Mâya

Maya é uma palavra sânscrita que significa, genericamente, ilusão. Essa ilusão pode ser tanto cosmológica quanto psicológica; pode respeitar a toda a existência fenomenal ou às percepções da mesma. Assim, na verdade, o conceito comum, ocidental, de ilusão, é muito mais restrito do que o implicado no termo sânscrito.

Realidade e Ilusão

O entendimento desta noção de Maya, como, aliás, o entendimento de toda a Filosofia Oculta ou Ciência Sagrada, depende da compreensão de que “apenas aquilo que é imutável e eterno merece o nome de realidade; tudo aquilo que é mutável, que está sujeito a transformações por decaimento e diferenciação e que, portanto, tem princípio e fim, é considerado como maya: ilusão” (1).

A Realidade Absoluta
A Sabedoria Esotérica afirma claramente a existência de uma Realidade Absoluta, incausada, infinita, eterna e imutável. É o Ser-que-É-e-não-pode-deixar-de-ser, na expressão de Parménides. Está para além de tudo quanto é manifestado e condicionado, de tudo quanto existe sob quaisquer circunstâncias. Só “esse” Ser Absoluto (que, por não ser coisa relativa, nem ter quaisquer atributos, é também Não-Ser) é que é Real, totalmente Real do ponto de vista do Ocultismo.

Os Vedantinos aludem-lhe com as expressões Brahman Nirguna, Brahman sem atributos, sem propriedades – sem Gunas (2) ou qualidades (isto é, sem características, sem adjectivantes) - ou Parabrahman – justamente, e em termos etimológicos, “o que está para além” (Para) do Ser [manifestado] (Brahman).

Na Cabala, existe a referência à Existência Negativa – porque de facto, é não-existir, visto que ex-istir é o modo externo, logo condicionado, de Ser –, com os três véus que pendem de Kether (a Sephira ou emanação mais elevada na Árvore da Vida): Ain Soph Aur.

Outras Tradições Espirituais pressupõem esta Realidade Absoluta: a espiritualidade Hindu, com Tat (ou Parabrahman e Brahman Nirguna, como já vimos); o Mazdeísmo, com Zeroana Akerna, o Tempo sem limites ou a Causa desconhecida; o Budismo setentrional, com Amitâbha, o Esplendor Infinito ou Espaço Infinito; o Taoismo, com a Obscuridade, o Não-Ser, o Tao que não se pode nominar; o Confucionismo, com Tian, o Céu; as cosmogonias da Suméria, da Babilónia, Caldeia e da Assíria, com o Caos Primordial – Absu, Apsu, Abiss ou Mummu; a Mitologia Grega, também com o Chaos, anterior a qualquer criação; a religiosidade do antigo Egipto, com Nut ou Neith, o Abismo Celeste, o Espaço Ilimitado; o Hermetismo, com Deus que Sempre Esteve em Repouso, com a Obscuridade sem Fim no Abismo; o Gnosticismo, com Bythos, a Profundidade ou Grande Abismo; o Cristianismo com o Deus Ignoto ou o Deus-Pai Imanifestado, etc., etc.

No Vol. I de A Doutrina Secreta, Helena Blavatsky cita um Catecismo Esotérico Senzar: “Que é que foi e será… haja ou não um Universo, existam ou não deuses? O Espaço”. E noutro passo, acrescenta: “O ‘Pai’, é a Causa eterna, omnipresente, a incompreensível Divindade, cujas ‘Invisíveis Vestes’ são a Raiz mística de toda a Matéria e do Universo. O Espaço é a única coisa eterna que somos capazes de imaginar facilmente, imutável na sua abstracção, e que não é influenciado nem pela presença nem pela ausência de um Universo objectivo. Não tem dimensões, seja em que sentido for, e existe por si mesmo… Foi, é e sempre será” (3).

O Surgimento de Maya
Quando, porém, nesse pano de fundo imutável, nessa Ser-dade (4) radical, inamovível e necessária, nessa duração eterna e nesse espaço ilimitado, algo radia ou ondula, para dar origem à manifestação condicionada, objectiva e material, a Maya surge concomitantemente. Poderíamos antes escrever “dar origem à manifestação dual”, porque a ex-istência cósmica se desenvolve entre os pólos Espírito-Matéria e Sujeito-Objecto; e essa dualidade está no próprio cerne da ilusão mayávica.

É Maya o resultado de existir manifestação, é Maya o efeito do envolvimento do(s) Purusha(s) – Espírito(s) - na Matéria - Prakriti -, é Maya a consequência da encarnação em formas materiais, como defende a Filosofia Samkhya? Ou, como defendem os Vedantinos, Maya tem um estatuto ontológico próprio, estando latente em Brahman e sendo a causa - e não o efeito - da manifestação material do mundo (que, por sua vez, gera ignorância, Avidya, conhecimento ilusório)? A resposta é que há vários níveis de Maya, pelo que as duas afirmações não se excluem: antes de tudo, há a Maya como causa material, a versão defendida na Filosofia Vedanta, e que é radicalmente mais correcta; mas a versão dos Samkhyas, que consideram Maya como efeito da manifestação, é igualmente verdadeira, ainda que num nível secundário, num momento posterior.

