Nirvana

O conceito de Nirvâna aparece normalmente associado ao Budismo embora tanto o sentido como, inclusive, a própria palavra sejam utilizados independentemente da vida e do Ensinamento do Buddha Siddhartha Gautama (1). Existem no Hinduísmo, embora mais usualmente sob a designação de Moksha.

O sentido do Nirvâna
O termo, sânscrito (2), pode ser decomposto em dois étimos: Nir, que significa “sem”, “livre”, “fora de”; vâna, que significa “floresta”. Está implícito o conceito de libertação, de sair dos obstáculos, dos labirintos, dos emaranhados habituais numa floresta.

Esta floresta é a existência condicionada, com todos os seus liames de desejos, ilusões, tendências separatistas (skandhas (3)) que moldam distintas e sucessivas personalidades (máscaras), com as quais o ser se confunde, em miríades de vidas, na grande roda dos renascimentos e das consequências kármicas.

O Senhor Buddha, com a sua imensa Sabedoria, na formulação das Quatro Nobres Verdades, começou por considerar e reconhecer a miséria da condição humana e o sofrimento (dukkha) – a insatisfação, a impermanência, o vazio essencial da personalidade… – que lhe é inerente. Dizia ele ao seu primo e discípulo mais próximo: “Não te iludas, Ananda. Toda a existência é sofrimento. Por isso, chora a criança desde que nasce…”.

Depois, aclarou com precisão a causa desse sofrimento: é tanha, o desejo, num sentido amplo, que engloba a ambição, a “ciosidade” pessoal, o aprisionamento ao efémero e irreal.

Afirmou, por conhecimento directo, que é possível extinguir o(s) sofrimento(s), anulando a(s) sua(s) causa(s), e alcançar a libertação, o Nirvâna. No seu conhecido livro A Luz da Ásia, Edwin Arnold põe estas palavras na boca de Siddharta Gautama: “Se estivésseis sujeitos à roda das transformações sem que houvesse meio de romperdes as vossas cadeias, o Coração do Ser Infinito seria uma maldição, e a Alma das Coisas uma dor cruel. Porém, não estais irremediavelmente ligados à cadeia das metamorfoses! A Alma das Coisas é suave; o Coração do Ser possui uma paz celestial; a vontade é mais forte que a dor; o que era bom se torna melhor e depois excelente. Eu, Buddha, que chorei com as lágrimas dos meus irmãos, eu, cujo coração se partiu de dor pelos sofrimentos do mundo inteiro, sorrio agora e sou feliz porque aqui está a Liberdade!

Oh! Vós que sofreis, sabei que sofreis por causa de vós mesmos. Nenhum outro vos incita ou vos retém para fazer-vos viver ou morrer, fazendo-vos girar na roda da vida e abraçar e beijar seus raios de agonia, seu aro de lágrimas e seu cubo de nada! Escutai! Eu vos mostro a Verdade! Mais abaixo que o Inferno e mais alto que o Céu, mais distante que as estrelas mais longínquas, além da morada de Brahma, há um poder estável e divino que existiu antes do começo e não terá fim, eterno como o espaço e seguro como a certeza, que se move para o bem e que só está sujeito às suas próprias Leis”.

Finalmente, apresentou o método – o Caminho dos Oito Passos – que nos podem libertar do Sansâra (a roda dos renascimentos), levar à iluminação e conduzir ao Nirvâna.

O Nirvâna não é um lugar mas uma condição – ou mais propriamente, uma não condição, isto é, uma não sujeição a todo o condicionalismo e limitação material, tanto física, como astral, como até psíquica e mental. É um estado em que se extinguiu, não o Ser – como alguns, erradamente interpretaram (4) –, mas as amarras que o aprisionam e as ilusões que o dilaceram em mil e um desejos, sempre com novas faces e matizes, sempre com novas formas de insatisfação, sempre com novos motivos de sofrimento e remorso que brotam da mesma raiz que, justamente, é necessário extirpar: o tomar como realidade aquilo que é impermanência e, portanto, irrealidade. “É um estado de bem-aventurança absoluta e de consciência total e livre, um estado de absorção no Ser cósmico puro, e é o prodigioso destino daqueles que alcançaram um conhecimento e uma pureza super-humanos e a iluminação espiritual” (5).

