Por Que Estudo Ocultismo?

Uma Explicação Prévia

Este escrito pretende ser o testemunho de uma experiência pessoal:

1) Daquilo que me levou ao estudo do Ocultismo e do que foram os meus equívocos iniciais.

2) Da maneira como hoje encaro a natureza desse Conhecimento e onde ele pode ser encontrado.

3) Das áreas em que, dentro desse imenso Saber, especialmente focalizo a minha atenção e privilegio o meu trabalho.

Tratando-se, como foi dito, do “relato” de uma experiência pessoal, será inevitável alguma abundância de auto-referências. Procurarei restringi-las ao mínimo, dentro do que me permitir o modelo testemunhal escolhido. Tenciono, também, ser o menos apologético que possa, pois não pretendo catequizar ninguém para nenhuma causa.

Gostaria apenas de, como numa conversa despreocupada, relatar alguma coisa do meu pequeno caso. Se desse modo, através deste modesto exemplo, puder encorajar ou ajudar alguém a melhor definir ou concretizar as suas próprias orientações e esforços, então terei alcançado o meu propósito e ficarei muito feliz.

Como muito bem se diz, todas as viagens, por maiores ou mais pequenas que sejam, começam por um simples primeiro passo. Este que aqui vos mostro, despojadamente, é o meu.

Os Equívocos Iniciais

A razão próxima daquilo que me levou a procurar o conhecimento oculto foi uma crise pessoal ligada à carreira profissional. A razão profunda foi o desejo de encontrar respostas que ajudassem a uma melhor compreensão de mim próprio e dos acontecimentos da minha vida (que cada vez menos conseguia entender e controlar), algo que me pudesse ajudar a ultrapassar a grande insatisfação e inquietação em que, a partir de certa altura, se tinha transformado o meu quotidiano.

Inicialmente, tenho que concluir, aquilo que me movia, embora ao tempo não tivesse disso uma consciência distinta, era um enorme equívoco: encontrar qualquer coisa escondida e misteriosa através da qual pudesse ultrapassar de um só golpe, como num passe de prestidigitação, todos os meus problemas.

Era a esperança de que, pela via da aquisição de qualquer indistinto “poder”, “força” ou “conhecimento” vagamente sobrenatural, poderia ultrapassar, duma vez para sempre, a sensação de crescente insegurança, desconforto e, até, medo difuso em que o meu dia a dia se tinha tornado, ao mesmo tempo que não só conservasse todas as “conquistas” mundanas que ainda mantinha mas, também, recuperasse, ou mesmo reforçasse, algumas outras que perdera.

O que fundamentalmente pretendia, hoje vejo-o com alguma clareza, era concretizar, através de “novos métodos”, o desejo de manter, ou mesmo incrementar, os “velhos” sucessos sociais e materiais ou, na sua falta, outros de género semelhante, sem jamais voltar a ter que pagar o preço, tão doloroso, quer da sua perda efectiva quer do medo da sua perda. Ainda não tinha compreendido que o pagamento de tal preço é indissociável da ânsia de ter e manter esses teres, esses poderes, essas posições e esses prestígios, e da sua posse se fazer depender a nossa felicidade e bem-estar.

O que basicamente procurava, através de qualquer coisa de “maior”, magicamente fantasiada, era encontrar algo que me iria proporcionar, especialmente, o controle fácil e eficaz do (meu) pequeno e rasteiro mundo do ganhar e do gastar, das glórias egoístas e medíocres, das vitórias e dos sucessos ocos, do universo das máscaras do ego, das aparências, das dependências, do desejo de ter e do medo de perder.

Infelizmente, é ainda esta ideia, completamente errada, do que é o Ocultismo e para o que ele serve, que, geralmente, prevalece.


