Por Que Estudo Ocultismo*

… qual “Ocultismo” estudo?…
O estudo do “Ocultismo” – no seu aspecto de filosofia perene, de raiz de muitas das actuais tradições espirituais – é hoje, sem dúvida, uma parte muito importante da minha vida. No entanto, explicar o porquê dessa importância, e responder a uma questão tão fundamental como “Por que estudo Ocultismo?”, requer que a mesma seja desmontada, pois vejo que qualquer resposta mais precipitada pode rapidamente ser descartada como fantasia ou ilusão, à luz de qualquer análise mais honesta e profunda.

Para começar tenho que considerar uma definição mais pessoal de “Ocultismo”, com que me identifique e que seja reflexo do que consigo actualmente aplicar na minha vida pessoal. De momento, considero como “Ocultismo” todo(s) o(s) ensinamento(s) que podem levar ao desvelar da Realidade que se oculta por detrás das aparências – a Realidade sobre o mundo que me rodeia e sobre mim próprio. A maneira como tenho vindo a vivenciar esses ensinamentos – à escala que me é acessível – tem estado assente na identificação e no entendimento possível das ilusões que presentemente me impedem de ver mais longe, assim como de algumas das leis que se escondem por detrás das mesmas, nomeadamente que tudo é cíclico, que tudo tem um paralelo numa ordem inferior e superior, que a personalidade é um fluxo de incongruências, e que tudo, na Realidade, é Um.

Em paralelo, e tentando definir exactamente qual o “Ocultismo” que realmente estudo (ou pratico), bem como as razões precisas que fazem com que esteja a escrever estas linhas, apercebo-me que dificilmente consigo enquadrar a minha actual abordagem numa dada escola ou corrente “oculta” ou esotérica, ou identificar uma só causa principal para hoje em dia me encontrar interessado por “ciências espirituais”.

O meu estudo do Ocultismo assenta sobretudo em três pilares que encaro presentemente como os melhores catalisadores para pôr em causa alguns dos variadíssimos véus que me impedem uma experiência cognitiva mais Real: (1) a reflexão sobre textos filosóficos de várias correntes religiosas e/ou espirituais, (2) a observação da inconsistência e incoerência dos meus fenómenos mentais através da prática da meditação segundo a tradição Budista Theravada, e o contacto com estados de consciência de não-pensamento através da prática da meditação Zen, e (3) o desenvolvimento da consciência e sensibilidade física através da prática do Hatha Yoga. Hoje em dia, sinto sinceramente que todos estes três caminhos – que acabei de referir – me ajudam a (re)conectar com uma maior sensibilidade, com um outro sentido de realidade “mais Real”, o qual é constantemente sufocado pelas actividades do dia-a-dia, pelos hábitos enraizados, e pelo “ruído” mental, automático e inconsequente, que ainda me ocupa a mente a maior parte do tempo.

… predisposição e afinidade, ou mero acaso?…
Quanto às razões que me levaram ao estudo do Ocultismo conforme acima definido – seja este levado a cabo no contexto da Teosofia de Helena Blavatsky, da Vedanta Advaita, e/ou numa prática mais “formal” de determinadas tradições espirituais com as quais, de momento, mantenho mais afinidade (o Budismo Theravada, o Budismo Zen, e o Yoga, como já referi) – verifico que tenho que dar tanta importância a uma predisposição e afinidade inerente à minha personalidade, como também (pelo menos na aparência) ao acaso e à sorte, pautada pelo sucessão de eventos e encontros fortuitos que me colocaram directa ou indirectamente em contacto com esses ensinamentos, em formas não-devocionais.

Em particular, o meu encontro com o Centro Lusitano de Unificação Cultural e a União Budista Portuguesa, e o meu “choque” com os ensinamentos escritos de Sri Nisargadatta Mahariaj, foram e continuam a ser preponderantes na manutenção do meu estudo e prática pessoal. De igual modo, também o facto de ter sido apresentado a parte da ciência oculta no contexto da minha família mais próxima – a minha mulher – e de continuar o seu estudo em conjunto, reveste-se da maior importância, sobretudo na promoção de uma abordagem séria e de trabalho em relação ao estudo e vivência do Ocultismo no dia-a-dia.