Questões e Equívocos
Mesmo entre os que procuram compreender os conceitos sem preconcebidos negativos ou hostis, a expressão Nirvâna tem-se prestado a vários equívocos. Desde logo assim é porque, como observa o Sr. A. P. Sinnet na sua preciosa obra O Budismo Esotérico (6), o Nirvâna tem, como tudo no Cosmos, uma natureza septenária. Depois, porque há que distinguir entre Nirvâna e algo de ainda mais excelso, o Para-Nirvâna, ou seja “o que está para além” (Para) do Nirvâna; depois ainda, porque podem ser diferentes os desígnios que conduzem ao Nirvâna e, consequentemente, o modo como ele é vivido (à falta de melhor expressão). Finalmente, porque há ainda um estado nirvânico, até certo ponto independente dos méritos, durante os períodos denominados Pralayas (7).

Consideremos essas quatro questões:

Nirvânas Superiores e Inferiores
Num sentido amplo, atinge o Nirvâna todo o ser humano que obtém o domínio sobre os seus princípios inferiores – físico, astral, emocional-passional e mental –, que deixa de se identificar com tudo o que implica separatividade e transitoriedade, e que compreende e vive a indistinção essencial entre o “seu” Ser Espiritual e o Ser Universal. O Nirvani, o indivíduo que alcançou o Nirvâna, é aquele que chegou a entender a vacuidade, a irrealidade de todas as noções habituais (e ilusórias) de “eu”, com tudo o que de cobiça, ofensividade, limitação e sofrimento lhe está associado; é aquele que se libertou da sua pessoalidade e emergiu na impessoalidade espiritual. Esta é a conquista de todo o alto Iniciado e de todo o Mestre de Sabedoria e Compaixão, e não apenas de um Buddha e, particularmente do Buddha Gautama. O estado nirvânico superior, que este atingiu, há cerca de 2 500 anos, foi a consumação de toda uma série de vidas em que se tinha assomado a esse patamar, e galgado os seus vários níveis (o septenário referido), continuando a cumprir o dever que a si mesmo se impusera para com a Humanidade e tudo quanto vive. Mesmo então, uma vez mais, renunciou à bem-aventurança total e, como veremos, continuou a dispensar-nos o seu auxílio. Evidentemente, o Nirvâna alcançado pelo Buda Gautama é de superlativo merecimento e está ainda muito além da conquista de outros Seres que, não obstante, atingiram a libertação.

Para-Nirvana
2) Ainda acima do Nirvâna está o estado Para-Nirvânico. Se nos deparamos com tantas dificuldades para descrever o primeiro, quão mais difícil é tentar entender, mesmo que teoricamente, o segundo. Tudo o que de mais sublime e completo possamos associar a beatitude ou sabedoria (mais propriamente, omnisciência, no que ao nosso Universo respeita) é certamente superado pela realidade do estado de Para-Nirvânico. É o estado de plena fusão com o Uno.

A este propósito, escreveu Helena Blavatsky, a ilustre fundadora do movimento esotérico contemporâneo:

“Segundo os ensinamentos esotéricos, o Nirvâna dos budistas não é senão o limiar do Para-nirvâna; enquanto que para os brâmanes é o summum bonum, aquele estado final de onde não há retorno possível – pelo menos até ao próximo Mahâ-Kalpa (8)” (9).

Noutro passo, aclarou a mesma autora: “Importa lembrar que Paranishpanna é o summum bonum, o Absoluto, o mesmo que Paranirvâna. Além de ser o estado final, é aquela condição de subjectividade relacionada exclusivamente com a Verdade Una Absoluta (Paramârthasatya), no seu próprio plano. É o estado que conduz à verdadeira apreciação do significado pleno do Não-Ser, que é, como já explicámos, o Absoluto Ser (10)”(11).

