Mitos e Verdades no Caminho Espiritual

Como Perceber Melhor o Que é Joio, e o Que é Trigo

Certos ditados populares contêm uma sabedoria verdadeiramente imortal, quando nos advertem sobre as relações surpreendentes entre o que é ilusão e o que é realidade:

* “O essencial é invisível aos olhos.”

* “As aparências enganam.”

* “O hábito não faz o monge.”

* “Quem vê caras não vê corações.”

Apesar de todos os avisos e conselhos nesse sentido, é normal que muitos se deixem levar pelas aparências. Afinal, como explica outro ditado popular, “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. As pessoas necessitam do apoio da visão externa. Há muitos São Tomés modernos exigindo ver para crer, e quando eles vêem algo, acreditam naquilo, mesmo que a visão seja falsa e enganosa e os leve a um beco sem saída.

Cecília Meireles escreveu:

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo (…)1

A dificuldade de distinguir mitos de verdades deve-se também ao fato de que, em certas ocasiões, a verdade não é agradável.

O ditado popular afirma que o pior cego é aquele que não quer ver, mas o ditado ignora o fato de que quase sempre há um motivo forte para manter os olhos fechados. A aceitação da realidade pode derrubar e destruir as ilusões mais agradáveis.

A ilusão é como uma couraça protectora. A verdade torna o indivíduo interiormente forte, mas externamente vulnerável. Com ela, o ser humano é forçado a deixar de lado situações sobre as quais antes comodamente enganava a si mesmo – e aos outros. Assim, o cego mais astucioso é aquele que prefere não ver, e uma boa parte das pessoas está nesse caso. É como se o indivíduo pensasse: “é melhor não saber de certas coisas”. Todo o conhecimento directo implica uma responsabilidade e um perigo. Às vezes o indivíduo foge do perigo − e da sua verdadeira força interior − buscando refúgio na falsa segurança do não-saber.

Há ainda outro aspecto no processo de produção de brumas e ilusões. É mais fácil seguir os velhos trilhos do pensamento conhecido, das acções repetidas, dos pontos de vista estabelecidos. Muita gente vê a vida como algo imóvel, ou como algo cujo movimento é sempre o mesmo e não admite inovações. E há inúmeros cidadãos que querem que seja assim. Apenas gostariam de trocar alguns poucos factos isolados, para que suas ambições pessoais se tornassem realidade.

Quase tudo o que é rotina parece real. O que rompe a rotina parece irreal e até inaceitável. O caminho estreito e íngreme de que fala Jesus no Novo Testamento (Mateus, 7: 13-14) consiste em ir contra a correnteza e olhar os factos colocando a verdade acima das outras considerações. Esse caminho precário força o ser humano a pensar, e nele os tombos e os tropeços são inevitáveis. A roupa fica rasgada. A sola dos sapatos fura-se. O futuro é incerto, e o caminhante é visitado pelo medo e pela incerteza –; mas a sua alma cresce, e nem as corporações multinacionais, com todo o seu inquestionável poder tecnológico, puderam inventar até hoje algo tão importante quanto o simples crescimento da alma.

É verdade que a caminhada do autoconhecimento não se dá em terreno asfaltado, sob o aplauso constante das pessoas mais queridas do peregrino, enquanto ele avança feliz entre os seus admiradores. O caminho é íngreme. Ele é percorrido solitariamente numa paisagem complexa, no meio de luzes e sombras, sons e silêncios, orientações verdadeiras e falsas indicações. A chave da vitória do peregrino está sobretudo na sua capacidade de aprender com as derrotas.

A espiritualidade não existe afastada da vida. O que há no mundo externo, há também no mundo da busca espiritual. Existem espertalhões que mentem no âmbito das relações sociais e económicas, e outros tantos “espertos” geram mitos no universo da busca espiritual. Os indivíduos honestos são a maioria em ambas as dimensões da vida; mas eles devem viver com os olhos abertos e com os ouvidos atentos, porque a vigilância é um preço a pagar pelo progresso, em todos os aspectos da caminhada.

