Como Somos Feitos…

COMO SOMOS FEITOS…

“A alma humana é como um lago que se comunica com o mar por meio de um canal submerso; embora aparentemente o lago esteja cercado por terra, o seu nível de água
baixa ou se eleva com as marés, por obra dessa conexão oculta. Ocorre o mesmo com
a consciência humana: existe uma conexão subterrânea entre as almas individuais e a
alma do mundo, e essa comunicação se processa profundamente, confinada nos
escaninhos mais primitivos da consciência…” (Dion Fortune)

As palavras de Dion Fortune acima citadas constituem uma narrativa pictórica sumamente feliz para retratar a nossa ligação com o Divino, em termos não só essenciais e de identidade mas, também, funcionais. Somos feitos à imagem e semelhança do Divino – Carne da Sua Carne [Substância] e Sangue do Seu Sangue [Vida]. Temos potencialmente em nós todo o Organismo Cósmico (1) – tal como é figurado na simbologia fundamental das diversas filosofias e cosmogonias de todas as latitudes e de todas as eras.
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1) Por muito assombro que esta noção possa provocar, temos impresso em nós o Propósito ou Plano Divino, de que somos co-obreiros (ou construtores-maçons…). Temos impressas em nós a Rota e a Missão cosmológicas, o Funcionamento e as Leis que governam os Mundos, todos os Mundos que existem uns nos seios de outros…

Natureza Holística do Universo
Tudo se repercute, tudo se comunica no Universo. Num grupo, o avanço evolutivo (uma habilidade) conquistado por uma unidade de vida é uma conquista patrimonial efectiva do Todo e transfere-se geneticamente para esse mesmo Todo. Esta, por incrível que possa parecer, é uma evidência cada vez mais assumida por grande números de investigadores.

Num trabalho do biólogo Rupert Sheldrake sobre o que chamou de “ressonâncias mórficas”, citado por Sylvia Cranston (2), podemos ler o seguinte: “… Foi solicitado a diferentes grupos de pessoas na América do Norte e na Inglaterra que aprendessem três canções de embalar japonesas, de curta extensão, uma delas bem conhecida há várias gerações por crianças japonesas. As outras duas canções foram compostas de modo que se parecessem com a primeira, mas eram desconhecidas no Japão. A canção tradicional resultou mais fácil de aprender. Outros testes usando palavras estrangeiras, metade reais e metade alteradas, foram dadas a pessoas que não conheciam a língua. Novamente, as palavras reais foram mais fáceis de aprender. Foram feitas experiências semelhantes com o código Morse e no teclado de uma máquina de escrever, dois padrões aceites e estabelecidos de modo generalizado há mais de uma centena de anos. Em ambos os casos, as correlações e sequências já estabelecidas foram mais fáceis de aprender do que as outras que haviam sido criadas…”.

De igual modo, verifica-se, sem margem para dúvidas, e de modo generalizado, que as novas gerações – inclusive as crianças pequenas, que ainda não sabem ler “instruções” – têm claramente uma maior aptidão (em relação à anterior) para tudo o que diga respeito à informática, a jogos de computadores, ao funcionamento de telemóveis e quaisquer maquinarias electrónicas. Tal se deve, presumivelmente, à recente conquista gradual, mas efectiva e massiva, destas tecnologias, dos seus funcionamentos e dos seus conceitos. Uma aprendizagem inovadora de muitos é incorporada subjectivamente pela constituição genética da vaga dos que lhes seguem temporalmente.
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2) … no seu livro “Helena Blavatsky - A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, Editora Teosófica, Brasília, 1997. Rupert Sheldrake foi o descobridor dos campos morfogenéticos.

Estas exposições, se bem que representativas e de enorme relevância, referem apenas aspectos que se processam horizontalmente, num mesmo Plano de existência. No Cosmo, não obstante, essas transferências de energia e de significados percutem-se entre o Macro (o Universo) e o Microcosmo (o Homem), bem como entre diferentes Planos.