Mesmo este Paranirvâna do nosso Cosmos, até este Paranirvâna com Paramârtha (existência e consciência absolutas), é ainda um estado pleno… somente no que a um Cosmos respeita. Ele “é absoluto, contudo, tão somente no sentido relativo, uma vez que deve dar lugar a uma perfeição ainda mais absoluta, de acordo com um tipo mais elevado de excelência no período seguinte de actividade [um grande Manvantara] … Uma vez que a Doutrina Secreta ensina o desenvolvimento progressivo de todas as coisas, tanto mundos quanto átomos, desenvolvimento estupendo, que não tem princípio concebível nem fim imaginável (…) assim, o estado paranirvânico, embora ilimitado do ponto de vista da inteligência humana, tem um limite na Eternidade. Uma vez alcançado, a mesma Mónada surgirá novamente dele como um ser ainda mais eminente, num plano muito mais elevado, para começar o seu novo ciclo de actividade aperfeiçoada” (12) – que o conduzirá a Paranirvânas superiores, de dimensões ainda muito além do nosso Cosmos.

Os Nirmânakâyas
3) Os Seres que atingiram o Nirvâna podem assumir três assim chamadas vestes (essas três vestimentas, no seu conjunto, sendo designadas por trikaya):

* Dharmakâya – o mais elevado dos trikâya. É o veículo nirvânico propriamente dito. Os seres que assim ficam revestidos são também chamados Nirvânis sem resíduos (resíduos dos mundos inferiores).

* Sambhogakâya – Significa, literalmente, “corpo ou veste de compensação”. Também é designado por “veículo de bem-aventurança”. Embora menos elevado ou subtil que o Dharmakâya, traz a cessação do contacto mais directo com os mundos e homens inferiores. A transmissão do Dharma (a Lei sagrada), nesse nível, não se faz por ensinamentos que necessitam da palavra e da escuta. O sambhogakâya simplesmente manifesta-se e os Bodhisattvas (ver Infra) que compõem o seu grupo de discípulos devem compreender o sentido daquilo que necessita de ser transmitido, em cadeia, para os que estão mais distantes da libertação.

* Nirmânakâya – Esta palavra é formado de dois étimos: nirmâna, que significa “criando, formando” e âaya, que significa “vestimenta, corpo, veículo”. Embora esta seja, num sentido (a da aparência exotérica), a veste inferior, é ela que permite ao Ser plenamente iluminado continuar a instruir e a auxiliar a evolução da humanidade. Por tal razão, tanto no conceito popular, como esotérico, o Bodhisattva ou Nirmanâkâya é mais reverenciado do que o Buddha Pratyeka – de que falaremos adiante – completamente surdo, no seu estado glorioso, ao sofrimento dos homens e restantes seres.

Com efeito, o “Bodhisattva, embora permanecendo no limiar do Nirvâna, e vendo e compreendendo a sua inefável glória e paz e descanso, ainda assim retém a sua consciência nos mundos dos homens, em ordem a consagrar as suas vastas faculdades e poderes ao serviço de tudo quanto existe. Os Buddhas nas suas partes superiores entram no Nirvâna, em outras palavras, assumem o estado ou veste Dharmakâya, enquanto o Bodhisattva assume a veste Nirmânakâya, a partir daí se tornando uma sempre activa, compassiva e benfazeja influência no mundo. Na verdade, pode ser dito que o Buddha age indirectamente e por controlo a longa distância, assim realmente auxiliando o mundo difusivamente (por difusão); mas o Bodhisattva age directa e positivamente, e com uma vontade dirigente nos labores de compaixão, tanto para o mundo como para os indivíduos” (13). “É, deste modo, na veste nirmanâkâya, se não na forma física, que vivem e trabalham os Budas de Compaixão” (14)

A Compaixão é, realmente, o contínuo fluir dos Nirmanâkâyas, guiados pela elevada Sabedoria que atingiram.

Por isso, eles são realmente Mestres de Sabedoria e Compaixão, como frequentemente são chamados. São Mestres de Sabedoria, porque de tal modo expandiram o conhecimento, de tal modo aprenderam a ler em camadas mais profundas do Âkasha (15), de tal forma se libertaram dos liames da ilusão, que se chegaram a identificar com as leis regentes do Universo, de acordo com as quais trabalham; e são Mestres de Compaixão, porque voluntariamente renunciam ao descanso e à beatitude de que poderiam desfrutar, partilhando a nossa dor – a nossa paixão –, e escolhendo trabalhar para nos auxiliarem no caminho. E, assim, eles integram as fileiras da Hierarquia da Compaixão.