Níveis sucessivos de Maya
O Universo manifestado vem, pois, a ser um desdobramento de níveis crescentes de ilusão (até o processo se inverter). De todos esses níveis, o mais terrível, o mais enganoso, o mais aprisionante, é a Luz Astral (pelo menos no seu aspecto negativo). De facto, a Luz Astral é o verdadeiro mundo de espelhos e de sombras da realidade, o imenso labirinto de todas as fascinações e miragens, ao devolver, à Humanidade, no Plano que lhe vem a seguir na escala descendente septenária (o Mundo Físico), todas as más emanações, psíquicas e vitais, que dela (Humanidade) e dele (Plano Físico) recebeu, só que ampliadas, multiplicadas e com a aparência de nos oferecer coisas reais e conduzir por caminhos reais – quando, efectivamente, nos enleamos mais em ilusões. (É assim, mesmo quando se penetra nesse labirinto através de levianas práticas pseudo-espirituais).

No outro “extremo”, tenuíssima, quase inexistente é a Maya do momento primordial do Universo objectivo e material, quando Daiviprakriti, a Luz do Logos, o poder evolutivo original da substância-energia primeva, que contém toda a informação, toda a ideação potencial de um Cosmos, faz jorrar a corrente da manifestação. Esse momento primordial contém, em modo arquetípico, todo o Universo que se expressará concretamente num longo devir de milhões e milhões de anos: é um instante eterno, eternamente duradouro durante todo o Manvantara. A essa permanência de vida-consciência-substratum ontológico de um dado Universo, nos seus limites (i.e., desse Cosmos em particular), podem aplicar-se as maravilhosas palavras de Parménides: “O Ser É e É todo agora”. No que respeita a todo esse Manvantara – mas só a esse Manvantara (5), a esse Universo –, a Alma Cósmica é Real, porque é a unidade permanente de tudo o que vem a ser.

No entanto, a partir do momento em que de Mulaprakriti – a raiz pré-cósmica da Matéria, a substância eterna, infinita, informe e indiferenciada, o véu (proto-)substancial que encobre Parabrahman – radia Matéria Cósmica, diferenciada, que vai ser moldada em formas e permitir o fenómeno da percepção (baseado na aparente dualidade Sujeito-Objecto), a ilusão mayávica já se iniciou. O próprio Demiurgo (6), Logos ou Verbo Criador – Ishvara ou Shabda Brahman ou, ainda, Pratyaagatman, entre os hindus – não conhece a Realidade Absoluta (Parabrahaman) em si mesma, porque o véu material, (Mula)prakriti, se interpõe entre eles. É este, aliás, o ensinamento do Swetasvatara-Upanishade: “A Essência única, absoluta, impessoal, junto com a sua inescrutável Maya, aparece como o Senhor Divino, o Deus pessoal”. Mais recentemente, tanto Helena Blavatsky como Subba Row afirmaram mais do que uma vez que o próprio Logos está associado a Maya. Por exemplo, no livro Philosophy of the Bhagavad Gita (7), que reúne o texto de conferências realizadas no fim de 1886, o Vedantino e Ocultista Subba Row afirma: “Parabrahman é visto pelo Logos com um véu lançado sobre ele, e esse véu é a poderosa extensão da matéria cósmica. É a base das manifestações materiais no Cosmos”.

Assim, toda a existência material, objectiva e relativa, todo este mundo de dualidade sujeito-objectivo, todo este mundo de sempre cambiantes fenómenos (ou melhor, de sempre cambiantes percepções fenoménicas) é em si mesmo ilusório, mayávico. Tal decorre de ter princípio e fim, e de estar sujeito a incessantes transformações, inerentes à existência material. Para a Sabedoria Esotérica, como vimos, o que não é Uno, permanente, constante e imperecível, não é real: é Maya. Assim, universo fenomenal é irreal, mayávico.