“O Todo contém a parte e a Parte contém o todo”, diz uma consagrada fórmula ocultista. O homem – o Microcosmo – é o reflexo e a réplica do Macrocosmo, com os seus Planos (e subplanos) septenários. Também o homem possui sete princípios ou corpos, cada um deles focalizado e da mesma substância-vida de cada um dos Planos do septenário cósmico. Os três superiores constituem a “contraparte divina” no homem, a Trindade imperecível, dita espiritual, Âtman (Espírito), Buddhi (Sabedoria Intuitiva) e Manas (Mente; neste caso, a natureza superior de Manas, a Mente Abstracta). Os outros quatro, que conformam o chamado “Quaternário inferior”, são de natureza (mais) material e corruptíveis (3). Este Quaternário constitui a nossa, assim chamada, “Personalidade”, e é composto dos princípios Sthûla-sharîra (o corpo físico); Linga-sharîra (duplo-etérico ou duplo-astral, o corpo das causas formativas, que modela, energiza e sustém o corpo físico. Configura uma espécie de estrutura reticular electromagnética que vivifica e provê coesão às partículas físicas constituintes) e o Prâna, que ele veicula; Kâma-rûpa (corpo dos desejos, instintos e paixões animais); Manas inferior (veículo da mente intelectiva, concreta).
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3) Em todas as culturas (e no inconsciente colectivo da humanidade), o quaternário (o 4) é o símbolo, por excelência, da matéria.

No homem encarnado, esse quaternário está replicado, sintetizado e representado no 7º (a contar de cima; 1º a contar de baixo) dos chakras, o Mûladhâra (chakra Fundamental, ou da Raiz). Os chakras são centros de força que afloram no duplo-etérico/astral e proporcionam a ponte entre o veículo físico do homem e os seus veículos (e respectivos Planos) superiores. O nome sânscrito “chakra”, que significa “roda” ou “disco”, é por vezes substituído por “lótus”, pois, na verdade, eles se assemelham a corolas de flores, com diferente número de pétalas conforme o chakra, e com um pedúnculo que radica no tronco ou eixo espiritual: o Sushumnâ. O Sushumnâ é o eixo vivificante de todo o ser encarnado e compreende e percorre o conduto espinal (que lhe corresponde no Plano Físico). É ladeado, à direita, pelo nadî (conduto) de energia positiva Pingalâ, e, à esquerda, pelo conduto de energia negativa Idâ. Cada chakra tem correspondência com cada um dos Princípios do Septenário.

Para os estritos efeitos que nos ocupam neste estudo, falaremos, em particular, e somente, do chakra Fundamental. Este, como já dissemos, representa e sintetiza as qualidades e atributos (bem como as conquistas evolutivas do Homem-colectivo, a Humanidade) da personalidade reencarnante – o Quaternário inferior. É por isso que possui 4 pétalas, que mais não são do que (cada uma delas) uma concentração energética provinda de cada um dos Planos do Quaternário inferior, com a sua peculiar “nota-chave”. Essas “notas-chave” são os modos como a energia “vibra” e “ressoa” na passagem da energia Kundalinî,, quando esta percorre ascendentemente o Sushumnâ (disto, falaremos adiante) e, nessa conformidade, encontram representação em determinadas letras (sons) que, na língua sânscrita, se dizem Vam, Sham, Sham e Sam.

No Universo Manifestado a Consciência Divina assume dois pólos ou aspectos: Shiva, o aspecto positivo, e Shakti, o aspecto negativo (4). Shakti, o pólo negativo e dinâmico, é a Grande Mãe do Universo, por ela tudo vindo à existência. Nos seres humanos, essa Energia universal particularizada recebe o nome de Kundalinî; no entanto, este vocábulo tem frequentemente o sentido cósmico (da Shakti). Kundalinî, a fonte da geração e da regeneração, pode também, numa certa perspectiva, ser identificada com a Mente Universal. Com efeito, é a Mente que está na raiz da Forma.