O grau de honestidade de qualquer indivíduo em relação aos outros é uma decorrência do seu nível de honestidade consigo mesmo. Quem engana os outros, engana a si. E quem engana a si mesmo, não tem motivos − nem meios ou instrumentos − para ser sincero com os outros.

Por isso, um dos primeiros passos de toda a caminhada espiritual é a decisão de ser honesto com a sua própria consciência interior.

A jornada em busca do conhecimento sagrado é uma obra de alquimia em que cada um troca o tempo potencial da sua vida física por experiência acumulada e sabedoria. Cada um transmuta tempo, e energia, em conhecimento. O tempo que lhe é dado viver e a energia vital correspondente a cada uma das suas faixas etárias são recursos naturais. Mais do que isso: são recursos naturais não-renováveis − pelo menos do ponto de vista da sua actual encarnação. Para o alquimista espiritual, o tempo e a vitalidade são as matérias-primas do seu trabalho, e não podem ser desperdiçados. Para evitar o mau uso desta matéria-prima, uma coisa é indispensável: o discernimento. É ele que permite identificar o que é mito e o que é verdade, o que é folclore e o que é facto, o que é jogo de cena e o que é lei eterna.

Deste modo, o indivíduo evita deitar fora o tempo de vida que lhe pertence. É certo que haverá outras encarnações no futuro: mas a qualidade do ponto de partida que lhe será dado nelas dependerá de saber aproveitar as oportunidades de agora.

O Desafio da Prática
O que se pode fazer, então, para diminuir o problema da perda de tempo?

Esta pergunta coloca alguns desafios que, quando enfrentados com seriedade, têm lições valiosas a ensinar.

A prática é um critério da verdade. É ela, e não o discurso, que revela a diferença entre o tonto e o sábio. Mas a prática é algo bem maior e mais complexo que os factos físicos externos. A prática é também a vida psicológica, emocional, e contemplativa ou intuicional.

Assim, para ver como anda o processo de iluminação da alma de alguém que assumiu um compromisso espiritual consigo mesmo, é preciso examinar quanto há de força e de responsabilidade próprias na decisão tomada, e qual é o poder real que o compromisso assumido tem de mudar para melhor − ainda que lentamente − a vida diária do indivíduo.

A Acção Individual
Algumas pautas de comportamento individual são típicas da religiosidade não dogmática dos novos tempos. Entre esses costumes e recomendações éticas estão:

*A leitura reflexiva de obras da teosofia original e da filosofia clássica;

*A ajuda mútua e a solidariedade na caminhada espiritual;

*O apoio a acções altruístas no plano económico-social e cultural;

*Uma alimentação natural, sem aditivos, corantes, flavonizantes, conservantes, e sem uso de defensivos agrícolas;

*Uma alimentação integral, sem uso de grãos refinados;

*Uma alimentação vegetariana, ou lacto-ovo-vegetariana, isto é, que não implique a morte de animais;

*A abstenção de cigarros e bebidas alcoólicas;

*A prática diária de exercícios físicos moderados, como caminhadas, plantio de mudas de árvores, tai-chi-chuan, ou artes marciais como judô e ai-ki-dô;

*A auto-observação diária e a gradual purificação de pensamentos e sentimentos;

*O estudo livre e não-dogmático dos melhores textos de cada religião, sem que o estudante esteja preso a dogmas ou rituais.

Esses, entre vários outros itens, caracterizam um novo tipo humano, e também uma nova cultura emergente. Abre-se espaço, assim, para o cidadão e a humanidade da era de Aquário. O novo indivíduo escuta o seu próprio coração. Ele já não coloca fama, poder e dinheiro acima de todas as coisas. A sua espiritualidade não se prende a seitas, rótulos, crenças cegas ou conceitos inquestionáveis. Ele não pensa que pode comprar sabedoria indo a caros seminários de final de semana.

