.
No ano de 1876 transferiu-se, com toda a sua equipa – um grupo enorme de assistentes e uma multidão de trabalhadores –, para umas instalações bem mais amplas, em Menlo Park, um local estratégico a meio caminho entre Nova Iorque e Filadélfia. Durante cinco anos, foi ali o seu porto seguro.

Menlo Park

Nesse ano de 1876, Edison criou um gigante industrial que, igualmente de forma pioneira, incorporava um complexo laboratorial e uma estrutura de vendas massivas. Foi daqui, de Menlo Park, que ele veio a desenvolver alguns dos seus maiores inventos, como a lâmpada incandescente e o fonógrafo. Daqui igualmente saíram inventos como o mimeógrafo, um aparelho para fazer cópias de papel escrito em grande escala (o antecessor da fotocopiadora); o kinetoscópio (o precursor do cinematógrafo); o transistor; as pilhas alcalinas; e uma pluralidade de pequenos mas pertinentes artefactos como fichas, tomadas, interruptores, fusíveis, fitas isoladoras e outros dispositivos para o sistema de distribuição eléctrica. A fita isoladora abriria caminho para a fita-cola multiusos, também por ele comercializada, desde então.
Em 1878, Edison trabalhou para a Western Union com vista a introduzir melhoramentos no protótipo de telefone de Elisha Gray (6) (que agora pertencia àquela companhia), a fim de poderem competir directamente com Alexander Graham Bell. Nasceu, desse modo, o microfone de grânulos de carvão, uma espécie de bobina amplificadora que permitia aumentar a propagação do som para centenas de quilómetros. Edison conseguiu desenvolver um aparelho que colocou a Western Union em efectiva vantagem em termos de eficácia e em termos comerciais.
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(6) Elisha Gray foi um dos três inventores que reclamaram para si os créditos da invenção do telefone: os outros dois foram o americano Alexander Graham Bell e o italiano Antonio Meucci. O transmissor de Gray é suposto ter sido inspirado num dispositivo muito antigo conhecido como “telefone dos amantes”, no qual dois diafragmas eram unidos por um fio esticado, e a voz era transmitida unicamente pela vibração mecânica do fio.

Bell patenteou o seu telefone nos Estados Unidos no inicio de 1876 e, por estranha coincidência, Elisha Gray fez o mesmo no mesmo dia. Antonio Meucci apresentaria provas bastante convincentes de que anteriormente a estes dois, em 1849, tinha experimentado a emissão de voz pela corrente eléctrica em Havana, Cuba, por meio de um aparelho que concebera. Em 1871 entregou um requerimento de patente para o seu engenho no Gabinete de Patentes dos Estados Unidos e tentou convencer o presidente da Companhia Telegráfica de Nova Iorque a experimentar o instrumento. Uma doença de que padecia e a escassez de recursos materiais retardaram as suas experiências e impediram que terminasse o protótipo e que formalizasse o requerimento da sua patente.

No decurso destas suas pesquisas votadas ao aprimoramento do telefone, Edison descobriu um método de gravar o som (7). No ano seguinte, apresentaria publicamente o extraordinário invento que foi sempre o seu favorito – o fonógrafo –, sendo, por esse facto, frequentemente chamado de “o Mago de Menlopark”, ou “o Inventor da Era”.
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(7) Esta descoberta foi realizada com a participação de Emile Berliner, responsável pela sua posterior comercialização, em 1888.

