Turquia, Islamismo, Cristinismo e União Europeia

Local de transição entre a Europa e a Ásia, território de encontro – muitas vezes de confronto – de diferentes culturas, civilizações e doutrinas religiosas, a Turquia é um país deveras fascinante.

Os turcos têm sido, historicamente, um povo cheio de vitalidade (tanto nos bons como nos maus aspectos). E é assim que, novamente, se parecem apresentar neste início do Século XXI (por exemplo, em termos económicos, a Turquia cresceu cerca de 7,5% por ano entre 2002 e 2005).

A clivagem, que muitos supõem ser radical, entre Islamismo e Cristianismo, e entre ambos estes e o Paganismo, não foi, matricialmente, tão nítida quanto isso.

Se o Cristianismo tivesse, absolutamente, nascido na Palestina – o que é bastante discutível, dado que as suas fontes constituintes parecem ter sido múltiplas –, ele só teria despontado muito ligeiramente mais a Ocidente do Medina ou Meca. O desvio longitudinal é muito escasso.

No início do Século VIII, o Islamismo era, relativamente ao Cristianismo, mais sulista, mais oriental e, também, …mais ocidental, nesta última situação devido à sua expansão em África e à conquista da Península Ibérica.

Só na transição do Século XV para o Século XVI, com a derrota final dos muçulmanos em Espanha (capitulação do Reino de Granada) e a chegada dos europeus cristãos à América, é que o Cristianismo se tornou definidamente mais ocidental que o Islamismo.
Ainda nessa altura, contudo, o Império Otomano expandia-se na Europa, conquistando os Balcãs e a Hungria e ameaçando seriamente Viena de Áustria. Em pleno final do Século XVII, além da massa territorial do sudeste europeu que abrangia, também disputava o domínio de partes consideráveis da Europa Oriental e Central.
Assim, a identificação do Cristianismo com o Ocidente e a Europa, por contraposição ao Islamismo, é relativamente recente na história.
Da mesma forma que o Cristianismo absorveu do Paganismo muitos dos seus protótipos, realidade que tem sido amplamente demonstrada, também o Islamismo entronca no Cristianismo. Tal não deriva só de ambas as religiões reconhecerem Abraão como remoto patriarca, nem dos muçulmanos venerarem Jesus como um puríssimo Profeta e modelo de perfeição humana, conceituando ainda altamente a sua mãe.

De facto, versões cristãs, nomeadamente nestorianas, anichadas na Arábia no tempo de Maomé, estiveram ligadas à génese do Islamismo. Em boa medida, esta última religião é uma reacção de extremo monoteísmo contra a Trindade, taxada de politeísta, que o Cristianismo foi (algo toscamente) absorver à Sabedoria Antiga. Esse facto é verificável na comparação de excertos de vários Suras (Capítulos) do Alcorão com as teses contraditórias que se digladiaram no Concílio de Niceia e respectivas réplicas e consequências (numa discussão de séculos).

Em muitas regiões do nosso planeta sucederam-se ou alternaram os períodos de dominação cristã ou islâmica, levando a confrontos mas igualmente a mesclas e influências mútuas. Jerusalém é um caso paradigmático. A catedral católica instalada no meio da sumptuosa mesquita muçulmana de Córdova é um exemplo pouco feliz. A maravilhosa Santa Sofia de Constantinopla-Istambul é um exemplo mais afortunado. Mas a Turquia, com o seu extraordinário património histórico, cultural e artístico, está cheia de lugares prestigiosos que, justamente, evocam o passado pagão e, depois, cristão no meio do Islamismo dominante desde há séculos: Pérgamo (com a sua famosa biblioteca), Mileto (a pátria dos grandes sábios Tales, Anaxímenes e Anaximandro), Éfeso (com o seu famoso templo de Artémis ou Diana, a sua escola de magos, o grande filósofo Heráclito e a primitiva comunidade cristã a quem São Paulo dirigiu uma das suas epístolas, além da fama lendária de ter sido a cidade onde a mãe de Jesus teria morrido), Esmirna (com os seus cinco milénios, no mínimo, de existência, local onde Homero terá residido, e uma das Sete Igrejas do Apocalipse atribuído a São João), Tarso (onde nasceu São Paulo, Apóstolo e artífice do Cristianismo), Antioquia (em tempos a terceira maior cidade do Império Romano, e onde os Nazarenos teriam sido, pela primeira vez, chamados “cristãos”, segundo o relato dos Actos dos Apóstolos) e, enfim, a região da Capadócia (dos três grandes Padres daí originários: Basílio de Nissa, São Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa).

Olhando o futuro, pensamos que a adesão da Turquia à União Europeia deve ser recebida com boa vontade. Seria uma consequência desejável da pluralidade cultural que se manifestou nos territórios que hoje cabem na Turquia. Sobretudo, poderia constituir um passo de grande importância no esbatimento de conflitos culturais e religiosos, e de reaproximação entre os povos. Temos para nós que, em termos sociais, o modelo europeu é, apesar de tudo, o mais equilibrado. A Turquia tem, sem dúvida, algo a dar e a receber, coisas a melhorar mas, igualmente, coisas que nos podem enriquecer a todos. Mais universalismo é sempre melhor…

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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