Perscrutando a Harmonia perdida – a Música na Adolescência

“A música está muito presente nas nossas vidas (…). A música pesada, por exemplo, quando estou a estudar, consigo considerá-la boa música. Música a adormecer, música a acordar. (…) Todos temos a música sempre presente na nossa vida. Estamos sempre, sempre, a ouvir música” (1).

A omnipresença da música
A música, através dos sons e silêncios que lhe dão vida, entremeia tudo, em qualquer contexto, aparência ou forma. Até nós mesmos. Tantas vezes de modo imperceptível, subtil ou ignorado… por vezes de forma deliberada, apetecida ou apaixonada. No início era o Verbo… por estas ou por semelhantes palavras se alude, nas diversas concepções religiosas, à criação dos mundos ora conhecidos e aos acordes que os sustentam. “O universo é a canção do seu Criador” (2). Ao som (bem como à entoação), desde há muito que é reconhecido um poder criador… ou destruidor.

Para Pitágoras, Sócrates ou Platão, se nós conhecêssemos o acorde do nosso “ser mais íntimo”, da psyché ou alma, e nos sintonizássemos com Ele, logo harmonizaríamos o nosso corpo, o modo como pensamos e sentimos, em conformidade com esse Ser profundo que nos anima, tornando-nos perfeitos (3). Uma das nossas maiores dificuldades é ouvirmo-nos e discernirmos o que é harmonioso e engrandecedor, em lugar do que é dissonante, redutor e, eventualmente, patológico.
Música deriva de mousiké, liga-se ao templo ou à arte das musas, da qual todas as artes derivaram (4). Para Platão “a música é a filosofia dos deuses. Foi-nos dada, por causa da harmonia, pelas musas, como uma ajuda para a revolução íntima da alma, quando esta perdeu a sua harmonia, e para apoiar a restauração da sua ordem e a reconciliar consigo própria”. Mais tarde, um professor definiu-a assim: “A música é um fenómeno acústico para o prosaico; um problema de melodia, harmonia e ritmo para o teórico; e o desdobramento das asas da alma, o despertar e a realização de todos os sonhos e anseios de quem verdadeiramente a ama” (5).
A vida em si mesma é movimento e o movimento gera som. Então, a vida também é som e, num certo sentido, tudo é música (6). Daí ser natural comunicarmos pelo som (7). Qualquer coisa, objecto, ideação, ser, tanto ao nível do micro como do macrocosmos, é (uma forma de) energia, tem uma vibração própria caracterizada em particular por alguma nota ou acorde. Mesmo no silêncio, há algo de subtil que sempre vibra e permanece como um enigma silencioso por descobrir e despertar. Segundo o músico John Cage, “não existe silêncio total porque há sempre algo que emite um som”. E é “nesse silêncio” que podemos tentar escutar o ecoar “desse som primordial” em vias de se manifestar sensitivamente, até mesmo no olhar distante dos adolescentes que, indecisos, curiosos, perdidos ou receosos, hesitam em falar.
A verdade é que o silêncio precede sempre o som. Contudo, é filosoficamente inconcebível, tal como o nada ou o vazio. É somente ao aprendermos a escutar e ao começarmos a perscrutar o “silêncio interior” que iniciamos verdadeiramente o caminho de auto-descoberta e de alguma revelação (ainda que ínfima e fugidia) acerca de quem somos, do que somos, donde vimos e para onde vamos. Aos poucos começamos a entender o caminho que queremos realmente percorrer, com a estranha e incómoda sensação que é ao pensarmos e agirmos por dever (e não por atracção, repulsão… ou indiferença) que nos é oferecida uma sensação (agridoce) de liberdade.

“No Silêncio – só no Silêncio – no vazio que é repleto – só no vazio que é repleto – no nada que é tudo – só no nada que é tudo – há Liberdade” 8).