Dificilmente se poderá algum dia expressar melhor este desígnio do que em algumas passagens do Livro dos Preceitos Áureos, que Helena Blavatsky traduziu e verteu nessa obra magnífica, A Voz do Silêncio (16). Citemos algumas dessas passagens:

“Que o sol escaldante não seque uma única lágrima de dor, antes que tu mesmo a tenhas limpo no olho de quem sofre. Que cada ardente lágrima humana goteje no teu coração e aí permaneça; nem tampouco a enxugues enquanto não for retirada a dor que a causou. Estas lágrimas, ó tu de coração tão compassivo, são as correntes que irrigam os campos da caridade imortal” (I – 60-62).

“Inclina agora a tua fronte, ó Bodhisattva – a compaixão fala e diz: ‘Pode haver felicidade quando tudo quanto vive tem de sofrer? Quererás salvar-te ouvindo todo o mundo a chorar?’ Agora ouviste o que foi dito: chegarás ao sétimo degrau e atravessarás a porta do conhecimento final, mas só para tomares a dor por esposa – se queres ser Tathâgata (17), seguir os passos do teu predecessor, conservar-te altruísta até ao fim sem final” (III, 307-309).

Também aqui, cumpre esclarecer que há dois tipos de Nirmânakâyas: o do Adepto ou Alto Iniciado que alcançou um elevado estado de consciência e bem aventurança mas ainda não é um Nirvâni; e aquele, ainda mais elevado, que, tendo chegado ao Nirvâna, lhe renuncia por imenso sacrifício. Em todos os casos, porém, a Humanidade beneficia com o seu labor e lhes é devedora de imensurável gratidão.

O Nirmânakâya pode influenciar o corpo astral e a mente de um indivíduo escolhido – ou até de vários –, que assimila(m) a sua influência, ou preferir a encarnação directa, nascendo como um bebé ou entrando num corpo que está a ser abandonado por um outro Ego (18).

Ora, o que o Ensinamento esotérico afirma sobre o Buddha Siddharta Gautama é justamente que, tendo atingido o Nirvâna, lhe renunciou, ou antes, uma projecção de si lhe renunciou, e permaneceu como Nirmânakâya, trabalhando como um Bodhisattva, enquanto, como Buddha propriamente dito, se encontra no estado nirvânico.

A ele é atribuída esta frase: “Que caiam sobre mim os sofrimentos e os pecados de todos mas que o mundo se salve” (o que faz imediatamente lembrar as similares afirmações acerca do Cristo, que “sofreu pelos nossos pecados”). A Ele se refere a formosa lenda que, embora já apresentada em número anterior desta mesma revista, aqui reproduzimos:

Tinha o Senhor Buddha atingido o último grau de perfeição neste mundo, o estado Nirvânico em que toda a tristeza e todo o sofrimento são deixados para trás, e o Ser mergulha na bem-aventurança plena do Ser Universal, quando viu um mosquito a ser devorado por um morcego.

Então, palpitou de misericórdia o Seu coração tão nobre e compassivo e, detendo-se, no limiar do Nirvâna, reflectiu:

“Não, a perfeição final que eu julgara ter alcançado, a universalidade de ser que eu julgara ter atingido não estão ainda completas. Nem o estarão nunca enquanto houver um único ser – ainda que um simples mosquito – perdido na dor e na ignorância, distante da meta da sua própria perfeição. Nenhum ser pode conquistar sozinho a salvação e a bem-aventurança; esta só estará imaculada quando todos os seres lhe tiverem acedido, recuperando a plena consciência da Unidade do Ser”.

Serenamente, decidiu o Iluminado permanecer em contacto com a Humanidade, e por meio dela, com as existências de todos os reinos inferiores, para ajudar todos os cansados peregrinos a subir no caminho, em direcção à meta suprema. Ele, a quem os deuses e anjos serviam, renunciou ao repouso nirvânico, que tinha merecido conquistar, e escolheu… continuar a Servir! Na sua maravilhosa Compaixão, ele quer ajudar os muitos a cruzar o umbral e a encaminharem-se para, também eles, atingirem o Nirvâna.