A (Ir)realidade da Matéria

O Ocultismo ensina que a Matéria não tem a realidade que comummente se lhe atribui. Jamais alguém viu as coisas materiais em si mesmas, se é que elas existem realmente. O que temos são percepções, percepções subjectivas, referidas a algo que pressupomos ser objectivo…e real. Entretanto, como afirmou Schelling, nada prova que, depois de retiradas todas as qualidades com que percepcionamos um objecto, ele continue efectivamente a existir – isto é, que seja algo além das qualidades que lhe referimos na consciência (8). Repare-se que a Consciência é-nos dada como evidência; ao contrário, a objectividade material passa sempre (e, no mínimo, é filtrada, se é que não é mesmo criada) pela nossa subjectividade, por sujeitos percepcionantes. Em nós mesmos comprovamos que há Consciência; mas que existem as formas materiais, como coisas em si mesmas, sem o acto de percepção, permanece por comprovar. Salvo como mera abstracção teórica, a matéria não pode ser vista como a coisa em si mesma, objectividade pura, dissociada do(s) sujeitos(s) que percepcionam as formas em que está organizada.

(Note-se, de passagem, que algumas experiência e hipóteses no domínio da Física Quântica parecem apontar para o condicionamento da matéria pela Consciência, que ora a faz ser onda, ora partícula. Antes ainda, a Ciência mostrara já que a imagem que temos da matéria é muito ilusória: não é compacta e contínua, como parece, mas é constituída por partículas atómicas que se movem em espaços essencialmente vazios - vazios, na aparência - a velocidades tão rápidas que nos dão a ilusão de continuidade, de algo compacto. A Ciência Física, se não demonstrou a irrealidade da matéria, descobriu a irrealidade do senso comum sobre a matéria).

O Ocultismo define a Matéria como “a possibilidade permanente de sensações” - conforme a sugestiva definição de Subba Row (9) e também, já agora de Camille Flammarion (10) – ou, talvez melhor, de percepções. É mais propriamente materialidade do que matéria real, no sentido objectivo que lhe damos.

O mesmo Subba Row explicita esta concepção em vários trechos, dos quais, pela sua natureza sintética, citamos o seguinte: “…[como] um objecto externo é meramente o produto do nosso estado mental, prakriti [matéria] não é nada mais do que ilusão” (11).

Idealismo Objectivo
Com efeito, a Sabedoria Esotérica tem uma posição de Idealismo Objectivo no que concerne à Teoria do Conhecimento. Sustenta que a Consciência constitui a Realidade fundamental e que as suas Leis são as Leis do que percepcionamos como fenómenos e objectos. A ordem que está impressa no Universo objectivo – ou no que consideramos como Universo objectivo - é a ordem numénica da Consciência Cósmica. Por outro lado, sendo um dos princípios fundamentais do Ocultismo a analogia entre o Macro e o Microcosmos, entre o Ser Universal (Brahman) e o Eu Espiritual (Atman) de cada indivíduo, há uma coadunação substantiva entre os diferentes níveis de ilusão em que estão envoltos, pelo que o indivíduo toma como real aquilo que existe no mesmo plano de ilusão universal em que ele está polarizado.

Em dois excertos do Vol. I de A Doutrina Secreta estas concepções estão magnificamente apresentadas. Reproduzimo-los em seguida (os sublinhados não nossos).

“Nada é permanente, a não ser a Existência Una, absoluta e oculta, que contém em si mesma os númenos de todas as realidades. As existências pertencentes a cada plano do ser, incluindo os Dhyan-Chohans (12) mais elevados, são comparáveis às sombras projectadas por uma lanterna mágica numa superfície branca. No entanto, todas as coisas são relativamente reais, porque o conhecedor é também um reflexo, e por isso as coisas conhecidas lhe parecem tão reais quanto ele próprio.

Para conhecer a realidade das coisas há mister considerá-las antes ou depois de haverem passado, qual um relâmpago, através do mundo material; com efeito, não podemos discernir essa realidade directamente, quando só dispomos de instrumentos sensitivos que trazem à nossa consciência apenas os elementos do mundo material. Seja qual for o plano em que possa estar a actuar a nossa consciência, tanto nós como as coisas pertencentes ao mesmo plano somos as únicas realidades do momento. À medida, porém, que nos vamos elevando na escala do desenvolvimento, percebemos que, nos estádios já percorridos, havíamos tomado sombras como realidades, e que o progresso ascendente do Ego é um contínuo e sucessivo despertar, cada passo à frente levando consigo a ideia de que então alcançamos a ‘realidade’. Mas só quando houvermos atingido a consciência absoluta, e com ela operarmos a fusão da nossa, é que viremos a libertar-nos das ilusões de Maya” (pág. 104).

“Tudo é relativo neste Universo; tudo é ilusão. Mas a impressão experimentada em qualquer dos planos é uma realidade para o ser que a percebe e cuja consciência pertença ao mesmo plano; muito embora essa impressão, encarada de um ponto de vista puramente metafísico, possa não apresentar nenhuma realidade objectiva” (pág. 324).

Poder-se-á perguntar: mas sendo assim, porque motivo todos vemos, ou julgamos ver as mesmas coisas?