A premência da música na adolescência
Todos nós “navegamos” continuamente em múltiplos sons, mesmo se absortos em preocupações, ruídos e interferências típicas, nesta “sociedade do prazer, da informação e do conhecimento”, apressada e tecnologicamente dependente. Isso é habitualmente evidente num jovem adolescente, na sua ânsia de crescer, autonomizar-se e sentir-se livre (9). Sendo a adolescência um período caracterizado por grande inquietação, dúvidas existenciais essenciais, emoções cambiantes e momentos ora de desequilíbrio, ora de equilíbrio - num caminho fecundo de descobertas, sentimentos pulsantes e intensos, animado ao som da música -, e dada a relação tão íntima verificada entre as emoções e a música, é lógico que exista uma estreita ligação entre a adolescência e a música. Quem melhor do que os adolescentes - procurando entender o que a vida lhes transmite e na ânsia de sentir que estão mesmo a viver - realçará o que a música suscita? Como os poderemos compreender (e a todos nós…) se não conhecermos minimamente a música que ouvem e apreciam?**
Algumas práticas comuns na adolescência associam-se às chamadas culturas juvenis, relacionam-se em especial com a integração social de cada jovem, através da partilha e acúmulo de experiências e referências identitárias, bem como de disposições simbólicas, normativas, morais, ideológicas e culturais específicas. Entre estas destaca-se a música, essencial na formação da identidade pessoal e social, no estimular da sociabilidade e na socialização na adolescência (10). A música escutada em grupo, p.e. nos grandes concertos de rock, é um bom exemplo deste processo.
Num estudo recente verificou-se entre jovens portugueses dos 15 aos 29 anos, que apenas 1,1% diz nunca ouvir música! Perto de 50% prefere ouvir música agradável, alegre, divertida ou que descontraia; ao chegar a casa, 80% ouvem música e 70% estudam ou trabalham ao som da música (11). Um outro estudo revelou que 92,3% dos jovens ouve música todos os dias, tendo por hábito pôr a música a tocar em casa mas apenas cerca de 5% estão única e exclusivamente concentrados na música; para mais de 20% dos jovens inquiridos, a música é uma componente importante na sua formação como pessoa, sendo que 42% a associam a distracção e a prazer, e 22% dizem não poder viver sem ela; para 54% desses jovens, a música influencia a sua personalidade, enquanto quase 91% relevou a influência da mesma no seu estado de espírito (ou temperamento), quase 46% nos seus comportamentos, 53% nas atitudes, e cerca de 27% no seu aspecto visual (12).
Nalguns casos, a atenção dada pelos jovens à música poderá ser superada pelo tempo concedido à televisão, à internet, aos filmes ou aos jogos. Mas, em geral, a actividade de lazer mais comum entre os jovens adolescentes continua a ser ouvir música, não só nos tempos livres mas “no âmbito das actividades que estes adolescentes realizam, independentemente do contexto em que elas se realizam” (13). Por exemplo, numa investigação realizada também com jovens portugueses observou-se que para 30% a música é importante na sua vida, e para 50% é mesmo bastante/muito importante (14). Emerge assim com uma premência inquestionável, indissociável do actual quotidiano adolescente, e imprescindível no seu desenvolvimento emocional, mental, moral e social.

