Queda

Introdução
A referência a uma Queda (ou a várias Quedas) de Entidades Espirituais em Idades remotas (ou no princípio do tempo, se não mesmo dando origem ao tempo), bem como a uma ou várias Guerras nos Céus, e a um ou vários Rebeldes, pode ser encontrada nas mais diversas religiosidades, teologias e mitologias. Assim é, como se tentará ilustrar, ainda que os modos como são apresentados tais eventos variem desde as nobilíssimas concepções cosmogónicas, passando pelos véus de um simbolismo mais ou menos complexo, até a formulações mais confusas e distorcidas.

A versão da teologia Cristã oficial está longe de ser a original; pelo contrário, é uma das mais recentes e constitui uma cópia deficientemente assimilada e mesmo invertida de fontes mais arcaicas e (por isso) mais puras. Ficou a partir de então distorcido o entendimento dessas questões para grande parte da Humanidade. Mesmo as alusões existentes no Alcorão estão condicionadas pelos pressupostos erróneos do Cristianismo exotérico 1. Considerando, porém, o ambiente cultural em que nascemos e fomos influenciados na Europa e na América, temos naturalmente que dar uma atenção muito particular a tais interpretações Cristãs, que certamente são as mais conhecidas (talvez até as únicas conhecidas) pelo leitor.

Comecemos, entretanto, noutras latitudes e em tempos mais recuados.

Rebeldes e Quedas em diferentes Tradições Espirituais…

Na velha Índia, postulou-se e escreveu-se acerca da guerra dos Asuras contra os Devas (ou Deuses). Os Asuras são apresentados no Rig Veda como Seres Espirituais divinos 2, o que corresponde à realidade. Mais tarde, porém, nomeadamente no Atharva-Veda, nos Brahmanas e nos Purânas 3, eles são colocados a sair da coxa de Brahmâ [ûruja]4, do corpo da noite de Brahmâ, passando a significar “não-Deus” (A é o prefixo de negação de Sura, “Deus”) e representando o papel de inimigos dos Deuses.5 Entretanto, esses rebeldes, adversários dos Deuses, são os primeiros a surgir à manifestação: “A assimilação dos deuses às serpentes de algum modo prolonga a ideia, documentada no Bhradâranyaka Upanishad (1.3.1), de que os Devas e os Asuras são os filhos de Prajâpati 6 e que os Asuras são os mais velhos” 7; “Os chamados demónios (que esotericamente são o Princípio intelectual activo e afirmador do Eu) representam o pólo positivo 8 da criação, digamos assim; e por isso são criados em primeiro lugar” 9.

Também nos Purânas, Nârada, filho de Brahmâ e considerado um grande Rishi 10, é apresentado como o “Adversário” (tal como Satã, na Bíblia Judaico-Cristã) e “Promotor de Lutas”. Desobedeceu a Brahmâ, negando-se a procriar e a povoar a Terra (Brahmâ é a Mente Universal, Mahat).

Igualmente nos Vedas, como no Ramayana e em outros textos, surgem referências a demónios: os Danavas, os Raksas, os Daityas (que personificam o princípio de Ahamkara, isto é, de eu “separado”), os Kratu-dvishas, que são “inimigos dos sacrifícios” aos Deuses. Apresenta-se, por exemplo, a alegoria do combate entre Indra (o Deus do firmamento, o Rei dos Deuses siderais) e Vritra (um Danava ou Raksa).

Sobre os mencionados Daityas, é curioso referir, por motivos que ficarão mais claros à frente, uma designação do seu Mestre ou Guru: Uzanas. Ora, em sânscrito, Uzanas (“Brilhante”) é um dos nomes de Vénus…

Na China, segundo informa Helena Blavatsky, “conta-se que em consequência da rebelião promovida contra Ti por um Espírito orgulhoso que se fazia passar pelo próprio Ti, foram exilados para a Terra sete coros de Espíritos Celestes, o que ‘ocasionou uma transformação em toda a Natureza, fazendo o Céu inclinar-se para se unir à Terra’.

Lê-se no Y-King:

‘O Dragão Voador, soberbo e rebelde, sofre agora e é punido pelo seu orgulho; pensou que reinava no Céu, e só reina na Terra.’

E o Tchoon-Tsieoo (ou Chuan-Hsueb-pien, uma obra sobre educação) diz alegoricamente:

‘Uma noite, as estrelas deixaram de brilhar na escuridão e daí desertaram, caindo como chuva sobre a Terra, onde agora se acham ocultas’”. Completando, esclarece H. Blavatsky: “Essas estrelas são as Mónadas” 11. De facto, na Terra, nos planos inferiores, as Mónadas estão ocultas nas vestes encarnativas… Convirá ainda esclarecer que Ti é o Demiurgo, na religiosidade tradicional chinesa. Frequentemente é designado Shang-Ti ou Shang-Di (“O Supremo Soberano”), termo aliás adoptado pelos Cristãos naquele país, para se referirem a Deus.

No Zoroastrismo, Angra Mainyu ou Ahriman era o aspecto obscuro de Ahura Mazda (o Princípio da Luz Divina); o opositor; o criador do “mundo mau”; mais exotericamente, era a personificação do mal e o Senhor dos espíritos malignos. O dualismo que, a partir de determinado momento, se desenvolveu no exoterismo persa, veio a ter bastante influência em outras espiritualidades mais ocidentais, nomeadamente no Judaísmo e no Cristianismo.

Na Babilónia, Tiamat (ou Tisalat ou, ainda, segundo Berosus, Thalatth), divindade feminina, era apresentada como uma Serpente do Mar ou um Dragão (tendo por sua vez dado à luz outras serpentes e dragões). Aos seus exércitos, liderados pelo seu filho Kingu, opôs-se Bel-Marduk, que viria a ser chamado “Rei dos Deuses”, e que saiu vencedor da contenda. Tiamat foi cortada ao meio, passando o seu tórax a constituir o espaço entre o céu e a terra. Por sua vez, Kingu foi capturado e assassinado, tendo o seu sangue sido misturado com a terra vermelha criada do corpo de Tiamat, para então formar o corpo da humanidade.

No Egipto antigo, Tífon lutava com Osíris, cortando-o em 14 pedaços (duas vezes sete), sendo depois vencido por Hórus, o filho ou o ressurgimento de Osíris. Então, Tífon deixa de ser um “poder equilibrador de bem e luz, e permanece consumido no mal e nas trevas” 12.

Na Mitologia Grega, Hesíodo, na sua Teogonia, descreve a guerra dos Titãs contra os Deuses. No final, Zeus e os outros Deuses, por ele liderados, foram bem sucedidos, e os Titãs vieram a ser confinados no abismo do Tártaro. Anteriormente, os Titãs, filhos de Urano e Gaia, haviam posto termo ao reinado de Urano, o Pai-Céu, ao qual sucedeu Cronos (um desses Titãs) – começando então a fluir o tempo…

Já no reinado de Zeus-Júpiter, Prometeu, um Titã (como, aliás, seu pai, Jápeto), ancestral e criador da humanidade, tentou presenteá-la com o fogo furtado aos deuses – fogo esse de que Zeus havia privado o homem 13. Como punição, Zeus ordenou a Hefesto que acorrentasse Prometeu no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias o abutre Éton ia dilacerar o seu fígado14 (embora Prometeu, dado ser imortal, se regenerasse). Esse castigo de Prometeu – longo sacrifício por dádiva à humanidade – devia durar 30.000 anos.

Quanto ao castigo dos homens, Pandora, a primeira mulher (como Eva), deveria ser o instrumento da sua perdição, para esse efeito tendo sido criada por Zeus. A curiosidade (querer conhecer o conteúdo da caixa) fez soltar os males que haveriam de afligir a humanidade daí em diante: o trabalho, a doença, a velhice, a loucura, a mentira e a paixão… assim chegando ao fim a Idade de Ouro da humanidade.

Note-se que Prometeu tinha sido admitido no Olimpo por ter ajudado Zeus na luta contra os Titãs, embora não prestasse esse auxílio com entusiasmo, o que desgostou o supremo Deus. Durante a sua permanência no Olimpo, Prometeu fora sempre um defensor da humanidade, que tinha salvo do dilúvio desencadeado por Zeus para a castigar. Ele transmitiu aos humanos o conhecimento do fogo, da noção de tempo e do uso da astúcia e da razão, em lugar da força bruta; ensinou-lhes a escrita, a aritmética, a medicina, a navegação e outras artes. A etimologia do seu nome é reveladora: pró, “antes de, por antecipação”; Mêthos, “ver, observar, conhecer, aprender praticamente, por experiência”.