Segundo confidências suas, na época, uma das grandes motivações que estiveram por detrás desta invenção foi a expectativa de encontrar um mecanismo que possibilitasse a comunicação com o Além. A esta motivação somaram-se, naturalmente, outras: Edison incluía nos seus sonhos a possibilidade de ser útil aos invisuais com uma espécie de “livros falantes”. Depois, passaram na sua mente vantagens outras, mais universalmente dirigidas – o ditafone, a aprendizagem à distância, o ensino da elocução, a preservação de línguas em extinção, relógios falantes, a audição de música e, até, a imortalização das últimas palavras de vida de uma pessoa… Todas estas utilidades ele enunciou, com alguma emoção, aquando da apresentação do espantoso instrumento. Decorreu, contudo, uma década até o fonógrafo ser comercializado mundialmente e ser um sucesso, particularmente entre os músicos. Muitos foram aqueles que, na sequência desta descoberta, pisaram os escritórios do “mago”. Muito mais tarde, em 1915, Edison, malgrado a sua surdez, assumiria a tarefa de contratar artistas para gravarem para a sua empresa fonográfica. Na verdade, era ele o único seleccionador dos músicos, valendo-se de um bizarro expediente para ouvir as gravações no fonógrafo. Encostava a cabeça ao aparelho e mordia a madeira para que as vibrações ecoassem no interior do crânio amplificando a sua escassíssima audição.
A sua paixão pela música ficou registada num episódio no mínimo curioso. Thomas Edison enviaria para Puccini, de quem era um ardoroso admirador, um presente – um fonógrafo com a tuba revestida a ouro –, e junto fez seguir a mensagem: “Outros farão inventos maiores do que o meu. Mas ninguém fará música melhor do que Puccini”.
A partir dos finais daquele mesmo ano de 1878, Edison devotou trinta meses a conceber um sistema completo de iluminação eléctrica (8). Inventou e testou numerosos sistemas de geração (9), distribuição, regulação e medição da corrente eléctrica e da voltagem, e construiu o primeiro motor eléctrico feito para 110 a 120 volts (10). Em 21 de Outubro de 1879 realizou a primeira demonstração pública do funcionamento da sua lâmpada incandescente para 3000 pessoas que se reuniram em Menlo Park.
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(8) No entanto, anos mais tarde, o seu uso da corrente contínua viu-se abandonado ante o sistema de corrente alterna desenvolvido pelos inventores Nikola Tesla (seu colaborador de muitos anos) e Westinghouse.
(9) Logo no ano seguinte (1879), construiu os primeiros geradores para os sistemas de distribuição da corrente eléctrica.
(10) Este aparelho ainda existe e está operativo, podendo ser visto no “Edison Historical Collection” em Nova Iorque.

No decurso de todo este processo de investigações foi notada a formação de um certo fenómeno eléctrico (11), a que Edison chamou a “força etérica” mas que ficou depois conhecido por “Efeito de Edison”, o qual permitiria, anos mais tarde, o desenvolvimento do dispositivo electrónico conhecido como díodo (Lee De Forest), que daria lugar ao advento da moderna revolução da electrónica.
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(11) … o fluxo de electrões num filamento incandescente, fenómeno que não foi logo suficientemente interpretado, nem tão-pouco as suas profundas implicações. Doze anos mais tarde este fenómeno seria reconhecido como tratando-se de “… ondas eléctricas no espaço aberto” e veio a constituir a base da telegrafia sem fios. Esta descoberta viria a desembocar no conhecimento dos princípios fundamentais em que o díodo (posteriormente inventado) se baseou, e a partir do qual os transístores da rádio, da televisão e do computador foram por sua vez baseados.

Em 1881 deixou Menlo Park para estabelecer fábricas e escritórios em Nova Iorque e noutros locais. Nos dois anos que se seguiram completou a construção da primeira central de luz e energia e, em três anos mais, logrou difundir o seu sistema de energia eléctrica, estendendo-o a todo o mundo.

A Fábrica de Inventos de West Orange
Edison construía agora um colosso laboratorial e fabril em West Orange, Nova Jersey, que se manteve inultrapassável durante o meio século seguinte. Ali trabalhavam, nessa altura, alguns milhares de pessoas.
Os primeiros tempos foram de empenho absoluto no inédito, extraordinário empreendimento da iluminação do planeta. Por esta fase (em 1884), faleceu-lhe a sua primeira mulher, vítima de febre tifóide, e dois anos volvidos casaria de novo, desta vez com Mina Miller, com quem teria mais um filho e duas filhas.
Entre 1881 e 1887, inventou o sistema da telegrafia sem fios (por indução) para comboios em movimento, ou entre comboios em movimento e as estações. Inventou um sistema de comunicação sem fios para navios em alto mar, cuja patente mais tarde viria a ser transferida por Edison para a “Marconi Wireless Telegraph Company”.
Em 1888 e 1889, dedicou vários meses a uma nova versão do fonógrafo, que fazia uso, desta vez, de cilindros recobertos de cera (ao invés de cilindros revestidos a folha de estanho, como era o caso da primeira) para a gravação dos sons. Estes saíam agora mais cristalinos, avançando para uma mais próxima fidelidade aos originais. Obteve para cima de 80 patentes relacionadas com a fonografia, enquanto estabelecia um extenso negócio comercial de fabrico e venda de discos, incluindo máquinas de ditado. Na época, patenteou igualmente uma máquina de barbear eléctrica.
Em 1891 incluiu no seu extenso rol de produções diversos tipos de cimentos e introduziu o betão armado. Com eles foram construídos quarteirões inteiros de edifícios, barragens e até um estádio (o primeiro “Yankee Stadium”, fundado em 1923) – uma mega-indústria em franca expansão, que acrescentou muitos milhões à sua conta já então abastada. Da especialização em tipos de cimentos partiria para a produção pioneira de módulos de cimento pré-fabricados, que adicionalmente abririam portas para o conceito novo de construção das chamadas “casas pré-fabricadas” (12). O tipo de fornos que desenvolveu para a construção destas casas veio a ter uma importância enorme na indústria do cimento. Montaria, ainda, uma companhia de extracção e processamento de minério de ferro, na qual realizou alguns dos seus mais brilhantes trabalhos de engenharia. Entre as suas grandes invenções deste período, contam-se a gigante calandra mineira, um máquina-rolo que se destinava a partir, e depois desfazer, grandes massas rochosas.
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(12) As primeiras destas casas que Edison idealizou eram monoblocos feitos em betão líquido. Os moldes destinados à projectada construção em série eram de dimensões colossais, em aço fundido. Este material não agradou à maior parte dos candidatos a compradores. A ideia dos pré-fabricados, contudo, teve uma evolução satisfatória noutros materiais e com a devida adaptação ao gosto dos clientes.