A Liturgia da Espiritualidade
Cada etapa da vida nos capacita para romper com um certo tipo de armadilhas e ilusões. Mas algumas delas são as mesmas de etapas anteriores, apenas de cara nova. Não basta passar a falar de temas filosóficos e universais, por exemplo, para que morra o velho hábito de pensar mecânica e superficialmente. Astucioso, discreto, o hábito da preguiça mental acompanha-nos fielmente, de modo quase imperceptível, como um cachorro envergonhado que teima em seguir o dono, disfarçando para não ser visto porque sabe que recebeu ordens de ficar em casa.

É recomendável examinar algumas questões: os nossos pequenos rituais diários, aquilo que poderíamos chamar de liturgias da nossa espiritualidade, serão todos resultado de decisões realmente responsáveis e conscientes? Esse conjunto de práticas é consequência natural de uma compreensão ampliada da vida? E, sobretudo, usamos de bom senso? O mito e o folclore rodeiam e encobrem a verdade, e há uma antiga história zen que ilustra esse tema.

Certo dia, séculos atrás, um grande mestre budista recolheu da rua um gato abandonado e passou a cuidar dele. Quando meditava, na sua cela, o monge amarrava respeitosamente o animal no pé da mesa, para que não o atrapalhasse. Passaram-se vários anos. O monge morreu e pouco depois o gato desapareceu do mosteiro. O sucessor do velho mestre − zeloso seguidor das suas técnicas de meditação − procurou então um gato e amarrou-o ao pé da mesa durante as suas meditações. Com o tempo, a prática institucionalizou-se. Já muitos praticantes amarravam gatos a pés de mesas no momento da meditação. Surgiram polémicas entre doutores, sobre qual devia ser a cor do cordão que amarrava o gato. Novas seitas passaram a alegar que o gato deveria ser dessa ou daquela raça. Caso contrário, a meditação seria apócrifa e ineficaz. O dogma e o mito haviam transformado o meio em fim, a aparência em essência, e a circunstância externa em facto central.

O mesmo pode ocorrer – e ocorre frequentemente – com as modernas técnicas de meditação e oração, o vegetarianismo, o respeito aos animais, e a atitude de valorizar pensamentos construtivos. Tudo pode ser visto com olhos supersticiosos e transformado em dogma, rotina e ritual.

A verdade, porém, é que não existe uma sequência pré-concebida de passos a serem tomados no caminho do autoconhecimento. Os oito passos do nobre óctuplo caminho do budismo são todos reflexivos, e podemos começar por qualquer um deles, ou pelos oito ao mesmo tempo. Eles são: 1) compreensão correcta; 2) pensamento correcto; 3) palavra correcta; 4) acção correcta; 5) meio de vida correcto; 6) esforço mental correcto; 7) atenção correcta, e 8) concentração correcta. São passos inseparáveis entre si, e não sucessivos.

O caminho não está, pois, em linha recta. Não consiste em obediência. Cada caminhante deve ter em primeiro lugar a sua meta clara, e então abrir caminho. O poeta espanhol António Machado ensinou: “Caminante, no hay camino – el camino se hace al andar”. Não há um caminho único e igual para todos. Cada passo é sempre o primeiro passo, e define a substância dos passos seguintes. A condição mais importante da caminhada é que os passos sejam dados com integridade e por decisão própria.

“Faz o que é correcto, e com o tempo isso te será agradável”, ensinavam os pitagóricos. De facto, vale a pena fazer um esforço para melhorar os nossos hábitos, e os resultados são melhores quando o esforço é feito a partir de uma concepção ampla, firme e universal da vida.

Cinco Ilusões Frequentes na Espiritualidade Superficial
Uma dose razoável de realismo e uma certa experiência de vida nos mostrarão que estamos mais ou menos rodeados por todos lados de uma estranha mistura de verdade e ilusão. E essa mistura ocorre também dentro de nós.