Na Mitologia dos Escandinavos, Loki era o Espírito Maligno, numa interpretação exotérica. Na Filosofia Esotérica, contudo, é um poder antagónico, apenas por alterar a harmonia ou unidade primordial. No Edda, é o pai do terrível lobo Fenris e da serpente Midgard. É simultaneamente irmão de Odin (o Deus bom) e seu contrário ou antagonista.

Os Jotuns (ou Joetuns) eram os Gigantes de gelo ou Hrimthursers, inimigos em guerra perpétua com os Ases (os deuses, as forças criadoras personificadas). Há uma identidade entre os Jotuns e os Asuras da Índia. Mimir, que tomava conta de um Poço que continha as águas da Sabedoria, e que ensinou magia a Odin, o “três vezes sábio”, era um Jotun.

Entre os Gnósticos de há cerca de dois mil anos, o surgimento do Cosmos material e a acção de Sophia nesse sentido, configuravam alegoricamente uma “queda”. Da convulsão no Pleroma 15 e das “dores” de Sophia, resulta afinal uma dupla Sabedoria: a Sabedoria Superior ou divina, e a sua filha, a Sabedoria inferior, Sophia-Hakamoth ou Sophia Prunicos, que permanece fora do Pleroma, passando o Limite, ou seja, nos planos de manifestação externa.

A substância psíquica, intermédia entre a espiritual e a matéria bruta, foi gerada por essa Sabedoria inferior. Com o elemento psíquico, Sophia-Hakamoth gerou o Demiurgo colectivo, que vai criar os sete mundos. Ou por outras palavras: na Luz Astral, Sophia Achamoth é a mãe dos sete construtores ou Espíritos Planetários terrestres, um dos quais, de natureza inferior, era Ildabaoth, que os Gnósticos conotavam com Jeová, a terrível divindade do Antigo Testamento. Entendiam eles, e com muita razoabilidade, que este mundo imperfeito, e especialmente a Terra física, foi criação de Anjos inferiores (os Elohim inferiores, um dos quais era o Deus de Israel) e não de uma Divindade Superior e perfeita.

No Cristianismo Oficial, a Queda é sustentada com relação a dois momentos:

a) Segundo o livro do Genesis (Capítulos II e III), a Serpente tentou Eva, e esta e Adão cometeram o pecado original, ao comerem do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal que o “Senhor Deus” lhes havia vedado, sob pena de morte. A serpente instigou a mulher a comer esse fruto proibido, porque, quando o fizessem (Eva e Adão), os seus olhos “se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (3: 4). Eva, vendo que o fruto era “muito apropriado para a inteligência” (3: 6), comeu-o, levando a que Adão o fizesse igualmente. Foi então que os seus olhos se abriram e tomaram consciência de que estavam nus, e que “Deus” os castigou, expulsando-os do Paraíso (o Jardim do Éden), e fazendo-os conhecer a morte, o trabalho e a dor.

De então em diante, toda a humanidade vem sofrendo e sofrerá as consequências desse pecado dos seus longínquos antepassados. Até o nosso discernimento daí em diante, teria ficado toldado. Um filósofo Cristão de primeira linha, Malebranche (1638-1715), escrevia: “O pecado do primeiro homem de tal modo debilitou a união do nosso espírito com Deus, que ela não se faz sentir senão naqueles em que o coração está purificado e o espírito iluminado; porque esta união parece imaginária a todos os que seguem cegamente os julgamentos dos sentidos e os movimentos das paixões.

Pelo contrário, ele fortaleceu de tal modo a união da nossa alma com o nosso corpo, que nos parece que essas duas partes de nós mesmos são afinal uma só substância; ou, mais propriamente, de tal modo nos sujeitou aos sentidos e às paixões, que somos levados a crer que o nosso corpo é a principal das duas partes de que somos compostos” 16.

Tudo indica que esta alegoria da “queda” é derivada de fontes caldaicas/assírias 17.

b) Antes ainda do pecado original, e sendo mesmo o seu propiciador, teria havido uma rebelião na “corte celestial”, motivada pelo orgulho (previamente à própria criação) e/ou pela inveja com respeito ao Filho de Deus (o Verbo Divino) ou ao ser humano (quer como concebido por Deus, quer já posteriormente à sua “criação”). A tradição Judaica, sob a liderança de Samhazai, muito possivelmente recorrendo também a fontes caldaicas/assírias18, já tinha elaborado a doutrina da Queda dos Anjos, retomada pelos Padres da Igreja. Assim, os rebeldes, chefiados por Lúcifer ou Satã (a partir de certa altura identificados como a mesma entidade) foram expulsos dos céus – deste modo se interpretando a passagem de Lucas, 10: 17-8: “Jesus disse: ‘Eu vi Satanás cair do céu como um raio’”. Foi o Demónio ou Diabo (assim configurado com Lúcifer-Satã, chefiando os anjos caídos) que introduziu o mal no mundo, através da tentação conducente ao pecado original. Nas palavras do Papa João Paulo II: “O homem, ao ceder à sugestão do tentador, tornou-se escravo e cúmplice dos espíritos rebeldes”, a partir do momento em que cometeu o pecado original; ou, conforme o nº 414 do Catecismo da Igreja Católica: “Satanás ou o Diabo e os outros demónios são anjos decaídos por terem livremente recusado servir a Deus, ao seu desígnio. A sua opção contra Deus é definitiva. E eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus”. A isto também se referiria o Evangelho de João, na afirmação de Jesus: “Vós tendes por pai o diabo, e quereis realizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio, e não esteve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (8: 44). Por seu turno, a vinda de Cristo, o Filho de Deus, considerado acontecimento único e nuclear no curso da história do mundo, “foi para destruir as obras do Diabo” (I João, 3: 8). Com efeito, ainda segundo o Catecismo da Igreja Católica, “ No entanto, o poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus. Embora Satanás exerça no mundo a sua acção, por ódio contra Deus e o seu reinado em Jesus Cristo, e embora a sua acção cause graves prejuízos – de natureza espiritual e, indirectamente, também, de natureza física – a cada homem e à sociedade, essa acção é permitida pela divina Providência, que com força e suavidade dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da actividade diabólica é um grande mistério”.
Deve notar-se que a identificação de Satã (relacionado com Saturno, a esfera correspondente a Binah na Árvore da Vida19) e Lúcifer (representativo de Vénus) é um desenvolvimento tardio. De resto, o nome Lúcifer não envolvia nenhuma conotação negativa mesmo passados séculos do surgimento do Cristianismo. Há mesmo um Lúcifer, no catálogo de santos da Igreja romana: Lúcifer ou Lúcifer Calaritano, que terá vivido no século IV d.C. (morreu em 370 ou 371) e foi um bispo de Cagliari (na região italiana da Sardenha), em cuja catedral lhe é consagrada uma capela. Ele destacou-se pela oposição aos partidários de Ário e pela defesa do seu adversário Santo Atanásio de Alexandria, um dos campeões da ortodoxia20. O imperador Constantino, que erigiu o Cristianismo em religião oficial do Império Romano, simpatizante dos Arianos, apesar de não ter levado essa inclinação até ao fim no concílio de Niceia (antes pelo contrário), chegou mesmo a exilá-lo.

Após a morte do “muito cristão” e (quase) 13º Apóstolo, Constantino, veio o breve consulado de Juliano, amaldiçoado desde há 17 séculos como apóstata; entretanto, foi o tolerante pagão Juliano quem concedeu a liberdade a Lúcifer, mais tarde possivelmente excomungado (formando-se, então, o grupo heterodoxo dos Luciferianos), e posteriormente, em mais uma das tergiversações da ortodoxia, objecto de canonização. A sua festa, no calendário da Igreja Católica, tem lugar no dia 20 de Maio, embora nos últimos séculos tal seja referido com muita discrição. São Jerónimo escreveu, acerca de São Lúcifer e dos Luciferianos, um livro chamado Altercatio Luciferiani et Orthodoxi. Também Santo Ambrósio e Santo Agostinho se lhe referiram.

