Ensinar e aprender, uma relação de gratidão

A relação ensinar-aprender, que subentende competência e curiosidade, para além de afectividade e gratidão recíprocas, tem sido profundamente desprezada por esta nova reforma da educação. Com efeito, os seus mentores anularam com leviandade o verbo «ensinar», certamente por desconhecerem o significado etimológico da palavra latina – «pôr uma marca, assinalar, distinguir». Atitude idêntica em relação a «aprender» – «prender, agarrar a si próprio». Em suma, hoje em dia os professores não devem ensinar, mas facilitar aprendizagens e garantir competências, de acordo com a nomenclatura das novas teorias pedagógicas de educação. Aos alunos competirá «estimular» os professores a desenvolver um discurso que respeite os seus interesses, em ambiente de eterna (e falsa) alegria. Aliás, de acordo com o texto elaborado pela Associação de Professores de Português, sobre «O Ensino e a Aprendizagem do Português na Transição do Milénio», o «novo professor» deverá corresponder ao perfil do «eternamente jovem», tornando-se preferencialmente um «apaixonado pelo ensino» e não um «apaixonado pela matéria». Nesse sentido, e passo a transcrever, «o professor tem preocupações pedagógicas que aplica em qualquer circunstância e então diversifica as estratégias, actividades, materiais – é criativo».

É visível que a Escola está a perder-se enquanto espaço de aquisição de conhecimento e de cultura, de formação pessoal, humana e artística, continuamente agredida por uma postura de arrogância, que de modo algum se coaduna com o Saber e o prazer de o partilhar, antes evidencia Ignorância e desprezo pela Arte. No seu livro «A Escola, a Recta e o Círculo», cuja leitura se aconselha, Olga Pombo, professora em Filosofia da Educação, na Faculdade de Ciências de Lisboa, explica com sensibilidade e sageza a relação metafórica entre as duas figuras geométricas, que fundamentam a harmonia entre passado-presente-futuro. Escreve Olga Pombo: «A Escola (…) lugar de constituição do Homem como sucessor, aquele que herda do passado, o que sucede a, o que vai atrás, à raiz, ao início, à fonte, e que, por isso – justamente por isso – está em condições de continuar, de construir o futuro». Contrariando precisamente esta filosofia, os autores clássicos foram cognominados de «chatos», «antiquados» e «pouco sedutores para os alunos», anulando-se todas as estratégias que pudessem aprofundar o seu conhecimento, como por exemplo a contextualização do autor na sua época histórico-cultural. Aconteceu assim com Gil Vicente, Luís de Camões e António Vieira, e de forma mais violenta com o último que agora é apresentado como mero exemplo de «texto argumentativo».

Os novos curricula, e refiro-me à disciplina de Português (agora Língua Portuguesa) que lecciono, não exigem competência a um professor, antes o convidam a desvendar o «discurso que os alunos trazem de casa», o que forçosamente levará a um nivelamento por baixo. Não admira, pois, que num manual do 10º ano se solicitasse aos alunos que vissem o programa «Big-Brother» e lessem o seu regulamento, base para a aprendizagem do dito texto normativo. Noutro, era uma entrevista de Herman José que servia para os alunos, posteriormente, elaborarem esse género jornalístico. E porque a televisão também deve estar presente na sala de aula, propunha-se aos alunos, noutro manual, a leitura das programações relativas a telenovelas, na Revista TV Guia, e depois a sua visualização, para finalmente responderem às questões de escolha múltipla de uma «Testenovela» (como agora se usa fazer na interpretação de um texto, nos exames de Português). Posso dar um exemplo deste trabalho, actualmente considerado enriquecedor: «Em Esperança, na SIC, com quem desabafa Maria pedindo ajuda para fugir do marido? a) Genaro b) Constância c) Mariusa».
Há quem insista em considerar que os manuais não reflectem os programas, posição de que discordo totalmente, reafirmando que os manuais de Língua Portuguesa são a resposta cega e obediente ao espírito destes novos programas. Senão vejamos. Professores que integraram o grupo do Ministério da Educação, encarregue de organizar e planificar os programas para o secundário, foram igualmente os autores de um manual de Língua Portuguesa para o 10º ano. Entre os muitos exemplos, que poderiam ser dados, a confirmar a imbecilidade que pode reinar numa sala de aula, seleccionei um dos que porventura mais me chocou. Peço-vos paciência, porque o exemplo será um pouco longo, mas muito exemplificativo do tal lúdico que se apregoa e da mediocridade cultural e profissional que teima em reinar. Trata-se do «Requerimento em 30 linhas» escrito por Fernando Pessoa, a 18.9.1929, no Abel Pereira da Fonseca – Fernando Pessoa, solteiro, maior, abreviado, morador onde Deus é servido conceder-lhe que more, em companhia de diversas aranhas, moscas e mosquitos e outros elementos auxiliares do bom estado das casas e dos sonos; tendo recebido indicação – aliás apenas telefónica – de que poderá ser tratado como [10 linhas] gente a partir de uma data a fixar, e de que o referido tratamento de como se fosse gente seria constituído por, não um beijo, mas a simples promessa dele, a ser4 adiado indefinidamente, e até ele, Fernando Pessoa provar que [1] tem oito meses de idade, [2] é bonito, [3] existe, [4] agrada à entidade encarregada da distribuição da [20 linhas] mercadoria, e [5] não se suicida antes do assunto, como era sua obrigação natural; requer, para tranquilidade da pessoa encarregada da distribuição da mercadoria, que lhe seja passado atestado em como [1] não tem oito meses de idade, [2] é um estafermo, [3] nem mesmo existe, [4] é desprezado [30 linhas] pela entidade distribuidora, [5] suicidou-se.
Acabam as 30 linhas.
Aqui devia pôr-se «Espera deferimento», mas não espera nada o Fernando.