Desde logo, porque todos estamos no mesmo plano de irrealidade – o plano da irrealidade (neste caso, a física), onde percepcionamos as coisas. Também porque, embora nos julguemos Eus separados, existe uma só Consciência – Brahman-Atman; e essa Consciência segue colectivamente uma descida a planos de irrealidade, cujos objectos, formas e fenómenos são, na verdade, projecções dessa Consciência global. Por outras palavras: tanto a objectividade como a subjectividade separatista são dois pólos da Maya que encobre a Consciência Una ou Ser Puro, dois “lados” do grande plano de ilusão que vai descendo e formando o universo material. Shankaracharya, o grande Mestre advaita, afirmava: “O corpo e o ego nada são realmente senão pura consciência. Tudo é essencialmente consciência”. (Muito mais recentemente, Erwin Schrodinger, um dos pais da Física Quântica, afirmou: “As partículas são aparência. Sujeito e objecto são apenas um. Não se pode dizer que a barreira entre eles foi quebrada como resultado das experiências recentes na Física, porque essa barreira não existe”).

Um autor pouco conhecido, Radovan Nedelkovitch, desenvolve muito bem estes conceitos a que nos vimos a referir. Toda a sua exposição sobre esta questão merece ser lida atentamente. No entanto, para não nos alargarmos, e porque algumas das considerações por ele feitas são idênticas às que aqui se apresentaram, vamos só citar alguns parágrafos:

“ (…) os objectos físicos são a criação do nosso mental, o que é, de resto, conforme com A Doutrina Secreta.

Uma tal sustentação, se bem que cientificamente inatacável, não pode deixar de se chocar com as ideias correntemente admitidas. Assim, um porta-voz (indignado com o que postulamos) do, frequentemente sem razão, chamado o ‘senso-comum’, poderia nos apostrofar como se segue:

- O senhor não irá, também, pretender que a Praça da Concórdia não existe senão no pensamento daqueles que a vêem?
- Todavia, sim – nós o pretendemos.
- O quê?! Quer o senhor dizer que o obelisco não está naquele lugar senão enquanto nós ali estamos para o olhar?
- Não é bem isso.
- Então!?… O que é que lhe acontece mal atravessemos o Sena para nos irmos passear pela Boulevard Saint-Germain? E como é que o senhor explica a concordância dos testemunhos independentes de todas as muitas pessoas que miram o obelisco?

Para poder responder de modo satisfatório, falta-nos avançar alguns passos mais no estudo da Consciência.

Vimos …. que o Sujeito e o Objecto – ou o Espírito e a Matéria – formam um Par sintetizado pela/na Consciência. (…) Todo o acto de Consciência implica necessariamente um Sujeito que está consciente de qualquer coisa, e um Objecto que é precisamente esta ‘qualquer coisa’. Ou, por outras palavras: o Espectador e o Espectáculo; ou ainda: quem percebe (o Sujeito) e aquilo que o Sujeito percebe (o Objecto), o ‘quem’ e ‘aquilo que’: o Nominativo e o Acusativo. O Sujeito e o Objecto – ou o Espírito e a Matéria – são, por conseguinte, os dois aspectos, ou faces, ou (digamos ainda) os dois pólos da Consciência, tão indissociáveis quanto o montante e o jusante no curso de um rio.

(…)

1. Um objecto físico não existe senão na consciência daqueles que o percebem – ou que são susceptíveis de o perceber.
2. O Sujeito ou o Espírito, e o Objecto ou a Matéria, são indissociáveis no acto de Consciência, e não existem um sem o outro.

Decorre daqui que aquilo que denominamos ‘matéria física’ respeitante a todos os ‘objectos’ naturais ou fabricados pelo homem, constituintes do nosso mundo físico, não pode estritamente ter outro sentido do que o de ser a face objectiva das percepções que nós temos sobre o Plano físico da existência.

Sem dúvida que, sobre isto, se poderá objectar: se este tinteiro é uma ilusão, a causa, qualquer que ela seja (já que necessariamente terá de haver uma), que a suscita na nossa consciência, deve ser notavelmente organizada, posto que ela coordena os nossos cinco sentidos de maneira tal que a visão coopera com o tacto e os nossos outros sentidos físicos para nos criar a ilusão da existência ‘objectiva’ do tinteiro.

(…)

Numa sala de cinema – ou em nossa casa, frente ao écran de televisão – espantamo-nos, nos dias de hoje, que o som esteja absolutamente sincronizado com a imagem? … Hoje em dia fala-se em realizar, num futuro próximo, filmes ‘a três dimensões’ e ‘providos de odores’ – e, por que não, ‘tácteis’, e mesmo ‘gustativos’?

Se o Homem pode realizar tais feitos e aproximar a um tal ponto a ‘ilusão’ da ‘realidade’, o que há então de espantoso em admitir que a Natureza – incomensuravelmente mais poderosa e hábil que o Homem – possa fazer tanto – e mesmo sensivelmente melhor?