Os Judeus designavam Lúcifer como heilel ben-shachar, expressão em que Heilel significa “Vénus” e ben-shachar significa “o luminoso filho da manhã”. Era e é frequente a interpretação de que as referências que lhe foram feitas no Antigo Testamento se aplicavam a personagens históricas, a figuras da realeza que tendo subido a pináculos de glória caíram em desgraça. Estaria em causa um rei babilónico em Isaías, 14: 12 “Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?”; e, seguramente, um Rei de Tiro em Ezequiel, 28: 12-19: “Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro: Assim diz o Senhor Deus: Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus (…)
Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniquidade. Pela abundância do teu comércio, o teu coração se encheu de violência, e pecaste; pelo que te lancei, profanado, fora do monte de Deus, e o querubim da guarda te expulsou do meio das pedras afogueadas. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei; diante dos reis te pus, para que te contemplem. Pela multidão das tuas iniquidades, na injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu a ti, e te tornei em cinza sobre a terra, à vista de todos os que te contemplavam. Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; chegaste a um fim horrível, e não mais existirás, por todo o sempre”. Em todo o caso, a alusão analógica a Vénus-Lúcifer estaria patente.

No Islamismo, para além dos Anjos, menciona-se a existência dos Jinnis, entidades não-físicas, que, contrariamente aos Anjos, possuem vontade própria. A maioria dos Jinnis é de índole negativa. Um deles, Iblis (correspondente ao Satã do Cristianismo), desobedeceu a Deus e dedica-se a praticar o mal. Ele recusou-se orgulhosamente a acatar a ordem de Allah para se prostrar diante de Adão (o primeiro homem ou a humanidade no seu início). Perdeu a sua pureza angélica (é, pois, também, um Anjo Caído, tornando-se um Jinn).

No Corão, pode ler-se no Capítulo (surata) 7: 11-18:
“Criámo-vos, demo-vos forma e, então, ordenámos aos anjos: ‘Prostrai-vos diante de Adão’! E eles se prostraram, com excepção de Iblis. Ele recusou-se a pertencer àqueles que se prostraram’.
(Allah) disse: ‘O que te impediu de te prostrares quando tal te ordenei?”. Iblis respondeu: “Eu sou melhor do que ele. Tu criaste-me do fogo, e ele criou-me do barro’.
(Allah) disse: ‘Então sai deste lugar! Não podes mostrar aqui o teu orgulho, portanto sai! Olha: tu és desses que se degradaram’.
Ele (Iblis) disse: ‘Suspende a sentença até ao dia em que eles sejam elevados’.
(Allah) disse: ‘A tua sentença fica em suspenso’.
Deste modo, embora tenha obtido de Deus o adiamento da sua punição até ao Dia do juízo, Iblis é considerado merecedor do qualificativo de Al-Shaitan, termo derivado do original hebreu, e que significa “caluniador, inimigo, adversário” – correspondente, portanto, a Satã.
No Capítulo II (35-36) do Corão, por sua vez, lemos as palavras de Allah dirigidas a Adão e sua mulher: “Comei dos seus frutos com toda a tranquilidade, onde quer que desejeis. Mas não vos acerqueis desta árvore, porque vos contareis entre os iníquos”. No entanto, “Iblis os seduziu, fazendo com que saíssem do estado (de felicidade) em que se encontravam. Então dissemos [Allah]: ‘Descei! Sereis inimigos uns dos outros, e, na terra, tereis residência e gozo transitórios’”. Trata-se, claramente, de derivações do Judaísmo e do Cristianismo.

O Ensinamento Esotérico
A interpretação oculta destas temáticas é bastante diferente do ensinamento das teologias superficiais, tanto no Ocidente como no Oriente, sendo, até, fundamentalmente oposta.

Encontramos nestas alegorias diversos sentidos, que fazem, pelo menos, alusão a cinco eventos ou situações:

1. O despertar para a manifestação plural dos primeiros Seres que, assim, iniciaram a actividade cósmica, sistémica ou planetária num novo manvantara21, ou seja, a (aparente) diferenciação na Unidade, a bipolaridade Espírito-Matéria no Uno;

Para entendermos este ponto, devemos apartar-nos inteiramente das concepções vulgares acerca de Deus, como um Ente distinto do Universo e dos seres que existem nesse Cosmos, os quais teria criado do nada, e que, por essa mesma limitação (pois o Universo não é da sua própria substância ou essência), permite que coisas estejam fora de Si. Um tal Ente assim relativo não pode ser Deus…

Pelo contrário, o Ocultismo ensina que há um Deus-Todo. Muitas vezes renunciando ao termo Deus para não alimentar assim “mais um gigantesco equívoco de denominação”22, associa o Divino ao que é Realidade Absoluta, Una, Infinita, Ilimitada; ao que é Causa Incausada e Total, Duração Eterna, Plenitude de Ser…

Toda a aparente dualidade, divisão ou separatividade mais não é do que uma sombra ilusória, transitória e irreal.
Supor que existe um princípio gerador [do mal] distinto de Deus, equivaleria a dizer que existiriam dois Absolutos – o que é paradoxal e impossível – ou a degradar a noção de Deus até à relatividade.

“Assim, ou temos que aceitar o bem e o mal, Agathodaemon e Kakodaemon23, como ramos do mesmo tronco da Árvore da Existência, ou temos que nos resignar ao absurdo de crer em dois Absolutos eternos.

(…) O pensamento pagão representava o bem e o mal como irmãos gémeos, nascidos da mesma mãe, a Natureza; tão logo esse pensamento deixou de prevalecer, tornando-se arcaico, a Sabedoria se converteu em Filosofia. No princípio, os símbolos do bem e do mal eram meras abstracções, como a Luz e as Trevas; mais tarde, foram eles escolhidos entre os fenómenos cósmicos mais naturais e mais constantes ou periódicos, como o Dia e a Noite, o Sol e a Lua. Depois, passou-se a representá-los pelas Legiões do Sol e da Lua, contrapondo-se o Dragão das Trevas ao Dragão da Luz.

Os antigos tão bem o compreendiam, que os seus filósofos, hoje secundados pelos cabalistas, definiam o Mal como o ‘reverso’ de Deus ou do Bem. Demon est Deus inversus é um dos mais velhos adágios. Na verdade, o Mal não é senão uma força cega e competidora na Natureza; é a reacção, a oposição e o contraste: mal para uns, bem para outros. Não existe malum in se, o que há é a sombra da Luz, sombra sem a qual a Luz não poderia existir, inclusive para a nossa percepção. Se o Mal desaparecesse, com ele desapareceria o Bem da face da Terra. O antigo Dragão era Espírito puro antes de se converter em Matéria; era passivo antes de ser activo”24.

Com efeito, a oposição é-nos inteiramente necessária para sermos alguma coisa, para adquirirmos definição, identidade, deixando o plano de pura homogeneidade ou não adversidade. É isso que está no cerne da Encarnação, tanto Cósmica como Humana, que contrasta e opõe Espírito e Matéria. Afirmava Hegel e acertadamente, que “uma coisa só pode existir por meio do seu contrário”. Assim é com a luz e a obscuridade, o calor e o frio, a vida e a morte, a construção e a destruição, a afirmação e a negação, o Espírito e a Matéria …e assim é com o Bem e o Mal.

O que chamamos “Mal”, sendo contrário ao que chamamos “Bem”25, é necessário para que este efectivamente se defina e reforce. Se existisse puro Bem, não o apreciaríamos nem teríamos mérito na sua livre e consciente escolha e na sua prática, nem gozaríamos da ventura de superar o mal. “Se houvesse só a Luz, inactiva e absoluta, a mente humana não poderia apreciá-la nem perceber-lhe a existência. É a Sombra que permite à Luz manifestar-se, conferindo-lhe realidade objectiva”26. Não há santo verdadeiro que não conheça o pecado, não há virtude que não se contraste com o vício, não há perfeição que não desponte da oposição, não há auto-consciência sem que nos miremos num pólo oposto que nos sirva de espelho. Assim, a Unidade precisa de se reflectir de modo bifurcado, Espírito-Matéria ou, também, Consciência absoluta-Consciência de relação, Espírito Puro – Inteligência.

Ora, Satã representava originalmente, sem conotação negativa, o pólo oposto de tudo quanto existe, reverso exigido para o equilíbrio do Universo, “adversário” (adversidade ou oposição) necessário para definir e fortalecer cada qualidade ou atributo. Na pura unidade, não há conhecimento de nada em particular, porque não há diferenciação entre conhecedor e conhecido, não existe mesmo o conhecimento reflexo ou autoconhecimento; e o que é Consciência Absoluta é, ao mesmo tempo, absoluta Inconsciência, do mesmo modo como “Luz absoluta é obscuridade absoluta, e vice-versa. Porque não existe Luz nem Trevas nos reinos da Verdade. O Bem e o Mal são gémeos, produtos do Espaço e do Tempo, sob a influência de Mâyâ. Separai-os, cortando o laço que os une, e ambos desaparecem”27.

