CAIS - Uma partnership na direcção do Impossível

Ignorar, supor e advogar: a CAIS no afinar de ideias
Cruzo-me com frequência com pessoas que, apesar de nos conhecerem, ou de já terem ouvido falar de nós, ignoram completamente a nossa forma de pensar e de actuar na Sociedade Portuguesa – havendo mesmo quem fique surpreendido com a qualidade do nosso trabalho e afine as suas ideias acerca de nós, depois de se terem demorado em conversa connosco ou de terem ousado participar nas nossas iniciativas.

Esta minha constatação pode parecer deslocada ou até fazer pouco sentido, sobretudo quando é mais que óbvio que ninguém é obrigado a saber tudo de tudo. A razão, contudo, por que a invoco é por, com alguma facilidade, se supor como pobre ou de pouca qualidade qualquer estratégia criada para inverter os níveis de pobreza em Portugal. Há quem hoje não tenha dúvidas sobre a excelência editorial da revista CAIS e a adquira por essa mesma razão, mas há também quem a rejeite, e despreze, da mesma forma, a pessoa que a vende, ao endossar uma atitude que advoga, na prática, que a miséria é repugnante e tudo o que a possa manifestar ou ligar a ela. No entanto, gostava de esclarecer, para além do que tudo isto possa suscitar, que às pessoas presas na teia da pobreza não se oferecem peixes tão fétidos quanto a sua confrangedora pobreza, nem canas de pesca tão quebradas quanto a sua dilacerada estrutura, mas a melhor habitação, saúde, educação, alimentação… e os melhores instrumentos que garantam o acesso a estes e demais direitos.

A revista
Quando iniciámos, em 1994, a publicação mensal de uma revista, a ser vendida em exclusivo, na rua, por pessoas em situação de sem abrigo, o fotojornalismo e os trabalhos fotográficos de autor não se encontravam com muita facilidade entre a imprensa portuguesa. Ao perceber que um canal de informação genérica seria de todo insustentável, a Associação CAIS pensou, com a revista, em explorar uma forma de comunicação muito forte e ainda muito pouco presente (enquanto voz desligada da palavra), nas revistas da altura. Ao apostar na fotografia, a favor de uma causa social, a CAIS não só não correria o risco de não ser vendida como atrairia um novo público, interessado e ávido de trabalhos fotográficos.

Treze anos depois, fiéis compradores da revista continuam a procurá-la pela sua forte componente fotográfica, enquanto outros também hoje a adquirem pela paixão e lucidez da sua narrativa, de olhos fixos naquela que foi sempre, desde o seu auge, sua missão: devolver, a vidas remetidas ao abandono da rua, direitos e autonomia.

Partnership
A Associação CAIS nasce de uma relação e é hoje o resultado de uma verdadeira partnership. Um pequeno grupo de profissionais de comunicação iniciaram o projecto mas, hoje, mais do que os seus fundadores, o seu público alvo, os órgãos sociais, os sócios e a equipa executiva, a CAIS é uma rede de parceiros, um projecto sociocultural e político de muitos cidadãos, instituições e empresas, presentes em Portugal. E não o é por circunstâncias meramente económicas. O número dos que vão adquirindo cada vez mais uma consciência maior sobre a dignidade do ser humano e o intrínseco chamamento a cuidar de si e dos outros, tem levado o trabalho a benefício próprio ou de uma qualquer empresa, a ser também uma actuação em prol de populações desprotegidas e fragilizadas. Por isso, a CAIS é hoje, no terreno, personificação desta mesma consciência e rosto dos infinitos gestos de cidadania que a constituem. Na verdade, seria de todo inviável pensar cada uma das suas iniciativas, desligada do largo conjunto de esforços que lhes dão corpo. Está certamente subjacente, a cada uma delas, um caminho na direcção do Impossível, concretizado na transformação de políticas sociais; mas não deixa de ser importante e relevante referir, que mesmo com uma legislação insuficiente ou inexistente, a conjugação de diferentes forças é já hoje, em cada um dos projectos CAIS, antecipadora de um futuro menos assimétrico.

