Hábito, Experiência e Criatividade

Todos nós, em maior ou menor grau, nos tendemos a acomodar às rotinas, às habituações, às repetições no modo de agirmos, de falarmos, de pensarmos e até de sentirmos.

Se em diversos aspectos, sobretudo nos automatismos orgânicos-físicos, esses hábitos são algo de natural e até necessário, nos aspectos mais psicológicos eles acabam por nos cercear a autenticidade e a criatividade, levando-nos a um funcionamento maquinal.

Mais tarde ou mais cedo, a vida, com o fluir dos seus acontecimentos, vem sacudir-nos desse adormecimento e obrigar-nos a deixar o encosto dos hábitos. São os momentos de estupefacção, de choque, muitas vezes de dor, que quase sempre constituem as nossas maiores oportunidades de progresso. Na verdade, devíamos abençoá-los em vez de os lamentar, como normalmente fazemos.

Com efeito, a vida deve ser uma constante descoberta, implicando a libertação dos condicionamentos. A liberdade não é acomodação aos estímulos ou absorção dos modelos externos, por muito rebeldes ou libertadores que eles pretendam ou pareçam ser. A simples reacção, determinista, às circunstâncias, acontecimentos e modelos externos, que nos moldam o carácter, e que, portanto, nos comandam, é tudo menos liberdade. A acção, a verdadeira acção, é plena e criativa, é livre e incondicionada, é exactamente o oposto de reacção. Tal acção constitui a verdadeira floração do espírito humano e eleva-nos acima do mundo.

No entanto, a experiência é uma coisa diferente do hábito. A experiência metabolizada é a quintessência dos resultados de tudo quanto fizemos no passado; é a colheita de aprendizagem dos nossos actos físicos e psicológicos; é a base de instinto, de memória, ou, mais importante, de reminiscência – uma memória mais subtil, profunda e libertadora –que representa o que nos dá força e segurança para os voos da criatividade.

Dos hábitos psicológicos podemos e devemos prescindir; a experiência é uma grande e confiável aliada da criatividade. Sem criatividade somos escravos, sem experiência arriscamo-nos a ser loucos.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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