Deste modo, se Deus é a Luz, Satã é as trevas necessárias para que a Luz seja visível e iluminadora, é a sombra que permite, por oposição (adversidade), compreender a Luz (“a glória de Satã é a sombra do Senhor”). Tem o seu lugar imprescindível no equilíbrio da Natureza e na propulsão da aquisição consciente de qualidades. E compreendem-se perfeitamente assim estoutras palavras de Helena P. Blavatsky: “… a Igreja, ao maldizer Satã, maldiz o reflexo cósmico de Deus; lança o anátema sobre Deus manifestado na matéria ou no objectivo; maldiz a Deus, ou a Sabedoria para sempre incompreensível, que se revela como Luz e Sombra, Bem e Mal, na Natureza, pela única maneira inteligível ao limitado intelecto do homem”28.

Na realidade, são bastante significativas as palavras bíblicas que não só censuram qualquer maldição de Satã, como lhe atribuem uma elevada identidade. Por exemplo, no Eclesiástico, 21: 30, pode ler-se: “Quando o ímpio maldiz Satã, ele maldiz a si próprio”29; em Números, 22: 22 e 22: 32, o Anjo do Senhor “opôs-se-lhe [a Balaão] como Satã” e “vim contra ti [Balaão] em Satã”30. Também em I Crónicas, 21: 1-4, em Job, 1: 6, e em Zacarias, 3:1, Satã surge dignificado. Até na 2ª Epístola de Pedro, 2: 10-12 se verberam os que, arrogantes, se pronunciam contra os “Anjos Caídos” pois “injuriam o que ignoram”. Mais expressivamente, eis o que encontramos em Isaías, 45: 5-7: “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas”. Tais excertos seriam incompreensíveis sem a interpretação ocultista. Repare-se como, identicamente, na Índia, Nârada é um grande Sábio ou, mais ainda, como os Asuras configuram uma elevada Hierarquia Criadora… apesar de integrada por “rebeldes”, “adversários”, “opositores”.

No entanto, a teologia exotérica do Cristianismo, não tendo compreendido a Antiga Sabedoria, elaborou uma construção alucinada de um Satã pernicioso e tremendo que, juntamente, com os restantes Anjos Rebeldes de que seria a cabeça, faz surgir o mal e o sofrimento no mundo, ao desobedecer a Deus e ao tentar o homem a fazê-lo também (estranho Deus omnipotente que tal permitisse…). Teria, deste modo, criado a necessidade da própria Redenção e da manifestação do Verbo Divino, como vítima expiatória dos pecados do mundo; e, por esta forma, Satã e Cristo seriam ambos, e igualmente, essenciais à Redenção. É neste sentido que, no Precónio pascal, se canta: “Oh, ditosa culpa, que nos mereceu tão grande Redentor”…

Para a Igreja, “(…) ensinando, como ensina, o dogma dos Anjos Caídos no sentido da letra morta, e, tendo feito de Satã a pedra angular e a coluna em que assenta o dogma da redenção, admitir outra coisa seria um suicídio. Sustentando, como sustentou, que os Anjos Rebeldes eram distintos de Deus e do Logos nas suas personalidades, concordar em que a queda dos Espíritos desobedientes significava simplesmente a sua queda na geração e na matéria, equivaleria a dizer que Deus e Satã são idênticos. Porque, se o Logos ou Deus é o agregado daquela Legião, dantes divina, que é acusada de haver caído, a consequência natural é que o Logos e Satã não passam de um só. Tal era, contudo, a verdadeira ideia filosófica da antiguidade sobre essa doutrina agora desfigurada. O Verbo, ou ‘Filho’, era representado sob um duplo aspecto pelos gnósticos pagãos; na verdade, era um dualismo em completa unidade. Daí as versões nacionais inumeráveis. Os gregos tinham Júpiter, filho de Cronos, o Pai, que o precipita nas profundezas do Cosmos. Os arianos tinham Brahmâ (na teologia mais recente), projectado por Shiva no Abismo das Trevas, etc.. Mas a Queda de todos estes Logos e Demiurgos do alto da sua posição primitiva tinha, em todos os casos, um mesmo sentido esotérico: a Maldição, do ponto de vista filosófico, consistia no encarnar-se nesta Terra; degrau inevitável na Escala da Evolução Cósmica, Lei Kármica altamente filosófica e adequada, sem a qual a presença do Mal na Terra permaneceria para sempre um mistério impenetrável à compreensão da verdadeira filosofia” nas palavras de Helena P. Blavatsky31, que esclarece também: “Cada um dos refulgentes Deuses-Solares da antiguidade – que durante o dia era uma gloriosa Divindade, mas à noite o seu próprio adversário e antagonista, e recebia o nome de Dragão da Sabedoria, por supor-se que encerrava os germes da noite e do dia – passou a ser agora a Sombra antitética de Deus, convertendo-se em Satã por força da autoridade única e inapelável do despótico dogma humano. E em seguida todos estes Deuses Solares e Lunares foram considerados malditos; e o Deus uno, escolhido entre os muitos, e Satã foram ambos antropomorfizados”32.

Esclarecem-se assim as perplexidades dos orientalistas e académicos quando verificam que, no antigo Egipto, o malvado Set-Tífon aparecia em alguns documentos como um deus benigno e superior, ou o facto de Thot, a Sabedoria, ser a contraparte espiritual de Set. De facto, Tífon é um aspecto ou sombra de Osíris – este é a personificação da ideação cósmica (ou a tríade superior), aquele a personificação dos princípios cósmicos substanciais (ou o quaternário inferior) onde essa ideação se envolucra e materializa. Assim, Tífon corta Osíris em 14 pedaços, em 14 regiões do Universo, os 14 lokas do hinduísmo, os sete globos subjectivos + os sete globos objectivos de que se fala nas Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett33. Osíris e Tífon são dois aspectos do Divino, como também o são, no hinduísmo, o benigno Vishnu e o frequentemente terrível Shiva; no Mazdeísmo, os já referidos Ahura Mazda e Ahriman (assim eram entendidos originalmente); na mitologia nórdica, Loki e Odin. Percebem-se, até, as palavras de Lactâncio, um autor cristão dos séculos III e IV, que considerava Cristo, o Logos ou Verbo, como “o irmão primogénito de Satã e a primeira de todas as criaturas”; enfim, o trecho de Isaías (45: 7), onde o Senhor Deus afirma: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas”.

Face ao exposto, a unidade manifesta-se necessariamente como dualidade. Subjacente às disputas entre Deus e Satã ou entre o “bem” e o “mal” (aparência reflexa), está o conflito entre a dualidade espírito – matéria. Por matéria, entende-se não apenas a materialidade física ou mesmo astral, mas também a mental; e, assim, Satã aparece estreitamente ligado à mater-Matéria, à mulher (Eva…) que “rege” e propicia o conhecimento externo, à grande Mãe ou Binah (na Árvore da Vida), que é idêntica a Sarasvatî ou à acima referida Sophia dos Gnósticos (e, portanto, a Atena e Minerva) e, ainda, a Tiamat (que, como princípio substancial, preenche o espaço entre o céu e a terra). Binah é a esfera de Saturno, como já vimos34, 35, e a relação entre Satã e Saturno pode ser estabelecida em várias bases: Satã é o mesmo que Jeová (como se pode ver em Números, 22: 22 e 22: 32), e os Gnósticos relacionavam o Demiurgo deste mundo inferior com Jeová e com o Anjo de Saturno (aliás, Saturno rege o globo D, o inferior da nossa cadeia planetária de globos); o dia do Senhor (Jeová-Satã) era o Sábado, e esse é o dia de Saturno; se, nas palavras de Lactâncio, o Cristo ou o Logos, é “o irmão primogénito de Satã”, tal nos remete para Saturno, o mais velho dos Deuses, e o primeiro ponto de consumação da viagem evolutiva do nosso Universo Solar; na Astrologia, Saturno simboliza “todos os tipos de obstáculos”, na expressão de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, que, citando Senard Senz, lembram que “nas tradições herméticas, Satã é outro nome de Saturno”36; outro autor, por seu turno, escreveu que Saturno “é o Juiz e o Legislador” e que “nos ensinamentos Cristãos, Satã, ‘o Tentador’ é a personificação de Saturno, o que testa e criva o espiritual através das experiências materiais”37 – e que, sublinhe-se, afina a Consciência (o “maléfico” Saturno é, também, “o mais sábio”).