Efeitos da música, em especial, na adolescência
A sós, acompanhado ou em grupo, no quarto ou em grandes salas, em viagem, a trabalhar, a estudar, …, na rádio, na televisão, num cd, dvd ou na internet, em público (até no metro e nos autocarros), num local de convívio ou divertimento, …. a música pode escutar-se em qualquer momento. A tecnologia actual (portátil e sem fios) deixa o tema favorito ao alcance de um click.
A música, sendo muitas vezes escolhida conforme o que se sente no momento, influi sempre no estado emocional do ouvinte. Daí, também, a importância da música, e da Musicoterapia, no acompanhamento de certos adolescentes com dificuldades desenvolvimentais mas, sobretudo, como uma disciplina regular que se espera poder vir a ser implementada nas escolas, na educação global e integral da criança e do adolescente, para estimular a sua auto-descoberta, o desenvolvimento das suas potencialidades, a harmonia e uma melhor comunicação/interacção com o exterior (15).
“O Homem deve buscar a Música do futuro dentro de si mesmo mediante a comunhão com o seu próprio ser profundo ou espiritual e, por intermédio deste, com todo o universo. Encarada deste modo, a Música, baseada na compreensão da vida, da essência dos seres (…), mais fácil, definida e ostensivamente terá uma função terapêutica que, a pouco e pouco, se irá impondo. Ter-se-á em conta, cada vez mais, o efeito da Música, de cada tipo de musicalidade, de cada obra musical nas pessoas que a ouvem, e maior cuidado será posto na sua produção e na escolha da sua audição para cada um e para cada situação ou estado físico ou psíquico” (16).
Conforme a qualidade, intensidade, ritmo e frequência dos estímulos sonoros, a música tanto pode induzir efeitos edificantes e positivos como desestruturantes e negativos no ser humano (17). Quaisquer que sejam as circunstâncias e influências em que a música germina, sabemos há muito que ela veicula uma força poderosa, capaz de alterar a nossa percepção e cognição. Na infância incute efeitos duradouros no desenvolvimento psicológico, que se repercutem claramente na criança, no adolescente e, mais tarde, no adulto (18). Sabemos igualmente que alguns tipos de música ajudam a descontrair, acalmar ou dispor bem. E que músicas com um ritmo muito forte ou sincopado, ainda que sejam estimulantes, podem ter um efeito (no mínimo) dispersivo no sistema nervoso, dificultando a concentração ou descontracção.
Qualquer adolescente precisa de sentir-se ligado a si, a algo e a alguém, ser apreciado, estabelecer laços afectivos, comunicar e partilhar o que pensa e sente. A música pode ajudá-lo a reflectir, sonhar, vivenciar, imaginar ou exprimir o que sente, ainda que através da peça musical que ouve ou pelas palavras de outrem. E pode contribuir tanto para viver momentos de grande diversão ou exaltação, como para aliviar ou atenuar certas tensões e apreensões. Dada a sua forte associação com as emoções (como a euforia, a melancolia, a alegria ou a tristeza), a música pode também influenciar o comportamento, o funcionamento corporal e o estado psicológico ou emocional (19) do adolescente, servindo de via, refúgio ou suporte emocional, até nos períodos de isolamento ou incompreensão, ou funcionando como espelho de pensamentos, símbolos e sentimentos.
Dada a suposta relação de algumas músicas (e do seu conteúdo) com a criatividade e o desenvolvimento da sensibilidade e inteligência, por um lado, e com os distúrbios psicológicos, as condutas suicidas ou para-suicidas adolescentes, por outro, várias pesquisas têm sido efectuadas. É assim que as preferências musicais constituem um importante indicador para os técnicos de saúde, auxiliando-os nos cuidados primários a prestar (20).
O que continua por estudar é o efeito de músicas que, pela sua composição, ritmo, compasso e timbre, veiculam algumas qualidades associadas a quaisquer dos sete principais tipos de temperamento humano, ou às sete qualidades fundamentais da vida. “O músico do futuro penetrará no fundo de si mesmo e, em silêncio e calma, encontrará a musicalidade íntima do seu ser e dos outros seres” (21). Então a música será uma terapia aperfeiçoada.