Segundo uma tal concepção, aquilo a que nós chamamos ‘a percepção de um objecto’ não é senão a soma coordenada das sensações que concorrem a nos fazer crer que o objecto existe.

‘Pode ser que sim’. – concederá o nosso contraditor – ‘Mas retornemos à Praça da Concórdia. Eu devo admitir que por um instante a minha percepção de que o obelisco resulta da coordenação dos meus cinco sentidos encontrou eco na minha consciência por uma razão que me escapa agora. Contudo, outras pessoas além de mim podem ver o obelisco ao mesmo tempo que eu próprio. A concordância destes testemunhos independentes não será a prova de que o obelisco existe mesmo, para lá da minha consciência?’.

Seguramente que sim, se nos ativermos à superfície das coisas; de modo algum, se nos dispusermos a aprofundá-las.

A concordância de testemunhos dos espectadores do obelisco explica-se, com efeito, muito racionalmente, se admitirmos os dois pontos que referiremos a seguir:

1. A coordenação das sensações produzindo, num dos espectadores, o fenómeno ‘percepção do obelisco’ manifesta-se igualmente em todos os outros – quer dizer, em todos aqueles que estão ‘lá onde é necessário estar’ para experimentar esta percepção.
2. A percepção de um dos espectadores está ligada àquelas de todos os outros; dito de outra forma, as sensações que geram estas percepções coordenadas individuais são todas intercoordenadas.

Para exprimir isto na linguagem da análise matemática moderna, diríamos que tudo o que existe e se move, neste mundo físico, existe e move-se num ‘campo de consciência’ que se estende simultaneamente no Espaço e na Duração, e suscita em cada um dos habitantes deste mundo uma multiplicidade intercoordenada de percepções que é função deste habitante no referido campo de consciência.

( …)

O obelisco não tem menos existência em si, agora, do que tinha quando percepcionado, já que, de todo o modo, realmente, ele não possui essa existência. O que sucede é que o nosso passeante não percebe mais o obelisco, porque ele [o passeante, o sujeito] é deslocado na porção do campo de consciência física universal que engloba a pequena parte de Paris onde ele evolui, e que, lá onde ele se encontra agora, o dito campo de consciência suscita nele as suas percepções diferentes – sem que tal impeça, de modo nenhum, o mesmo campo de conservar o poder (activo ou latente segundo há ou não espectadores) de suscitar, no lugar dito ‘obelisco’, a mesma percepção designada por este nome.

(…)

Mas, poder-se-á agora perguntar: quais são os ‘elementos indutores’ do campo de consciência física? Por outras palavras, quais são as causas ocultas que produzem o campo de consciência imensa e infinitamente complexa que é o ‘indutor’ de todas as coisas existentes neste Plano físico?

São entidades conscientes mas infra-humanas, constituindo uma classe no grupo quase inumerável destes seres que a Teosofia moderna chama de ‘Elementais’. Estas entidades não pertencem ao Plano físico mas à divisão ‘etérica’ do Plano astral que lhe é imediatamente vizinho. Eles constituem colectivamente a Raiz invisível mas omnipresente da Matéria do Plano físico, e a fonte imediata de todas as forças e energias que ali se desenrolam.

Se compararmos a Consciência a um fluxo emanando do Sujeito e encontrando o obelisco (como o raio luminoso emitido duma Fonte e projectando-se num écran…), os Elementos indutores do Plano Físico situam-se, não a jusante da consciência física, quer dizer, ao nível dos objectos físicos, mas a montante desta consciência. É concebível, desde logo, como a vontade consciente de um ente humano pode agir sobre a consciência indutora destas entidades elementais e, sob certas condições, modificar o seu comportamento” (13).

Realidade, Existência e Fins Práticos da Materialidade
De qualquer modo, o mundo fenomenal existe para todos os fins práticos imediatos, porque “seja qual for o plano em que possa estar a actuar a nossa consciência, tanto nós como as coisas pertencentes ao mesmo plano somos as únicas realidades do momento”, para repetir as palavras de Helena Blavatsky. Em outro passagem de A Doutrina Secreta (Vol. I, pág. 78), afirma ainda a ilustre autora, na mesma linha: “O Ocultista considera também Adi-Shakti (14) – a emanação directa de Mulaprakriti (…) – como Maya, filosoficamente, e causa do Maya humano. Esse modo de ver não o impede, porém, de crer na sua existência por todo o tempo em que esta perdura (…); nem de aplicar o Akasha (15), a irradiação de Mulaprakriti, a fins práticos…”.