Assim, no centro do chakra Fundamental radica, adormecida, a serpente cósmica Kundalinî. Através de práticas adequadas (de que são depositários Grandes Sábios, que as preservam da leviandade de simples curiosos incautos) e/ou da natural e consequente expansão da consciência que se produz no homem virtuoso e “espiritualizado” –, essa expansão pressiona para cima e corresponde ao despertar da serpente adormecida, que irrompe e se ergue pelo eixo espiritual Sushumnâ até alcançar o “lótus das mil pétalas”. Desde a mais remota ancestralidade, nas representações pictóricas do chakra Mûladhâra, figura, então, o Svayambhû, o lingam de Shiva, com a serpente em seu redor, enroscada três vezes e meia, numa alusão à segunda metade, ou metade evolutiva da Manifestação Septenária (composta de Involução, ou descida do Espírito na Matéria, e Evolução, ou subida da Matéria ao Espírito) (5). Mûladhâra reúne todas as potências recolhidas dos Planos superiores, que se constituem em impulso para a grande Ascensão espiritual. É, deste modo, o centro que possibilita a regeneração ou 2º nascimento.
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4) Shiva e a sua Shakti, a Luz e a sua própria sombra (anverso ou contra-imagem, abhâsa), que Aquela reabsorve, no final dos tempos, promovendo-se a Grande Unidade.
5) Svayambhû é o Espírito Universal. É um termo que significa o auto-gerado.
É também um epíteto de Brahmâ, bem como um símbolo de todo o Deus ou Potência Criadora. Assim, Sarasvati é a shakti de Brahmâ (de onde proveio o nome patronímico de Abraão, com sua esposa Sara). Sarasvati é a energia, emanada de Brahmâ, que criou os mundos.

Kundalinî fez-se corresponder, em muitos mitos e deambulações imagéticas das religiões exotéricas, como tentadora (portadora do fruto proibido da Sabedoria), no mito hebraico-cristão do livro do Genesis; como a redentora, na concepção gnóstica (a serpente com as “7 vogais” sobre a sua cabeça…); como as numerosas ctónicas-fertilizadadoras, celtas, escandinavas, eslavas, mediterrâneas, ameríndias, orientais… (em simbiose e indistinção, por vezes, com as celestes-fecundantes: na China, por exemplo, profundamente enraizada na mitologia popular, a energia da vida é figurada na baba do dragão-serpente (6) que fecunda as mulheres). No mito hebraico, ela eleva-se, sinuosa, percorrendo (em espiral) o tronco da árvore [o tronco da árvore humana, i.e., o Sushumnâ] até chegar à cabeça do homem para lhe segredar promessas de “Sabedoria” e “Vida Eterna” [ascendendo ao Sahasrâra, o chakra coronal, o radioso lótus das mil pétalas, como promessa viva de “Consciência e Vida Eterna”].

O chakra Fundamental (símbolo do corpo terrestre e da “personalidade, quádrupla”) reflecte o estado de harmonização de todos os componentes da “personalidade” encarnante – e apenas quando este “chão” se torna digno, a semente do Espírito pode brotar e elevar-se nos céus (ao Sahasrâra). A terra do filósofo, regada pelo alento solar (de Pingalâ) e pelo alento lunar (de Idâ) tornou-se um terreno fértil, onde os elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) se volveram harmónicos, e em que a árvore Bo (7) deu os seus frutos iluminados.

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6) A palavra dragão foi herdada do grego “drako”, que significa serpente.
7) A Árvore Bo foi a árvore sob a qual, segundo a tradição, Buda atingiu a iluminação.

