Por que estudo Ocultismo?*

“(…) pouco interessa definir um estilo de vida. O importante é a Vida e a consciência que ela, por ela, e nela, se adquire.”

Tenho de mim mesma a imagem de alguém que desde muito cedo se questiona sobre si própria e sobre o mundo, procurando compreender profundamente quem sou e qual o sentido da minha vida e do entrelaçado com muitas outras vidas. À medida que fui crescendo, formando uma consciência mais clara do que nos rodeia, e que as responsabilidades familiares, profissionais e de cidadania foram atingindo a maturidade adulta, essas interrogações profundas tornaram-se intensas e incontornáveis. Durante anos procurei respostas na Teologia Católica. Não era certamente a única via mas era a mais acessível para mim e à qual estava mais ligada. Fiz pequenos cursos e seminários, frequentei cadeiras de Teologia e estudei algumas obras doutrinais. Apesar dessa experiência de procura se ter tornado numa vivência humana de grande riqueza e solidariedade, não encontrei senão respostas parciais e que acabaram por dividir a minha existência em duas realidades antagónicas. De um lado, ficava o explicável, racional, científico, o desafio para conhecer e compreender cada vez melhor o funcionamento da Natureza em toda sua variedade de formas, cores e movimento. Do outro, estavam as nossas crenças religiosas, o convite a acreditar que a vida tem sentido mas que a sua compreensão não nos está acessível, como também não é inteligível a causa das desigualdades intrínsecas, envolventes e de oportunidade com que nascemos e crescemos, ou a razão profunda da dor e do sofrimento. Tudo o que podíamos era entregar-nos à fé e à vivência da fraternidade.

“Sem que o saibais completamente (…) tudo o que vos acontece depende da profunda vontade livre que, no vosso interior, dita leis.”

Há cerca de 15 anos, numa sequência feliz de procuras e desacertos, abriu-se a porta para o encontro com o Ocultismo através do Centro Lusitano de Unificação Cultural. Um primeiro livro, uma primeira conferência, um pequeno curso… Seguiram-se outros livros, várias conferências, a participação na admirável Solenidade do Ritual do Plenilúnio de Junho, realizada anualmente com crescente grandiosidade e beleza até 2002 e, desde 1997, a frequência de cursos e seminários que o CLUC passou a disponibilizar de forma sistemática. Sobretudo através deste último meio, tenho tido a possibilidade de conhecer e estudar a mais relevante e variada literatura ocultista, com destaque para um dos seus expoentes máximos: a Doutrina Secreta de Helena Blavatsky.

Num outro número da revista Biosofia , tive já oportunidade de explicitar a extraordinária importância que o estudo do Ocultismo tem tido na minha experiência profissional ligada à área da docência e da investigação científica e, nomeadamente, na compreensão aprofundada da metodologia e alcance das Ciências Físicas relativamente à metodologia, abarcância e complexidade da Ciência Esotérica. No que segue, continuarei essa reflexão, desenvolvendo outros aspectos para os quais o estudo do Ocultismo está a ser igualmente transformador.

“Da mesma forma que um actor desempenha sucessivos papéis, encarnando diversas personagens, das quais, no entanto, é distinto, também a alma mergulha em vidas sucessivas nos mundos materiais.”

Mesmo numa vida, cada um de nós desempenha vários papéis. Esses papéis estão relacionados com o contexto familiar, profissional e de participação na vida de um povo e de uma nação. Por exemplo, toda a nossa vida somos filhos e, regra geral, numa boa parte dela somos também pais. Sermos filhos e pais, pertencermos a células familiares e desenvolvermos novos núcleos por união com outras pessoas é uma vivência exigente, cheia de compromisso e responsabilidade, de planos e imprevistos, de similitudes e contrastes, de dores e alegrias, tornando-se, portanto, uma ocupação a tempo inteiro. A partir de certa idade, precisamos de um trabalho profissional remunerado, o que também acaba por nos ocupar muitas horas diárias. Nesse ambiente profissional assumimos ainda outros papéis, correspondentes às tarefas que desempenhamos. Além disso, independentemente da maior ou menor dificuldade ou satisfação com que vivamos, nomeadamente em termos de saúde, a nível financeiro, etc., temos gostos e afinidades, opções religiosas, partidárias, clubistas, assumindo papéis que, por vezes, levamos demasiado a peito e nos tornam mais próximos de uns e em menor sintonia, senão mesmo em desarmonia, com outros. Finalmente, falamos uma língua e temos características que nos distinguem dos outros povos do planeta. Tudo isto tem algo de formidável pela riqueza da diversidade e pela variedade de experiências que nos proporciona.

