Pitágoras

“… Pitágoras enuncia a nossa doutrina arcaica quando diz que o Ego (Noûs) é eterno com a Deidade”.
H. P. Blavatsky

“Pitágoras foi o mais célebre dos filósofos místicos. Nasceu na ilha de Samos, por volta do ano 586 A.C. [tendo morrido cerca de cem anos depois]. Ao que parece, viajou por todo o mundo e retirou a sua filosofia dos diversos sistemas de que teve conhecimento. Assim, estudou a ciência esotérica com os brahmanes da Índia, e a astronomia e a astrologia na Caldeia e no Egipto. Até hoje é conhecido no primeiro dos países citados pelo nome de Yavanâchârya (“o mestre jónio”). Após o seu regresso, instalou-se em Crotona, na Magna Grécia, onde estabeleceu uma escola [escola itálica], à qual prontamente afluíram todas as melhores inteligências dos centros civilizados. O seu pai, um certo Mnesarco de Samos, era homem instruído e de berço nobre, Pitágoras foi o primeiro a ensinar o sistema heliocêntrico e era o sábio mais versado em geometria do seu século. Criou também a palavra “filósofo”, composta de dois temos que significam “amante da sabedoria” (philo-sophos). Como o maior matemático, geómetra e astrónomo da Antiguidade histórica, bem como o mais eminente dos metafísicos e sábios, Pitágoras adquiriu fama imortal. Ensinou também a doutrina da reencarnação, tal como era professada na Índia, e muitas outras coisas da Sabedoria Secreta” (H. P. Blavatsky: Glossário Teosófico).

“Pitágoras obteve o seu conhecimento na Índia (onde até hoje é mencionado nos antigos manuscritos sob o nome de Yavâchârya, o ‘mestre grego’) (Blavatsky Collected Writings, XI, 229; a partir de agora, os diferentes volumes serão apenas antecedidos das iniciais CW). “Por outro lado, encontramos Alejandro Polyhistor a escrever que Pitágoras (que viveu cerca do ano 600 a.C.) foi um discípulo do Nazaratus assírio (os escritores gregos chamam frequentemente, a Zoroastro, o Nazaratus assírio); Diógenes Laercio afirma que o filósofo de Samos foi iniciado nos mistérios ‘pelos Magos Caldeus’…” (CW, III, 451-52),

“Jâmblico informa-nos que Pitágoras ‘foi iniciado nos mistérios de Byblos e Tiro, nas cerimónias sagradas dos sírios, e nos mistérios dos fenícios, dado que Pitágoras’, acrescenta, ‘também passou vinte e dois anos nos âditya dos templos no Egipto, associado com os Magos na Babilónia, e foi introduzido por estes no seu venerável conhecimento; não é para admirar, então, que tenha sido proficiente em magia ou teurgia, e, portanto, que haja sido capaz de realizar coisas que ultrapassam o poder meramente humano e que parecem ser perfeitamente incríveis para o vulgo (Jâmblico, Vida de Pitágoras” (CW., XIV, 274n).

“O que Orfeu disse em alegorias ocultas, Pitágoras aprendeu quando foi iniciado nos mistérios Órficos; e Platão recebeu depois um perfeito conhecimento deles a partir dos ‘escritos Órficos e Pitagóricos (New Platonism, 18)” (CW., XIV, 308). “Dos Livros de Thot (Hermes) … tanto Pitágoras como Platão derivaram o seu conhecimento e muito da sua filosofia” (CW., XIV, 39).