Preferências musicais adolescentes
A música pode aproximar os membros de um grupo de adolescentes, unindo-os em redor de uma tarefa ou objectivo comum, compensando ou prevalecendo sobre aquilo que os separa ou distingue, dadas as suas pertenças sociais, referências ideológicas, simbólicas ou outras. A preferência por certas músicas, as ideias e os comportamentos que se lhe associam, podem variar consoante a etnia, a cultura, a religião, o contexto, a idade e o sexo. Os estilos de música preferidos podem até diferenciar algumas (sub)culturas juvenis, periféricas à cultura de massas, ao oferecer referências ou modelos de identificação. Por exemplo, pelo modo como se vestem, apresentam ou comportam, não é difícil reconhecermos os jovens que se designam como punks, metálicos, góticos ou rappers.
Os jovens procuram na música alguma autenticidade, afirmação, um meio de integração ou distinção na sociedade. Quando em meados do século XX surgiu o estilo designado por rock, enquanto contra-cultura ou provocação, revelou-se essencial na procura identitária adolescente, passando a ser genericamente utilizado para definir a música jovem. A combinação de ritmos, vozes e melodia parece ser tão importante como as letras para suscitar uma preferência musical.
Na prática, os adolescentes podem gostar de vários tipos ou estilos musicais. Entre os estilos actuais mais comuns encontramos, p.e., o rock, hard rock, heavy metal, black metal, grunge, alternative rock, new metal (ou nu metal), punk, pop, pop/rock, trip-hop, hip-hop, etc. É muito difícil, senão impossível, categorizar o estilo de um dado autor ou grupo pois, frequentemente, o mesmo apresenta características diversas, nas fronteiras de vários estilos; por outro lado, ele pode compor música com estilos diferentes. Os estilos musicais tendem a esbater-se e muitos dos gostos revelados pelos jovens são transitórios, enquanto que outros são convictos e permanecem no tempo.
Numa investigação recente, ao questionarmos adolescentes de ambos os sexos e com idades entre os 15 e os 18 anos acerca da música (sobre o que esta lhes faz pensar e sentir) e dos seus gostos musicais, deixámos que fossem eles a referir os autores ou grupos que preferem ouvir e, só depois, agrupámos as preferências encontradas em estilos, pelas características e significados associados aos grupos escolhidos, ao tipo de música e ao que a mesma transmite (22). Averiguámos que associações existiam entre esses estilos e certos comportamentos, sentimentos e pensamentos, ligados a várias questões como, p.e., a vida, sentimentos, morte e suicídio.**
Verificámos que os adolescentes têm uma visão algo hedonista da vida: embora não deixem de assinalar a tristeza, o trabalho, a morte e os problemas, sobrevalorizam o prazer, a felicidade, a diversão, o convívio, as relações familiares, os amigos e o amor. Neste contexto, vêem na música um meio privilegiado de expressar e partilhar emoções, tão importante nos melhores momentos como nos menos bons. Porém, associam-na mais a pensamentos, sentimentos ou imagens positivas da vida, do que negativas. As raparigas, mais do que os rapazes, relevam a música como divertimento e prazer mas, também, como apreensão, fonte de relações afectivas e convivência.
As preferências musicais mais consensuais (23) dos adolescentes são o rock/grunge, o punk/rock e o pop/rock. Enquanto que quem aprecia pop e trip-hop aprecia também outros estilos, quem gosta sobretudo de música mais pesada, (new)metal p.e., não ouve pop e só gosta de estilos associados a tensão, contestação, visão dura da realidade ou discursos ideológicos (como o rock punk ou grunge). Em geral os rapazes gostam mais de música pesada do que as raparigas; estas (tal como quem nunca pensou em suicídio) preferem ouvir música mais leve, alegre, romântica ou dançável, estilo pop/trip-hop, preferências que se associam a uma (diminuição de comportamentos de risco e uma) visão mais positiva da vida. O gosto muito acentuado por “estilos pesados”(24), em particular entre os rapazes mais novos, é o que mais se liga a uma visão menos positiva da vida.(25)