De um certo ponto de vista, podemos dizer que “a ilusão é uma tinta ou camuflagem cuja função é encobrir a verdade apenas de quem não está pronto para ela” 2.

Há ilusões colectivas que pairam no ar: podemos absorvê-las inconscientemente. São falsidades culturais mais ou menos estabelecidas, mas que é possível identificar, analisar e descartar. Vejamos, como exemplos, cinco delas:

1)“Há apenas paz e amor no caminho espiritual”. O pensador zen-budista Shundo Aoyama escreveu que a velhice, a doença e a morte − assim como a felicidade, a infelicidade, o ganho e a perda − são todos factores importantes no caminho, em busca da sabedoria.

2)“Temos a obrigação de experimentar sempre sentimentos maravilhosos durante as nossas meditações”. Na verdade, como ensinou Charlotte Joko Beck, “a meditação não é ocasião para bem-aventurança e relaxamento, mas um forno para queimar as nossas ilusões egoístas”.3 Quando nos sentamos, imóveis, para buscar a verdade interior, podemos ser assaltados por dúvidas, ansiedades e outras movimentações da ignorância. Dessa tensão surgem um atrito e um fogo que queimam as ilusões do nosso eu pessoal, tornando-o digno de contemplar a verdade.

3)“A caminhada espiritual é apenas pessoal e subjectiva, nada tendo a ver com os outros ou com o mundo externo”. O monge zen Thich Nhat Hanh considera que “os instrutores espirituais que não dão atenção aos problemas do mundo, como fome, guerra, opressão e injustiça social, não compreenderam bem o significado do budismo”. Porém, em teosofia, como no budismo, o importante é combater as causas e não os meros efeitos externos da ignorância.

4)“Os nossos pensamentos e emoções são separados do nosso corpo físico”. Uma grande quantidade de derrotas e fracassos resulta da visão do caminho espiritual como algo que nega o corpo físico, ao invés de conhecê-lo e usá-lo adequadamente como um instrumento da caminhada. A alimentação, a respiração, a circulação do sangue, o trabalho do rim e do fígado, os relaxamentos e as tensões musculares são retratos dinâmicos que expressam, no mundo físico, aquilo que ocorre na alma. Por sua vez, os hábitos, posturas e processos corporais também influenciam as atividades mentais e emocionais.

5)“O caminho espiritual é feito de fé e de crença”. Grave engano. A crença em algo que não podemos verificar por nós mesmos reduz a nossa capacidade de perceber a realidade e fecha a nossa mente para o que é novo. Os caminhos que levam à paz interior são feitos de perguntas e de tentativas. A convicção é um péssimo critério para julgar a verdade.

Os autoritarismos bem intencionados, religiosos ou não, plantam falsas certezas e exigem “fé” e “confiança” dos seus seguidores.4 Os sistemas correctos de liderança, baseados na comunhão fraterna, fazem da transparência e da vigilância colectiva a sua característica central. A verdadeira fé e a verdadeira confiança surgem de dentro para fora. Elas não são resultado de propaganda ou de pregação, e não têm medo do exame crítico, mas, ao contrário, testam a sua força enfrentando de boa vontade os desafios da vida. Robert Crosbie, o fundador da Loja Unida de Teosofistas, escreveu:

“A teosofia não impõe coisa alguma, mas convida a um exame atento”.

Há muitos exemplos de ilusão, é claro – dentro e fora de cada cidadão. Os caminhos que levam à paz interior são, na prática, maneiras pelas quais cada um de nós decide aceitar a destruição dos seus mitos particulares e adequar a sua vida prática à lei da verdade.

O Pacifismo Ingénuo
Quando examinamos algumas das ilusões “espirituais” comuns na primeira parte do século 21, há um item que merece um relativo destaque. Trata-se do mito pacifista segundo o qual todo o conflito é inútil, e a única atitude recomendável é a ausência de combate, e até a ausência de esforço, por parte do aprendiz espiritual.