Nesta dualidade, a força centrípeta (unificadora) do Espírito e a força centrífuga (separatista) da matéria têm o seu equilíbrio em Balança (regido por Vénus, muito curiosamente, face aos motivos desenvolvidos, adiante, no ponto 3). Originalmente, fora do conhecimento mais esotérico, eram apenas considerados 10 signos: “Quando ninguém, excepto os iniciados, sabia que haviam 12 signos… Virgem-Escorpião era seguido (para os profanos) por Sagitário. No meio, ou no ponto de intersecção em que agora está Balança e no signo que agora se chama Virgem, foram intercalados dois signos místicos que continuaram a ser ininteligíveis para os profanos38. Deste modo, compreende-se a afirmação de H. P. Blavatsky segundo a qual “na Magia sírio-caldeia, Ofis39 e Ofiomorfo40 juntam-se, no Zodíaco, no signo Andrógino Virgo-Scorpio. Antes da sua queda na Terra, a Serpente era Ofis-Christos; depois, passou a ser Ofiomorphos-Chrestos41” 42.

2. A encarnação das Mónadas Divinas, nomeadamente das Mónadas manifestadas através da humanidade;

A dualidade Espírito-Matéria, conducente ao desenvolvimento da Consciência de Relação (em vez da homogeneidade da Consciência Absoluta, indiferenciada), tem implícita a Encarnação das Mónadas Divinas e Espirituais. Alegoricamente, tal descida é a Queda primeira e fundamental. É um exílio voluntário, pelo menos no primeiro impulso, porque seguidamente há o envolvimento na cadeia das causas e efeitos (Karma).
No Antigo Testamento, existe uma passagem significativa em Job, 1: 6-7. “E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor disse a Satanás: ‘Donde vens tu’? E Satanás respondeu: ‘Andei dando voltas pelo mundo e passeando por ele’”.
Justamente, é isso que estão a fazer as Mónadas, e particularmente as Mónadas humanas (ou seja, encarnadas em formas humanas; melhor, a passar pela etapa humana): a dar voltas ao mundo, nas incontáveis encarnações do Ciclo da Necessidade, através do percurso (voltas e voltas) das Cadeias, Globos e Rondas…43.

São estas a “terça parte das estrelas do Céu” atiradas sobre a Terra, a que se refere o neotestamentário Apocalipse, 12: 4. Tal como são “as estrelas que deixaram de brilhar na escuridão… caindo como chuva sobre a Terra” ou os “sete coros de Espíritos Celestes exilados”, da tradição Chinesa, acima referida (lembremos que, segundo a Antropogénese Ocultista, há sete grupos iniciais de Homens que encarnam na Terra).

Conforme escreveu H. P. Blavatsky: “Toda a antiguidade estava impregnada com aquela filosofia que ensina a involução do Espírito na Matéria, a descida progressiva e cíclica ou a evolução activa e consciente. Os gnósticos de Alexandria divulgaram bastante os segredos da Iniciação, e os seus anais referem-se frequentemente à ‘queda dos Eões’, no seu duplo sentido de Seres Angélicos e de Períodos; sendo uns a evolução natural dos outros. Por outra parte, as tradições orientais em ambos os lados da ‘Água Negra’, o Oceano que separa os dois Orientes, estão igualmente repletos de alegorias sobre a queda do Pleroma ou a dos Deuses e Devas. Em todas elas a Queda figura como alegoria do desejo de aprender e de adquirir conhecimento – do desejo de saber. Esta é a consequência natural da evolução mental: o Espiritual se transmuda em Material ou Físico”44.

Esta descida do Espírito na Matéria conduz ao desenvolvimento da Psique, do Mental, da consciência individual, do sentido de “si” (ahamkara) ou autoconsciência, que um dia serão subsumidos e recolhidos no Eu Espiritual. Até esse culminar, dá-se a longa luta entre a Sabedoria Divina, Nous ou Alaya, e o seu reflexo terrestre, a Luz Astral, como entre o Espírito manifestado no Homem e a sua Alma (ou antes, os níveis inferiores da Alma), que é a involução do Espírito. É um processo imenso, este da semente que cai na terra, apodrece, germina, desponta para a luz, ainda frágil e vulnerável, até se tornar numa robusta e frondosa Árvore do verdadeiro Conhecimento; processo imenso e em algumas etapas doloroso, mas que é a forma de o ser adquirir Vontade e Consciência próprias, em vez de permanecer num Céu sem mérito e sem discernimento individual, confundido nas Legiões Espirituais cujos integrantes ainda carecem de determinação individual – e que, por isso mesmo, ainda têm que descer até passar pela etapa humana, para mais tarde voltarem aos Planos Espirituais com as referidas aquisições. Efectivamente, nos Planos mais elevados do Cosmos, existem tanto as Entidades que já passaram pela etapa humana, como aquelas que ainda têm que por ela passar…

Ensina, de facto, a Sabedoria Esotérica que é preciso passar pelo sofrimento, pelo conhecimento tanto do Bem como do Mal, para se atingir o Nirvana, pelo menos o Nirvana com Paramârtha, isto é, a consciência que incide sobre si mesma (Svasambuvedâna).

Na sua obra Comentário sobre o Parménides, escreveu Proclo: “Nada é tão indigno ou trivial para não participar do Bem (…). Mesmo a matéria, tendo isto em conta, será considerada boa, e a própria concepção sobre o mal ele-próprio modifica-se para constatar o bom em si, sendo incapaz de existir se não tivesse em si vestígios do Bem e não o partilhasse de algum modo”. Assim é, com efeito.

3. O despertar do princípio mental na humanidade, e os seres que o espoletaram e fomentaram;

Acerca deste passo de tão extraordinária importância, já escrevemos no referido artigo Lemúria desta mesma secção “Esoterismo de A a Z”. Para não nos repetirmos, nem alargamos excessivamente o presente texto, remetemos para o que ali foi escrito.

O ser humano, no começo da sua evolução neste Globo, dispunha apenas das formas externas que lhe haviam sido propiciadas pelos Pitris ou Progenitores Lunares, os Elohim criadores do Adão de barro45. Tais formas eram as dos níveis astrais (o Linga-Sharîra) e, ainda em fase de materialização, o corpo físico. O homem primitivo, Adão, foi criado só como alma vivente (Nephesh); faltava-lhe o espírito vivificante (conforme se expressou São Paulo na 1ª Epístola aos Coríntios, 15: 45-7). A Humanidade das duas primeiras Raças, ditas Astrais ou Etéreas, estava, pois, psicologicamente inerte. Carecendo do elemento que propicia a ligação entre os Princípios Espirituais e as Formas mais externas, o homem de então era simultaneamente Espiritual, porque a sua consciência não tinha meio de baixar desses Planos, onde estava adormecida, numa perfeição passiva ou negativa (nirguna, sem atributos); grosseiro nos veículos externos (astral e físico, na sua fase modelar); basicamente destituído de inteligência própria, porque o seu princípio mental estava inactivo. Não existia propriamente o Ego Humano, que não é Âtman nem Buddhi, que tão pouco é os princípios inferiores mas é, sim, o Manas Superior.

Citando novamente Helena Blavatsky, o ser humano “Não tinha Princípio médio que servisse de elo entre o superior e o inferior – o Homem Espiritual e o cérebro físico –, porque não era dotado de Manas. As Mónadas que se encarnaram naquelas Conchas vazias permaneceram tão inconscientes como quando se achavam separadas das suas formas e veículos incompletos anteriores. Neste nosso plano não há potencialidade de Criação ou Autoconsciência num Espírito Puro, a não ser que a sua natureza demasiado homogénea, perfeita – porque divina – se misture, por assim dizer, a uma essência já diferenciada, sendo por ela fortalecida (…) Mas como podiam as puras Emanações [as Mónadas desta Humanidade], que, segundo esse princípio, deviam ser originariamente inconscientes (no nosso sentido), suprir de algum modo o Princípio requerido, se estas mal o possuíam?”46.

A evolução teria sido muitíssimo lenta, se não fora o sacrifício voluntário de Grandes Seres, que haviam passado a etapa humana em ciclos muito anteriores. Verdadeiros Anjos ou Arcanjos Ígneos – portadores do fogo da Mente – eles foram transformados em “Anjos do Céu precipitados na trevas do Inferno”, pelas teologias exotéricas, invariavelmente inimigas da inteligência, da liberdade, da luz do Conhecimento, dos olhos abertos. Essas elevadas Entidades são conhecidas por diversos nomes em distintas Tradições: Agnishvâttas, Mânasaputras, Kumâras, Pitris Solares, Filhos do Fogo, Senhores da Mente, Prometeu, os Senhores de Vénus, Lúcifer, Iblis… De facto esses Seres desceram ao inferno, sim, mas ao inferno da Terra e da Humanidade terrestre, por cujo progresso se sacrificaram, como portadores da Luz (Lúcifer significa, etimologicamente, “o portador da Luz”).