Onde Encontrei o Ocultismo

Não demorou muito a enxergar que não seria através de nenhuma das quimeras delirantes do tipo daquelas que fui encontrando, entre o timorato e o estupefacto, no início das minhas buscas, que iria achar respostas sérias e credíveis para as inquietações mais profundas que me afligiam. Nada de verdadeiramente útil, cedo constatei, poderia ser descoberto nos rituais vazios, nas poses afectadas, nas velas acesas, nas despropositadas vestes brancas, nas irracionalidades absurdas, nas crendices e superstições mais patetas, nos pensamentos mágicos infantis sussurrados em salas postas em penumbra, para já não falar nos óbvios charlatanismos.

Mas, para alguma coisa me serviu esse banho de absurdo. Serviu para perceber que a solução fácil que procurava para trazer felicidade e dar sentido à minha vida não existia e que não seria através de nenhuma fantasia mais ou menos mágica ou de qualquer amontoado de crendices enroupadas de grandes arroubos emocionais que chegaria, alguma vez, a entender mais claramente a natureza da vida, do amor, do sofrimento e da salvação.

A explicação, fui percebendo pouco a pouco, tinha que começar a ser encontrada, com estudo e com trabalho, embora com enorme alegria, de acordo com as características especiais e necessidades de cada um, sucessivamente (e mais tarde, também, entroncadamente) em três áreas específicas:

I – Na compreensão inteligente da natureza das coisas:
- Uma compreensão de nós próprios: de como somos constituídos, o que aqui estamos a fazer, qual a finalidade e os limites das nossas vidas, como evoluímos, o que nos condiciona, o que nos liberta, como funciona a nossa mente, como nos podemos libertar do sofrimento, em que consiste a iluminação, e tantas outras inumeráveis coisas que vão surgindo quando nos aprofundamos nas imensidões do nosso mundo interior.
- Uma compreensão do Universo em que nos movemos: quando e como começou, quando e como vai acabar, em que níveis de realidade é que opera, qual a nossa posição relativa dentro dele, e miríades de outras questões que a sua existência e natureza podem suscitar.
- Uma compreensão do Divino: qual a sua essência, quais os seus aspectos, o que pode ser, o que não pode ser, como nos relacionamos com Ele, como se relaciona connosco, e de quantas mais análogas e incontáveis perguntas.

II – No encontro pessoal com um certo número de conceitos, virtudes e atitudes fundadoras, tais como a serenidade, o amor, a ética, a compaixão, a equanimidade e a sabedoria que, o mais depressa possível, na medida das nossas possibilidades, temos que ir aprendendo e cultivando, e cuja importância é crucial para a nossa própria felicidade e evolução individual.

III – Na vivência prática, na nossa vida de todos os dias, quer da compreensão inteligente da natureza das coisas quer do encontro pessoal com os conceitos, virtudes e atitudes fundadoras que acima referimos, transformando, assim, tudo isso, gradualmente, em hábitos pessoais, à medida que insistimos e levamos mais longe, constantemente, essa vivência. É necessário persistir incessantemente, não nos deixando nunca abater pelos deslizes e falhas que irão sempre acontecer, procurando a constante companhia do bom humor e da alegria – parceiros ideais para estas viagens demoradas. (Por norma, esta última fase, embora por certo a mais decisiva de todas, é a que mais difícil e tardiamente se consegue levar à prática.)

Tão “simples” quanto isto! Tão grandioso como o Universo! A mais gratificante de todas as actividades… A maravilhosa aventura do Saber e do Ser… A caminhada incessante em direcção ao Espírito e a tarefa simultânea de trazer esse mesmo Espírito para o mundo real das coisas concretas do dia a dia…

A Filosofia Perene

Entretanto, pode e deve perguntar-se, onde buscar ajuda para este protocolo tão exigente?

