O Caminho da Felicidade

“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”

Sócrates (470 a.C. – 399 a. C.)

Auto-Conhecimento, Auto-Identificação, Auto-Realização e Auto-Ajuda
Desde o primeiro momento em que o assunto do presente artigo ficou definido, e, em particular, à medida que reflectíamos sobre ele e sobre o modo como deveria ser abordado, mais e mais foi ficando óbvia a necessidade de esclarecer, logo à partida, os conceitos de auto-conhecimento e auto-identificação por um lado e de auto-realização e auto-ajuda por outro, destrinçando-os claramente uns dos outros. Porque neles, na sua investigação aprofundada, na correcta compreensão daquilo que, de facto, significam e das suas diferenças, se encontra uma achega importante para um melhor entendimento daquilo em que consiste o Caminho da Felicidade, onde pode ser encontrado e, como e quando, começar a ser percorrido.

Comecemos pelo primeiro par: auto-conhecimento e auto-identificação.

O Que Pensamos Ser … Que Afinal Não Somos
No nível humano, na esmagadora maioria dos casos, aquilo que cada indivíduo pensa de si próprio, a que vamos chamar auto-identificação – pois que é mesmo disso, e somente disso, afinal, do que se trata –, tem pouco, ou nada, a ver com o tal auto-conhecimento (do ser) de que falava Sócrates, aquele que dá acesso à ciência dos “deuses e do universo”.

O que uma pessoa acha que é, a maneira como se percebe, aquilo com que se auto identifica – apesar dos denominadores comuns que se constatam –, difere muito de caso para caso, de acordo com o nível de consciência, cultura, sociedade e convicções da mente de cada um (1).

A diversidade é total. Uns consideram-se mais de acordo com o género (homem ou mulher); outros sobretudo pela sua cor, nacionalidade, crença, continente ou região de origem (branco, preto, português, porto-riquenho, cristão, islâmico, agnóstico, europeu, asiático, nortenho ou latino); alguns “honram” pai e mãe, uma profissão, uma dada moral, um qualquer padrão social mais ou menos volátil no espaço e no tempo ou mesmo uma certa ética mais fraternal e universalista (filho de e de, médico, engenheiro, bom ou mau, poderoso ou fraco, organizado ou não, perfeito ou inadequado). Isto ou aquilo, conforme se sintam mais identificados, seguros ou engrandecidos.

A juntar a isto, todas estas disparidades são, ainda, amplamente multiplicadas pelo facto de que mesmo a ideia que cada um tem de si próprio pode mudar ao longo da vida (e muda constantemente, tantas vezes quando menos se espera), à mercê das transformações que vão ocorrendo. Como disse um grande instrutor dos nossos tempos: “um desgosto, a perda do trabalho, um insulto, e a sua própria imagem, aquilo a que você chama uma pessoa, muda profundamente” (2).

E essas coisas, tão diferentes, tão impermanentes e, quase sempre, tão antagónicas não podem, evidentemente, dar acesso ao tal conhecimento/sabedoria que desvela os segredos das divindades e dos cosmos, a que se referia o filósofo. Não podem, pelas mesmas razões, conter nenhuma veracidade plausível.
De facto, as concepções que cada um tem acerca de si próprio, consequência de ideias puramente pessoais e ilusórias, não correspondem minimamente à realidade:

• São, apenas, fruto de padrões sócio-culturais adquiridos, mentalmente estruturantes, “impostos” à pessoa de maneira, regra geral, subtil e inconsciente, que ficam visceralmente entranhadas e, por isso, assumidas pela esmagadora maioria como verdades óbvias, ou mesmo absolutas – que, na verdade, não são.

• São, além disso, transitórias, mutáveis, meramente subjectivas, reflectindo aquilo que é a mente da personalidade em cada momento, nomeadamente os seus conceitos e as suas memórias (3).

Sobre tal, testemunham, lapidarmente, as palavras do Senhor Buda ao afirmar que: “Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é o resultado do que temos pensado. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã; a nossa vida é uma criação da nossa mente” (4).

Quem somos Nós
Diz a Filosofia Perene que não somos nenhuma das coisas do eu inferior com que nos identificamos e que, na medida dessa identificação, nos controlam na íntegra, sobretudo através da mente, impedindo-nos de perceber a nossa verdadeira natureza.

O ser ilimitado que é cada um de nós, a nossa verdadeira identidade, aquele que nunca nasce e nunca morre, não pode ser percebido no nível mental. E porque as palavras são da mente e não vão além dela, esse ser (superior) só pode ser descrito em termos negativos, ou seja, através daquilo que não é (e que, geralmente, julga que é) (5).

É através do entendimento daquilo que não somos, e com que, geralmente, nos identificamos (e a que nos apegamos): o corpo, a mente e seus objectos – percepções, conceitos, memórias, pensamentos, desejos, emoções, medos, associações mentais – e da desidentificação com eles, que despertaremos e chegaremos ao conhecimento dessa verdadeira natureza que levará à efectiva compreensão dos “deuses e do universo” (6).