Os Tijolos da Matéria Física
No lótus Mûladhâra está indelevel e latentemente registada, impressa, a memória do percurso da Humanidade (não nos esqueçamos que o homem não é apenas o seu corpo físico, o corpo que se vê…). Entretanto, esta realidade subjectiva transfere-se e coagula-se na componente física do ser humano. Todo o património de aquisições biológicas – morfológicas, funcionais, psicológicas e mentais – da Humanidade está registado no seu “Código Genético”. A estrutura fundamental desse registo, no Plano Físico, é o ADN – a molécula básica da vida biológica – com os seus quatro pilares de construção: Guanina, Citosina, Timina e Adenina.(8). Cada um destes pilares constituintes traz consigo uma semente subjectiva e uma missão impulsionadora que produz definidos e específicos efeitos no Plano Físico. Cada um é portador de prolíficos códigos – como se fossem finíssimos e multicoloridos fios que, de forma exímia e combinada, conformarão o grande Painel animado que representa cada existência física, pleno de imagens e significados. De forma integrada, eles dotarão cada ser que nasce de específicas habilidades e qualidades potenciais. Cada um deles e o seu conjunto propenderão o seu psiquismo, o seu temperamento, a sua natureza intelectual, as suas características físicas (9).
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8) Estas, são bases nitrogenadas que se aliam, cada uma delas, a uma molécula de desoxirribose (açúcar) e a um ácido fosfórico para formar um nucleotídeo, principal base das cadeias polinucleotídeas que, por sua vez, formam o ADN (ácido desoxirribonucléico). É a ordenação dessas bases nitrogenadas que define a informação genética de que o ADN é portador. Os maiores dos genes possuem 100.000 pares de letras mas, em média, eles agrupam cerca de 40.000 pares.
9) Com efeito, cada célula do homem (e dos demais seres vivos) transporta dentro de si uma incomensurável “biblioteca” – o ADN. Esta biblioteca possui cerca de 30.000 “livros” – os genes –, cada um deles replicando as informações necessárias para a preservação das características da espécie e para a definição das características individuais, bem como para o pleno funcionamento biológico. O ser humano comporta no seu organismo biológico cerca de100 trilhões de células.

Na verdade, as letras Vam, Sham, Sham e Sam são apenas símbolos, as formas grosseiras de uma realidade mais subtil a que se denomina Mâtrikâ. Sob essa conformação grosseira, elas são o som positivo, Shabda, detentor de potencialidade criadora (10). Elas encontram ainda correspondência com os 4 elementos filosóficos: Fogo, Ar, Água e Terra.
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10) É dito, ainda, que as letras Vam, Sham, Sham e Sam são a essência e as sementes espirituais dos 4 Vedas - Vam, do Rig-Veda; Sham, do Yajus-Veda; Sham, do Sâma-Veda, e Sam, do Atharva-Veda -, bem como das 4 Yugas: Satya, Tretâ, Dvapâra e Kali. “Veda”, no seu sentido original, é a ideação divina no tocante à criação dos mundos, cujos conteúdos foram parcialmente revelados aos Grandes Rishis do passado e incarnados nos 4 Vedas.
Por outro lado, e agora no sistema Cabalístico hebraico, todas as atribuições místicas quádruplas fazem-se corresponder às 4 letras do Tetragrammaton, Yod, Hé, Vau, Hé, o Nome Sagrado que usualmente se traduz por Jeová, e, ainda, aos “Quatro Mundos Cabalísticos” (Atziluth, Briah, Yetzirah, Assiah), com toda a inerente riqueza de correlação de significados e qualidades potenciais.
Como já dissemos, outra síntese representativa que se configura no chakra Mûladhâra (ao qual corresponde a Sephirah Malkuth) é a do “Quaternário inferior” (a que correspondem as 4 Sephiroth inferiores: Yesod, Netzach, Hod e Malkuth), e dele constitui o ponto focal.
E, no Islão, a Palavra Criadora (a equação cósmica divina) é Kalimat Allah. As quatro consoantes deste mantra – K, L, M, T – simbolizam a manifestação quaternária da Unidade primeira, sendo esta expressa na tríade de vogais A, I, A (em que se oculta o nome inefável de ALLAH).

No Plano Físico, estas unidades primárias constituintes (funcionando como pontos focais de energias específicas) devem, necessariamente, estar imbuídas dos impulsos fundamentais, geradores e multiplicadores de definidas qualidades. Certas qualidades agrupam-se formando “pares complementares” ou “pares funcionais”, cujas unidades são essencialmente representativas de: Energia-Força (Função) / Forma (Morfologia); Anabolismo/Catabolismo. Deste modo, se combinam e fazem corresponder:

Vam – Sham = Guanina – Citosina;
Sham – Sam = Timina –Adenina.