Quanto ao papel das minhas características pessoais na prossecução do estudo de Ocultismo, se, na verdade, sempre me recordo de ser um espírito inquisidor, e de ter uma enorme curiosidade e paixão por temáticas um pouco mais filosóficas, também não posso negar que as alturas da minha vida – como a actual – em que dispus da estabilidade, foco e concentração necessárias a um encontro mais sério com o Conhecimento Oculto (seja em que forma este se me tenha apresentado), não sucederam por um qualquer esforço no sentido da reunião das condições necessárias, mas surgiram do mero desenrolar de eventos que se foram apresentando como propícios a uma abordagem mais séria e menos casual.

… o hábito e o automatismo como ferramentas…
Para tal, identifico que o hábito, e até um certo automatismo, teve um papel preponderante, por mais paradoxal que isso possa parecer. Aliás, encontro-me profundamente convencido que a erradicação dos hábitos mentais e físicos que me impedem uma experiência cognitiva mais clara, requer o alimentar de outros hábitos – a que posso chamar de “virtuosos” em oposição aos “viciosos” – que passam decerto pelo privilegiar do subtil em detrimento do grosseiro, pelo procura do silêncio em vez do ruído (externo e interno), pelo desenvolvimento de hábitos alimentares que procurem o equilíbrio entre os extremos de torpor e sobre-excitação, pelo seguimento do ritmo da luz solar na alternância entre os meus períodos de actividade e de repouso, pelo alentar do prazer sentido na leitura e reflexão, e pelo hábito de tentar estar aberto e atento durante todo o dia, consciente do que se passa no corpo e na mente, sempre que possível.

Tal reflexão leva-me à continuação da minha resposta à questão “Por que estudo Ocultismo?”, num seu outro aspecto: “Por que QUERO estudar Ocultismo?”

… clareza mental e tranquilidade, o despertar da sensibilidade, e um certo sentido para a vida…
Esta pergunta não tem uma resposta fácil. Ou, de outra forma, não pode ter uma resposta completa e final, pois entendo que, à laia de um Koan Zen, ela pode – e deve – ser por mim utilizada de forma mais profunda, como ferramenta de autoquestionamento e autoconhecimento, como uma manifestação mais personalizada da questão fundamental “Que Sou Eu?”, cuja colocação é para mim a essência de todas as práticas e caminhos ditos espirituais.

Para simplesmente começar a responder à pergunta, identifico numa análise preliminar mas honesta, que não o faço ainda por motivos estritamente altruístas – como em defesa da própria ciência Oculta ou para promover o seu estudo junto de outros, por exemplo. Aliás, julgo que o verdadeiro altruísmo vai-se desenrolando, como consequência da própria prática, e do aprofundamento da sensibilidade, que lentamente me vai tornando mais atento e compassivo. De facto, se quero estudar e praticar os ensinamentos que considero como úteis para mim, tal deve-se ao desenvolvimento de uma apetência por estados de clareza mental, ao prazer proporcionado por um pensamento amplo e claro, às sensações de esperança e alívio trazidas por mais momentos de não-automatismo, e pelo vislumbrar de um sentido para a existência.

Entendo que a continuação da resposta a esta pergunta – “Por que QUERO estudar Ocultismo?” – só pode ter resolução no aprofundamento da minha própria prática espiritual, que penso dever ser levada a cabo no contexto de uma atitude de auto-exame rigorosa e “impiedosa”. Efectivamente, sei que, como todas as pessoas, me encontro sujeito ao contínuo assistir de um filme fantástico projectado pela minha mente, em que as razões para tudo o que faço são coloridas da maneira mais agradável, com vista a uma melhor negociação emocional com a Realidade. E se quiser definir um objectivo a alcançar, que ajude a justificar o estudo e as práticas a que me dedico, penso que dificilmente acharei um mais elevado do que o “desligar” dos meus “filmes” pessoais, tornando-me verdadeiramente um Ser Humano.

Tomás Marques
Engenheiro do Ambiente

* Este é o terceiro de uma série de testemunhos pessoais, iniciada no nº 28 da Biosofia, e a continuar em outros que ao presente se seguirão. Julgamos que a diversidade de experiências, perspectivas e questionamentos podem ir de encontro à diversidade de leitores.

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