Alguns comentários finais
A música é essencial no decorrer de toda a adolescência… e não só. Está presente em quase todos os momentos e circunstâncias. Oferta-nos um meio de nos darmos a conhecer (mutuamente), de nos ligarmos, equilibrarmos e harmonizarmos. Os gostos musicais dos adolescentes são como janelas que se nos abrem para o seu íntimo, para cada criança que ficou para trás e para o adulto em formação; reflectem aspectos da sua personalidade e da sua individualidade; dão-nos indícios importantes acerca das suas ideias e sentimentos, sobre si mesmos, os outros, … a vida. Em qualquer estilo, a (boa) música, supera a limitação das palavras, reflecte muito sobre quem a compôs e não menos sobre quem a refere ou escuta, atentamente. Pela música, o ouvinte e o músico dão lugar a algo maior, que os liga entre si, no plano afectivo e no abstracto, tal como sucede com o amor. “Transforma-se o ouvinte na música ouvida”.(26)
É importante encontrar a oportunidade de escutar os adolescentes sobre o que mais gostam de ouvir, o que os leva a essas preferências, que motivações têm, o que pensam sobre o que ouvem, o que as músicas lhes fazem sentir. Aprender música, ou sobre música, implica, antes de mais, saber escutar. E aprender a escutar é, certamente, dos desafios mais difíceis que nos são proporcionados.
A música pode ter um grande poder e influência na vida humana, na disposição emocional, na terapêutica de certas doenças, na prevenção dos actos (para)suicidas, no bem-estar, relaxamento e concentração, no desenvolvimento da inteligência, do pensamento abstracto, da sensibilidade e das capacidades criativas, … na educação.
O ensino tem sido muito mais voltado para a instrução do que para a educação. É essencial contribuirmos mais para novos modelos de educação, mais justos, correctos e edificantes. A música pode realmente ajudar o indivíduo a sintonizar-se consigo mesmo, com a chama que o anima; pode estimulá-lo a descobrir-se, a encontrar, manifestar e desenvolver o que de melhor já existe no seu íntimo; pode auxiliá-lo a transcender-se e a catapultá-lo para além dos seus limites, libertando-o dos grilhões que tantas vezes o amordaçam em deveres repetitivos, redutores ou mesquinhos, em casa ou na escola. Ora, isto é particularmente vital na infância e na adolescência. Como escreveu um dia Agostinho da Silva, “chegou o tempo de nos prepararmos para as novas viagens, que o soltar das amarras vem aí” (27). Que venha mesmo. Insuflado pelo vento superior, ao sabor da música!
Os trabalhos com sons e música, a educação musical e a musicoterapia, adaptados às características psicológicas de cada jovem (de acordo com o seu temperamento e estado de desenvolvimento individual), podem associar-se a técnicas de concentração, meditação ou visualização criativa, e aliar-se com outras práticas (individuais ou grupais), artes e ciências. É necessário envolver os pais, professores e todos os agentes do ensino em geral. Educar não é levar alguém a ser algo que outrem deseja ou lhe projecta, não é moldar e muito menos violentar a potencialidade de um jovem ou influir na sua orientação futura; é, sim, dar meios de expressão à sua criatividade e capacidade de comunicação e concretização, é ajudá-lo no caminho, apoiando-o e incitando-o sem o direccionar abusivamente. A música na escola é uma disciplina essencial.
O adolescente, em fase de descoberta intensa e oscilante vivência emocional, tem que romper certas ilusões, desenvolver o raciocínio abstracto, encontrar um ritmo próprio, um equilíbrio e um acorde ou harmonia interior, que o leve a percorrer o (longo) caminho escolhido e auxilie na premência de encontrar (alguma explicação para) o sentido da Vida.
A música é indispensável em todo este movimento evolutivo, a nível individual, grupal e social. Até a Humanidade, como se estivesse também a passar por um período de adolescência, parece despertar lentamente para os grandes problemas que afectam o mundo, num movimento contínuo. Afinal, a vida é, em si mesma, movimento e música.
“A música é a grande síntese de todas as artes, (…) é a mais perfeita representação do Verbo divino”.(28) Mas é também uma ciência, que se deve apreciar pela emoção e compreender pela inteligência.(29) O músico que penetra no fundo de si mesmo tenta encontrar a musicalidade íntima do seu ser e de todos os seres.(30) Num sentido profundo, poderemos nós abordar a vida sem nos referirmos à música? A música revela a ordem magnificente do cosmos e, por analogia, de cada adolescente, de cada um de nós. Conseguiremos escutá-la?