Com efeito, não podemos ignorar a existência do mundo externo, objectivo, material, dos fenómenos – embora, note-se, existência seja diferente de realidade. Para o Ocultismo, um facto ou uma existência que podem deixar de existir não são reais. Entretanto, por transitória, impermanente, irreal, mayávica que seja a existência material, ela desenvolve em nós a autoconsciência. Tem essa virtualidade. Se se objectar que é impossível que algo de ilusório possa desenvolver um autoconhecimento, responderemos com a analogia da nossa imagem projectada num espelho: aquela imagem não somos nós realmente e, porém, permite-nos ver como somos (pelo menos, externamente).

De igual modo, a substancialidade do universo pode e deve ser estudada, investigando, descodificando e compreendendo as Leis que o regem – que são, afinal, as leis da Consciência Universal Una. Esse estudo é fundamental e imprescindível, mesmo sabendo-se que, depois (e só depois) de muito esforço de entendimento, vem a fase de des-construção material, que nos leva à compreensão clara e fundamentada de que toda a matéria e toda a separatividade são ilusórias, mayávicas.

Maya, Maia, Maria, Mare, Mãe, Mater, Matéria
Face ao exposto, não é inconciliável com a irrealidade essencial da existência material o facto de a própria Matéria ser, em toda a religiosidade arcaica e na Tradição Esotérica, considerada respeitosamente.

Encontramos isso mesmo presente na veneração, universalmente disseminada, das Virgens-Mãe. A raiz numénica da Substância Universal (a Mãe-Mater-Matéria no seu estado ou natureza puramente passivo, não organizado, caótico e imanifestado), a Virgem-Mãe, é trabalhada, fecundada e organizada pela natureza activa de Fohat (que tem o seu pálido símile no Espírito Santo), o poder electro-vital (16) que a desperta para a vida, nela imprimindo a Ideação Cósmica; e, então, ela pode nutrir e dar à luz o Filho, o Universo, a Consciência de Relação.

Justamente, a palavra Mãe deriva da raiz Ma, que significa nutriz. Significa a Matéria (lembremos que Mãe, em Latim, é Mater), inicialmente virgem, depois organizada num universo, que é seu Filho. Há certamente uma linha de correspondência (simbólica) entre a Virgem Maya, Mãe do Buddha Gautama, a Virgem Maia, Mãe de Hermes, a Virgem Matitala (Devaki), Mãe de Krishna, a Virgem Maria que, na legenda cristã, concebeu Jesus por acção do Espírito Santo, e Mare, que refere as Águas – e, portanto, a maternidade, a materialidade e a ilusão (17).

As Nossas Ilusões
Vimos atrás que existe uma coincidência tanto da Realidade Universal com a realidade de cada uma das unidades que a integram, como dos níveis de ilusão universal com os níveis de ilusão individual.

De facto, o indivíduo está sujeito a muitos tipos de ilusões. O próprio facto de nos considerarmos como indivíduo separado do Todo é, desde logo, ilusão, Maya. Considerarmos como um Eu permanente aquilo que, na verdade, é um agregado de atributos finitos e relativos, de Skandhas (conforme o ensinamento budista) é outra forma de Maya. Considerarmos como um ser real, aquilo que mais não é do que efeitos, relações, manifestações passageiras – e, portanto, vazias de Ser -, constituiu ainda um outro modo de nos iludirmos.

A todo o momento nos identificamos com aquilo que o Ocultismo considera mayávico (face aos critérios referidos) e o tomamos como real. Identificamo-nos com o nosso corpo físico. Identificamo-nos com o nosso egotismo. Identificamo-nos com os nossos hábitos, com as tendências em nós incutidas (por herança genética ou influência familiar e social), com as nossas posses, com as nossas sensações, com as nossas memórias, com os nossos conhecimentos, com os nossos estados psicológicos condicionados, limitados, cindidos - que “partem” a Realidade Una em pontos de vista pessoais e parcelares e numa sucessão de momentos temporais.

A Ilusão Temporal

A propósito do Tempo, não resistimos a citar novamente H. Blavatsky e A Doutrina Secreta. As suas palavras são de uma clareza e profundidade magistrais:

