Uma Carta de Spinoza

Bento de Espinosa, ou Baruch de Spinoza, foi um dos mais profundos e respeitáveis filósofos europeus, além de ter dado um magnífico exemplo de integridade na sua vida1.

Viveu num tempo difícil (entre 1832 e 1677), mesmo quando se abrigou na Holanda, então um dos países mais liberais em termos de expressão de pensamento. Teve que suportar o peso de cegueiras e intolerâncias religiosas: foi atacado e perseguido por Judeus, por Cristãos Católicos e por Cristãos Protestantes.

O que vamos transcrever a seguir é um conjunto de excertos de uma admirável carta de resposta a Alberto Burgh que, tendo aderido ao Catolicismo, lhe dirigia frases provocatórias e desrespeitosas, inflamadas de fanatismo e sectarismo.

Eis, pois, a tradução de algumas partes da resposta de Spinoza:

“Não contarei aqui os vícios dos Sacerdotes e dos Pontífices, como costumam fazer os adversários da Igreja Romana, para o afastar deles. De facto, é frequente publicarem-se essas coisas devido a sentimentos malévolos e afirmá-las mais para irritar do que para instruir. Admitirei, em lugar disso, que no seio da Igreja Romana se encontram mais homens de grande erudição e vida exemplar do que em qualquer outra Igreja Cristã, pois como são mais numerosos os membros daquela Igreja, também nela se encontra um maior número de homens de toda a índole. No entanto, a menos que com a razão também se tenha perdido a memória, não se poderá negar de nenhum modo que em qualquer Igreja se encontram homens honestíssimos que veneram a Deus com justiça e caridade…

(…)

Volto à sua carta, na qual lamenta, em primeiro lugar, que eu me deixe extraviar pelo príncipe dos espíritos malignos (…). Quando você estava em pleno juízo, adorava, se não me equivoco, o Deus infinito, por cuja virtude acontece e se conserva absolutamente tudo; agora, porém, sonha com o príncipe inimigo de Deus, que, contra a vontade Deus, desencaminha e engana a maior parte dos homens… e os quais, por isso, Deus entregaria àquele mestre de delitos, para serem torturados eternamente. Por conseguinte, permite a justiça divina que o diabo engane impunemente os homens, mas de nenhum modo permite que os homens, miseravelmente enganados e desencaminhados pelo mesmo diabo, fiquem impunes2?

(…)

Não obstante, parece que você quer fazer uso da razão e pergunta-me como sei que a minha filosofia é a melhor entre todas as que alguma vez foram ensinadas no mundo, se ensinam agora ou serão ensinadas no futuro; o que, decerto, lhe poderia perguntar eu, com muito mais direito. Realmente, eu não tenho a presunção de ter descoberto a melhor filosofia mas, sim, de conhecer a verdadeira3. Se, todavia, me perguntar como o sei, respondo: do mesmo modo que você sabe que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois rectos; e que isto basta, não o negará ninguém que tenha o cérebro são e não sonhe com espíritos imundos que nos inspirariam ideias falsas, semelhantes às verdadeiras. Com efeito, o verdadeiro é a pedra de toque de si mesmo e do falso.

Entretanto, você, que presume ter encontrado, finalmente, a melhor religião ou, mais propriamente, os melhores homens, aos quais entregou a sua credulidade, como sabe que eles são os melhores entre todos os que ensinaram e ensinam agora ou ensinarão no futuro outras religiões? Acaso examinou você todas as religiões, tanto as antigas como as modernas, que se ensinam aqui e na Índia4 e em qualquer parte do orbe terrestre? E, ainda que as tivesse investigado devidamente5, como sabe que elegeu a melhor, uma vez que não pode dar nenhuma razão para justificar a sua fé? Você dirá que se compraz com o testemunho íntimo do Espírito de Deus, enquanto (afirma) que os outros são desencaminhados e enganados pelo príncipe dos espíritos malignos; mas todos os que estão fora da Igreja Romana apregoam, com o mesmo direito, a favor da sua própria Igreja, o que você proclama da sua!” 6.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural—————–
1 Remetemos para o artigo de Alda Marques, na secção “Vidas Maiores” do nº 10 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001) e, ainda, para um nosso artigo “Buddhi”, publicado no nº 14 desta mesma revista (Idem, 2002).
2 Esta pergunta põe em evidência um dos muitos contra-sensos das construções teológicas.
3 Repare-se como Spinoza não se jacta de ter descoberto mas, apenas, de ter chegado ao conhecimento (de uma sabedoria perene).
4 Esta referência à Índia, em pleno Século XVII, é bastante curiosa e significativa. Note-se ainda a dignificação das religiosidades antigas.
5 Está aqui subjacente a necessidade de uma Ciência Religiosa…
6 Baruch de Spinoza, Epistolário, Milá Editor, Buenos Aires, 1988; págs. 210-1.

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