Abílio Oliveira
Professor do DCTI no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; Investigador na Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Enfermagem; Autor de livros como “O Desafio da Morte”, “SobreViver” e “Dar e Amar”.

Notas:
** Desenvolvemos e aprofundámos esta temática no trabalho Ilusões: A Melodia e o Sentido da Vida na Idade das Emoções, tese de Doutoramento, Lisboa, ISCTE, 2004; o presente artigo baseia-se precisamente numa parte desse trabalho.
1) Sérgio (adolescente com 15 anos) citado por Daniel Sampaio no livro Vozes e Ruídos, Lisboa, Caminho, 1993, p. 43.
2), 16), 21) e 30) Franco Morais no livro A Essência da Arte, Lisboa, Centro Lusitano de Unificação Cultural (C.L.U.C.), 1990, págs. 31, 34, 37.
3) “Cada ser, de algum modo, é e expressa-se por um número vibratório – um número que é o Som da sua Vida” (excerto do livro Introdução à Sabedoria e Técnica Grupais, Lisboa, C.L.U.C., 1990, p. 57)
4) J. Flórido em Pietro Ubaldi: Profeta da Nova Era (col. Omnia), Lisboa, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1997.
5) Claret no livro O Poder da Música, São Paulo, Martin Claret, 1996.
6) K. Pahlen no livro Nova História Universal da Música, São Paulo, Melhoramentos, 1991.
7) Carl Sagan no livro Biliões e Biliões, Lisboa, Gradiva, 1997.
8) Sementes e Pérolas, Lisboa, C.L.U.C., 1989, semente 1, p. 9.
9) Escrevemos também sobre a adolescência no nº 2 da Biosofia, 1999, págs. 8-11.
10) e.g., D. Campos no livro Psicologia da Adolescência, Petrópolis, Vozes, 2000; V. Strasburger no livro Os Adolescentes e a Mídia, São Paulo, Artmed, 1999.
11) M. Cabral e M. Pais, J. no livro Condutas de Risco, Práticas Culturais e Atitudes perante o Corpo - Resultados de um Inquérito aos Jovens Portugueses em 2000 (Col. Estudos Sobre Juventude, 4), Oeiras, Celta/SEJ, 2003.
12) P. Nunes em A Música no Universo Juvenil: Práticas e Representações. Tese de Mestrado, Lisboa, Fac. de Ciências Sociais e Humanas – UNL, 1997.
13) A. Rodrigues em Valores e Representações Corporais em Culturas Juvenis Escolares. Tese de Mestrado, Lisboa: FMH-UTL, 1997, p. 108.
14) C. Barros no livro Música e Juventude, Lisboa, Vulgata, 2000.
15) sobre musicoterapia pode consultar, neste mesmo nº da Biosofia, o artigo de Margarida Azevedo.
17) A música actua a todos os níveis e em todos os seres, especialmente nos humanos, mas não só… Tem-se verificado que a música também influencia o desenvolvimento e as reacções dos animais e das plantas; por exemplo no caso das plantas, certas músicas, sob idênticas condições externas, provocam retraimento e degeneração enquanto que outras induzem um rápido e saudável crescimento; no caso dos animais, são clássicas as experiências em que vacas ao ouvirem certos trechos de Mozart produziram mais leite; algo de semelhante se observou ao escutarem Atom Heart Mother dos Pink Floyd.
18) e.g., R. Stewart, Música e psique, São Paulo, Cultrix, 1996.
19) e.g., K. Scheel e J. Westefeld. Heavy Metal Music and Adolescent Suicidality: an Empirical Investigation. Adolescence, vol. 34, 134, 1999, págs. 253-273.
20) e.g., E. Brown e W. Hendee. Adolescents and their Music: Insights into the Health of Adolescents. Journal of the American Medical Association, nº 262, 1989, págs. 1659-1663.
22) Caracterizámos os diferentes estilos musicais noutro contexto (ver nota **). Mais importante do que conhecermos os autores ou estilos preferidos é contextualizar esses gostos musicais, perceber em que situações emergem, com o que se relacionam, não só com outros gostos (ainda que menos acentuados ou circunstanciais) mas com a visão de si, dos outros e da vida, e verificar como evoluem as preferências musicais ao longo do tempo. O essencial é perceber o que a música veicula, em termos de som, melodia e ritmo, das letras ou dos poemas. Existem preferências por convicção (que se apreciam mesmo), que não dependem de modas, e preferências ocasionais, circunstanciais ou sazonais (algo que se ouve enquanto está no top, é moda, passa na rádio ou na discoteca, etc.).
23) Encontrámos (entre 1999 e 2003) algumas preferências musicais convictas: Nirvana, Pearl Jam, U2, Offspring, Smashing Pumpkins e, em menor grau, Lenny Kravitz, Xutos e Pontapés, Silence 4/David Fonseca, Green Day, Metallica, Alanis Morissette, REM, Queen, The Doors, Beethoven ou Marilyn Manson; e muitos nomes apareceram apenas ocasionalmente.
24) Não consideramos somente os aspectos ligados com a música em si mesma mas, também, com o seu conteúdo em termos líricos, por exemplo, naquilo que veicula e transmite.
25) São, neste caso, mais frequentes as ideias de suicídio, os comportamentos auto-agressivos e a vontade de morrer; o acentuado gosto por rock/grunge é o mais associado a ira, tensão, mal-estar, medo, bem como à compaixão e ao suicídio como fuga ou resolução. Salientamos que este gosto, quando quase exclusivista, costuma esbater-se com a idade e mescla-se com outras preferências; somente os adolescentes com grandes dificuldades em encontrar uma razão positiva e válida para viver tendem a manter este gosto musical. Mais uma vez se salienta a importância da música na prevenção em saúde.
26) Adaptação das palavras de Camões num dos seus mais belos sonetos: “Transforma-se o amador na cousa amada”
27) Excerto de Educação de Portugal, Lisboa, Ulmeiro, Porto, 1996, p. 78.
28) Excerto de Pérolas de Luz III, Lisboa, CLUC, 1991, pág. 115.
29) E.g., J. James no livro The Music of the Spheres, London, Abacus, 1993.

“A Música aprofunda a nossa humanidade, faz-nos mergulhar na nossa consciência, para lhe sondar os abismos. E ao contemplar a nossa dor, volvida em poemas de harmonias, sentimo-nos acompanhados, porque toda a gente sofre como nós, e medimos o alcance universal das nossas inquietações. E achamo-nos eleitos, porque o nosso martírio aumentou o património de beleza do mundo. A grande Música, mais que uma invenção ou criação, afigura-se um descobrimento de nesgas do absoluto” (F. Figueiredo em Música e Pensamento, Lisboa, Guimarães ed., 1958, p. 59)

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