Muito diferente, é o caso dos chamados Buddhas Pratieka. Eles alcançam o Nirvâna para si mesmos, apartando-se da humanidade e não sentindo o apelo amoroso para voltar e auxiliar os que estão mais abaixo. O seu anelo é de puro aperfeiçoamento individual. “É um dos três sendeiros do Nirvâna e o mais inferior, no qual o Yogui – ‘sem mestre e sem salvar os demais’ –, pela simples força de vontade e das técnicas práticas, chega a uma espécie de condição de Buddha nominal, individualmente, sem fazer qualquer bem a ninguém… Os Pratyeka são respeitados exteriormente, porém interiormente são objecto de desprezo por parte daqueles que são dotados de apreciação subtil ou espiritual. O Pratyeka é geralmente comparado ao Khadga ou rinoceronte solitário e é designado pelo nome de Ekazringa-Richi, Santo (Rishi) egoísta e solitário” (19). Ele como que adormece no seu Eu mais interior e goza de completa beatitude, onde não chegam os gritos de aflição e de dor; mas quando, num novo ciclo, ele desperta desse estado nirvânico, encontrar-se-á muito atrás de um Buddha de Compaixão que, pelo seu imenso Amor associado à sabedoria e poderes conquistados, se elevará muito mais acima.

Voltemos ao Buddha Gautama. Numa passagem notável, escreveu Helena Blavatsky:

“No caso de um Buddha… o Bodhisattva toma o lugar do seu Kârana-Sharîra (20) e do resto correspondente; e é neste sentido que a Filosofia Esotérica explica a frase: ‘Pelo poder de Dhyâna [ou meditação abstracta], o Dhyâni-Buddha [o Espírito ou a Mónada de Buddha] cria um Bodhisattva’ – ou seja, o Ego revestido astralmente no Mânushya Buddha (21). Por isso, enquanto o Buddha retorna ao Nirvâna, de onde saiu, o Boddhisattva fica para prosseguir na Terra a obra do Buddha. Ao Bodhisattva podem assim pertencer os princípios inferiores do corpo de aparição do avatar Shankaracharya.

Ora, dizer que Buddha reencarnou novamente, depois de alcançar o Nirvana, seria uma heresia, tanto para o hinduísmo como do ponto de vista do budismo. A própria escola exotérica Mahâyana (22), referindo-se aos três corpos ‘búddhicos’, ensina que o Buddha, uma vez que reveste o corpo de Dharmakâya (o Ser Ideal e sem forma), abandona para sempre o mundo das percepções sensoriais, e já não tem, nem pode ter, nenhuma relação com ele.

Mas dizer, como o faz a Filosofia Esotérica ou Mística, que o Buddha, estando embora no Nirvâna, pode deixar o Nirmânakâya (o Bodhisattva) para continuar-lhe a obra, é perfeitamente ortodoxo e conforme à escola esotérica Mahâyanâ e (até) à escola Prasanga Maddhyâmika (23), que ensina um sistema por demais racionalista e anti-esotérico” (24).

Como acabámos de ler, H. P. Blavatsky assevera que o Buddha Gautama reapareceu sobre a forma de Shankara, o maior instrutor vedantino (no caso, do Advaitismo, a forma mais nobre e mais pura da Vedanta), para fazer a ponte entre o Budismo e o Hinduísmo ortodoxo, e para evitar a perturbação que os seus ensinamentos tinham produzindo em muitos – suavizando-os e matizando-os, e enxertando-os num todo.

Essa “reencarnação”, porém, foi a do corpo astral de Gautama no corpo físico de Shankara – e como veículo do Espírito (Âtman) de Shankara. O Eu Superior de Gautama encontrava-se concentrado numa esfera mais elevada.

Entretanto, além disso, afirma ainda a mesma autora e ocultista que “de tempo a tempo o Gautama ‘astral’ se reúne misteriosamente, e de modo incompreensível para nós, com Avataras (25) e grandes santos” (26).

De surpresa em surpresa, Helena Blavatsky dá noutro passo a entender que, entre outras manifestações do Buddha Gautama, depois da sua existência nos séculos VI-V a.C., ele pode, de algum modo, ter animado Jesus (27) e, porventura, Apolónio de Tiana (28) – a quem, algumas vezes, se chamou o “Cristo Grego”.