Subindo a Escada Espiralada – o Movimento Ondulatório do Espaço
O modo de movimento que subjaz a toda a Manifestação é espiralado. Não existem rectas no Universo – apenas curvas, que integram espirais.

Esse Movimento Subjectivo Cósmico, Impulso radical ou Alento Divino (o Espírito Santo, da teologia judaico-cristã), que é a matriz de toda a evolução tanto nos seus aspectos subjectivos como objectivos, marca e define a orgânica cosmológica (astronómica), as rotas espirais de todos os astros e galáxias. No Microcosmo, no homem (designadamente), a expressão básica de vida confirma e alinha-se nesta predisposição espiral – a matriz da vida biológica é a celebrizada “escada helicoidal”, o ADN. Com efeito, a molécula do ADN apresenta-se como uma escada torcida sobre si mesma. Os degraus desta escada são os pares de bases nitrogenadas guanina + citosina, timina + adenina.

O ADN, na sua estrutura, afigura-se a um andaime objectivo, que se desenvolve e se escora progressivamente na estrutura íntima da Substância subjectiva (da Vida/Consciência Universal). No correr deste prodigioso andaime biológico, nós encontramos, pontilhados, os mesmos marcos simbólicos, veículos da mesma vitalidade e prenhes dos mesmos e profundos significados. Afigura-se-nos que o Propósito da Vida não pode deixar de nele estar implícito e progressivamente assinalável, à medida que nos elevamos nos degraus da Vida/Consciência. O universo é holístico, por natureza. Os seus fios invisíveis vão, de facto, tornando-se paulatinamente aparentes, à medida que vamos cumprindo e concretizando na Forma esse Macro Propósito Divino – como num decalque. “Oculto numa bolota, existe um carvalho com suas bolotas, e, oculto em cada uma destas, existe um carvalho com as suas bolotas”, afirmava o cabalista MacGregor Mathers. Numa Maré ascendente, o Oceano da Vida, Divina e Universal (por obra dos seus actores, as miríades de seres que povoam a Manifestação Objectiva dos Mundos) é iluminado progressivamente (evolutivamente) pela Consciência, nela se subsumindo.

Em termos espirituais, a subida da Kundalinî, desde o chakra Mûladhâra até ao chakra Sahasrâra (no topo da cabeça), replica no Microcosmo (o homem) o que a Evolução Colectiva (dos Mundos e da Humanidade) consubstancia na Caminhada peregrina desde este Plano mais inferior (o Universo Físico), percorrendo todo o Septenário em sentido ascendente até à Reassunção final na Luz do Uno, no termo do Manvantara. Na aura, ladeando o Sushumnâ (o eixo ou conduto espiritual por onde se eleva a Kundalinî), de um e outro lado, correm paralelamente dois outros circuitos. Por eles passam respectivamente as correntes positiva (à direita), e negativa (à esquerda), as correntes magnéticas designadas “do Sol” e “da Lua”(11). Na verdade, de forma mais precisa, é todo um hemicilindro (um semitubo) direito que é carregado positivamente, e todo um hemicilindro esquerdo que é carregado negativamente. Este factor, importantíssimo, é transferido para a sua correspondência material: existe uma espécie de tubo virtual por dentro do qual corre a “dupla espiral” do ADN. Também este campo tubular é carregado positivamente num dos lados, e negativamente no outro. Nesta conformidade, os diferentes centros de energia (que as bases ‘G’, ‘C’, ‘T’, ‘A’ representam) situados no correr de cada extremidade da “dupla hélice” são ciclicamente actuados positiva e negativamente. Disto deriva que uma dada “potência” essencialmente negativa, quando se encontra na contraparte negativa do tubo, está, por assim dizer, “potenciada” nos seus efeitos e consequências; e que, quando se encontra na contraparte positiva, está “deprimida” – e vice-versa. Por outro lado, na definição das codificações e instruções genéticas, o seu posicionamento (das unidades de cada par), ora numa dada orientação, ora na outra (invertidas), ao longo dos dois “corrimãos” da escada, também as faz assumir uma actuação, ora positiva, ora negativa, das suas qualidades, no cômputo integrado da leitura global.
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11) Sushumnâ, e as correntes solar, Pingalâ (à direita) e lunar, Idâ (à esquerda) das filosofias da Índia correspondem, respectivamente, ao Pilar do Equilíbrio, ao Pilar da Misericórdia (ou da Compaixão) e ao Pilar da Severidade (ou da Justiça) da Árvore da Vida (ou Árvore Sephirótica), da Cabala hebraica. A filosofia chinesa igualmente representa esta tríade fundamental: Yin e Yang são, respectivamente, os princípios negativo e positivo do Universo e das unidades que o constituem, e Tao (ou Caminho) é o centro de equilíbrio entre eles.