“O ‘Tempo’ não é mais que uma ilusão ocasionada pela sucessão dos nossos estados de consciência, à medida que viajamos através da Duração Eterna; e deixa de existir quando a consciência em que tal ilusão se produz já não exista; então, ele ‘jaz adormecido’. O Presente não é senão uma linha matemática que separa aquela parte da Duração Eterna, que chamamos Futuro, daquela outra a que damos o nome da Passado. Nada há sobre a Terra que tenha uma duração real, pois nada permanece sem mutação, ou no mesmo estado, durante um bilionésimo de segundo que seja; e a sensação que temos da realidade desta divisão do Tempo, conhecida como o Presente, advém da impressão momentânea ou das impressões sucessivas que as coisas comunicam aos nossos sentidos, à medida que passam da região do ideal, que denominamos Futuro, à região da memória, que chamamos Passado. Da mesma forma, uma centelha eléctrica instantânea produz em nós uma sensação de duração, por deixar na nossa retina uma impressão que continua. As pessoas e as coisas reais e efectivas não são unicamente o que se vê num dado momento, mas consistem na soma de todas as suas múltiplas e cambiantes condições, desde o instante em que aparecem sob forma material até àquele em que deixam de existir sobre a Terra. Estas ‘somas totais’ estão eternamente no Futuro, e passam gradualmente através da matéria para ficarem eternamente no Passado. Ninguém dirá que uma barra de metal que se arremessa ao mar começa a existir quando penetra na água; nem que tal objecto consiste tão somente na sua secção transversal coincidente, em determinado momento, com o plano matemático que separa e une, ao mesmo tempo, a atmosfera e o oceano. Analogamente, é o que sucede com as pessoas e as coisas que, caindo do ‘será’ no ‘foi’, isto é, do Futuro no Passado, apresentam ocasionalmente aos nossos sentidos como que uma secção transversal do seu todo à medida que vão passando através do Tempo e do Espaço (como Matéria) no seu caminho de uma eternidade para outra; e estas duas eternidades constituem aquela Duração, na qual, e somente na qual, há algo que tem existência real, que os nossos sentidos confirmariam, se estivessem aptos a conhecê-la” (Vol. I, págs. 101-2).

E resumindo: “As nossas ideias quanto à duração do tempo são todas derivadas das nossas sensações, de acordo com as leis de associação. Enlaçadas de modo inextricável com a relatividade do conhecimento humano, essas ideias não podem, contudo, ter existência alguma fora da experiência do eu individual, e perecem quando a sua marcha evolutiva dissipa o Maya da existência fenomenal” (Idem, pág. 107).

Na Duração Eterna, estão os protótipos de tudo, num sempre Presente. A nossa noção de sucessão temporal de fenómenos, é, pois, também ela, ilusória. Em todos os aspectos, estamos envolvidos num jogo de aparências, num teatro de sombras…

A Alegoria da Caverna
Ocorre-nos, irresistivelmente, o famoso início do Livro VII de A República, de Platão. Como era seu hábito, ele põe na boca de Sócrates as suas próprias ideias. Socorremo-nos, neste artigo, de expressões predominantemente orientais, e fizemos alusão a Escolas Filosóficas hindus. A noção de que este mundo é ilusório, porém, encontra-se igualmente em tradições espirituais do Ocidente – veja-se, por exemplo, o mito Gnóstico da queda de Sophia. Deixamos pois, este texto magnífico da tradição Ocidental, que é a Alegoria da Caverna, do grande Platão:

“Sócrates – (…) Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco - Estou vendo.
Sócrates - Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objectos de toda a espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda a espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais do que as sombras projectadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Portanto, se pudessem comunicar-se uns com os outros, não achas que tomariam por objectos reais as sombras que veriam?
Glauco - É bem possível.
Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco - Sim, por Zeus!
Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objectos fabricados.
Glauco - Assim terá de ser.
Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objectos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objectos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objectos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objectos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objectos que se reflectem nas águas; por último, os próprios objectos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e a sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o Sol, e não as suas imagens reflectidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal como é.
Glauco - Necessariamente.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se da sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que aí foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples criado de charrua, a serviço de um pobre lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou da tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida”.

Des-Ilusão
A grande ilusão cósmica, colectiva, é também o somatório de todas as ilusões psicológicas “individuais”.

Cada uma dessas ilusões precisa de se dissolver - de ir sendo dissolvida -, especialmente a partir do termo médio da etapa humana, quando o apogeu da noção de Eu separado foi atingido, e é possível caminhar em direcção a uma consciência mais íntima, integrada e englobante.

Depois do grande mergulho na ilusão, há lugar ao processo de… des-ilusão, de libertação das névoas de Maya.

Essa desilusão passa necessariamente pela des-identificação com a pretensa realidade dos objectos, com os fenómenos passageiros e cambiantes, do nosso corpo, com os nossos estados e caprichos psicológicos, com a nossa personalidade egotista, com aquilo que nos separa dos “outros” e do Todo.

Referimo-nos acima à Luz Astral, como a grande potenciadora da ilusão, como o mais ludibriante e aprisionador nível mayávico, ao receber e devolver intensificadas todas as más emanações (físicas e morais) do Plano Físico. “A Luz Astral … é ‘a Serpente-Tentadora infernal’ (18) e o “Grande Ilusionista’ dos sentidos limitados do homem. Este [o homem] vive no ‘seio de Maya’, da Grande ilusão, a menos que venha em seu socorro ‘o Conhecimento por meio de Paramârthasatya’ (19) (20), quer dizer, a menos que obtenha Svasamvedâna, a Consciência ‘analisante de si’, aquela que percebe o Eu Divino (o Real). Com efeito, o homem não pode escapar a Maya senão elevando-se ao estado de Consciência mais elevado que se pode atingir através da prática do Yoga. Só esta condição de consciência sublimada permite descobrir a ‘realidade absoluta’. Sem ela, unicamente é possível conhecer ‘Samvritisatya’ (a verdade apenas relativa). Samvriti significa ‘concepção falsa’ e encontra-se na origem de Maya (a Ilusão)” (21).