Sugestivo…

Para-Nirvâna com Paramârtha. Existência e Consciência Absolutas
4) O estado nirvânico ou para-nirvânico é, independentemente de tudo quanto se disse, aquele em que estarão as mónadas espirituais nos Pralayas entre Rondas e, mais prolongadamente, nos Pralayas intercatenários. Se considerarmos que a duração do Pralaya é idêntica ao período manvantárico, desde logo percebemos que a aridez e os espinhos da peregrinação pelos mundos é menor do que parece… tanto mais que, mesmo nos períodos encarnativos, e no que concerne aos seres humanos, o período celestial de Devachan é, em média, cerca de dez vezes mais longo do que a existência física e no Kâma-Loka (29).

No entanto, relativamente a esse estado nos períodos de Pralaya, podem haver grandes diferenças, conforme o caminho percorrido. Voltemos a citar H. P. Blavatsky: “Mais cedo ou mais tarde, tudo quanto agora parece existir será real e verdadeiramente no estado de Paranishpanna. Mas há uma grande diferença entre o Ser consciente e o Ser inconsciente. A condição de Paranishpanna sem Paramârtha, a consciência que se analisa a si mesma (Svasambuvedâna), não é bem-aventurança, mas simplesmente a extinção durante Sete Eternidades. Uma bola de ferro, por exemplo, esquenta-se quando exposta aos raios ardentes do Sol, mas não sente nem percebe o calor, como sucede com o homem.

Só ‘com uma inteligência clara, não obscurecida pela personalidade, e como a assimilação do mérito de múltiplas existências consagradas ao Ser na sua colectividade (todo o Universo vivente e senciente)’ é que poderemos libertar-nos da existência pessoal e realizar a união com aquele Absoluto, identificando-nos com ele e continuando em plena posse de Paramârtha” (30).

Assim, o Para-Nirvâna sem Paramârtha, ou seja, não incluindo a autoconsciência perfeita – que no entanto se “engloba” na unidade –, não é bem-aventurança mas, tão só, uma simples ausência passiva de sofrimento. Há uma grande diferença entre a perfeição passiva e a perfeição desenvolvida. O bebé pode parecer puro como o mais elevado dos santos verdadeiros mas a sua pureza é ainda só passiva, por incapacidade de praticar o mal – independentemente de mérito ou demérito.

Da mesma forma, esse estado nirvânico ou para-nirvânico, para ser de bem-aventurança consciente, deve implicar mérito, um caminho percorrido, alturas conquistadas.

O grande resultado da manifestação encarnativa, do mergulho nas formas e nos condicionamentos aprisionantes, é justamente um super-cósmico Para-Nirvâna com Paramârtha: existência e consciência absolutas, individualidade fundida na Unidade incindível.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural———————————