A intervenção
Impedida por razões, sobretudo, económicas, de criar outros projectos de apoio à população sem abrigo, a Associação CAIS, ao longo dos seus primeiros oito anos, reivindicou o direito à autonomia humana através do exercício do direito ao trabalho. Ao colocar, lado a lado, o sem abrigo (utilizador de serviços) e o sem abrigo (vendedor da revista CAIS), a Associação contestou a institucionalização da pobreza, resultante da adopção de práticas assistencialistas, e propôs a sua erradicação através da implementação de modelos de capacitação conducentes à participação activa, de indivíduos e grupos desfavorecidos. Apesar do peso das dificuldades financeiras, os anos que se seguiram foram tempos de afirmação e de um desanuviado crescimento. Tornava-se urgente estudar e debater o fenómeno da pobreza e exclusão, como era imperioso chamar a atenção de todos para estes flagelos, começando pelos Media e Poder Político. Nesse sentido, a CAIS entendeu apostar num conjunto de eventos mensais e anuais com o objectivo claro de denunciar e questionar o não reconhecimento da pobreza em Portugal como um problema sociocultural e político grave, e de mobilizar todo o país para a sua erradicação.

Aquilo a que hoje chamamos o eixo de intervenção sociocultural e política da Associação CAIS nasce de um conjunto de recomendações, entregues pessoalmente ao então Presidente da Assembleia da República, João Mota Amaral, e elaboradas a partir das conclusões do primeiro Congresso CAIS, cujo tema, Abrigo Para Todos, quis relançar o debate sobre o direito à habitação, numa altura em que o país se preparava para escolher um novo governo. A importância deste primeiro documento sócio-político CAIS desencadeou, na Assembleia da República, por mão do seu Presidente, a criação de uma equipa de trabalho, constituída por alguns deputados e elementos da sociedade civil organizada, com o objectivo de reflectir a pobreza e de sugerir soluções adequadas para a sua redução. Algumas reuniões desta equipa ainda conduziram à realização de um seminário na Sala do Senado, mas a dissolução da Assembleia da República também traria consigo, infelizmente, a sua extinção.
No entanto, aquele era o caminho a fazer-se, um percurso que ao longo destes últimos anos se foi sedimentando através do poder da fotografia, do cinema, das noites de solidariedade, das feiras sociais, das publicações, do Prémio Manus e do Pão de Todos.

A inclusão
A revista continuará a ser sempre o rosto mais presente e visível da CAIS, entre o público, mas quem hoje quiser conhecer a sua postura face aos problemas sociais, terá necessariamente que a procurar entre as várias edições de cada um dos projectos de intervenção, que vão desde o Congresso CAIS ao Prémio de Fotografia Reflex. Mas não só.

O encontro com um outro eixo, a que chamamos de inclusão, nascido de uma aproximação maior aos que são reféns da desigualdade e pobreza, é fundamental à aprendizagem sobre modelos e técnicas utilizadas na reconstrução de indivíduos. Na verdade, pensar a pobreza exigia, numa altura de quase re-fundação da CAIS, que aquela se abordasse e combatesse, na prática, através do empoderamento de quem nunca teve ou deixou de ter acesso aos Direitos Humanos Fundamentais. Os centros CAIS de Lisboa e Porto, com duas distintas comunidades de inserção, e aos quais se juntam estratégias de inclusão tão inovadoras, como a CAIS Digital, o Futebol de Rua e o AventurArte, fazem apelo, nas dinâmicas que as compõem, a uma maior justiça social, reivindicando para além do básico, o direito à informação, à comunicação, à cultura e ao desporto, entre outros.