Contudo, na maior parte dos casos e durante períodos mais ou menos longos das nossas vidas, vivemos completamente enleados nestes papéis, a eles entregues, como quem é levado e trazido pelas ondas do mar, sem tempo para grandes reflexões e interrogações, ocupados e pré-ocupados com as diferentes minudências de cada dia. Quando a dor, a mágoa, a humilhação ou a profunda insatisfação batem à porta (tantas vezes por comparação com outros), somos então assaltados por perguntas como: “Por que sou assim?”, “Por que é que isto me acontece?”, “Por que é que (os outros) só me arranjam problemas?” ou outras do mesmo género. Quantas vezes nos tornamos acres, revoltados, tristes, deprimidos, atrofiados por dentro e por fora e, achando-nos vítimas das circunstâncias e dos outros, transformamos a vida num muro de lamentações ou, pior ainda, numa sucessão de experiências autodestrutivas.

“Deixar de ser e voltar a ser o Ser que sempre foi, eis a história do Cosmos repercutida infinitamente em cada um dos microcosmos interiores.”

O estudo do Ocultismo tem-me feito perceber que nos está destinado um papel muito mais fundamental do que todos os que foram acima referidos, um papel principal que, contudo, porque se concretiza por meio da realização de todos os outros papéis (secundários) em que estamos envolvidos, não nos apercebemos dele com facilidade. É que a vida é uma aprendizagem, e o sentido da vida, de todas as vidas e, em particular, da vida humana, é o de aprender a ser (o Ser que sempre fomos, como diz o texto acima). Através da nossa existência como pais, filhos, companheiros, profissionais, portugueses, etc., a Vida, sempre lúcida e sábia, vai-nos proporcionando o contexto familiar, as actividades profissionais, o rol de relações humanas, a participação nesta acção, naquela obra, etc., que mais se adequarão aos aspectos do ser que viemos desenvolver, de acordo com as nossas faculdades próprias. Então, em cada situação, em cada dor, em cada dificuldade devemos perguntar-nos “o que vim aprender com isto?” “o que é que a vida me está a querer ensinar?”, “por que me tocou viver esta situação?”, “por que vivo esta dificuldade concreta?”. O desenvolvimento de uma atitude fundamentalmente mental e reflexiva, baseada nessa premissa de que acima de tudo estamos aqui para aprender e somos, portanto, partes tão interessadas quanto responsáveis por todos os acontecimentos e situações em que estamos envolvidos, desenvolve em nós a força e o ânimo necessários para encarar as dificuldades de modo construtivo e descobrir novos caminhos a trilhar em comum.

“(…) ocultamente, o livre-arbítrio consiste em escolher o foco da consciência. (…) O homem vai escolhendo quem quer ser mas não o que É.”

Um aspecto muito importante dessa aprendizagem é desenvolvermos a compreensão de que a realidade é geralmente muito diferente daquilo que percepcionamos. Na verdade, as nossas características pessoais, os nossos pré-concebidos, os nossos medos e anseios funcionam como umas lentes oculares que distorcem a realidade. Essas lentes, tanto mais fortes e deformadoras quanto menos abarcante e desenvolvida é a nossa consciência, moldam a nossa percepção dos acontecimentos, facilitando deduções e juízos rápidos, superficiais e imediatistas. Assim, favorecem conflitos, dependências e pessoalismos, e afastam-nos da verdade interior dos seres, coisas e fenómenos com que lidamos. Devemos pois educar-nos na desconfiança das nossas percepções, uma vez que, ao serem visões parciais e toldadas pelas características de quem percepciona, elas serão sempre muito limitadas e, nesse sentido, enganadoras. Tanto no conteúdo como na metodologia, o estudo do Ocultismo é um extraordinário instrumento para nos revelar uma realidade muito mais imensa, grandiosa e complexa, que vai ficando progressivamente ao nosso alcance à medida que desenvolvemos e aperfeiçoamos a nossa consciência.

Outra questão para a qual a atitude mental e reflexiva é preciosa tem que ver com tudo aquilo que nos separa uns dos outros: as nossas características próprias, maneira de ser, gostos, afinidades, etc.. Tantas vezes tomados como pontos de fricção, antipatia, afastamento ou mesmo de conflito, esses aspectos devem ser antes entendidos e trabalhados como expressão da diversidade e da diferença que nos completa e, simultaneamente, nos questiona e desafia. De facto, todas essas características que possuímos são demasiado relativas e passageiras para nos apegarmos ou sofrermos tanto por elas. No entanto, como todos os matizes são necessários ao desenvolvimento da consciência, devemos implicar-nos seriamente na compreensão da perspectiva do outro, na construção de pontes e de laços de harmonia e complementaridade. Além disso, é neste processo que radica a construção da verdadeira e duradoura paz.

“A Justiça Universal é rigorosa e inabalável mas compassiva e amorosa na sua execução, trazendo para cada um apenas o que pode suportar em cada momento e que lhe permita aperfeiçoar-se e caminhar para um futuro mais radioso.”