“Aquilo que é conhecido dos Sacerdotes do Egipto e dos antigos Brâhmanes, tal como está corroborado por todos os clássicos antigos e pelos escritores históricos, permite-nos crer nisso que somente é tradicional na opinião dos cépticos. Donde proveio o maravilhoso conhecimento dos Sacerdotes egípcios em todo o campo da Ciência, a menos que o tenham obtido de uma fonte ainda mais antiga? As célebres ‘Quatro’ sedes do saber no antigo Egipto apresentam mais certeza histórica do que os começos da Inglaterra histórica. Foi no grande santuário Tebano que Pitágoras, depois de chegar da Índia, estudou a Ciência dos números ocultos. Foi em Mênfis que Orfeu popularizou a sua demasiado abstrusa metafísica Hindu para o uso da Magna Grécia; e, desde ali, Tales, e muito tempo depois, Demócrito, obtiveram tudo o que sabiam. É a Saís que se deve conceder todo o mérito da maravilhosa legislação e a arte de governar os povos, difundida pelos seus Sacerdotes a Licurgo e Sólon, os quais continuarão sendo objecto de admiração pelas gerações futuras. E se Platão e Eudoxo nunca tivessem rendido culto no Santuário de Heliópolis, o mais provável é que um não viesse nunca a assombrar as gerações futuras com a sua ética, e o outro com o seu maravilhoso conhecimento das matemáticas” (CW, XIV, 253-54).

“Os símbolos de Pitágoras requerem … um árduo estudo. Esses símbolos são numerosos e, para sequer se compreender a essência geral das doutrinas abstrusas da sua simbologia, são necessários anos de estudo. As suas figuras principais são o quadrado (a Tetraktys), o triângulo equilátero, o ponto dentro do círculo, o cubo, o triângulo triplo e, finalmente, a quadragésima sétima proposição dos Elementos de Euclides, da qual o inventor foi Pitágoras. Mas, com esta excepção, ele não deu origem a nenhum dos precedentes símbolos, como alguns crêem. Eles eram bem conhecidos milénios antes do seu tempo, na Índia, de onde foram trazidos pelo sábio Samio, não como uma especulação, mas como uma ciência demonstrada…” (CW, XIV,95).

“Ele cultivou a filosofia, cuja esfera de acção é libertar a mente implantada dentro de nós, dos impedimentos e grilhões nos quais está confinada, sem cuja libertação ninguém poderá aprender nada com fundamento ou verdade, ou aperceber-se do defeituoso das operações dos sentidos… é esta a razão por que ele usa tanto as disciplinas e as especulações matemáticas que ocupam uma posição intermédia entre os reinos físico e incorpóreo (The Pythagorean Sourcebook, etc. pp. 132-35).

“As doutrinas Buddhísticas nunca podem ser melhor compreendidas do que quando se estuda a filosofia Pitagórica – o seu fiel reflexo –, já que estão derivadas desta fonte [as filosofias antigas], do mesmo modo que a religião Brahmânica e o Cristianismo primitivo. … A verdadeira compreensão de toda a doutrina do aparentemente intricado sistema budista só pode ser alcançada se se procede estritamente de acordo com o método pitagórico e platónico: dos universais para os particulares. A sua chave repousa nas refinadas e místicas doutrinas do influxo espiritual e da vida divina. Buda disse: ‘Aquele que não conhece e vivencia a minha Lei, e morre nessa condição, deve voltar à Terra, até que se torne um Samâna [asceta] perfeito. Para alcançar esse estado, ele deve destruir dentro de si a trindade de Mâyâ. Deve extinguir as suas paixões, unir-se e identificar-se com a Lei (os ensinamentos da Doutrina Secreta) e compreender a religião da aniquilação’” (Ísis sem Véu, I, 289). “Não, não é na letra morta da literatura budista que os eruditos podem alguma vez esperar encontrar a verdadeira resolução das suas subtilezas metafísicas. De toda a antiguidade, somente os Pitagóricos as entenderam perfeitamente, e é nas incompreensíveis (para os Orientalistas comuns e para os materialistas) abstracções do Budismo que Pitágoras estabeleceu as principais doutrinas da sua Filosofia” (CW, XIV, 419).

“A teoria cosmológica dos números, que Pitágoras aprendeu dos Hierofantes egípcios, é a única capaz de conciliar a matéria e espírito, e fazer que cada uma demonstre a outra matematicamente. As combinações esotéricas dos números sagrados do universo resolvem o grande problema e explicam a teoria da irradiação e o ciclo das emanações. As ordens inferiores procedem das espiritualmente superiores e evoluem em progressiva ascensão até que, chegados ao ponto máximo de conversão, são reabsorvidas no Infinito” (Ísis, I, 67).

