Como Estamos de Ensino…

Bartolomé Las Casas, missionário dominicano, analisando, perplexo, a insensatez do comportamento dos espanhóis, perante os índios Aztecas, escreveu em 1550: «Não sabemos se devemos rir ou chorar em face do absurdo». Tratava-se da leitura, em castelhano, sem se recorrer a um intérprete, do «Requerimiento», elaborado pelo jurista real e dirigido aos índios, em 1514, de que transcrevemos a parte final, para que melhor se possa compreender o absurdo a que Las Casas se referia: Jesus transmitiu o seu poder a S. Pedro, e este aos papas que se lhe seguiram; um desses últimos papas fez doação do continente americano aos espanhóis (e parte aos portugueses). Estabelecidas, deste modo, as razões jurídicas do domínio espanhol, falta apenas assegurar uma coisa: que os índios sejam informados da situação, pois pode dar-se o caso de eles ignorarem estes presentes sucessivos que os papas iam fazendo aos imperadores. (…). Se os índios se mostrarem convencidos depois dessa leitura, ninguém tem o direito de os tomar como escravos. Se, no entanto, eles não aceitarem esta interpretação da sua própria história, serão severamente punidos.

Perante o Ensino moldado à luz da nova Reforma, implementada em 2003, sem que a anterior tivesse sido sequer avaliada, e o planeamento e organização dos diferentes curricula, recuperamos as palavras de Las Casas, aplicando-as à situação que actualmente vivemos, clímax de uma postura que se foi pacientemente anunciando a partir da década de 80. Em suma, representa-se na Escola uma tragicomédia de baixo nível e os que não se convencem, nem aplaudem, são de imediato apontados como «catastrofistas», «saudosistas», «resistentes à mudança», «adeptos da memória», «não amantes do ensino e por isso adversos à pedagogia», sendo alguns também punidos com estranhas perseguições.

Não há qualquer desejo de reflectir sobre a polémica instalada, nomeadamente no ensino de Português, área que privilegio por ser aquela em que profissionalmente me integro. A testemunhá-lo estão os debates sobre o Ensino, que se têm vindo a realizar, e para o qual são convidados inúmeros intervenientes, que preenchem todo o tempo disponível com as suas orientações, restando escassos minutos para a intervenção do público assistente.

A isto se tem chamado «Debate sobre o Ensino». De referir que esses convidados (entre os quais se incluem ministros, secretários de estado, directores-gerais, presidentes de câmara, entre outros) no início do seu discurso afirmam sempre que irão ser breves para permitir «um amplo e profícuo debate». No entanto, é com paciência incontida que os vemos, durante 40 minutos, ou mais tempo, folhear folha após folha o seu «breve discurso», tal lago em que narcisicamente se revêem e se admiram, esquecidos de que são observados. Seguem-se depois as palmas, quase inaudíveis, e, «porque o tempo escasseia», as intervenções do público «deverão ser breves», restringindo-se a 3 ou 4 pessoas, cujas palavras são interpretadas, e por vezes adulteradas, por algum dos convidados, não havendo possibilidade de resposta, porque seria «monopolizar o debate».

Tudo se processa com a mesma metodologia, arrogante e repressiva, que de início foi anunciada pelo Ministério da Educação, quando solicitou aos professores de Português a avaliação do projecto do novo programa de Língua Portuguesa para o Secundário, e a apresentação, por escrito, das críticas levantadas. Alertava-se, no entanto, os professores para a leitura da «Nota Prévia», de que transcrevemos o último parágrafo, sendo nosso o sublinhado: O texto, na globalidade ou parcialmente, poderá vir a sofrer alterações que dependem da reflexão já iniciada pelos autores para os 11º e 12º anos e das opiniões construtivas dos leitores, desde que não colidam com as opções metodológicas tomadas. Em suma aconselhavam-nos a que nos deixássemos convencer pela nova verdade de uma pedagogia, que mais não será que uma experiência falhada e sem futuro, com a agravante de estar a fomentar a ignorância e a viciar os alunos na ausência de esforço e na falta de brio, presenças imprescindíveis em qualquer Estudo e na própria Vida.

Na verdade, é porque não nos deixamos convencer por estas novas verdades impostas e a elas reagimos com veemência, não silenciando a nossa sensibilidade e a nossa inteligência, que continuaremos a recusar não só a dita «inovação» da «TLEBS» (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), forma de complicar a Gramática Clássica que nos esclarece sobre a língua, mas também o ensino da Literatura, como um mero tipo de texto. Não substituiremos a designação clássica de advérbio de modo, por aquela que a TLEBS propõe em «supostamente», por exemplo: «advérbio disjunto restritivo da verdade da asserção». Também não poremos ao mesmo nível um poema de Eugénio de Andrade ou de Cesário Verde e um rótulo de um medicamento ou um anúncio publicitário. Um requerimento, um anúncio ou um rótulo passarão, mas a Arte, nela se incluindo a Literatura, ficará.
Essa é a certeza que temos e que partilhamos com os alunos, levando-os a reflectir sobre a imprescindibilidade do Belo, da Arte, não só no aprofundamento do Saber, mas também na reflexão sobre a sua própria Condição Humana, implicando a sua relação com o Outro, com Deus, com a Morte e consigo próprio. Empenhamo-nos, no fundo, em acrescentar algo aos nossos alunos, estimulando simultaneamente a criação e a inovação, no comprometimento da dupla função de professor-estudante.

Maria do Carmo Vieira
Licenciatura em Filologia Românica e Mestre em Literatura de Viagens pela Faculdade de Letras de Lisboa. Professora de Português e Francês do Ensino Secundário.

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