POR QUE ESTUDO OCULTISMO?*

Memórias da Juventude
Um dos primeiros pensamentos que me lembro de ter, deveria ser eu ainda muito pequena, tinha que ver com a impressão desconcertante de uma extrema injustiça no mundo, de existir um universo frio e injusto. Lembro-me de pensar que não podia o mundo ser assim tal como se me apresentava, que tinha que haver uma explicação, uma ordem, e não apenas a crueldade e injustiça que eu sentia.

Em acréscimo, algo que, também desde cedo, sempre me causou perplexidade foi o facto de observar à minha volta pessoas com 30, 40, 50 anos (e quando somos muito jovens parece-nos que estas pessoas já estão no mundo há uma eternidade…) que, embora tivessem chegado a um estado adulto, maduro, autónomo, evidenciavam os mesmos tipos de emoção que eu (uma criança) tinha. Por outras palavras, não me parecia sensato que as emoções de uma pessoa não amadurecessem com a idade, coisa que me era muito difícil de entender.

Igualmente na minha infância, os meus pais tinham ainda um vago interesse pelo sentido oculto das coisas e pelo esoterismo num sentido mais lato, o que decerto absorvi deles. Nomeadamente, foi-me de algum modo transmitida a noção de que o mundo não se reduzia às suas aparências e que, para além da fronteira visível onde acaba o mundo material, se estendem realidades mais profundas que escapam ao olhar do insensível e da mente não treinada.

Por outro lado, da minha avó, com quem passei a maior parte da minha infância, recebi extensas lições de catequese, na igreja onde ela ensinava. Ela era católica e catequista fervorosa. Consequentemente, a minha educação foi católica acima de tudo; no entanto, a minha sede de procurar uma “ordem superior” levou-me a explorar de forma interrogativa esta religião, em busca de respostas às grandes questões da existência. Assim, rapidamente percebi que, por mais que procurasse, acabava sempre por me deparar com contradições ou com um beco sem saída chamado de “mistério da fé”. Não me satisfazendo assim a teologia superficial da igreja, a breve trecho, mas não sem antes a ter escrutinado, perdi o interesse pela visão do catolicismo.

Primeiras Buscas. A Necessidade do Questionamento
Em paralelo, sentia crescer em mim uma afinidade pelas abordagens mais científicas, pela filosofia e pelo humanismo. Tal interesse, ao contrário de me afastar de uma visão mais espiritual do mundo, foi-me levando, de modo natural, para a procura de um sistema filosófico e religioso assente numa perspectiva estruturada e científica. No entanto, mesmo o humanismo – num sentido mais lato –, assim como outras correntes de pensamento com que tinha tomado contacto nessa altura, ainda se apresentavam como algo limitado e incompleto. Na verdade, embora procurassem, de certa forma, relacionar o homem com o Universo onde vive, careciam de um sentido ou um objectivo último para a existência, que claramente validasse a busca da Perfeição – Perfeição esta completamente inalcançável dentro do paradigma de uma única existência (tendo em conta o tempo de vida médio do ser humano), a qual é de todo insuficiente para proporcionar a experiência necessária à compreensão dos mistérios da existência e da morte.

Para mim era – e ainda é – bastante angustiante viver sem procurar entender o que é o mundo, qual o nosso lugar nele, e qual o sentido a dar às nossas vidas durante o período de uma vida. Fazia, portanto, todo o sentido que procurasse entender o que os grandes pensadores, filósofos e instrutores espirituais têm a dizer. O que sou eu? O que é a consciência? O que é a vida e a morte? Como sabemos se o mundo é como o vemos? Estas são apenas algumas das grandes questões que a maior parte de nós evita, negando a primeira e mais importante função como ser humano – a de pensar, a de reflectir sobre a nossa própria existência.