Nada é preto no branco, nestes longos processos de recuperação de sentido; aqui, de facto, a capacitação de cada um não é, como que por magia, imediata e definitiva. Por isso, os resultados, muito para além da linha de qualquer meta final, conseguem-se e anotam-se, passo a passo, no desenrolar de infinitos momentos de crescimento individual e comunitário. Retemos certamente como importantes aquelas experiências que puxam pela auto-estima, encorajam, entusiasmam, devolvem confiança e elevados graus de optimismo; porém, mais importante ainda é a descida do Tabor à realidade do dia a dia, onde o acompanhamento fiel e constante de cada indivíduo, por parte dos técnicos, neste caso, da CAIS, é crucial à sua reconstrução. De nada serviria, de facto e a título de exemplo, uma milenar Festa das Sementeiras, se o germinar das sementes não fosse depois, dia e noite, meticulosamente seguido e cuidado, pelos semeadores. E o mesmo se pode dizer do direito ao Rendimento Social de Inserção, quando não é devidamente apoiado.

A sustentabilidade
Este trabalho de capacitação das pessoas com quem trabalhamos leva-me, por último, a falar da nossa sustentabilidade e a tecer algumas considerações sobre o contexto da pobreza em Portugal, numa altura em que voltamos a estar às portas do Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza (17 de Outubro). Não faria, de facto, sentido, no seguimento do que tenho vindo a expor, desenvolver um trabalho com vista à autonomia do nosso público alvo, se este não implicasse também o desafogo, a todos os níveis, da organização que a promove.

Assim, a CAIS exigirá sempre que o Estado Português cumpra o seu papel social, não tendo que ser necessariamente um prestador de serviços, mas garantindo, através de uma legislação o mais adequada possível à situação real das pessoas e aos seus problemas, o acesso de todos a bens e serviços. Será, no entanto, dever de quem desenvolve “no terreno” um trabalho social, tornar-se o menos dependente possível de pagamentos estatais, ainda que legítimos, para ser cada vez mais empreendedor. A CAIS ainda não conseguiu tornar-se auto-sustentável, mas a partnership que já hoje a caracteriza e distingue entre parceiros sociais é reveladora do quão determinada está em conseguir esta proeza.

Pelo carácter multiplicador de capital, a revista CAIS é já por si um grande exemplo de empreendedorismo social. Depois, ao ser capaz de criar projectos que respondem também ao interesse das empresas e às linhas que norteiam a responsabilidade social de cada uma delas, a CAIS tem conseguido sustentar a sua importância e viabilidade ano após ano. Duas agências, uma noticiosa e outra de monitorização e certificação de projectos sociais, ligadas ao Prémio Manus, e a criação de uma Panificadora, com a ideia clara de gerar postos de trabalho e alguma riqueza, são três novos projectos que estão a ser trabalhados há já algum tempo, e que muito contribuirão, caso se concretizem, para a sustentabilidade do funcionamento geral da CAIS.

O Impossível
Invocar o esforço e as estratégias que visam garantir e sustentar a continuidade do trabalho da CAIS, iniciado há treze anos, significa que a pobreza e a desigualdade continuam a persistir e a crescer, em Portugal. Todo este zelo e dedicação não fariam, de facto, sentido, se todos vivessem dignamente, por estas paragens. A verdade, todavia, é que as políticas públicas não só não conseguem erradicar a pobreza, em Portugal, como a tornam ainda mais severa. Entristece-nos a falta de vontade política e a quase crónica indiferença, por parte da população, em relação ao seu combate. Nunca é demais relembrar que a pobreza nega direitos humanos fundamentais, e que, ao fazê-lo, difunde, consigo, insegurança, instabilidade, doença e caos ambiental. A pobreza não se resolve construindo fortalezas à sua volta mas libertando e dignificando quem se tornou sua presa; e este caminho só será alguma vez possível quando a redução da pobreza fizer parte do programa de todas as políticas públicas. Denunciar, vigiar, estudar, reflectir e apresentar soluções para que Portugal se torne finalmente na casa com que todos sonham, sem excepção, é o que cada pequeno gesto da CAIS procura ser “no terreno”, até que um dia ela deixe também de fazer sentido.

Henrique Pinto
Director da Cais

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