“A verdadeira Magia, na teurgia de Jâmblico, é por sua vez idêntica à gnosis de Pitágoras [gnosis ton onton], a ciência das coisas que são; e com o êxtase divino dos Filaletes, ‘os amantes da Verdade’” (CW, XI, 214).

“É a Pitágoras que se deve o nome de… filosofia e filósofo – os amantes da ciência ou da sabedoria. . .assim como de gnosis, ‘o conhecimento das coisas que são’ ou da essência escondida debaixo da aparência exterior. Sob esse nome, tão nobre e tão concreto na sua definição, todos os mestres da antiguidade designam o agregado de conhecimentos humanos e divinos” (CW, XI, 220).

“Segundo nos informa Porfírio na sua Vida de Pitágoras (Gutthrie pp. 126-27 vide infra), quando Pitágoras chegou a Itália e se deteve em Crotona, atraiu uma grande audiência em torno de si e, entre as coisas que lhes disse, ‘ensinou-lhes que a alma é imortal e que depois da morte migra noutros corpos animados. Depois de certos períodos específicos, disse, o mesmo acontecimento ocorre de novo, já que nada é completamente novo; todos os seres animados são irmãos, e ensinou-lhes que devem considerar-se como pertencendo a uma só família. Pitágoras foi o primeiro a introduzir estes ensinamentos na Grécia [A Reencarnação e a Fraternidade Universal]. Ele cultivou a filosofia, cuja esfera de acção é libertar a mente implantada dentro de nós, dos impedimentos e grilhões a que está confinada, sem cuja libertação ninguém pode aprender nada com fundamento ou verdade, ou perceber a deficiência e limitação das operações dos sentidos. Pitágoras ensinou que só a mente [sublimada] vê e escuta, enquanto que o resto está cego e surdo. A mente purificada deve aplicar-se a descobrir as coisas benéficas, o que pode lograr-se por meio de determinadas artes, que gradualmente a induzem à contemplação de coisas eternas e incorpóreas que nunca mudam. Este método de percepção deve iniciar-se desde a consideração das coisas mais pequenas, para que nenhuma mudança agite a mente e esta se distraia por falta de continuidade no tema.

É por esta razão que ele usa tanto as disciplinas matemáticas e as especulações, que ocupam uma posição intermédia entre os reinos físico e incorpóreo, em virtude do que, à semelhança dos corpos, elas têm um tripla dimensão e, não obstante, participam da impassibilidade dos incorpóreos. (Ele usou estas disciplinas) como graus de preparação para a contemplação das coisas realmente existentes, por meio de um princípio artístico, desviando os olhos da mente das coisas corpóreas – cuja maneira e estado nunca permanecem na mesma condição – até um desejo por verdadeiro alimento (espiritual). Por tanto, por meio destas ciências matemáticas, Pitágoras fez verdadeiramente felizes os homens, por esta introdução artística de coisas verdadeiramente existentes” (Guthrie, pp. 132-33. O que antecede são apenas excertos do que disse Porfírio acerca da filosofia de Pitágoras. Vide Guthrie).

A Fraternidade Pitagórica“Quanto à origem do Instituto [Pitagórico], a tradição diz-nos unicamente que até à LXII Olimpíada (530 A.C.), ou um pouco depois, Pitágoras foi a Crotona com numerosos discípulos que o acompanharam desde Samos, e começou a falar em público de tal maneira que cedo granjeou a simpatia dos ouvintes, que vinham em grande número escutar as suas palavras inspiradas; ensinou-lhes verdades que nunca haviam sido escutadas naquelas regiões e da boca de um homem como ele. Foi recebido com grande deferência tanto pelo povo como pelo partido aristocrático que então detinha as rédeas do governo, e tal foi o entusiasmo despertado pelos seus ensinamentos que os seus admiradores erigiram um magnífico edifício em mármore branco – denominado homakoeion, o auditório público -, no qual poderia proclamar convenientemente as suas doutrinas e possibilitar-lhes viver sob a sua guia. . . A sua autoridade cresceu de tal maneira que cedo deteve uma verdadeira ascendência moral na cidade, que rapidamente se espalhou para fora, até aos distritos vizinhos da Magna Grécia, Sicília, Sybaris, Tarento, Rhegio, Catania, Himera e Agrigento.