Eis agora a tarefa proposta aos alunos: «Respondendo ao pedido de Fernando Pessoa, elabora um atestado, uma declaração ou um certificado comprovando os factos indicados pelo poeta. Para este efeito, utiliza as informações que a seguir são fornecidas sobre estes tipos de texto. Inventa os dados que não são fornecidos pelo texto».

Como estimular os alunos para a leitura e levá-los a reflectir, propondo-lhes brincadeiras de mau gosto em horário escolar e a propósito de textos de autores–referência na nossa Cultura?

Sei agora de fonte segura, por documento escrito e assinado, testemunhando experiência de aula fervorosamente assumida como estratégia a cultivar, que este tipo de trabalho, que nos parece aberrante, é afinal considerado de grande valor educativo. Justifica-se que para melhorar a competência escrita dos alunos, sobretudo os que não «têm qualquer motivação», sendo-lhes «tudo pesado», é necessário «conquistá-los com uma grande dose de loucura», com trabalhos «lúdicos», ««propostas aparentemente tontas, que não deixam de ser um bom exercício, tendo em atenção os alunos com quem se trabalha». Eis o exemplo perfeito do discurso miserabilista, a que me tenho referido desde 2000, e que domina os novos programas, encontrando eco em quase todos os manuais do Básico ao Secundário.

Lamentavelmente, Ministério e professores estão, eles próprios, consciente ou inconscientemente, a aprofundar a separação entre ricos e pobres, fortes e fracos, ou seja, aqueles que um dia mandarão e os que terão apenas de obedecer. O «chato» do Padre António Vieira, adjectivo com que foi homenageado por muitos destes novos pedagogos, denuncia no seu «Sermão de Santo António aos Peixes» que «Os maiores comeis os mais pequenos», procurando defender os índios das arbitrariedades selváticas dos colonos. Usando alegoricamente os peixes e os seus vícios, Vieira retrata com rigor e de forma destemida os agressores de ontem (e de hoje): o hipócrita e enganador (polvo), o oportunista e parasita (pegador), o vaidoso e arrogante (peixe-voador) e todos aqueles que sendo maiores só saciam a sua fome com um número infinito de pequenos. Um século XVII que se cola à perfeição no presente ou em qualquer outro tempo e que exige uma contínua reflexão. Na verdade, reflectir e sentir são atitudes desprezadas, hoje em dia, na Escola e daí a pouca importância atribuída aos clássicos e à Literatura, arte que nas palavras de Fernando Pessoa «é mestra da vida». Com efeito, se não for a Escola a modificar o discurso de «Big Brother», que alguns alunos trazem de casa, quem o fará? Pelo contrário, os que nasceram em berço de oiro terão sempre à sua disposição tudo aquilo que lhes for omitido pela Escola. Mais tarde, serão eles a «comer» os que se alimentaram exclusivamente de ignorância e de lúdico.

Considero, de modo cada vez mais convicto, que a Escola tem procurado insanemente esvaziar-se do papel privilegiado que sempre ocupou, anulando-se enquanto «lugar de transmissão do legado cultural entre gerações pela qual o homem conquista a eternidade, não dos indivíduos, mas da cultura», citando as revisitadas palavras de Olga Pombo. A tónica desta nova escola (e é propositadamente que a escrevo com minúscula) assenta pura e simplesmente no êxito estatístico, pouco lhe importando lesar a confiança que qualquer aluno deposita nos seus professores. É triste e humanamente sinistro que se continue a usar os alunos como forma de justificar essas «estratégias meio loucas», que vão ao encontro de uma nova e bizarra pedagogia, exclusivamente interessada em substituir os gestos nobres de «ensinar» e «aprender» (que aliás deixaram de se enquadrar nos objectivos educativos) por «competências» e «saberes».

Como poderão estes alunos sentir um dia gratidão face à Escola, se no seu espaço não houve lugar para o estimulante, mas também esforçado trabalho de decifrar mistérios e desbravar caminhos, que conduzem ao saber, à cultura e ao encontro com nós próprios e, consequentemente, com os outros?

Maria do Carmo Vieira
Licenciatura em Filologia Românica e Mestre em Literatura de Viagens pela Faculdade de Letras de Lisboa. Professora de Português e Francês do Ensino Secundário

License

This work is published under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 2.5 License.