Eles comunicaram ao ser humano a sua substância-energia mental, despertando e alimentando no Homem a chama do Princípio Mental, que depois se desenvolve com o esforço individual. Constituiu-se assim o Ego Humano, o Eu Superior. “Pouco a pouco, sob a influência desta Mente Superior, o Manas do ‘Homem Animal’ passa do estado latente ao activo, dando nascimento a um intelecto muito inferior ao que vem do Kumâra, mas que é seu próprio. A fusão da mente fornecida pelo Kumâra com esta inteligência inferior, pode ser comparada à união de dois raios de luz… A entrada de um raio de sol, seguindo outro através de uma mesma abertura num quarto escuro, não constituirá dois raios mas um raio intensificado”47. O Homem tornou-se, deste modo, um Ser integral, com o Espírito e a Matéria unidos pelo fogo da Mente. Graças a essa união hipostática dos Agnishvâttas ou Pitris Solares com o Princípio Mental de parte dos Filhos dos homens, e/ou ao seu alento vivificador (reflectindo-se) sobre o Mental da restante Humanidade, pôde o ser humano abrir caminho para a luz da razão, do conhecimento e da auto-consciência. Fê-lo devido à “queda” (ou seja, a descida) daqueles a quem devemos a liberdade e definição intelectual.

“Compreende-se agora por que os Agnishvâttas, desprovidos do fogo criador mais grosseiro, e portanto inaptos para criar, por não terem Duplo ou Corpo Astral a projectar (pois careciam de forma), são apresentados nas alegorias exotéricas como Yogis, Kumâras (jovens castos) que se ‘rebelaram’, Asuras que se opunham aos Deuses e lutavam com eles, etc.

(…)

Os que não podem criar o homem espiritual imortal são os que projectaram o molde sem mente (o astral) do ser físico; (…) os que não quiseram multiplicar-se foram os que se sacrificaram pelo bem e salvação da humanidade espiritual… são estes os Seres activos, e portanto deixam de ser ‘puros’ no céu. Converteram-se nas Inteligências independentes e livres, que em todas as Teogonias aparecem lutando por essa independência e essa liberdade, e são por isso – no sentido vulgar – considerados ‘rebeldes à lei divina passiva’”48. Foram eles que (como Iblis…) se recusaram a prostrar-se ante o homem de barro, por demais incompleto ainda…

A Filosofia Esotérica, ao reconhecer o sacrifício dos Anjos Rebeldes ou Caídos que se sacrificaram pela Humanidade, e a nobreza dessa “Queda” e dessa Rebeldia”, nada tem, pois, de satânico, no sentido vulgar do termo. Neste sentido, satânicas seriam, sim as cruéis teologias de muitas Igrejas Cristãs, as ideias de largos sectores do Islão, a pretensão Judaica de exclusivismo, etc., etc..

Face ao exposto, o Ensinamento Oculto recusa-se a aceitar a construção teológica de que comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal tenha sido um pecado – quando, na verdade, era um passo necessário; recusa-se a preferir a inconsciência e a cegueira aos olhos abertos49 e à luz do conhecimento; recusa-se a admitir a crença num qualquer diabo pessoal, quando, na verdade, Lúcifer, o “Portador da Luz”, o fósforo da inteligência – no seu aspecto dual, que tanto se volta para a existência material, quanto nos liberta da condição animal e nos eleva a uma existência espiritual consciente – está em nós, simultaneamente como Tentador e como Redentor, como agente de “queda” ou como propulsor de ascensão; recusa-se a ver na simbólica Serpente do Genesis a representação do Maligno, quando mais propriamente significa o conhecimento lúcido ou “o próprio Senhor Deus”, manifestado na Sua Sabedoria. Esta última afirmação encontra apoio nas palavras atribuídas a Cristo-Jesus: “sede sagazes como as serpentes, e simples como as pombas” (Mateus, 10: 16). Aliás, nos textos canónicos cristãos, lemos também “Eu, Jesus (…) sou a radiosa estrela da manhã” (Apocalipse, 22: 16) e “… a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela d’alva apareça nos vossos corações” (II Pedro, 1: 19). Recorde-se a ligação de Lúcifer com Vénus (a estrela matutina), e deste50 com os Anjos Solares que nos despertaram e vivificaram a centelha mental.

Deste modo, entendem-se igualmente algumas afirmações dos Gnósticos de há dois mil anos atrás: Ialdabaôth (Jeová, um Demiurgo inferior, um Senhor Lunar) proibiu o homem de comer do fruto da árvore do conhecimento, susceptível de o vir a fazer aceder aos mistérios dos mundos superiores. No entanto, Sophia-Akhamôth, querendo beneficiar a Humanidade, enviou o seu próprio génio, Ophis, sob a forma de uma serpente, para induzir o homem a transgredir aquele mandamento, e a desenvolver a compreensão. Então, o homem tornou-se apto a compreender os mistérios da vida. E Ialdabaôth vingou-se, punindo o par (macho e fêmea) primordial…

Percebe-se melhor que tivesse havido um grupo de Gnósticos, os Ofitas, que constituíam a “Fraternidade da Serpente”, fazendo o culto (simbólico) da Serpente. Note-se que, tal como o Dragão, a Serpente pode ser considerada sob um aspecto dual: representando o conhecimento sagrado ou a astúcia do psiquismo inferior.

Termos a faculdade mental e do conhecimento, jamais pode ser considerado mau, pecaminoso ou negativo: só o seu mau uso é que pode ter consequências perniciosas, do mesmo modo como a sua correcta utilização é um instrumento poderoso de luz. É a consciência individual e o pensamento desenvolvido que fazem com que sejamos Homens. É esse o nosso “produto acrescentado” à evolução global.

Face ao exposto, é particularmente curioso atentar nas funções e naturezas de alguns dos Titãs e Titânides – que se opuseram aos Deuses – na Mitologia Grega, permitindo aclarar esse ponto.

* Prometeu. Sobre ele, já falámos o suficiente num artigo como este;
* Céos, é o Titã da inteligência;
* Hipérion, o fogo astral;
* Mnemosine, a personificação da memória;
* Témis, a encarnação da ordem divina, das leis e costumes, e mãe das Horas e das Moiras.
* Teia, deusa da visão, sentido analógico do mental, de que é símbolo. Os olhos de Adão e Eva abriram-se, ao provarem do fruto da árvore do conhecimento…
* Epimeteu (irmão de Prometeu), cuja etimologia é: “epi”, sobre, depois + meth-eús, que aprende ou compreende através da prática ou experiência. Assim, Epimeteu, “o que pensa e compreende depois” é realmente expressão antitética de Prometeu, “o que pensa e reflecte antes”.

Constata-se, portanto, a ligação de todos à mente, ao conhecimento, à ordenação inteligente. Tal como é manifesta a relação entre Prometeu e a Serpente, ou entre Eva e Pandora.

Um ponto curioso a ponderar é o facto de Vénus-Lúcifer ser o regente de Balança, enquanto Saturno-Satã rege Capricórnio. Talvez a identificação entre Satã e Lúcifer tenha, afinal, alguma razão de ser… Já vimos a propósito da dualidade Deus / Satã, Espírito / Matéria, que o ponto de equilíbrio se encontra em Balança – e o equilíbrio entre Espírito e Matéria é feito pela Mente (que, também por isso, é como os dois pratos da balança, na sua manifestação). E é bem possível que Satã ou Satanás tenha sido uma derivação de Sanat – o virgem Kumâra – ou da Sabedoria primordial (Sanatana Dharma). Por sua vez “A Quinta Hierarquia, a dos Kumâras, é muito misteriosa, uma vez que está relacionada com o Pentágono Microcósmico, a estrela de cinco pontas representando o homem. Na Índia e Egipto, aqueles Dhyânis [Kumâras] eram associados ao Crocodilo e o seu domicílio era em Capricórnio. Na astrologia indiana, Crocodilo e Capricórnio são termos conversíveis, porquanto este 10º signo do Zodíaco é chamado Makara, livremente traduzido por ‘crocodilo’… É o ‘Dragão da Sabedoria’, Manas, a Alma Humana, a Mente, o Princípio Inteligente”51 e “Makara ou Panchakaram é o Pentágono. Este é o símbolo do homem-pensante (dotado do 5º Princípio, de Manas)”52.

