(O)Culto do Som

CLAUDE DEBUSSY
“LA MER”
“PRÉLUDE À L’APRÈS-MIDI D’UN FAUNE”

MAURICE RAVEL
“PAVANE POUR UNE INFANTE DÉFUNTE”
“DAPHNIS ET CHLOÉ SUITE NO.2”

Berliner Philharmoniker – Herbert von Karajan
Deutsche Grammophon, 1986

Espaço onírico de inspiração colhida nos grandes impressionistas da época, a obra de Debussy é perpassada genialmente pela cor e luz da pintura e o simbolismo da poesia. Nascido em França em 1862, conhecido por ter quebrado a tradição do romantismo alemão, Claude Debussy criou a sua própria linguagem musical, onde a liberdade melódica, o recurso a escalas pouco usuais (como as de tons inteiros), a utilização de novos timbres e de novas concepções na formação e encadeamento dos acordes, se conjugam num universo sonoro inteiramente novo.
Em La Mer, a primeira peça deste álbum, a música reveste-se da textura fluida da água, e, como num sonho, pairamos de sugestão em sugestão, guiados pelas harmonias não funcionais de Debussy. Da absoluta quietude do mar ao raiar da aurora – onde já se ouvem os primeiros gritos das aves marinhas ecoando nos azuis que se aclaram – chegamos ao esplendor de um meio dia de sol radioso, trespassado por uma música que se desdobra em vagas de força, cor e movimento. Com o segundo andamento, prosseguimos a acompanhar as ondas na sua dança irrequieta, tocadas pelas várias vertentes da originalidade do autor, a qual no terceiro andamento nos avassala com o diálogo agreste travado entre o mar e o elemento que o destabiliza.
Após a fluidez de ritmo e cor de Prélude à l’après-midi d’un faune, vem a transição para Ravel. Embora igualmente influenciado pelo movimento impressionista e inovador nas suas estranhas harmonias, com o firme contorno das suas linhas melódicas, Maurice Ravel seguiu uma linha que o afastou do Debussy (aparentemente) vago e poético. Com este compositor, porém, partilhou ainda a atracção por espaços e tempos distantes – Oriente, Espanha, Grécia antiga – onde ambos procuraram inspiração para novas sonoridades.
Neste álbum estão presentes duas das mais conhecidas peças de Ravel – Pavane pour une Infante défunte e a Suite de orquestra No.2 retirada da sua obra sinfónica para ballet, Daphnis et Chloé, baseada em lendas da Grécia antiga. Embora alvo de controvérsia e criticada pelo próprio autor, a primeira, com seriedade e serenidade modelarmente combinadas, é uma peça notável no seu ritmo elegíaco. Na Suite No.2, além de todas as características marcantes exploradas na linha dita impressionista, estão claramente patentes os grandes traços particulares de Ravel: a paixão pelo ritmo e sua exploração soberba, o dinamismo da sua música em perpétuo movimento, a exuberância brilhante na orquestração.
Fruamos atentamente estas obras, espaços de liberdade onde pintura, poesia e música coexistem, de forma estruturada, fruto da adaptação de ideias filosóficas e matemáticas à linguagem musical – a que não serão alheios o pano de fundo esotérico no qual Debussy se movimentava e o interesse pelo ocultismo demonstrado por Ravel…

YO-YO MA
“THE ESSENTIAL OF YO-YO MA”

SONY BMG Music Entertainment, 2005

De ascendência chinesa, Yo-Yo Ma nasceu em Paris em 1955. Menino-prodígio, músico profissional desde muito cedo, tem sido distinguido com numerosos prémios. Gravou já mais de 70 álbuns e ganhou 14 Grammy Awards. Estamos perante um violoncelista de competências reconhecidas a nível mundial e cuja grande projecção se deve à permanente vontade de crescimento artístico, aliada à busca incessante de novas formas de alcançar o público. Neste processo, e porque o repertório escrito para violoncelo não é extenso, Yo-Yo Ma segue caminhos de ecletismo, interpretando obras que vão desde as peças barrocas até ao minimalismo de Philip Glass, desde melodias tradicionais chinesas aos tangos de Piazzola, desde a música Brasileira ao suporte musical de filmes como Crouching Tiger Hidden Dragon ou A Missão. Com o objectivo de promover o intercâmbio cultural, artístico e intelectual entre os povos, e dando cobertura a vários programas culturais e educacionais, fundou o Silk Road Project, configuração da música como verdadeira estrada de união entre os povos.
Distribuídas por dois CDs, as 20 faixas de The Essential YO-YO MA representam a expressão de uma inclinação universalista e tornam patente a genialidade deste virtuoso do violoncelo. Nas suas mãos, este instrumento chega a transcender a sua função, sendo-lhe arrancados sons aparentemente impossíveis – atente-se no extraordinário solo de violino do Inverno de Vivaldi, tocado… com violoncelo! Salientamos ainda o primeiro tema do álbum, adaptação muito bem conseguida da Suite nº1 em Sol maior de Bach, à qual Yo-Yo Ma confere todo o brilho e vivacidade que lhe são característicos. No segundo CD, o versátil Yo-Yo Ma consegue reunir o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, o tradicional e o inovador, em interpretações de excepção, resultando num painel musical de culturas e de estilos cujo equilíbrio torna muito agradável a audição.
Deixemo-nos conduzir pelo expressivo som de Yo-Yo Ma e saibamos aproveitar essa digressão no espaço e no tempo – pois não será nos percursos exteriores que reencontramos o nosso fio de Ariadne, o caminho que nos traz de volta aos mundos interiores?…

Ângela dos Santos Mendonça
Licenciada em Engenharia Química; Professora Auxiliar no Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

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