Obviamente, o autor citado usa a expressão Yoga no sentido lato, como método adequado (não necessariamente hindu, e não necessariamente o preconizado por Patanjali, nos seus Yoga Sutras) para lograr a reunificação da Alma (Jiva, involução de Atman) com o Espírito.

Lembremos que Maya, é antes de tudo o envolvimento na materialidade, que conduz à criação de formas materiais separatistas e limitadoras; e que, como sua consequência, sobrevem ignorância, e subsequente (e maior) identificação com a ilusão. Se, invertendo o ciclo do envolvimento progressivo em Maya, vamos retirando os seus véus, um a um, é a ignorância que temos que retirar primeiro, para finalmente nos libertarmos dos condicionamentos das formas substanciais.

Eis porque, em artigo anterior desta série, preconizámos o caminho de Jnana, da Sabedoria – essencial e interior – e do discernimento – entre o falso e o verdadeiro, o ilusório e o real – como Yoga fundamental para os estudantes de Ocultismo.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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(1) Glossário Teosófico, de Helena P. Blavatsky, pág. 367 (Ed. Ground, S. Paulo).
(2) Acerca dos Gunas, cfr. o nosso artigo publicado no nº 24 da Biosofia, nesta mesma secção, págs. 22 a 25 (CLUC - Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2005).
(3) Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973; págs. 79 e 100.
(4) Tradução portuguesa da expressão Be-Ness utilizada por Helena Blavatsky para designar o Ser Absoluto, desprovido de quaisquer atributos, limites ou condicionalismos.
(5) Manvantara – Um período de manifestação cósmica. A duração de uma existência universal. O seu oposto é Pralaya, repouso universal, não-manifestação.
(6) Sobre o Demiurgo, e termos equivalentes, cfr. o nosso artigo publicado nesta secção “Esoterismo de A a Z”, no nº 18 da Biosofia, págs. 14 a 20 (CLUC, Lisboa, 2003).
(7) The Theosophical Publishing House, Adyar, 2ª ed., 1994; ver pág. 17.
(8) Muito antes, ensinara o Buddha Gautama: “O mundo objectivo emana da própria mente”. Por sua vez, por volta do ano 100 D.C., afirmava Ashvaghosha, um grande instrutor budista, que foi um dos principais fundadores da escola Mahayana: “Não existem objectos dos sentidos separados da consciência”.
(9) Consciencia e Inmortalidad, Editorial Kier, Buenos Aires, 1994.
(10) Nomeadamente, no seu livro Urânia.
(11) Esoteric Writings, págs. 464-5.
(12) Dhyan-Chohans – Inteligências divinas, encarregues da construção e direcção do Cosmos. O seu agregado colectivo constitui o Logos Manifestado ou Demiurgo.
(13) Le Manifeste Theosophique (Edição de autor, Paris, 1982. Ver págs. 92 a 103 do primeiro dos 3 Volumes. Embora só publicada em 1982, a obra começou a ser escrita cerca de 40 anos antes).
(14) Adi-Shakti – A força divina primordial no Cosmos. A potência criadora feminina.
(15) Akasha - A subtil, super-sensível essência espiritual, que preenche e penetra todo o espaco. É o Espaço Universal em que está imanente a Ideacão Eterna do Universo.
(16) Sobre Fohat, cfr. o nosso artigo publicado, também nesta secção “Esoterismo de A a Z”, no nº 23 da Biosofia, págs. 14 a 20 (CLUC, Lisboa, 2003).
(17) “Em todas as cosmogonias a ‘Água desempenha o mesmo papel importante. É a base e a fonte da existência material” (H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. I, pág. 123).
(18) Expressão de Helena Blavatsky, numa resposta a pergunta colocada por um estudante. Pode ser encontrada em Transactions of the Blavatsky Lodge (Theosophy Company, Los Angeles, 1987; pág, 126) ou em Blavatsky Collected Writings, Vol. X (Theosophical Publishing House Wheaton, 2ª ed., 1974; pág. 384).
(19) Expressão de Helena Blavatsky, no Vol. I de A Doutrina Secreta. Ver pág. 110 da edição em Português.
(20) Paramârthasatya – A realidade ou verdade una, absoluta; conhecimento puro; Consciência íntegra.
(21) Doctrines Initiatiques, de Salomón Lancri (Editions Adyar, Paris, 1975; pág. 277).

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