A obra “Três Caminhos Para a Paz Interior” descreve essa atitude como uma negação infantil do conflito:

“O pacifista ingénuo faz de conta que todo o conflito é inútil ou ilusório, e com isso evita tomar uma posição clara. Nega os seus próprios sentimentos de rancor, que passam a fazer parte da sua ‘sombra’ inconsciente. Pensa, por exemplo, que ‘nazismo e democracia são a mesma coisa’, e que a injustiça social ou a corrupção na política não devem ser combatidas ‘porque, afinal, fazem parte do mundo externo ilusório’. Ele prefere não perceber que há no mundo externo um doloroso conflito entre verdade e ilusão, sinceridade e mentira; que esse conflito externo é influenciado e também influencia o que ocorre na alma humana, pois é, na verdade, parte dela”.5

Fechando os olhos para a realidade externa, o pacifista superficial desiste de usar o discernimento. Pensa que o caminho espiritual consiste em nunca dizer uma palavra áspera e em manter sempre um sorriso nos lábios. Ele repete os escribas e fariseus criticados por Jesus – que eram como sepulcros caiados, limpos por fora, mas cheios de substâncias podres por dentro, segundo Mateus, 23.

O pacifista superficial trata de imitar da melhor maneira possível o suposto comportamento externo e o olhar sublime dos santos, tal como aparecem nos retratos das igrejas. Esse enfoque evita comodamente proteger a verdade contra a mentira ou a justiça contra a opressão, alegando que “a iluminação espiritual transcende as ilusões dualistas”.

A Mitologia da Religião Convencional
As religiões dogmáticas alimentam-se da credulidade humana, e apoiam-se em mitos que lhes dão aparência de legitimidade. O ensaio de Sigmund Freud intitulado O Futuro de Uma Ilusão descreve os mitos religiosos dos últimos séculos como algo que não foi inteiramente inocente, da parte de certas “lideranças espirituais”, mas sim desenhado para dominar multidões através do dogma.

É bom que se diga que Jesus, Buda e outros grandes instrutores foram hereges no seu tempo e jamais fundaram religiões baseadas em crença cega e ritual. A lógica do poder e o apego à rotina engolem e destróem o quanto podem da sabedoria divina. Normalmente, depois de um grande instrutor, surge uma religião burocratizada, com os seus numerosos mecanismos corporativos. A tradição institucionalizada produz a traição ao espírito do ensinamento original. O movimento teosófico moderno não é uma excepção à regra, mas há hoje um pequeno núcleo de teosofistas − espalhados por quinze países − que mantém viva a proposta original de trabalho, formulada entre 1875 e 1891.

Falando dos tempos já passados em que a religião da credulidade dominava absoluta, Freud, o polémico criador da psicanálise, avalia:

“É duvidoso que os homens tenham sido em geral mais felizes na época em que as doutrinas religiosas dispunham de uma influência irrestrita; mais morais, certamente não foram. Sempre souberam como externalizar [como tornar algo exterior, situado fora do ser humano] os preceitos da religião e anular assim as suas intenções. Os sacerdotes, cujo dever era assegurar a obediência à religião, foram ao seu encontro nesse aspecto. A bondade de Deus põe uma mão refreadora à sua justiça. Alguém peca; faz depois um sacrifício ou penitencia-se, e fica livre para pecar de novo. (…) Assim, concluíram: só Deus é forte e bom; o homem é fraco e pecador. Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não menor que a moralidade”.6

As religiões patriarcais – que cultuam um deus-pai ameaçador e justificam a morte e a violência – constituem para Freud uma neurose colectiva, uma psicopatologia:

“Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai.(…)”.7

Ao definir como ilusões neuróticas as poderosas religiões monoteístas do século 20, Freud não encarava o termo religião no seu sentido original e etimológico, que vem do latim religare e significa a religação do mundo humano com o mundo divino.