Desde as colónias gregas e desde as tribos italianas de Lucani, Peucetil, Mesapii e inclusive de aldeias romanas, afluíam a ele discípulos de ambos os sexos; e o tomavam como mestre os legisladores mais célebres de essas paragens, Zauleco, Carondas, Numa, e outros. Por seu intermédio, em todos os lugares pôde restaurar-se a ordem, a liberdade, os costumes e as leis” (The Pythagorean Sodality of Crotona, por Alberto Granola, Spirit of the Sun Publications, Santa Fe, New Mexico, 1997, pp. 4-5, extractos).

“Porfírio relata que mais de dois mil cidadãos com suas esposas e famílias se reuniram no Homakoeion, viveram em comunhão de bens e regularam as suas vidas pelas leis que lhes deu o filósofo, a quem veneravam como a um deus.

Foi assim que se formou a Fraternidade, a que tinha acesso todo o homem ou mulher de bem; e a esta família filosófica do Mestre foram dadas as mesmas regras que ele havia visto nas Escolas do Oriente e do Egipto, nas quais, como já se referiu, ele adquiriu o conhecimento dos Mistérios.

O Instituto chegou a ser ao mesmo tempo um colégio de educação, uma academia científica e uma pequena cidade modelo, sob a direcção de um grande iniciado. E foi por meio da teoria acompanhada da prática, e pela união da ciência e da arte, que gradualmente se alcançou essa ciência das ciências e essa harmonia da alma e do intelecto com o universo, as quais os Pitagóricos consideravam que eram os arcanos da filosofia e da religião” (Ibid. p. 8).

“Na realidade, a sua meta era a elevação dos seus discípulos em espírito e acção, quer incutindo-lhes cultura geral e conhecimento, quer fazendo-os praticar a disciplina mais rigorosa da mente e das paixões. . .” (Ibid. p. 12).

“. . . o Sábio de Samos propôs-se reformar os homens desde o interior, e com isso necessariamente modificar as condições exteriores da vida individual e social. Uma vez que desejava construir uma religião fundada num sentimento interior e não em práticas externas de adoração, as quais, não havendo uma consciência a que correspondessem, se convertiam em mera superstição e formalismo dogmático vazio, foi totalmente natural que a nova instituição despertasse o medo dos elementos reaccionários e conservadores da sociedade crotoniense e itálica, e, sobretudo, a cólera da ignorante aristocracia, que ficava excluída pela sua deficiência intelectual e moral, do mesmo modo que os sacerdotes, que se viram privados de influência sobre a maior parte – e a melhor – da juventude. As calúnias que eles souberam difundir com a arte que parece ser seu privilégio, encontraram crédito, como sempre, no vulgo e cedo foram eles animados por outros que igualmente viram ameaçados os seus interesses particulares” (Ibid. 13-14).

“Por outro lado, está devidamente documentado que um certo aristocrata extremamente ignorante de nome Cylón, o qual, devido à sua ignorância e ineptidão, não pôde obter a admissão à Fraternidade interna, cheio de raiva e agastamento, começou a remover os descontentes. . . logrando um decreto de proscrição pelo qual se expulsava Pitágoras. Este, depois de ter procurado asilo em Caulónia e Locris, foi recebido finalmente em Metaponto, onde morreu pouco depois. Instaurou-se, então, uma feroz perseguição contra os Pitagóricos: uns foram assassinados e outros desterrados, convertendo-se em fugitivos nas comarcas vizinhas.

Nesta conformidade, a vida da Fraternidade foi extremamente curta, não tendo durado mais de quarenta anos; contudo, a eficácia dos ensinamentos Pitagóricos durou por muitos séculos. A sua chama nunca se extinguiu e, sim, foi rigorosamente preservada e transmitida de geração em geração pelos eleitos, a quem foi confiado, por graus, o depósito sagrado; de tal maneira que os cimentos da doutrina esotérica se mantiveram, e em todas as sucessivas épocas foi conhecida em menor ou maior grau” (Ibid pp. 14-15).