4. O envolvimento do homem na existência fenomenal, e nas paixões e desejos que de tal derivaram;

O Espírito, ao envolver-se, mesmo que indirectamente, na encarnação material, passou a sofrer as consequências dos impactos do mundo sensório e de todo o tipo de desejos. Tal representa, é verdade, uma “queda”; mas é o preço decorrente da conquista da autoconsciência, que só através do reflexo no espelho da matéria se pode alcançar; da actividade inteligente que só através da dureza da disciplina, que a forma material impõe, se consegue atingir. Por algum motivo, na Árvore da Vida, o Pilar da forma e da Inteligência Objectiva, com Binah no seu topo, é designada por Coluna da Severidade.

“A ‘Queda’ é uma alegoria universal. Representa, num extremo da escala da Evolução, a ‘rebelião’, isto é, a acção da inteligência que se diferencia, ou a consciência nos seus diversos planos, buscando a união com a matéria; e no outro, o extremo inferior, a rebelião da Matéria contra o Espírito, ou da acção contra a inércia espiritual (…) Na alegoria original, era a Matéria (e portanto os Anjos mais materiais) que triunfava sobre o Espírito (ou sobre os Arcanjos que ‘caíram’ neste plano).

‘Eles, os das espadas flamejantes [ou das paixões animais] puseram em fuga os Espíritos das Trevas’53.

Foram, contudo, estes últimos que lutaram pela supremacia da Espiritualidade consciente e divina na Terra, sendo vencidos e sucumbindo ante o poder da Matéria. Mas no dogma teológico o que vemos é o contrário disso…54” 55.

Entretanto, se quisermos aproveitar algo desse mesmo dogma teológico, na parte e na acepção em que ele pode ter alguma razoabilidade e um estímulo moral, bem mais lógicas e acertadas do que a noção de um diabo tentador externo são estoutras palavras de Helena Blavatsky: “Os chamados ‘Anjos Caídos’ são a própria humanidade. O Demónio do orgulho, da luxúria, da rebeldia e do ódio não existia antes de aparecer o homem físico consciente. Foi o homem que engendrou e criou o Demónio, e permitiu que medrasse no seu coração; foi ele também que contagiou o Deus interno, o Deus que reside nele mesmo, enlaçando o Espírito puro com o Demónio impuro da Matéria”56.

Na 4ª Raça-Raiz, a Atlante – ponto de equilíbrio/conflito maior entre o Espírito e a Matéria, como sempre o Quatro representa57, ciclo de efervescência kâma-manásica (o 4º Princípio) – extractos da Humanidade envolveram-se em extremos de ferocidade e sensualidade, consumando a sua “queda” na materialidade. Alguns, entre outros “crimes”, chegaram mesmo a procriar com animais (repetindo o que haviam feito, na 3ª Raça-Raiz ou Lemuriana, os chamados “sem mente”… só que estes últimos sem responsabilidade, por carência, precisamente, da mentalidade). Foi desse cruzamento que surgiram os antepassados dos símios antropóides (não espantando, desta forma, a similitude genética).

E, aqui, é possível compreender outro sentido de Lúcifer, enquanto sinónimo da Luz Astral. Ora, a Luz Astral é o invólucro subtil do nosso globo, nela se impregnando todas as emanações morais e físicas provenientes do Mundo Físico. “Diabólicas” são, frequentemente, e na sua maioria, essas emanações; mas não é Lúcifer-Luz Astral o seu autor, visto que se limita a reproduzir ou duplicar o que o homem cria.

5. A luta entre os Adeptos da Boa Lei e os Poderes da Sombra (Magos Negros) na fase final da 4ª Raça-Raiz (a Raça Atlante).

No já referido ponto crítico da 4ª Raça-Raiz, uma parte da Humanidade enveredou pela aplicação de poderes ocultos para fins egoístas e destrutivos, de forma tremenda e muito nociva; e, naturalmente, estiveram em oposição com os Magos Brancos, os Adeptos do Recto Caminho, os Mestres de Sabedoria Amorosa.

“Essa Guerra entre os Deuses e as Potências do Abismo refere-se também, na sua aplicação última e terrestre, à luta sustentada pelos Adeptos arianos da Quinta Raça nascente contra os Feiticeiros da Atlântida, os Demónios do Abismo, os Insulares rodeados de água, que desapareceram no Abismo”58.

É a esse conflito que, nomeadamente, alude o Râmâyana, obra prima da literatura sânscrita.

Síntese Final
O Bem e o Mal pressupõem-se necessariamente no Universo. Só enquanto pura abstracção ou ideal (sempre oculto) a perseguir, existe o Bem Absoluto, tal como inexiste o Mal Absoluto, porque tudo na Natureza tem uma função ou pode, por contraste e dialéctica, suscitar a evolução no sentido ascendente.

No Cosmos, a bipolaridade, os opostos, os contrastes são precisos, impedindo a inércia, a dormência, a estagnação. No entanto, tudo procede do Uno, tudo está no Uno. Uma explicação do universo e da vida em termos de oposição dualista pode apenas valer como tentativa de explicar a existência da dor e da imperfeição no mundo, imputando-as não a um Deus mas a um Diabo, o que é tão-só um modo simplista de resolver o problema – ou melhor, de não resolver – ou como um estímulo a seguir-se o caminho da rectidão em detrimento da via da iniquidade.

Por certo, o Bem é superior ao Mal, como o Espírito é superior à Matéria, mas ambos existem e têm o seu lugar e o seu momento na manifestação cósmica.

“Na natureza humana, o mal não indica senão a polaridade da Matéria e do Espírito, a ‘luta pela vida’ entre os dois princípios manifestados no Espaço e no Tempo, princípios que são idênticos per se, por terem as suas raízes no Absoluto. No Cosmos, deve o equilíbrio ser mantido. As operações dos dois contrários produzem a harmonia, como as forças centrípeta e centrífuga, que, sendo interdependentes, são necessárias uma à outra, ‘a fim de que ambas possam subsistir’. Se uma se detivesse, a acção da outra imediatamente se converteria em destruidora de si mesma”59.

