A Sacralidade da Vida

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Ainda há apenas sessenta anos atrás, cerca de 50% da população portuguesa estava ocupada no chamado sector primário (basicamente, a agricultura e actividades correlacionadas). Em 1986, data de adesão à Comunidade Europeia, o valor tinha descido para 21%. Actualmente, anda pelos 8%. A grande parte dos países europeus (e mais alguns outros) fez, tinha já feito ou está a fazer o mesmo percurso.

Hoje em dia, muitos de de nós têm pouquíssimo contacto com a terra, a vegetação e os seus ciclos. A maioria dos habitantes das grandes cidades quase não consegue reconhecer uma árvore das que produz a fruta que consome; não consegue distinguir um feijoeiro, uma batateira, um tomateiro ou a rama das cenouras.

O cair da tarde no horizonte das grandes extensões agrícolas, o regresso dos campos, o silêncio imenso da noite, a frescura da manhã, o cheiro perfumado da terra… são coisas distantes no passado ou de que se não tem mesmo qualquer lembrança. E a verdade, é que algo de sagrado se perdeu.

Porque, sim, algo de sagrado há – havia – na agricultura. A exacta regularidade dos ciclos, o milagre do nascimento, do irromper do solo, do crescimento, do florescimento, da frutificação, do amadurecimento, do cair do fruto, da libertação das sementes, da morte que nelas há para que o (novo) renascimento se dê 1; a alegria jovial pela manhã, quando nova planta brotara, a alegria confortadora da rega, uma espécie de plenitude entre cada arbusto e a natureza – o ar, os raios solares, os contornos do horizonte –, a humidade da terra, o canto e a plumagem distintivos de cada pássaro, a coloração e as formas das nuvens… tudo isso, sim, tinha, tem algo de solene sacralidade.

O curso da nossa civilização tornou-nos máquinas dentro de máquinas. E contudo…

E contudo, a humanidade tem-se aproximado, ou até mais, tem começado a mergulhar numa nova natureza. Coisas como a internet e os telemóveis, com aquilo que os sustenta, com a desvitalização que provocam, com as dependências que podem gerar, com os vírus não só físicos mas, sobretudo, psicológicos 2 que transportam (é verdade), implicam o lidar com veios condutores de natureza mais subtil, que veiculam energia também mais subtil. Em muitos aspectos, vamos tendo uma condição mais “virtual” – ou seja, por definição, que podemos encontrar em qualquer dicionário, uma condição mais “potencial”. Sim, é o penetrar numa nova natureza!

Como podemos conciliar tudo isto, compatibilizar duas naturezas, dois mundos – um quase abandonado em muitas partes do mundo; outro, terreno inexplorado onde temerariamente nos adentramos sem sabermos que caminhos trilhar –, revalorizar a sacralidade da vida, é profunda questão em aberto. Vamos tacteando, tropeçando, por vezes caindo, por vezes negando as nossas raízes – tanto as da terra como as do céu –, muitas vezes confundindo-nos. A Antiguidade, no seu melhor, no tanto que teve de sagrado, no muito futuro que se viu transformado em pretérito, no registo das ilusões que se volveram desilusões, na Tradição e nas lendas de muitos povos (nomeadamente sobre o emergir e o colapso de grandes civilizações dum passado remoto), poderá dar-nos grandes lições…

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

1A grande referência dos Mistérios de Elêusis.
2 Aludimos a toda a mentalidade e carga ideológica caótica e doentia que dessa forma se transmite.

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