Neste sentido atente-se ao que nos diz, embora de forma algo velada, Helena Blavatsky, quase logo a abrir o seu livro A Voz do Silêncio: “Aquele que quiser ouvir a voz do Nada, o Som sem som, e compreendê-la, terá de aprender a natureza do Dharana. Tendo-se tornado indiferente aos objectos da percepção, deve o aluno procurar o Raja dos sentidos, o produtor de pensamentos, aquele que acorda a ilusão. A Mente é a grande assassina do Real. Que o discípulo mate o assassino” (7).

E, sublinhe-se, é mesmo somente através da investigação da pessoa que não somos, “dos seus motivos e do resultado das suas acções” (2) e da desidentificação com ela, que é possível chegar à libertação dos desejos e dos medos, ao auto-conhecimento, à auto-realização, à paz, à alegria e à felicidade que buscamos incessantemente fora de nós, nos piores sítios, quando, na verdade, só no ser real ela pode ser encontrada: aqui, dentro de nós, onde, afinal, sempre esteve à nossa disposição. Em mais nenhum sítio e de nenhum outro modo pode ser descoberta!

Sobre isto, assinala Helena Blavatsky, na sequência do texto acima referido: “Porque quando para si mesmo a sua forma parece irreal, como o parecem, ao acordar, todas as formas que ele vê em sonhos; quando deixar de ouvir os muitos, poderá divisar o Um – o som interior que mata o exterior. Então, e só então, abandonará ele a região de Asat, o falso, para chegar ao reino de Sat, o verdadeiro” (7).

Auto realização e Auto Ajuda

Quanto às chamadas técnicas de auto-ajuda, ou mesmo as técnicas de ajuda psicológica assistidas por terapeutas ou afins, não proporcionam, nem nunca poderão proporcionar, ao contrário do que algumas vezes se julga, nada de minimamente semelhante.

Sem embargo de poderem mitigar problemas de “inadequação” ou situações de stress mais agudas, essas técnicas não têm coisa nenhuma a ver com auto-realização. São (ainda) outro ponto de vista completamente diferente.

Limitam-se a operar no âmbito da personalidade e dos seus assuntos – onde a consciência que se vai tendo da realidade é previamente filtrada, medida e pesada pelas nossas memórias e padrões que, assim, se constituem no factor determinante do valor e da coloração que damos aos factos (bom ou mau, certo ou errado, feio ou bonito, etc., etc., etc.). Aqui, neste fervilhar de ideias e conceitos, não se pode ouvir “a voz do Nada”.

Aquilo que estas práticas de ajuda procuram (e podem) fazer (e estamos a pensar no seu melhor), é alguma “harmonização” das tensões mais insuportáveis que se estabeleçam entre os vários conceitos, condicionamentos, desejos intensos, tendências e modelos que se antagonizam ou incompatibilizam no seio de uma mesma personalidade que a eles, de uma maneira ou doutra, foi afiliada, e que tornam difícil, ou mesmo muito angustiante, a vida corrente do sujeito em que o conflito se instala.

Nessa “harmonização”, no máximo, o que se pode encontrar (e não negamos que possa ser muito), é a diminuição das ansiedades constituídas e alguma estabilização da pessoa através do seu encontro com uma nova “verdade” (mental e sócio-cultural) que a “reprograme” de forma mais “coerente” e a preserve, dentro de limites que lhe sejam psicologicamente aceitáveis, das contradições, das dúvidas e das incertezas.

Só que estas “novas verdades”, mesmo que de um patamar superior, são ainda do nível da personalidade (embora muitas vezes, lamentavelmente, rotuladas de “esotéricas” ou mesmo “espirituais”) e não pode haver estabilização permanente neste plano, onde a “felicidade” se procura através do “prazer” do encontro com as “coisas” de que se “gosta” e do evitar da “dor” do defrontar as “outras coisas” de que se “não gosta” – incapazes que somos de, serenamente, “deixar que chegue o que vem, e deixar ir o que se vai” (2).

A este tipo de “felicidade/prazer” sempre estiveram, estão e estarão ligados os medos e os desejos que trazem consigo, inevitavelmente, o sofrimento. Prazer e dor são uma parelha que jamais pode ser separada, e a felicidade (que é espiritual) não pode ser encontrada nos assuntos da personalidade.


O Caminho da Felicidade. Onde, Como e Quando

Onde
Procurar a felicidade no nível da pessoa, faz lembrar a anedota do homem embriagado que procurava a moeda perdida debaixo do candeeiro de iluminação pública: não fora ali que a tinha perdido, mas só ali dispunha da luz que, julgava ele, lhe permitiria encontrá-la.

Esta estratégia não leva, evidentemente, a lado nenhum. Não é possível encontrar a moeda no sítio onde ela não está. Não é possível encontrar a felicidade na personalidade, nem através dos seus padrões mentais, nem na satisfação dos seus desejos, nem em coisa nenhuma do seu campo de acção. Só pode ser achada onde foi perdida, no nosso ser real, que é paz e que é amor.