A nova religiosidade, que surge hoje livre das ilusões institucionalizadas, é um processo que se constrói com base em alguns princípios básicos e universais, no bom senso e na experiência directa de cada um, mas não na mera crença.

O cidadão do século 21 busca a sabedoria numa caminhada colectiva e solidária, em comunhão com outros seres. Mas isso não autoriza a construção de dogmas. A comunhão visa a troca de experiências úteis e também a ajuda mútua – duas coisas moralmente belas e indispensáveis em qualquer etapa ou aspecto da vida.

Desse modo, a nova religiosidade do século 21 pode abandonar esse nome e ser chamada de ciência. Ou de psicologia. Ou simplesmente de filosofia da espiritualidade não-dogmática. Porque ela não está presa a nomes ou rótulos, mas é uma realidade viva, dinâmica, mutável na forma, que pode ser denominada de maneiras diferentes.

A Pedagogia de Paulo Freire
A espiritualidade não-dogmática não aceita crenças ou recomendações cegas, mas é, ao invés disso, um processo vivo de aprender e de ensinar.

Mesmo sem usar em momento algum o rótulo de espiritual ou de religioso, o pensador brasileiro Paulo Freire propõe nas suas obras sobre pedagogia uma atitude mais eficaz diante do aprender e do ensinar.

A sua abordagem é de grande utilidade para a arte de viver correctamente. Ele escreveu:

“Outro saber necessário à prática educativa, e que se funda na mesma raiz que acabo de discutir – a da inconclusão do ser humano que se sabe inconcluso – é o que fala do respeito devido à autonomia do ser do educando. Do educando criança, jovem ou adulto. Como educador, devo estar constantemente advertido com relação a esse respeito, que implica igualmente o respeito que devo ter por mim mesmo. Não faz mal repetir a afirmação várias vezes feita nesse texto – o inacabamento de que nos tornamos conscientes faz-nos seres éticos. O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. (…) O professor que desrespeita a curiosidade do aluno, o seu gosto estético, a sua inquietude (…) o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que ‘ele se ponha no seu lugar’ ao mais ténue sinal da sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento do seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, esse professor transgride os princípios fundamentalmente éticos da nossa existência”.8

O pensamento de Paulo Freire permite examinar melhor os mitos e as ilusões do chamado movimento esotérico. Algumas pessoas têm a impressão de que a espiritualidade é algo que se transmite mecanicamente de quem sabe para quem não sabe. Deste ponto de vista, aquele que tem o conhecimento deve ser activo no processo, e quem não sabe deve ser apenas passivo e receber a acção, obedecendo cegamente. Essa premissa é falsa. Quando ela é aceite, a caminhada é feita sobre a base da ilusão.

Desde o início, aquele que sabe mais deve colocar-se como um auxiliar daquele que sabe menos. Aquele que sabe menos é, na verdade, o centro e o autor do processo de aprendizagem, e não pode ser artificialmente colocado na periferia da sua própria caminhada.

O Papel do Bom Senso na Busca
É possível dizer que o nosso “estado de vigília” é, na verdade, feito de sonhos. E que, mesmo quando pensamos estar acordados, na verdade nos relacionamos sobretudo com as imagens que temos das coisas, como num sonho. Temos poucos momentos de lucidez total, em que vemos as coisas como elas são e dentro de um horizonte muito mais amplo que o curto prazo pessoal.

O ser humano dorme, do ponto de vista da espiritualidade mais elevada. Ele ainda não despertou para um modo mais maduro de ver o mundo. A sua visão do mundo é feita de sonhos ou mitos criados por si mesmo, ou que ele aceita como se fossem realidade, porque lhe foram apresentados e impostos como tal. Ele chama-os de “realidade”, mas, desde outro ponto de vista, as mesmas descrições do mundo podem ser reconhecidas como imaginação ou fantasia.