Inventou, igualmente, o fluoroscópio, ao tomar consciência da necessidade e valia de um écran fluorescente para os exames de raios-X. Neste âmbito, fez também importantes melhoramentos no tubo de raios-X.
Em 1894 produziu o kinetógrafo, um aparelho fotográfico que permitia captar imagens em série, e o kinetoscópio, que permitia a visualização individual de imagens animadas numa caixa de madeira com um óculo. O kinetoscópio em breve (1896) sofreria alterações substantivas: devido a elas, podia-se agora visionar colectivamente a sucessão de cenas projectadas num grande écran. Foi então re-baptizado como vitascópio. Causou a maior sensação! A cor, embora imperfeita, foi utilizada em alguns dos primeiros filmes, sendo cada uma das imagens meticulosamente pintada à mão. Dava-se o primeiro passo dos filmes artísticos animados.
Nessa fase, Edison estabeleceu, com a colaboração de George Eastman, a largura de película de 35mm (que se tornou padrão internacional), com perfurações das laterais, que ainda se emprega nas películas exibidas nas salas de cinema e nas câmaras fotográficas compactas.
Entre 1910 e 1914 trabalhou e introduziu muitos melhoramentos na sua indústria fonográfica, que permitia a reprodução da voz e da música instrumental com cada vez mais fidelidade. Introduziu a agulha de diamante para leitura dos sons e o “disco indestrutível”. Iniciou-se, igualmente, na produção de instrumentos musicais.
Em 1913 sincronizaria o kinetoscópio com o fonógrafo, para produzir o primeiro filme sonoro da história do cinema. Convicto de que as vendas de fonógrafos aumentariam se se conjugasse a possibilidade da audição dos artistas em voga com a sua própria imagem, Edison investiu cerca de 24.000 dólares neste projecto.
Por essa mesma época, igualmente a dos primórdios da indústria automóvel, depositavam-se fortes esperanças na possibilidade de fabrico de um veículo movido a electricidade. Edison dedicou a primeira década do século a tentar desenvolver uma bateria suficientemente rentável e adequada. Se bem que o sistema a gasolina tivesse prevalecido, a bateria por ele concebida provou ser da maior eficácia e obteve sucesso em variadas indústrias (13). Na mesma altura, da sua mente e da sua fábrica saiu ainda um projecto de locomotiva também ela movida a electricidade. Paralelamente, criou e dirigiu ele próprio novas empresas e fábricas destinadas ao tratamento de minérios.
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(13) A bateria - um acumulador alcalino de níquel - foi o resultado de milhares de experiências (consta que cerca de 50.000).

Durante a 1ª Guerra Mundial encabeçou a Comissão Consultiva Naval e participou, com o desenvolvimento de novas ideias e de uma lista considerável de novos dispositivos, no sistema de protecção dos barcos, nomeadamente, contra torpedos, bem como no fabrico de produtos químicos para uso da Marinha.
Finalizada a guerra, e na idade dos 80, Edison chamou a si a tarefa hercúlea de supervisão da análise de 17 000 plantas (que fossem nativas ou que provassem poder sobreviver em solo americano) para a sua possível aplicação à produção de borracha; no final, elegeu uma, a virgáuria ou vara-de-ouro (Solidago sempervirens). Por cruzamento entre espécies, produziu uma virgáuria de 4m de altura e dela extraiu conteúdos de borracha na ordem dos 4 a 12%. O seu laboratório ultimou a tarefa de vulcanização desta borracha, tornando-a apta para as indústrias, cerca de dez dias antes da sua morte. Edison deixar-nos-ia aos 84 anos, corria o ano de 1931.
A magnitude do conjunto da sua obra, tanto no que se refere às descobertas estritamente pessoais como à sua capacidade de dirigir e coordenar outros talentos, deles extraindo frutos inusuais, mal pôde aferir-se pelo número de patentes que somou – 1368 registadas em todo o mundo. Ficou na história como “o maior inventor de todos os tempos”!

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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