É precisamente o carácter eléctrico dual e alterno do Universo e da Manifestação que produz o movimento espiral e efusivo, bem como os movimentos de contracção e expansão.(12) Sem dualidade não haveria Evolução. Sem dualidade não haveria Manifestação.
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12) À imagem de um eterno Pêndulo Cósmico, a energia de fundo (o Akasha) vibra e traça diferentes direcções, tornando-se ora positiva ora negativa e determinando a grande Lei da atracção e repulsão. Esse facto cria as linhas de força da própria substância (Prakriti). É o grande dinamizador cósmico que anima e faz crescer tanto uma pedra como um ser humano, e que está na origem misteriosa dos movimentos de sístole e diástole do coração na vida física animal. Na verdade, o Akasha é Kundalinî, visto por outro aspecto.

Como assumirmos a nossa Divindade?
No decurso das Idades, diversas foram as metodologias formuladas pela Humanidade a fim de facilitar e guiar o destemido buscador no desbravamento desse Caminho. Nos Antigos Mistérios das diversas civilizações – Hindu, Egípcia, Hebraica, Grega… –, os candidatos à Iniciação no “Conhecimento Sagrado” eram guiados para conquistar “passo por passo”, “degrau por degrau”, os Altares (o septenário Altar) do Espírito.

Para a Civilização ocidental, porém, um dos métodos mais habilitados e poderosos, e que se mantém vivo até aos nossos dias, é o método cabalístico hebreu. Quando entendido e devidamente vivenciado, ele constitui um Guia rigoroso, de transcendente iluminação nos Caminhos insondados entre os Véus da Grande Mãe.

A “Árvore da Vida” é um símbolo eloquente, animado e impregnado de Vida (perdoe-se-nos a propositada redundância). Nele estão representados o Macro e o Microcosmo, e por seu intermédio é-nos fornecida a possibilidade de realizarmos as devidas pontes entre ambos – o que, na prática, corresponde à transferência de fluxos definidos de energia cognitiva –, por um processo efectivo de mapeamento dos abstractos (e aparentemente vazios) Caminhos, para lá das fronteiras do Mundo Físico.

A Meditação pelos Caminhos da Árvore
Para o místico investigador, este empreendimento não é uma aventura inconsequente, sem regras nem condições: implica disciplina, despojamento material (purificação, purgação) e uma empenhada canalização de esforço e energia numa direcção aparentemente árida, e não isenta de perigos. É um caminho solitário – não é necessário dizê-lo. E é nessa solitude que o caminhante peregrino congrega energia, progressivamente mais e mais energia qualificada e inteligente (que ele próprio assimila e torna individualizada – cunhada pelo seu próprio diapasão). Essa é a sua bagagem espiritual, que o legitima e lhe abre sucessivamente as portas de cada etapa do Caminho Ascendente. É ela a sua palavra-chave, a sua “palavra-de-ouro”, que leva os Guardiões a franquearem-lhe cada Secreto Portal.

Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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