“Havia duas classes de adeptos na Fraternidade: os que eram admitidos a um grau de iniciação (discípulos genuínos ou familiares) e os que eram noviços [ou neófitos] ou simplesmente ouvintes (acustici ou pythagoristae); aos primeiros, divididos em várias classes. . . e aos discípulos directos do Mestre, ministrava-se-lhes ensinamento secreto ou esotérico; os outros apenas podiam comparecer nas palestras exotéricas de carácter essencialmente moral” (Ibid. p. 16). “No que respeita ao ensinamento. . . era duplo e, para ser admitido à parte fechada ou secreta, era necessário ter comprovado, por vários anos, que o candidato estava pronto para a receber e, para tanto, tinha aptidão. Aquele que não pudesse dar tal garantia, podia continuar a instruir-se nas escolas comuns ou exotéricas, num ensinamento desprovido de todo o simbolismo mas carácter essencialmente moral” (Ibid. p. 24).

A Sucessão Pitagórica
De acordo com A Vida de Pitágoras, escrito por Jâmblico: “O sucessor reconhecido de Pitágoras foi Aristeo, o filho do crotoniense Damoflón, o qual foi um contemporâneo de Pitágoras, e viveu sete gerações antes de Platão. Sendo especialmente dotado nas doutrinas pitagóricas, continuou a sua escola, instruindo os ‘filhos de Pitágoras’ e casando-se com a sua esposa Theano [não deve perder-se de vista que Pitágoras, sendo um alto iniciado, não se casou nem teve filhos. Aos discípulos do grupo esotérico de Pitágoras chamava-se-lhes discípulos genuínos ou familiares. Daí que se fale de ‘filhos’ ou ‘esposa’. Ver: Laercio]. Diz-se que Pitágoras ensinou na sua escola por 39 anos e que viveu um século. Quando envelheceu, Aristeo entregou a escola ao filho [discípulo] de Pitágoras chamado Mnesarco. Este foi seguido por Bulagoras, em cujo tempo Crotona foi saqueada. Depois da guerra, Gartydas o crotoniense, que havia estado ausente em viagem, regressou e tomou para si a direcção da escola; mas, devido à tristeza que lhe produziu a calamidade em que se encontrava o seu país, morreu prematuramente. . . Posteriormente, Aresas Lucano, a quem haviam salvo certos estrangeiros, tomou a seu cargo a escola, e a ele acorreu Diódoro Aspendio, que apenas nela foi recebido por causa do então pequeno número de Pitagóricos genuínos.

Clínias e Filolau estavam em Heraclea; Teórides e Euryto em Mataponto; e em Tarento, estava Arquitas. Também se diz que Epicarmo foi um dos ouvintes estrangeiros, não pertencendo à escola; não obstante, tendo chegado a Siracusa, evitou filosofar em público devido à tirania de Hiero. Ainda assim, escreveu os pontos de vista pitagóricos em verso e publicou os preceitos pitagóricos ocultos nas suas comédias. É provável que a maioria dos Pitagóricos tenham sido anónimos e tivessem permanecido desconhecidos” (Pythagorean Sourcebook, op. Cit. P. 120).

“Entre os Pitagóricos da escola primitiva ou das primeiras gerações, tenham eles pertencido aos discípulos ou familiares [i.e., ao grupo esotérico] ou aos acustici (ouvintes exotéricos), Jâmblico menciona 280” (Ibid, pp. 121-22). Diógenes Laercio reporta seis: Empédocles, Epicarmo, Arquitas, Alcmeón, Hipaso e Filolao.