E para se encontrar esse ser, que é também consciência pura, eterna, imutável e vazia de pressupostos, tem de se ir além da pessoa e “além da mente que divide e cria os opostos [Kama-Manas], permitindo que apareça uma `outra mente´ [Buddhi-Manas – a mente superior ao serviço da Intuição] que una e harmonize” (2).

Como
E a maneira como se vai além da personalidade e do seu mundo, dizem todos os Mestres e toda a Tradição, é através da desidentificação com ela. Este é o único caminho para a evolução espiritual.

Ouçamos o grande instrutor que foi Sri Nisargadatta Maharaj, o que ele diz e aconselha:

- “ O mundo real está além do alcance da mente; nós vemo-lo através da rede dos nossos desejos, divididos entre dor e prazer, bom e mau, interno e externo. Para ver o Universo como ele é, você precisa de ir além da rede…Olhe a rede e as suas muitas contradições. Você faz e desfaz a cada passo. Você quer paz, amor, felicidade, e não pára de criar dor, ódio e guerra. Você quer longevidade e abusa da alimentação, quer amizade e explora os outros. Veja a sua rede feita de tais contradições e elimine-as; o facto de vê-las, fá-las-á desaparecer.”

- “Veja como funciona, observe os motivos e os resultados das suas acções. Estude a prisão que construiu em seu redor, por inadvertência. Ao conhecer o que você não é, chegará ao conhecimento de si próprio” (2).

O que é essencial é aquela meia dúzia de práticas que se recomendam e vemos sempre repetidas pelos mais sábios: Investigar-se, incessantemente, a si próprio; observar os factos, o como e o porquê das emoções e dos pensamentos que com eles vêm e vão – e a artificialidade das suas verdadeiras origens; ser, o mais possível, consciente e desapegado; ser sério e persistente na busca; e ir, crescentemente, inserindo os princípios na prática do dia a dia. O resto é com cada um e tem que ir sendo descoberto pelo próprio. Escreveu Helena Blavatsky que “O caminho é um para todos, o meio de chegar à meta deve variar de peregrino para peregrino” (8).

Quando
No que respeita ao quando começar, estou convicto de que um processo de desidentificação com a personalidade pode ser iniciado mais cedo do que, geralmente, se imagina.

Pois se é verdade que a capacidade de desencadear um tal procedimento depende, pelo menos em larguíssima medida, de uma consciência mental bastante evoluída – onde se perceba, minimamente, que, no nível da subjectividade em que vivemos, não há senão verdades possíveis, que “a realidade” é uma construção mental, que “os significados” dependem dos contextos, e que a cognição não deve privilegiar excessivamente uma perspectiva única –, é também verdade que, a partir do momento em que este tipo de consciência esteja disponível, se tornará inútil e redundante procurar reforçar o grau de compreensão mental das coisas, havendo que enveredar, em vez disso, o mais rapidamente possível, pela desidentificação com a pessoa que não se é – a tal única saída do plano da mente, em direcção ao estrato superior do ser – e nesta tarefa concentrar todos os esforços.

Nesse sentido vai o alvitre que Helena Blavatsky nos faz: “E tendo aprendido a tua Ajnana, abandona a Sala da Aprendizagem” (7) .

Consideremos seguir a sugestão!

Vítor Martins

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(1) – No texto, a palavra “mente” e suas derivadas são utilizadas no sentido da expressão sânscrita “Kama-Manas”, que designa o conjunto da mente e das emoções influenciando-se mutuamente. Este conjunto, em que a Humanidade, em geral, está focalizada é, usualmente, dirigido pela vertente emocional.

(2) – Sri Nisargadatta Maharaj (1897-1981) – Transcrito do livro “Eu Sou Aquilo – Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj” – Editora Advaita, Brasil.

(3) – O mundo das pessoas é mental. É, como dissemos, falso, limitado, relativo, mutável e tem, apenas, a realidade que a mente de cada um lhe “emprestar”. Mas, apesar disso, em cada plano de consciência esse mundo de ilusão acaba por se constituir, para todos os efeitos práticos, numa verdadeira “realidade” para as pessoas que a ele pertencem e dele partilham: a única “realidade” a que têm acesso enquanto se mantiverem nesse nível de compreensão.

(4) – “Dhammapada (caminho da lei) ” – I-1
Este tratado de doutrina budista, atribuído ao próprio Senhor Buda, está editado em língua portuguesa (do Brasil) pela Editora Pensamento, em tradução e adaptação do Dr. Georges da Silva.

(5) – Fique, no entanto, claro que não podendo a nossa verdadeira individualidade ser experienciada, percebida ou conceptualizada, sem ela, por outro lado, não pode haver nem experiências, nem percepções, nem conceitos.

(6) – Sendo que, o entendimento daquilo que se não é, vai acabar por ser efectuado, ainda, no nível mental. É a mente que nos prende, é a mente que nos liberta!

(7) – “A Voz do Silêncio” – Editora Assírio e Alvim, Lisboa (Primeiro Fragmento).

(8) – Obra citada (Terceiro Fragmento).

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