A resposta é que a ajuda pode ser encontrada basicamente no âmago comum de sabedoria de todas as Grandes Religiões e Filosofias Espirituais e no seu poder transformador. Na chamada Filosofia Perene que constitui o cerne do Hinduísmo, do Budismo, do Taoísmo, do Confucionismo, do Judaísmo, do Cristianismo, do Islamismo, para só falar das religiões mais conhecidas, no centro da muita “ganga de disparates” que todas elas igualmente contêm. Ou, então, de forma mais depurada, na Teosofia tal como foi enunciada, no final do século XIX, pela senhora Helena Blavatsky, bem como nas Escolas Filosóficas e nos filósofos mais importantes, ou mesmo, muitas vezes, na Ciência e nos pensadores modernos de vanguarda.

Mas, seja através do que for, de acordo com a minha experiência pessoal, tudo tem que começar e tudo procede da compreensão inteligente da natureza das coisas.

Se calhar essa compreensão inteligente não será suficiente. Provavelmente não o será mesmo, pois que existirão compreensões subsequentes que lhe serão superlativas. No entanto, se não se começar por essa compreensão inteligente nada de sério se irá iniciar, nunca se chegando por isso a nada que lhe seja maior. Sendo certo que a partir das nossas pobres emoções, através do “sentir muito” não se chegará a nada de verdadeiramente superior.

No Meu Caso e Uma Humilde Recomendação

O estudo do Ocultismo, que também, usualmente, se designa por Esoterismo, Sabedoria Oculta, Ciência Oculta, Sabedoria Esotérica ou, talvez com mais propriedade, Filosofia Perene ou Sabedoria Eterna, é, mais do que uma tarefa, uma forma de vida.

Extremamente compensadora, paga logo, a pronto, em alegria e bem-estar, os mais pequenos esforços e avanços, de tal maneira generosamente, que nem os desejos mais egoístas podem vagamente conceber.

No meu caso, tive a “sorte”de encontrar no caminho, a certa altura da minha demanda, a grande fonte de sabedoria que os Mestres da Sabedoria Universal puderam proporcionar à Humanidade através da Teosofia, especialmente por intermédio da grande senhora que foi a já citada Helena Blavatsky – cujo trabalho de qualidade e dedicação única em prol da difusão da Filosofia Perene não tem medida de reconhecimento. Agradeço isso ao Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC). É uma dívida de tanto valor que, tenho consciência, nunca poderei saldar completamente. E o melhor que conseguirei fazer nesse sentido, só poderá ser através da ajuda aos outros por via do meu pobre testemunho e do máximo aproveitamento que faça dos ensinamentos que me foram disponibilizados na minha própria evolução.

Pessoalmente, dentro do imenso saber abrangido pela Ciência Oculta, interesso-me em particular pelo estudo da consciência humana e das suas manifestações no comportamento.

Aí tenho focalizado mais a minha atenção, sobretudo a partir dos conhecimentos proporcionados pela Teosofia, pelo Budismo e por alguns pensadores (pós-pós) modernos, nomeadamente o filósofo americano Ken Wilber – a quem especialmente admiro pela inteligência, lucidez e enorme esforço de síntese que vem fazendo há vários anos na compatibilização dos ensinamentos da Filosofia Perene pré-moderna com os melhores saberes do Pensamento moderno e pós-moderno, inclusive aqueles da actual ciência de vanguarda, numa visão global e integrada.

O que, humildemente, recomendo a todos os que possam querer beneficiar da minha experiência é que recusem as facilidades cheias de promessas baratas, porque elas não levam a lado nenhum, que procurem sempre as fontes mais inteligentes e fidedignas e dêem prioridade ao estudo, ao esforço e à prática continuada. E que vão devagar, passo a passo mas seguramente, sem queimar etapas, com a certeza que é o caminho mais rápido. Como tão bem disse, metaforicamente, Rumi, o grande sábio sufi:

“ Pouco a pouco vá-se treinando.
Isto é a essência daquilo que tenho para dizer.
De embrião que recebe o alimento do sangue,
Transformando-se num bebé que bebe leite,
Passando depois a uma criança que se alimenta de sólidos,
A um indivíduo que busca a sabedoria,
E a um caçador de uma caça menos visível”.

Vítor Martins

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