“Aqueles que provieram desta escola, não apenas os mais antigos Pitagóricos mas também aqueles que, durante a velhice de Pitágoras, eram ainda jovens, como Filolau e Euryto, Carondas e Zaleuco, Brysson e Arquitas o velho, Aristeo, Lysis e Empédocles, Zalmoxis e Epiménides, Mino e Leucippo, Alcmaeon e Hippaso, e Tymáridas, constituíram, nessa época, uma multidão de sábios, incomparavelmente excelentes. Todos eles adoptaram este modo de ensino [os símbolos pitagóricos], nas suas conversas, comentários e anotações. Igualmente os seus escritos e todos os livros que publicaram, a maioria dos quais chegaram aos nossos dias [quer dizer, aos dias de Jâmblico, cerca de 250-330 D.C.] não foram compostos em dicção popular ou vulgar, ou no modo usual dos outros escritores para ser imediatamente compreendidos,: Foram, sim, apresentados numa forma que não era fácil de apreender pelos leitores, já que eles adoptaram a lei de reserva de Pitágoras, de uma maneira arcana, em que se ocultavam os mistérios divinos dos não iniciados, obscurecendo os seus escritos e conversas mútuas” (Vida de Pitágoras, por Jâmblico, Pythagorean Sourcebook, op. cit. p. 83).

Destruição e Dispersão da Fraternidade Pitagórica“De acordo com Aristógenes de Tarento, Pitágoras chegou a Crotona perto do ano 529 A.C.. O seu colégio ou comunidade de filósofos cresceu rapidamente e prosperou por alguns anos; porém, foi atacado pela plebe instigada por um tal Cylón, a quem, segundo consta, se lhe havia recusado a admissão na Escola. Os relatos existentes são confusos; no entanto, parece que este ataque ocorreu cerca do ano 500 A.C.. Com respeito à morte de Pitágoras, não subsistem dados precisos. Diógenes Laercio dá várias versões. Jâmblico, na sua Vida de Pitágoras, diz que ‘Pitágoras ensinou na sua Escola por 39 anos e que viveu um século’. Depois da morte de Pitágoras, a Escola continuou no extremo sul de Itália (conhecida na antiguidade por Magna Grécia), conservando talvez a sua influência até meados do século V A.C., quando provavelmente ocorreu a destruição da cidade de Metaponto, perecendo muitos dos Pitagóricos que se haviam refugiado nessa cidade. ‘Aqueles Pitagóricos que permaneceram vivos parecem ter emigrado para a Grécia, onde estabeleceram centros em Flios e Tebas. Equécrates partiu para Flios, Xenófilo para Atenas, e os nomes de Lysis e Filolao estão associados com Tebas, sendo aí que Filolao ensinou Simmias e Cebes, que aparecem como personagens no Fédon de Platão. Filolau, que nasceu perto do ano 470 A.C., foi de facto o primeiro Pitagórico que verteu a escrito os ensinamentos da Escola” (Pythagorean Sourcebook, p. 38). “Das obras de Filolau, conservam-se alguns fragmentos (ver op. cit. pp. 167-76). O único pitagórico (de que há relato) que ficou no sul da Itália foi Arquitas de Tarento, eleito magistrado supremo de Tarento por sete vezes. Deste autor se conservaram alguns fragmentos (ver op. cit. pp. 177-201). Arquitas foi aluno de Filolau e amigo de Platão, que o foi visitar no ano 388 A.C.” (Ibid. p. 177).

“Platão recebeu o pensamento pitagórico principalmente através de Filolau e de Arquitas de Tarento. Segundo Diógenes Laercio, Platão “escreveu a Dión, que estava na Sicília, para que comprasse a Filolau três livros pitagóricos pelo preço de cem minas” (Laercio, op. cit. p. 77). E por Laercio (Ibid. p. 78) e pelo próprio Platão na sua Epístola VII (The Works of Plato, trad. para inglês por Thomas Taylor, Vol. V, pp. 598-627), sabemos que ele realizou três viagens à Sicília e Magna Grécia, onde teve contacto directo com a tradição pitagórica esotérica, a qual influenciou em grande medida a sua filosofia. Assim, “talvez fosse próprio encarar Platão como o pensador Pitagórico mais importante na história do ocidente” (Pythagorean Sourcebook, op. cit. p. 38).