Tantas vezes ficamos desagradavelmente surpreendidos, queixosos ou mesmo indignados com certas situações que nos acontecem na vida e, por vezes, até acontecem repetidamente: “Por que é que isto me acontece?”; “Por que parece a vida ser tão injusta?”… O estudo do Ocultismo tem enraizado em mim essa importante lei universal de que toda a causa tem o seu efeito e todo o efeito teve a sua causa, bem como o facto de que tal acontece em todos os níveis da nossa acção, ou seja, não só no plano físico mas também ao nível dos sentimentos e pensamentos que geramos, acolhemos e potenciamos. A certeza de que todos os efeitos tiveram uma causa deve fazer-nos olhar para o nosso próprio passado com perspectiva, pois uma reflectida ponderação dos acontecimentos passados pode trazer ao de cima aspectos sobre a nossa natureza ou sobre a forma como lidamos com certas situações de que não estávamos bem conscientes. Como disse José Manuel Anacleto num seminário recentemente realizado no CLUC, “o Karma pode ser um grande instrumento de auto-conhecimento”. Nada acontece por acaso e a Natureza, de forma sábia e lúcida, vai confrontar-nos com experiências semelhantes, todas as vezes necessárias até que a aprendizagem seja feita e o patamar de dificuldade ou conflito seja ultrapassado. Este processo pode ser muito dificultado pela nossa teimosia, casmurrice ou pela falta de uma correcta compreensão dessa grande Lei do Equilíbrio Universal através da qual podemos apreender o justo equilíbrio entre a resignação e a luta, entre a espera e a acção.

“A esperança legítima é feita da substância da certeza. Ela está alicerçada na inabalável confiança na força da evolução, que decorre do Conhecimento, volvido Sabedoria, das Leis Universais.”

O Ocultismo ensina-nos que todos os seres têm em si mesmos aquilo que os fará avançar na sua evolução, bem como a força necessária para o fazer. Por isso, mesmo quando o profundo desânimo ou as circunstâncias mais dolorosas nos fustigam, não devemos perder o sentido da relatividade de todas as coisas, nem da força da necessidade kármica que nós próprios desencadeamos. Esta consciência pode ajudar-nos a retirar intensidade dramática às circunstâncias que estamos a viver, a criar quietude interior e exterior e a unir-nos com a presença silenciosa do SER no âmago do nosso pequeno ser, tornando possível a esperança, a alegria interior e a vontade de recomeçar.

“Espargir a Sabedoria Divina em consoladora transformação do mundo, lutar sem desfalecer pela emersão dos mais correctos valores, restaurar na Terra o estudo sério e sistemático da Eterna Sabedoria, tal é o convite que deixamos a todos os que nos possam compreender.”

Como bem sabemos, nada cresce do dia para a noite. Cada nova etapa de aprendizagem faz-se através de inúmeros pequenos esforços de construção diária que, a pouco e pouco, se vão revelando extremamente frutuosos. E tal acontece não só em termos pessoais, pois, na verdade, modificamos mais o mundo modificando-nos a nós próprios e à nossa própria consciência. Como é que o cultivar diário de uma atitude mental e reflexiva nos pode modificar tanto? Lembremos o importante axioma oculto: A energia segue o pensamento. Assim, quanto mais nos focalizarmos nessa atitude, melhor será o modelo arquetípico interno de vir a ser que vamos gerando e desenvolvendo, e melhor e menos morosa será a adaptação da acção externa à nossa vontade interna. Esse processo evolutivo corresponde ao desenvolvimento da nossa mente inferior, analítica mas de horizontes curtos, subjugada pelas nossas emoções, na sua caminhada de unificação antahkarânica com a nossa natureza superior, ponderada, discernida, englobante, sábia e imensamente amorosa. “A verdadeira transmutação é uma Arte Mental.” e os seres humanos estão particularmente dotados para gerar obras únicas e de rara beleza.

Liliana Ferreira
Licenciada em Física; Doutorada em Física da Radiação; Professora no Departamento de Física da Universidade de Coimbra; Investigadora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

1. “NE II”, CLUC, Lisboa, 1991, pg. 89.
2. idem, pg. 111.
3. “Ciência e Esoterismo: uma vivência pessoal”, Con(tro)versas, Biosofia nº 18
4. “Sete Chaves”, CLUC, Lisboa, 1ª ed. 1995, pg. 23.
5. “NE II”, CLUC, Lisboa, 1991, pg. 84.
6. “No Domínio do Espaço-Tempo”, CLUC, Lisboa, 2000, pg. 60.
7. “Karma”, J. M. Anacleto, CLUC, Lisboa, 2006, pg. 45.
8. Seminário “As Sete Leis Herméticas e sua aplicação prática às situações da nossa vida quotidiana”, J. M. Anacleto, CLUC, Lisboa, 24 e 25 Março, 2007.
9. “O Sétimo Círculo – A Coroa de Liberdade”, CLUC, Lisboa, 1ª ed. 1995, pg. 128.
10. “Cartas de Luxor”, CLUC, Lisboa, 2000, pg. 159.
11. “O Caibalion”, Ed. Pensamento, 17ª ed., S. Paulo, 2007

* Este é o quarto de uma série de testemunhos pessoais, iniciada no nº 28 da Biosofia, e a continuar em outros que ao presente se seguirão. Julgamos que a diversidade de experiências, perspectivas e questionamentos podem ir de encontro à diversidade de leitores.

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