Como encontrar, então, o caminho da verdade? E como avançar por ele?

Estas duas perguntas são sempre actuais. Não há um modo simples de lhes responder. Mas sabemos que, para trilhar o caminho do autoconhecimento, é necessário ter bom senso. Para quem deseja achar a verdade, existe uma filosofia antiga e multidisciplinar que ensina a conhecer simultaneamente a si mesmo e ao universo. É preciso que o indivíduo seja o seu próprio mestre, e que seja o aluno da sua consciência, isto é, um discípulo leal da “voz da razão” no seu próprio interior. É ouvindo essa voz que ele se libertará das armadilhas da ignorância e dos mitos que a sustentam, quer eles tenham sido criados por si mesmo ou por outrem.

Em relação à presença da voz da razão na consciência individual de cada ser, Freud escreveu, usando a palavra “intelecto” no seu sentido clássico, de “inteligência elevada”:

“A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de derrotas, obtém êxito. Esse é um dos poucos pontos sobre os quais se pode ser optimista a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, é de não pequena importância”.9

Aquele que cria as ilusões deve eliminá-las, e esse é o caso de cada um de nós. O momento em que vamos considerar necessário melhorar a nossa dieta, praticar exercícios ou ler e meditar diariamente sobre assuntos teosóficos só pode surgir como algo natural. Não deve ser resultado de imitação, de obediência ou de sujeição a uma autoridade externa.

Se não descobrirmos a sabedoria dentro de nós, de nada adiantará buscá-la fora. Mas quando descobrirmos a paz dentro de nós mesmos, qual a necessidade de procurá-la ansiosamente no mundo externo?

O essencial é invisível aos olhos, mas pode ser encontrado dentro de nós.

Depois que isso acontece, doamos da nossa paz ao mundo sem que ela perca a sua força dentro de nós, assim como uma chama acende outra chama sem perder coisa alguma da sua própria luz.

Carlos Cardoso Aveline
Fundador e editor-geral do website www.filosofiaesoterica.com. Entre os seus livros já publicados estão “Três Caminhos Para a Paz Interior”, “A Vida Secreta da Natureza” e “Conversas na Biblioteca”.

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NOTAS:

1 Poema número IX em “Cânticos”, de Cecília Meireles, Editora Moderna Ltda., SP, 1983.

2 “Três Caminhos Para a Paz Interior”, Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília, 2002, 191 pp. Ver o final da p. 132.

3 Citado em “365 Zen Daily Readings”, edição de Jean Smith, obra de 392 páginas publicada por HarperSanFrancisco em 1999, Nova Iorque, EUA, ver p. 105.

4 Sobre as cinco ilusões citadas, veja-se o livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, obra citada, pp. 135-138.

5 “Três Caminhos Para a Paz Interior”, obra citada, pp. 34-35.

6 “O Futuro de Uma Ilusão”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 1997, 87 pp., ver p. 60.

7 “O Futuro de Uma Ilusão”, obra citada, p. 69.

8 “Pedagogia da Autonomia”, Paulo Freire, Ed. Paz e Terra, ver pp. 65-66. Outro trecho importante dessa obra está na p. 59 (“Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado”). Todo o capítulo um, “Não Há Docência Sem Discência”, propõe uma relação entre educador e aluno – “mestre” e “discípulo” – em que o clima deixa de ser propício para as ilusões, mas, em compensação, dá lugar a um realismo prático e a uma capacidade de duvidar respeitosamente, que aumentam muito a eficácia da busca da verdade. Um simples exame do Índice dessa obra mostrará como encontrar enfoques fundamentais sobre o papel da esperança, da alegria, da generosidade, da curiosidade, da liberdade, da autoridade e do saber escutar, no processo de aprendizagem.

9 “O Futuro de Uma Ilusão”, obra citada, p. 83.

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