“Vários dos seus diálogos [de Platão) são de um carácter plenamente pitagórico como: as Leis, o Parménides e o Timeu. ‘E era prática de Pitágoras e dos seus seguidores, entre os que Platão atribui o nível mais destacado, o ocultar os mistérios divinos sob o véu de símbolos e números, o dissimular a sua sabedoria face aos arrogantes alardes dos sofistas. … E era usual entre os Pitagóricos, e em Platão, o formar uma união harmónica de muitos materiais acerca de um tema, em parte em imitação da natureza, e em parte em razão da elegância e da graça [que tal implica]” (The Cratylus, Phaedo, Parmenides, Timaeus and Critias of Plato, trad para o ingês por Thomas Taylor, Londres 1793; reimpressão facsimilada de Wizards Bookshelf, Minneapolis, 1976. Introdução a Parménides, por Thomas Taylor, p. 165).

Ao introduzir o Timeu de Platão, Thomas Taylor (Ibid. p. 249) diz: “O livro de Timeu, com respeito à natureza está composto seguindo o modo pitagórico; e Platão, de aí fazendo derivar os seus materiais, deu-se ao trabalho de compor o seguinte diálogo. . .E só Platão, de todos os fisiólogos, preservou o modo pitagórico nas especulações acerca da natureza”. Enfim, na sua Introdução às Leis, o mesmo Thomas Taylor diz-nos que “O génio de Platão, ao compor estas leis, é verdadeiramente admirável…” já que “nesta obra, parece ter fundido da maneira mais feliz a filantropia socrática com a elevação intelectual pitagórica” (The Works of Plato, op. cit. Vol. II, pp. 3 e 4).

Bibliografia

Primeiramente, deve ter-se presente que Pitágoras não deixou nada escrito, ainda que “se diz que escreveu alguns poemas sob o nome de Orfeu, sendo a fonte desta afirmação Ion de Chios, que é citado por Laercio na sua Vida de Pitágoras (Cap. 5). Laercio, citando Heráclito, diz que no tempo daquele existiam três volumes escritos por Pitágoras, um Sobre a Educação, outro Sobre a Política, e outro Sobre a Natureza. . . e que também escreveu um poema épico em verso Sobre o Universo, um outro, Poema Sagrado, um terceiro Sobre a Alma, um quarto Sobre a Piedade, um quinto Helotales, Pai de Epicarmo de Cós, um sexto Crotón, e outras obras mais” (Laercio, cap. 5, Pythagorean Sourcebook, 142-43) (Editorial Porrúa nº 417, p. 206).

“Ainda que pareça ter feito alguns discursos ao povo após a sua chegada ao sul de Itália, os verdadeiros frutos das suas investigações filosóficas foram apresentados somente àqueles estudantes que estavam equipados para os assimilar. Sem dúvida que Pitágoras sentiu, tal como o seu posterior admirador Platão, que as doutrinas de alcance fundamental nunca devem ser publicadas, visto que a filosofia é um processo e que os livros nunca podem responder às interrogações, nem ir ao limite numa investigação filosófica. No entanto, apesar da falta de textos de primeira mão escritos pelo próprio Pitágoras, não deveremos desanimar.

Existe uma imensa quantidade de material nas biografias de Pitágoras que remontam a uma época muito próxima dele, e é seguramente possível esboçar uma imagem precisa, se não completa, da filosofia Pitagórica primitiva, inclusive sendo totalmente específicos em muitos pontos” (Pythagorean Sourcebook, p. 19).

São quatro as biografias de Pitágoras que chegaram aos nossos dias:

1. A Vida de Pitágoras, por Jâmblico de Chalcis, traduzida do grego para inglês por Thomas Taylor, acompanhada de Fragmentos dos Escritos Éticos de Certos Pitagóricos e de uma Colecção de Preceitos Pitagóricos, Londres, 1818; reimpressa por Inner Traditions International, Ltd. Rochester, Vermont, 1986. Esta tradução de Thomas Taylor está reproduzida em The Pythagorean Sourcebook, comp. e trad. de Kenneth Sylvan Guthrie, com introd. e ed. de David R. Fideler, Phanes Press, 1987, pp. 57-122.

2. Vida de Pitágoras, por Porfírio, trad. do grego para inglês por Kenneth Sylvan Guthrie, em The Pythagorean Sourcebook, op. cit. pp. 123-135. esta obra de Porfírio é o único fragmento que sobreviveu da sua História da Filosofia, em quatro livros.