(1) Houve, há e haverá outros Buddhas além do Príncipe Sakyamuni, que é frequentemente chamado O Buddha, mas como que por antonomásia.
(2) Em pali, Nibbana.
(3) Falámos acerca dos Skandhas no nosso artigo “Karma” publicado nesta mesma secção, no nº 27 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2006).
(4) No que ao Ser Real diz respeito, o Nirvâna é exactamente o oposto, como algures faz notar H. P. Blavatsky; e só a consciência epidérmica e produzida pela simples reacção a fenómenos e estímulos externos pode entender o Nirvâna como fim nihilista, extinção ou aniquilamento.
(5) Occult Glossary, de G. de Purucker (Theosophical University Press, Pasadena, 1996); pág. 118.
(6) Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1916; pág. 264.
(7) Pralaya – É o período de dissolução, noite, repouso, total ou parcial, de um Universo. Tal como há Manvantaras (Períodos de Manifestação) de Globos, Rondas, Cadeias, Sistemas Solares ou Universos ainda maiores, assim há os correspondentes Pralayas. Para um melhor entendimento destes termos e conceitos, remetemos para o nosso artigo “Lemúria”, publicado no nº 29 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2006), bem como para a bibliografia aí indicada.
(8) Maha-Kalpa – Uma Grande Era ou Grande Ciclo. Uma Idade (ou 100 anos) de Brahmâ.
(9) A Doutrina Secreta, Vol. VI, págs. 28-9 (Editora Pensamento, S. Paulo, 1973); Blavatsky Collected Writings, Vol. XIV, pág. 392 (The Theosophical Publishing House, Wheaton e Adyar, 1985).
(10) Sendo insusceptível de toda a compreensão ou qualificação, o Ser Absoluto, do nosso ponto de vista, só pode ser considerado como Não-Ser (não ser qualquer atributo que lhe tentemos referir) – do mesmo modo como a Consciência Absoluta é Inconsciência (de qualquer coisa em particular). Encontramos esta concepção tanto nos Upanishads e, portanto, na Vedanta, em especial na Advaitista, como, também, na Cabala, com a Existência Negativa (Ain-Soph) ou em filósofos ocidentais como o Dionísio Pseudo-Aeropagita ou Escoto Eriúgena.
(11) A Doutrina Secreta, Vol. I, pág. 115 (Editora Pensamento, S. Paulo, 1973).
(12) Idem, págs. 74 e 84.
(13) G. De Purucker, op. cit. pág. 119.
(14) Idem, pág. 118.
(15) Âkasha – A subtil, supersensível essência espiritual, que preenche e penetra todo o espaço. É o Espaço Universal em que está imanente a Eterna Ideação do Universo nos seus sempre cambiantes aspectos expressos nos planos materiais e da objectividade. Âkasha – ou, noutro aspecto, Kundalini – é a electricidade oculta, o Alkahest ou solvente universal dos alquimistas (num certo sentido); é a Anima Mundi nos planos superiores e a Luz Astral no plano inferior. É a base e o agente de toda a Magia Operativa.
(16) Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1921 (tradução de Fernando Pessoa); Ed. Pensamento, S. Paulo, 1989.
(17 ) Tathâgata – Um futuro Buddha. Etimologicamente, “Alguém que é como o próximo” (Buddha). Um dos epítetos do Buddha Gautama.
(18) Ver Echoes of the Orient, de William Quan Judge, Vol. III, págs. 462-3 (Point Loma Publications, San Diego, 1987).
(19) Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky (Editora Ground, S. Paulo).
(20) Kârana-Sharîra – O Corpo Causal, resultante da conjunção do 6ª Princípio (Buddhi ou Intuição) e do 5º Princípio (Manas ou Mente).
(21) Mânushyas Buddhas – Buddhas humanos, encarnados numa forma humana.
(22) Mahâyana significa “Grande Veículo” e é uma escola Budista, que põe grande ênfase no ideal do Bodhisattva. Contrapõe-se-lhe a escola Theravada, chamada pelos seus oponentes Hinayana (“Pequeno Veículo), mais voltada para a iluminação individual. O Mahayana (de que o Budismo Tibetano e o Zen são derivações muito conhecidas) predomina mais ao Norte, na China, Mongólia, Coreia, Tibete e Japão, enquanto que a segunda escola referida é de implantação mais meridional (Tailândia, Sri Lanka, Mianmar, Laos e Camboja). Note-se que até no Budismo, como noutros Ensinamentos Espirituais, a religiosidade popular foi mesclando muito de superstição e de vivência puramente externa.
(23) Escola Prasanga Maddhyâmika – “Uma escola budista de filosofia do Tibet. Segue (assim como o sistema Yogachârya) o Mahâyana ou “Grande Veículo” de preceitos; porém, tendo sido fundada muito tempo depois da escola Yogachârya, não é tão rígida nem tão severa. É um sistema semi-exotérico [logo, também, semi-esotérico] e muito popular entre os literatos e seculares” (Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky; Ed. Ground, S. Paulo).
(24) A Doutrina Secreta, Vol. VI, op. cit., págs. 27-8. Blavatsky Collected Writings, Vol. XIV, págs. 391-2.
(25) Avatara – Descida de um Ser glorioso, que ultrapassou a necessidade de renascimento na Terra, num corpo mortal.
(26) A Doutrina Secreta, Vol. VI, op. cit., pág. 26. Blavatsky Collected Writings, Vol. XIV, pág. 390.
(27) Idem, pág. 31, nota 12, e talvez pág. 37; pág. 396, nota de rodapé,
(28) Idem, pág. 37 e 38, nota 14; pág. 405 e nota de rodapé.
(29) Sobre o Devachan e o Kâma-Loka, conferir o artigo “A Libertação das Formas – A Morte”, de Helena Castanheira, no nº 28 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2006), tal como a bibliografia aí indicada.
(30) A Doutrina Secreta, Vol. I, op. cit., pág. 115.

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