Não Recusar a Oportunidade

A teósofa sueca Constance Watchtmeister foi uma das pessoas que ajudou Helena P. Blavatsky enquanto esta redigia A Doutrina Secreta – e, também, uma das que lhe permaneceu leal quando HPB recebia o dilúvio de insultos e deserções provocado pelo infeliz e parcialíssimo relatório da Society for Psychical Research (SPR), ou antes, de Ricard Hogdson. Nesse relatório, Helena Blavatsky era considerada como uma hábil impostora e como uma espiã russa – e ele é ainda hoje referido como base das apreciações depreciativas que contra Helena Blavatsky são feitas em enciclopédias ou em libelos acusatórios e sectários. Face a isto, cumpre esclarecer que, um século depois, a mesma SPR, após um trabalho de investigação do seu membro Vernon Harrison, expressa e formalmente declarou a total incompetência, parcialidade e não confiabilidade daquele relatório, e reconheceu que ele não pode nem deve servir de base para qualquer acusação contra Helena Blavatsky (1). De tal demos conta, com bastante mais informação e pormenores, no artigo publicado no nº 23 da Biosofia, na secção “Um Dia na História” – justamente para tentar, no que é possível, contrabalançar a menor publicidade da reposição da Verdade.

A Condessa Constance relata assim o seu primeiro encontro com Helena Blavatsky:

“Fui recebida cordialmente pela dona da casa [Patience Sinett, a mulher de A. P. Sinnett), que me apresentou imediatamente a Madame [Blavatsky]. As suas feições revelavam uma força instintiva, expressa numa nobreza inata de carácter além das minhas expectativas. Todavia, o que mais chamou a minha atenção foi o olhar fixo dos seus maravilhosos olhos cinza, calmo e inescrutável e, não obstante, penetrante. Irradiavam uma luz serena que parecia penetrar e revelar os segrdos do coração.

Quando, entretanto, passei a observar as pessoas que a cercavam, experimentei tamanha sensação de repulsa, que durante algum tempo permaneceu na minha mente como uma incómoda impressão. Era uma cena estranha para os meus olhos. No chão, ao pé do divã baixo no qual se sentava Madame Blavatsky, estavam reunidos vários visitantes que olhavam para ela com uma expressão de homenagem e adoração; outros dependiam dos seus lábios com uma estudada demonstração de intensa atenção e todos me pareciam mais ou menos afectados pelo tom predominante da lisonja.

Sentei-me à parte e observava o que se passava, tomada de suspeitas que posteriormente verifiquei serem perfeitamente infundadas e gratuitas. Eu tremia, com medo de que uma personagem de quem havia formado uma imagem tão elevada viesse a revelar-se uma escrava da lisonja, ávida da adoração dos seus adeptos. Não podia conhecer, naquele momento, o alheamento, a indiferença ao louvor ou à censura, o elevado senso do dever daquela mulher ali diante de mim, que não se abalaria com considerações egoísticas. Não poderia então dizer que a sua natureza era inerentemente incapaz de sacrificar os seus poderes e a sua grande missão aos reclamos de uma fácil popularidade.

Embora orgulhosa demais para se justificar diante daquelas pessoas incapazes de apreciar o elevado padrão de conduta que se impunha e mostrava ao mundo nos seus escritos éticos e místicos, uma vez ou outra se abria na intimidade com alguns dos seus discípulos mais fervorosos, que se propunham com determinação a trilhar o Caminho. Lembro-me da explicação que deu sobre esse ponto, quando a multidão de zombadores, na imprensa e nos salões, se perguntavam uns aos outros: ‘Como é que se explica que esta discípula dos semi-omniscientes Mahatmas, esta natural clarividente e especializada leitora da mente humana, não seja capaz de saber distinguir os seus amigos dos seus inimigos?’

‘Quem sou eu”, dizia ela, respondendo a uma pergunta com outra, ‘quem sou eu para negar uma oportunidade a uma pessoa na qual descubro uma centelha ainda vacilante de reconhecimento da Causa a que sirvo, e que poderia ser inflamada numa chama de devoção? Que importam as consequências que se abatem sobre mim pessoalmente, quando essa pessoa fracassa, sucumbindo às forças do mal que estão dentro dela – decepção, ingratidão, vingança e outras coisas mais – forças que eu via tão claramente como via a centelha de esperança; embora na sua queda ela me cubra com deturpação, calúnia e desprezo? Que direito tenho eu de recusar, a quem quer que seja, a oportunidade de aproveitar das verdades que lhe possa ensinar e de, por conseguinte, seguir o Caminho? Eu afirmo-lhes que não tenho alternativa. Estou obrigada pelas mais estrictas regras e leis do ocultismo a renunciar a considerações egoísticas, e como posso ousar supor a existência de faltas num candidato e agir de acordo com a minha suposição, muito embora uma aura sombria e ameaçadora possa encher-me de apreensões?’” (2).

Esta resposta de Helena Blavatsky é tão sublime, quanto esclarecedora. Permite compreender a magnanimidade dos grandes Servidores, não obstante os contratempos e os inevitáveis sofrimentos que uma tal atitude lhes acaba sempre por provocar. Mais importante ainda: dá a resposta a muitas dúvidas que por vezes se colocam sobre as contradições e conflitos que rodeiam não só a obra de Helena Blavatsky, como de outros esforços em prol da Humanidade e da evolução global de todos. Saibamos nós todos apreciar e aproveitar a grandeza de uma dádiva tão imensa!

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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(1) Cfr. H. P. Blavatsky and the SPR – An Examination of the Hodgson Report of 1885, de Vernon Harrison; Theosophical University Press, Pasadena, California, 1997.
(2) Reminiscências de H.P.Blavatsky e de A Doutrina Secreta, de Condessa Constance Wachtmeister (e outros), Ed. Pensamento, S. Paulo, 1980, págs. 4 e 5

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