3. Vida de Pitágoras, preservada por Fotio, trad. do grego para inglês por K. S. Guthrie, op. cit. pp. 137-40. Fotio (c. 820-891 D.C.) foi um patriarca bizantino e professor de filosofia na Academia Imperial de Constantinopla.

4. Vida de Pitágoras, por Diógenes Laercio (Século III, D.C.), trad. Loeb Classical Library, e K. S. Guthrie, op. Cit. pp. 141-156. Em castelhano: Diógenes Laercio, Vida de los Filósofos más Ilustres, Editorial Porrúa, Colección “Sepan Cuantos”, mº 427, México, 1998, pp. 205-215.

Cabe ainda assinalar que Nicómaco de Gerasa também escreveu uma Vida de Pitágoras que não chegou até nós (Guthrie, op. cit. p.41), do mesmo modo que Apolónio de Tiana (op. cit. p. 123) e Aristógenes (op. cit. p. 135).

Um material Pitagórico adicional muito importante provém de vários dos seus discípulos, que deixaram uma grande quantidade de Fragmentos, Sentenças e Máximas Pitagóricas. Encontram-se recompiladas em duas obras já citadas, e que são de grande importância:

Iamblichus Life of Pitágoras, trad. do grego para inglês por Thomas Taylor, Londres, 1818. Reimpresso por: Inner Traditions International, Rochester, 1988. Nesta edição para além da Vida, apresenta-se um segundo capítulo com Fragmentos dos Escritos Éticos de Certos Pitagóricos (a saber: de Hipodamo o Turiano, Eurifamo, Hiparco,)Arquitas, Teages, Metopo, Clinias, Crito, Polus) e Preceitos Éticos Pitagóricos, de Stobeo, Sexto o Pitagórico, e Jâmblico (pp. 143-200). Inclui ainda um terceiro capítulo de valiosas Notas Adicionais (pp. 203-252).

The Pythagorean Sourcebook and Library, comp. e trad. por K. S. Guthrie, Phanes Press, 1987. Além das Vidas já citadas e que ocupam a primeira parte, na segunda parte, sob o título de Biblioteca Pitagórica, apresenta-se todo o material Pitagórico existente na actualidade, abarcando mais autores do que Thomas Taylor havia incluído na sua obra no século XIX. Entre os Fragmentos incorporados nesta obra, são de grande importância os de Filolau de Tarento (última parte do século V A.C.), o qual foi educado por Lysis, um dos Pitagóricos que escaparam da perseguição da escola em Crotona. Deve mencionar-se, além disso, a valiosa Introdução (pp. 19-54) de David Fideler, e a Bibliografia de 400 títulos, comp. por David Fideler e Joscelyn Godwin.

Recomendam-se também:

El Número de Oro, Los Ritmos, I; Los Ritos, II, por Matila C. Ghyka (Paris, Gallimard, 1931; Poseidon, Barcelona, 1992). Esta obra contém uma grande quantidade de dados acerca de Pitágoras e da Fraternidade Pitagórica.

The Pythagorean Sodality of Crotona, por Alberto Granola, Spirit of the Sun Publications, Santa Fe, New Mexico, 1997.

Outra valiosa fonte de Pitágoras são os escritos de H. P. Blavatsky, principalmente: Ísis Sem Véu, A Doutrina Secreta, Glossário Teosófico e os seus Collected Writings.

Tal como pôde observar-se nesta compilação, Blavatsky proporciona-nos várias chaves perdidas de Pitágoras, mercê das quais podemos estudar os seus escritos com maior proveito, na esteira da autêntica Tradição Esotérica da Teosofia.

Compilado por
J. Ramón Sordo
Arquitecto com pós-graduação em Urbanismo na Universidade de Lovaine, na Bélgica. Estudante de Teosofia há 22 anos. Co-Fundador e Presidente da organização “Fundación Blavatsky: Fraternidad Teosófica A.C.” (no México). Presidente de “Blavatsky Editorial, A.C.” (também no México); Editor e Tradutor (para Espanhol) da revista “Atma Vidya”, entre 1993 e 1997; Tradutor e Editor de vários livros Teosóficos

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