Tendo, como Espírito, descido (encarnado) na Matéria, tendo passado pelo equilíbrio entre estes dois pólos, tendo oscilado entre o Bem e o Mal ou entre a Luz e a Sombra, tendo aprendido através da oposição e do contraste e da experiência, tendo alcançado a auto-consciência e percorrido, depois, o caminho ascendente, o Homem (a Mónada) no final do grande ciclo “se verá tão livre quanto o era no princípio, havendo ganho, porém, a experiência e a sabedoria, frutos de todas as suas vidas pessoais, sem as suas maldades e tentações”60.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural——————————
1 Nestes dias de confusa efervescência de espiritualidades (ou pseudo-espiritualidades) ainda se confunde e até inverte o sentido de esotérico e exotérico, que são opostos. O Esoterismo é o conhecimento oculto, mais profundo; o exoterismo é o ensinamento externo, superficial, da “letra morta”.
2 Etimologicamente, Asura seria uma derivação de Asu, o “sopro de Deus”.
3 Acerca dos Vedas, dos Brahmanas e dos Purânas no contexto da literatura sagrada hindu, remetemos para o nosso livro Alexandria e o Conhecimento Sagrado, págs. 444-5 (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2008).
4 O prefixo sânscrito urû, que designa coxa, significa, também, vasto, espaçoso, envergadura ou largura das costas. O termo ûrurâtri designa a última porção ou fase da noite. No entanto, exotericamente, a imagem ou ideia descritiva da criação que predominou, foi a anatómica, a coxa ou fémur.
Os quatro corpos que Brahma assumiu tipificam as quatro classes de poderes criadores ou Dhyân Chohans. Segundo esclarece Helena Blavatsky, esses quatro corpos são: râtri (noite), associado com a criação dos Asuras; ahan (dia), associado com os deuses; sandhya (crepúsculo), associado com os Pitris; jyotsna (aurora), associado com a criação da humanidade. Curiosamente, vemos a Bíblia retratar o mesmo episódio da criação a partir do corpo de Adão, desta feita, a partir de uma costela, o que talvez nem se desvie do original, dado que o étimo urû (em que o mito hebraico notoriamente se inspirou) abarca também a ideia de costado, amplidão das costas…
5 “Asura era a designação genérica de todos os Atlantes que foram os inimigos dos heróis espirituais dos Ários (´deuses’)”(Man: Fragments of a Faith Forgotten, por dois Chelas, pág. 97, Kessinger Publishing, Montana, edição fac-similada do original de 1887).
Os Asuras são frequentemente identificados aos Gigantes, Titãs, Daityas, Danavas, Demónios, Rakshasas, Jotuns, etc.. Na Bíblia, são eles os gigantes antediluvianos denominados Gibborim (plural de geber, que significa entidade ou homem forte, possante, poderoso, aplicando-se o termo no sentido físico ou também no espiritual). A palavra Gibborim deriva, por sua vez, de kabbirim (kabiri ou kabeiroi), nome por que se designavam os Senhores da Sabedoria. Nesta acepção, os Asuras são, por conseguinte, a humanidade da 4ª Raça-raiz.
6 Prajâpati, significando o mesmo que Brahmâ, simboliza e sintetiza a colectividade de poderes criadores do Cosmos.
7 Mircea Eliade, A History of Religious Ideas, Vol. I, pág. 204 (The University of Chicago Press, Chicago, 1978).
8 “Positivo”, no sentido em que são o pólo activo, propulsor, que luta contra a inércia e homogeneidade.
9 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta (Editora Pensamento, São Paulo, 1973), Volume III, pág. 73.
10 Rishi – Um grande Instrutor da Ciência Sagrada. Neste sentido, há sete ordens destes Seres, de diferentes magnitudes. Noutra perspectiva, podem ser encarados como as Energias manifestadas de cada Logos, no seu respectivo plano ou área de jurisdição. Os mais elevados são as hierarquias de Construtores e Arquitectos do Universo e dos seres vivos que os povoam, sendo, nessa acepção, identificados aos Dhyân Chohans, Devas ou Deuses.
11 Op. cit., Vol. IV, págs. 53-4.
12 Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky, pág. 696 (Editora Ground, São Paulo).
13 Privado “simbolicamente do Nous, da inteligência, tornando a humanidade anoétos” (Junito Brandão, Dicionário Mítico Etimológico, Vol. II, pág. 329, Editora Vozes, Petropólis, 1992).
14 Simbolizando, supomos, o tormento das paixões derivadas do contacto com os níveis mais materiais, o inferno da Humanidade.
15 Pleroma – A Alma Universal, com os poderes demiúrgicos.
16 De la Recherche de la Verité, Tomo Primeiro, Prefácio, XIII (Paris, Chez Durand, 1772).
17 Cfr. o trabalho de George Smith, Chaldean Account of Genesis, nomeadamente as págs. 88 a 92, e 304. Referimo-nos à edição fac-similada do original de 1876 publicada pela Wizard Bookshelf, San Diego, 1994.
18 Remetemos para as págs. 14, 87 e 90 a 92 do livro citado na nota anterior. Acrescente-se, já agora, que nos mesmos originais caldaicos encontramos os protótipos do Dilúvio e de Noé (Xisusthrus) – cfr. págs. 36, 42-4 , 46, 144 e 263 e ss.
19 Binah que é adversidade para Chokmah, impondo-lhe a severidade e o rigor da Forma.
20 Acerca desta querela, também remetemos para o nosso livro Alexandria e o Conhecimento Sagrado, págs. 152 a 166.
21 Manvantara – Um período de actividade ou manifestação externa.
22 Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett, Vol. II, pág.55 (Editora Teosófica, Brasília, 2001).
23 Agathodaemon e Kakodaemon – Os génios do bem e do mal, respectivamente, entre alguns Gnósticos.
24 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. II, págs. 119-21.
25 “O Bem é infinito e eterno naquilo que para nós se acha eternamente oculto; e por isso é que o imaginamos eterno. Nos planos manifestados, um equilibra o outro”. Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. II, pág. 121.
26 Idem, Vol. III, pág. 232.
27 Ibidem, Vol. III, pág. 110.
28 Ibidem, Vol. III, pág. 254
29 Grande parte das traduções, para esconder a verdade, coloca “adversário” em vez de “Satã” (o original hebraico); mas Satã significa justamente Adversário.
30 Também nesta passagem, para disfarçar, usam-se os termos “obstáculo” e “oposição” em lugar de Satã, sendo, portanto, idêntico o sentido.
31 A Doutrina Secreta, Vol. IV, pág. 82.
32 Idem, págs. 74-5.
33 Op. Cit., Vol. I, pág. 272.
34 “Vemos, assim, que, se Kether, a força de todos os seres, é concebida como o supremo bem, como de facto deve ser, e que, se a natureza de Kether é cinética, e a sua influência se inclina inevitavelmente para Chokmah, segue-se obrigatoriamente que Binah, o oposto de Chokmah, o opositor perpétuo dos impulsos dinâmicos, seja vista como o inimigo de Deus, o demónio. Saturno-Satã é uma transição fácil…”. Dion Fortune, A Cabala Mística, pág. 122 (Editora Pensamento, S. Paulo, 1984).
35 Na esteira da ligação de Satã com a natureza feminina, vale a pena reproduzir uma curiosa referência de C. G. Jung, na nota 354 da pág. 168 do seu livro Mysterium Coniunctions (Vozes, Petropólis, 1985): “A Lua também tem relação com Saturno, o Maleficus da Astrologia. Nos Dicta Belini, Saturno é em certo sentido ‘pai-mãe’ da Lua… Eu sou quem ilumina tudo o que é meu e faço a Lua aparecer visivelmente ao sair do interior de meu pai Saturno e da mãe dominante que tem inimizade comigo”. Remetemos ainda para as págs. 244-4 da mesma obra.
36 Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Editorial Teorema, Lisboa, 1994; págs. 588-9.
37 Alan Leo, Esoteric Astrology, págs. 25-6 (Destiny Books, Rochester, 1989).
38 Subba Row, Esoteric Writings (The Theosophical Publishing House, Adyar, 2ª ed., 2002); pág. 5; Consciencia e Inmortalidad, pág. 39 (Editorial Kyer, Buenos Aires, 1994).
39 Ofis – O Logos; o deus serpente ou Agathodaemon. A Sabedoria divina.
40 Ofiomorfo – O mesmo que Ofis mas no seu aspecto material.
41 Repare-se na diferente grafia: Christos e Chrestos. Christos é superior a Chrestos. “Chrestos significava um discípulo posto à prova, um candidato à dignidade de Hierofante. Quando o aspirante triunfava, através da Iniciação, de grandes provas e sofrimentos, e havia sido ungido (…) o seu nome era transformado em Christos, o ‘purificado’, na linguagem do mistério ou esotérica” (Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, op. cit., pág. 123).
42 A Doutrina Secreta, Vol. II, pág. 121.
43 Escrevemos, acerca disto, no livro Alexandria e o Conhecimento Sagrado, op. cit., págs. 42-60; e no artigo “Lemúria”, publicado no nº 29 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2007).
44 A Doutrina Secreta, Vol. II, pág. 123.
45 Genesis, 2: 7.
46 A Doutrina Secreta, Vol.III, pág. 94.
47 Salomon Lancri, Estudos Seletos em A Doutrina Secreta, pág. 122 (Editora Teosófica, Brasília, 1992).
48 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. III, págs. 92-3.
49 Cfr. Genesis, 3: 7.
50 Cabe lembrar que nunca se pretendeu que existem actualmente (ou num passado minimamente recente) homens no planeta físico Vénus.
51 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. I, págs. 256-7.
52 Isabel Nunes Governo, O Enigmático Capricornus – Makara, “Horizontes de Sophia”, Biosofia nº 31 (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2007).
53 Note-se que a Luz Absoluta é Trevas, porque a luz e a visão tal qual as concebemos, são inerentemente relativas.
54 Frequentemente as grandes verdades são colocadas ao “contrário”, na aparência exotérica dos textos. As teologias superficiais e as interpretações superficiais seguem a letra morta. O Ensinamento Oculto contém as chaves do verdadeiro conhecimento na hermenêutica (de Hermes…) desses textos.
55 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. III, pág. 77.
56 Idem, pág. 292.
57 Assim, a Quarta Ronda, no conjunto de Sete que formam uma cadeia; a Quarta Hierarquia Criadora, a das Mónadas Humanas, ponto de equilíbrio Espírito-Matéria; o Quarto Princípio, Kâma-Manas, palco da grande luta entre a natureza imortal e a natuteza mortal; Fohat, o Quarto Princípio Cósmico, a imprimir a Ideação na Objectividade, etc.
58 Helena Blavatsky, A Doutrina Secreta, Vol. III, pág. 402.
59 Idem, Vol. II, págs. 123-4.
60 Ibidem, Vol. III, pág. 199.

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