Na realidade, o não nos interrogarmos a sério sobre a nossa existência é uma atitude que chega aos limites do absurdo. De facto, se nos cruzássemos com um viajante e nos apercebêssemos que este empreendia uma longa e árdua viagem e, ao perguntar-lhe para onde ia, ele nos respondesse que a questão nunca lhe tinha ocorrido, pensaríamos que era louco. No entanto, o que fazemos nós senão empreender a longa e árdua estrada da vida sem tampouco dedicarmos sequer o mais pequeno esforço a tentar desvendar a sua natureza?

O Encontro com o Ocultismo
Encontrei e continuo a encontrar respostas às questões que sempre me coloquei naquilo que considero o mais completo e perfeito sistema de conhecimento – a Teosofia. Embora o Ocultismo e a Teosofia não sejam sinónimos em todas as situações, já que se pode ser teósofo sem ser ocultista e ser ocultista sem ser teósofo, na minha situação particular falo dos dois como sinónimos visto que é com os olhos da Teosofia que vejo o Ocultismo (conforme este é apresentado por Helena Blavatsky). Para tal, foi crucial para mim o meu encontro com o Centro Lusitano de Unificação Cultural, que me tem vindo a proporcionar a possibilidade de um estudo sério do Ocultismo, de acordo com a Teosofia de Helana Petrovna Blavatsky.

Um dos objectivos da Teosofia é a reconciliação de todas as religiões, fazendo ressaltar a Verdade una em que se baseiam no seu âmago. Para mim, é verdadeiramente maravilhoso o não pertencer a nenhuma religião mas, sim, a todas; o não pertencer a nenhum sistema filosófico em especial mas, sim, ao que de universal se encontra em cada um deles.

Se eu me propusesse resumir o estudo do Ocultismo em uma só frase, diria – é a busca da verdade. Se me perguntarem se o Ocultismo nos revela toda a verdade, diria que apenas na medida em que a procuramos e em que estamos prontos a recebê-la. Mas algo inestimável, e que nos é sempre dado, é o sentido que aponta para uma direcção a seguir, apresentando-nos um caminho que podemos trilhar se estivermos dispostos a fazer-nos a essa estrada.

Entretanto, para empreender qualquer busca dentro de nós, temos que nos aperfeiçoar, pois o crescimento e as realizações internas são indissociáveis da clareza mental. Tentando colocar este ponto de forma clara e simples, se não consigo tornar-me uma pessoa melhor e mais virtuosa na vida do dia a dia, não me adianta nada ter grandes ambições ocultistas e espirituais. De igual modo, e em simultâneo, também nos devemos aperceber que esse aperfeiçoamento e/ou aprendizagem nada significa senão servir para alguma coisa ou alguém para além de nós próprios.

Assim, também tem vindo a ser um factor motivador do meu estudo de Ocultismo a faculdade de que o meu esforço pessoal seja partilhado, já que também não concebo como possível trilhar a senda do aperfeiçoamento de forma separada dos outros.

Deste modo, nada pode fazer mais sentido para mim, ou ser mais gratificante, do que contribuir, dentro das minhas possibilidades, para o estudo e salvaguarda do Conhecimento de todos os tempos, hoje em dia em risco de ser votado ao esquecimento durante este reinado da ciência materialista – que postula que nada, que não possa ser observado e reproduzido fisicamente, existe – ou mesmo de ser ridicularizado, quando confundido com o manancial de (pseudo-)“espiritualidades”, tão em voga nestes tempos de confusão generalizada.

Na verdade sabemos muito pouco sobre a nossa natureza, sobre a vida e o mundo que nos rodeia. Neste mundo moderno de grandes avanços científicos mas ainda tão mergulhado num oceano de esquecimento e ignorância, julgo que só o Ocultismo nos pode proporcionar uma visão integrada do Universo e de nós próprios, como seus espelhos em constante mutação. Ao volvermo-nos cientes destas premissas, podemos tornar-nos agentes activos dessa transformação, tomando-a nas nossas próprias mãos.

É por estas razões que estudo o Ocultismo.

Helena Castanheira
Licenciada em Gestão de Empresas

* Este é o segundo de uma série de testemunhos pessoais, iniciada no número anterior da Biosofia, e a continuar nos que a este se seguirão.

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